Ana da Grã-Bretanha

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Ana
Rainha da Grã-Bretanha, França e Irlanda
Rainha da Inglaterra, Escócia e Irlanda
Reinado 8 de março de 1702
a 1 de maio de 1707
Coroação 23 de abril de 1702
Predecessor Guilherme III e II
Rainha da Grã-Bretanha e Irlanda
Reinado 1 de maio de 1707
a 1 de agosto de 1714
Sucessor Jorge I
Marido Jorge da Dinamarca
Descendência
Guilherme, Duque de Gloucester
Casa Stuart
Pai Jaime II e VII
Mãe Ana Hyde
Nascimento 6 de fevereiro de 1665
Palácio de St. James, Londres, Inglaterra
Morte 1 de agosto de 1714 (49 anos)
Palácio de Kensington, Londres, Inglaterra
Enterro 24 de agosto de 1714
Abadia de Westminster, Londres, Inglaterra
Assinatura

Ana da Grã-Bretanha (6 de fevereiro de 16651 de agosto de 1714) foi rainha da recém-formada Grã-Bretanha e Irlanda entre 1702 e 1714. Sucedeu a sua irmã Maria II e seu cunhado Guilherme III e ao seu pai Jaime II; deposto pela Revolução Gloriosa.

A Grã-Bretanha surgiu da união da Inglaterra e da Escócia em um único reino, em Maio de 1707. Ana era a segunda filha do rei Jaime II de Inglaterra, deposto em 1689 pela Revolução Gloriosa. Sucedeu ao cunhado, o príncipe Guilherme de Orange, viúvo da sua irmã mais velha Maria II, sendo a última monarca da Casa de Stuart. Foi sucedida por um primo distante, o futuro Jorge I, da Casa de Hanôver.

Ana favorecia mais os políticos conservadores que estavam mais dispostas a partilhar as suas opiniões sobre a religião anglicana do que os seus opositores, os liberais. Os liberais conquistaram mais poder durante a Guerra de Sucessão Espanhola até que em 1710 Ana dispensou muitos deles dos seus cargos. A sua amizade com Sarah Churchill, duquesa de Marlborough, azedou devido às suas diferenças políticas.

Apesar de ter engravidado dezassete vezes, Ana morreu sem deixar descendentes e foi a última monarca da Casa de Stuart. Foi sucedida pelo seu primo em segundo grau, o rei Jorge I, da Casa de Hanôver, que era descendente dos Stuart através da sua avó paterna, a princesa Isabel, filha do rei Jaime I.

Índice

Infância [editar]

Ana quando criança por Peter Lely.

Ana nasceu às 11:39 da noite de 6 de Fevereiro de 1665 no Palácio de St. James, em Londres. Era a quarta filha (segunda menina) do duque de Iorque (depois rei Jaime II) e da sua primeira esposa, Anne Hyde.1 O irmão do seu pai era o rei Carlos II, que governava os três reinos de Inglaterra, Escócia e Irlanda, e a sua mãe era filha do Lord Chancellor, Edward Hyde, 1.º Conde de Clarendon. Ana foi baptizada na religião anglicana na Capela Real do Palácio de St. James. A sua irmã mais velha, Maria, foi uma das madrinhas juntamente com o arcebispo da Cantuária, Gilbert Sheldon e Anne Scott, duquesa de Monmouth.2 O duque e a duquesa de Iorque tiveram oito filhos, mas Ana e Maria foram as únicas a chegar à idade adulta.

Quando era criança, Ana tinha um problema no olho conhecido como "defluxo" que fazia com que ele deitasse água em excesso. A princesa foi enviada para França para ser tratada e passou a viver com a sua avó paterna, a rainha-viúva Henriqueta Maria, no Château de Colombes, perto de Paris.3 Após a morte da avó em 1669, Ana passou a viver com a sua tia, Henriqueta Ana, duquesa de Orleães. Após a morte súbita da sua tia em 1670, Ana regressou a Inglaterra. A sua mãe morreu no ano seguinte.4 Como era tradição na corte real, Ana e a irmã foram criadas longe do pai na sua própria residência em Richmond, Londres.5 Seguindo as instruções do rei Carlos II, ambas as irmãs foram educadas como protestantes.6 Foram colocadas sob os cuidados do coronel Edward e de Lady Frances Villiers,7 e a sua educação baseou-se nos ensinamentos da igreja anglicana.8

Por volta de 1671, Ana conheceu Sarah Jennings, que mais tarde se tornaria uma amiga próxima e uma das suas conselheiras mais influentes.9 Jennings casou-se com John Churchill (o futuro duque de Marlborough) por volta de 1678. O futuro duque era irmão de Arabella Churchill, amante do duque de Iorque, e um dos generais mais importantes de Ana.10

Em 1673, a conversão do duque de Iorque ao catolicismo tornou-se pública. Jaime casou-se com uma princesa católica, Maria de Modena, que era apenas seis anos e meio mais velha do que Ana. Carlos II não teve descendentes legítimos e por isso o duque de Iorque era o primeiro na linha de sucessão seguido das suas duas filhas do seu primeiro casamento, Maria e Ana. Nos dez anos que se seguiram, a nova duquesa de Iorque teve dez filhos, mas todos nasceram mortos ou morreram durante os seus primeiros anos de vida, deixando Maria e Ana nos lugares da sucessão que ocupavam originalmente, logo depois do pai.11

Casamento [editar]

Ana pouco depois de se casar por Willem Wissing.

Em Novembro de 1677, a irmã mais velha de Ana, Maria, casou-se com o seu primo holandês, Guilherme de Orange, mas Ana não pôde estar presente no casamento, uma vez que estava a sofrer de varíola e estava impedida de sair do quarto.12 Quando recuperou, Maria já tinha partido para a sua nova vida nos Países Baixos. Lady Frances Villiers apanhou a doença de Ana e morreu. A tia de Ana, Lady Clarendon (esposa de Henry Hyde, 2.º Conde de Clarendon) foi nomeada como a sua nova perceptora.13 Um ano depois, Ana e a sua madrasta visitaram Maria na Holanda.14

O pai e a madrasta de Ana retiraram-se para Bruxelas em Março de 1679 quando rebentou a histeria anticatólica alimentada pelo Complô papista, e Ana visitou-os no final de Agosto.14 Em Outubro, regressaram à Grã-Bretanha. O duque e a duquesa seguiram para a Escócia e Ana ficou em Inglaterra.15

O primo em segundo grau de Ana, Jorge de Hanôver (que acabaria por a suceder no trono) visitou Londres durante três meses em Dezembro de 1680, alimentado rumores sobre a sua possível união.16 O historiador Edward Gregg considerou estes rumores infundados uma vez que o seu pai se encontrava exilado da corte e os hanoverianos estavam a planear casar Jorge com a sua prima direita, a princesa Sofia Doroteia de Celle num esquema para unir a herança de Hanôver.17 Outros rumores afirmavam que Ana foi cortejada por Lord Mulgrave (depois duque de Buckingham), apesar de ele o ter negado. Apesar de tudo, devido a estes rumores, foi dispensado temporariamente da corte e enviado para Tânger.18

A 28 de Julho de 1683, Ana casou-se com o príncipe Jorge da Dinamarca, irmão do rei Cristiano V da Dinamarca e seu primo em terceiro grau através de Frederico II, na Capela Real.19 Apesar de ter sido um casamento arranjado, o casal era fiel e dedicado.20 Receberam alguns edifícios no Palácio de Whitehall conhecido como o Cockpit, para se tornarem a sua residência oficial21 e Sarah Chirchill tornou-se uma das camareiras de Ana.22 Para marcar a sua amizade, e a pedido de Ana, as duas tratavam-se pelas alcunhas e Mrs. Morley e Mrs. Freeman respectivamente e não pelos seus títulos e formas de tratamento formais.23 Poucos meses depois do casamento, Ana estava grávida, mas o bebé nasceu morto em Maio. Ana recuperou na cidade termal de Tunbridge Wells,24 e nos dois anos que se seguiram deu à luz duas filhas com pouca diferença de idades entre elas: Maria e Ana Sofia.25

Ascensão de Jaime II [editar]

Ana por Willem Wissing e Jan van der Vaardt.

Quando Carlos II morreu em 1685, o pai de Ana tornou-se o rei Jaime II em Inglaterra e Irlanda e Jaime VII na Escócia. Jaime não foi bem recebido pela população inglesa que se preocupava com a sua religião católica.26 Ana partilhava desta preocupação geral e continuou a estar presente em missas anglicanas. Uma vez que a sua irmã Maria vivia nos Países Baixos, Ana e a sua família eram os únicos membros da família real que estavam presentes em missas anglicanas em Inglaterra.27 Quando o seu pai a tentou forçar a baptizar a sua filha mais nova na religião católica, Ana desfez-se em lágrimas.28 "A Igreja de Roma é muito perigosa", escreveu à sua irmã, "as suas cerimónias - a maioria delas - são pura idolatria."29

Em inícios de 1687, em apenas alguns dias, Ana sofreu um aborto, o seu marido contraiu varíola e as suas duas filhas morreram da mesma doença. Rachel Wriothesley, Lady Russell, escreveu que Jorge e Ana "sofreram muito [com estas mortes] (...) Às vezes choravam, às vezes faziam luto através das suas palavras; depois deixavam-se ficar sentados, em silêncio, de mãos dadas, ele doente na cama, e ela a cuidadora mais cuidadosa que se possa imaginar."30 Mais tarde nesse mesmo ano Ana deu a luz mais um filho morto.25

O alarme público relativamente ao catolicismo de Jaime aumentou quando a sua esposa, Maria de Modena, engravidou pela primeira vez desde que o seu marido subiu ao trono.31 Em cartas escritas à sua irmã, Ana levantou a suspeita de que a rainha estava a fingir a gravidez para tentar introduzir um herdeiro falso no palácio. Escreveu "nada os vai parar, por pior que seja, se promover os interesses deles (...) a intenção pode ser jogar sujo".32 Ana sofreu outro aborto em Abril de 1688 e deixou Londres para recuperar na cidade termal de Bath.33

A rainha deu à luz um filho (Jaime Francisco Eduardo Stuart) a 10 de Junho de 1688 e uma sucessão católica tornou-se mais provável.34 Ana ainda estava em Bath, por isso não esteve presente durante o parto, algo que aumentou ainda mais as suas suspeitas de que a criança era ilegítima. Ana pode ter deixado a capital deliberadamente para evitar estar presente ou por estar realmente doente,35 mas também é possível que Jaime desejasse excluir todos os protestantes, incluindo a sua filha, dos assuntos de estado.36 37 "Agora nunca saberei", escreveu Ana à sua irmã Maria, "se a criança é verdadeira ou falsa. Pode ser que seja nosso irmão, mas só Deus sabe (...) uma pessoa não consegue evitar mil medos e pensamentos melancólicos, mas se houver qualquer mudança, vais sempre encontrar-me firme à minha religião e fielmente do teu lado."38

Para acabar com os rumores de uma criança substituta, Jaime convocou quarenta testemunhas para uma reunião do Conselho Privado, mas Ana afirmou que não iria estar presente uma vez que estava grávida e depois recusou-se a ler as disposições por considerar que tal "não era necessário".39

"Revolução Gloriosa" [editar]

A rainha Maria II, irmã de Ana, e o seu marido, Guilherme III.

Naquela que ficou conhecida como a "Revolução Gloriosa", o cunhado de Ana, Guilherme de Orange, invadiu Inglaterra a 5 de Novembro de 1688, uma acção que acabaria por resultar na deposição do rei Jaime. Proibida pelo pai de visitar a irmã Maria na primavera de 1687,40 Ana trocava correspondência com ela e sabia dos planos de invasão de Guilherme.41 Seguindo o conselho dos Churchill,42 Ana recusou-se a ficar do lado de Jaime depois da chegada de Guilherme e escreveu ao cunhado a 18 de Novembro para declarar o seu apoio pelas suas acções.43 Churchill abandonou o rei no dia 24. O príncipe Jorge fez o mesmo nessa noite,44 e no dia seguinte Jaime deu ordens para que Sarah Churchill fosse colocada sob prisão domiciliaria no Palácio de St. James.45 Ana e Sarah fugiram de Whitehall através de uma escadaria nas traseiras e pediram protecção ao bispo de Londres, passando a noite na sua casa. Acabaram por chegar a Nottingham a 1 de Dezembro.46 Duas semanas depois, Ana foi para Oxford onde se encontrou triunfalmente com o príncipe Jorge e os dois foram acompanhados por grandes multidões.47 "Valha-me Deus!", lamentou-se o rei Jaime quando soube da fuga da sua filha a 26 de Novembro, "Até as minhas filhas me abandonaram."48 A 19 de Novembro, Ana regressou a Londres onde recebeu imediatamente a visita do seu cunhado Guilherme e Jaime fugiu para França no dia 22.49 Ana não se mostrou preocupada com a notícia de que o seu pai tinha fugido e limitou-se a pedir que preparassem o seu habitual jogo de cartas. Justificou-se dizendo que "estava habituada a jogar às cartas e nunca gostou de fazer nada que se parecesse com constrangimentos artificiais."50

Em 1689, um Parlamento de Conveniência reuniu-se em Inglaterra e declarou que Jaime tinha abdicado efectivamente quando fugiu e que os tronos de Inglaterra e da Irlanda tinham assim ficado vagos. O Parlamento dos Estados da Escócia enveredou pelo mesmo rumo e Guilherme e Maria foram declarados monarcas de todos os três reinos.51 A Declaração de Direitos de 1689 e o Decreto de Pretensão de Direitos do mesmo ano estabeleceram a sucessão. Ana e os seus descendentes ficaram na linha de sucessão depois de Guilherme e Maria e depois deles ficariam os filhos de um possível segundo casamento de Guilherme.52 A 24 de Julho de 1689, Ana deu à luz um filho, o príncipe Guilherme, duque de Gloucester que, apesar de doente, sobreviveu aos primeiros anos de vida. Uma vez que o rei Guilherme e a rainha Maria não tinham filhos, parecia que seria o filho de Ana que acabaria por herdar a coroa.53

Guilherme e Maria [editar]

Ana em 1690 por Michael Dahl.

Pouco depois da sua ascensão, Guilherme e Maria recompensaram John Churchill, oferecendo-lhe o condado de Marlborough e o príncipe de Jorge recebeu o título de duque de Cumberland. Ana pediu o uso do Palácio de Richmond e um rendimento do parlamento. Guilherme e Maria recusaram o primeiro pedido e opuseram-se sem sucesso ao segundo, algo que levou a tensões entre as duas irmãs.54 O ressentimento de Ana cresceu ainda mais quando Guilherme se recusou a dar permissão a Jorge para que este prestasse serviço activo no exército.55 Em Janeiro de 1692, suspeitando que Marlborough estava a conspirar em segredo com os apoiantes de Jaime, os Jacobites, Guilherme e Maria dispensaram-no de todos os seus cargos. Numa manifestação pública do seu apoio pelos Malborough, Ana levou Sarah consigo a um evento social no palácio e recusou-se a obedecer ao pedido da irmã para a dispensar dos seus serviços em sua casa.56 Lady Marlborough acabaria por ser dispensada dos seus serviços para a Casa Real pelo Lord Chamberlain. Ana, em protesto, deixou os seus aposentos reais e passou a viver em Syon House, a casa do duque de Somerset.57 Foi-lhe retirada a sua guarda de honra, os cortesãos estavam proibidos de a visitar e as autoridades cívicas receberam instruções para ignorá-la.58 Em Abril, Ana deu à luz um filho que morreu poucos minutos depois. Maria visitou-a, mas em vez de reconfortá-la, aproveitou a oportunidade para a repreender devido à sua amizade com Sarah. As irmãs nunca mais se voltaram a ver.59

Quando Maria morreu de varíola em 1694, Guilherme continuou a reinar sozinho. Ana tornou-se a sua herdeira aparente uma vez que os filhos que o seu cunhado pudesse ter com outra mulher teriam um lugar mais baixo na linha de sucessão, e os dois reconciliaram-se publicamente. Guilherme restaurou as suas antigas honras e deu-lhe permissão para residir no Palácio de St. James,60 mas excluiu-a do governo e não a nomeou sua regente quando viajou para o estrangeiro.61 Três meses depois, Guilherme voltou a nomear Malborough para os seus antigos cargos.62

Segundo Jaime, Ana escreveu-lhe em 1696 para lhe pedir permissão para suceder a Guilherme e prometer que a coroa seria devolvida à linha de sucessão do antigo rei na oportunidade mais conveniente. Jaime não deu o seu consentimento.63 Se Ana lhe escreveu realmente, estaria provavelmente a garantir a sua própria sucessão, tentando impedir uma pretensão directa por parte de Jaime.64

Decreto de Estabelecimento [editar]

Ana com o seu filho Guilherme. Quadro realizado no estúdio de Sir Godfrey Kneller.

A última gravidez de Ana terminou no dia 25 de Janeiro de 1700 quando a princesa sofreu um aborto. Tinha engravidado pelo menos dezassete anos ao longo dos anos, mas tinha sofrido abortos ou dado à luz bebés mortos pelo menos doze vezes. Dos seus cinco filhos que nasceram vivos, quatro morreram antes de completar dois anos de idade.65 Ana sofria de ataques de "gota", tinha dores nos membros inferiores que, pelo menos a partir de 1698, passaram para o estômago e para a cabeça.66 Tendo por base as suas perdas fetais e sintomas físicos, um patologista pensa que a rainha possa ter sofrido de Lúpus eritematoso sistémico.67 Por outro lado, uma doença inflamatória na pélvis poderia explicar a razão pela qual o início dos seus sintomas começaram mais-ou-menos na altura da sua penúltima gravidez.67 Outros sugeriram também várias causas para as suas gravidezes falhadas incluindo Listeriose68 incompatibilidade Rh, diabetes e restrição de crescimento intrauterino.69 Contudo, a incompatibilidade Rh vai piorando com cada gravidez e por isso não coincide com o padrão das gravidezes de Ana, uma vez que o único filho que sobreviveu aos primeiros anos de vida, Guilherme, duque de Gloucester, nasceu após uma série de abortos.70 Os especialistas também excluíram a sífilis, porfiria e deformação na pélvis por serem incompatíveis com o seu historial médico.71

A gota de Ana deixou-a coxa durante grande parte dos seus últimos anos de vida.72 Quando estava na corte era carregada numa liteira ou recorria a uma cadeira de rodas.73 Quando passeava pelas suas propriedades, usava uma pequena carroça puxada por um cavalo que conduzia sozinha "furiosamente como Jeú e como o poderoso caçador Nimrod".74 O seu estilo de vida sedentário fez com que ganhasse peso. Nas palavras de Sarah, "começou a ficar demasiado pesada e corpulenta. Havia algo de majestoso no seu olhar, mas misturava-se com a melancolia da sua alma".75 Sir John Clerk, 1.º Baronete, descreveu-a em 1706 "com um ataque de gota, com dores extremas e em agonia, e nesta ocasião tudo nela estava na mesma desordem que em alguns dos seus piores súbditos. O seu rosto, que estava vermelho e com manchas, ficou horrível devido à falta de cuidado nas roupas e o pé afectado estava amarrado com uma cataplasma e alguns pensos sujos. Fiquei muito afectado com esta visão..."76

O único filho ainda vivo de Ana, o duque de Glouvester, morreu no dia 30 de Julho de 1700, aos onze anos de idade. Ana ordenou que a sua comitiva real reservasse um dia de luto todos os anos no aniversário da sua morte.77 Com o rei Guilherme sem filhos e a morte de Glouvester, Ana era a única pessoa que restava na linha de sucessão estabelecida pela Declaração de Direitos de 1689. Para resolver a crise de sucessão e evitar uma restauração católica, o Parlamento de Inglaterra promulgou o Decreto de Estabelecimento de 1701 que garantia que, caso Ana e Guilherme não tivessem filhos em possíveis futuros casamentos, a coroa de Inglaterra e Irlanda passaria para a princesa-eleitora Sofia de Hanôver e para os seus descendentes protestantes. Sofia era neta do rei Jaime I através da sua mãe, a princesa Isabel Stuart, que era irmã do avô de Ana, o rei Carlos I. Os pretendentes católicos foram excluídos da linha de sucessão. O pai de Ana morreu em Setembro de 1701. A sua viúva, a madrasta de Ana e antiga rainha, escreveu-lhe para a informar que o pai a tinha perdoado e relembrou-a da sua promessa para restaurar a sua linha de sucessão. Contudo, Ana já tinha aceite a nova linha de sucessão criada pelo Decreto de Estabelecimento.78

Reinado [editar]

A rainha Ana por Sir Godfrey Kneller.

Ana tornou-se rainha após a morte de Guilherme III a 8 de Março de 1702 e tornou-se imediatamente popular.79 Num discurso proferido no Parlamento Inglês, distanciou-se do seu falecido cunhado holandês e disse: "Como sei que o meu coração é inteiramente inglês, posso garantir da forma mais sincera que não há nada que possam esperar e desejar de mim que não estarei preparada para fazer pela felicidade e prosperidade de Inglaterra."80

Pouco depois da sua ascensão, Ana nomeou o seu marido Lorde Almirante, conferindo-lhe controlo nominal da Marinha Real.81 Ana conferiu o controlo do exército a Lord Marlborough a quem nomeou capitão-general.82 Marlborough também recebeu várias honras da rainha. Foi investido cavaleiro da Ordem da Jarreteira e foi elevado à posição de duque. A duquesa de Marlborough foi nomeada Cuidadora da Estola, Senhora das Roupas e Guardiã da Bolsa Privada.83

Ana foi coroada rainha no dia de São Jorge, a 23 de Abril de 1702.84 A sofrer de gota, a rainha foi levada para a Abadia de Westminster numa liteira com umas costas baixas para permitir que o manto flutuasse atrás dela.85 A 4 de Maio, Inglaterra envolveu-se na Guerra de Sucessão Espanhola na qual lutou ao lado da Áustria e da Holanda contra França e Espanha.86 O rei Carlos II de Espanha tinha morrido sem deixar descendência em 1700 e a sua sucessão era disputada por dois pretendentes: o arquiduque Carlos da Áustria e o príncipe Filipe, duque de Anjou.87

Decreto de União [editar]

O Decreto de Estabelecimento de 1701, aprovado pelo Parlamento Inglês, aplicava-se a Inglaterra e à Irlanda mas não à Escócia onde uma forte minoria queria preservar a Dinastia Stuart e o seu direito de herdar o trono.88 Em 1703, os Estados da Escócia responderam ao Estabelecimento aprovando o Decreto de Segurança, que dava aos Estados o poder, se a rainha não tivesse mais filhos, de escolher o próximo monarca da Escócia entre os descendentes da linha real da Escócia.89 O indivíduo escolhido pelos Estados não podia ser a mesma pessoa escolhida para o trono inglês a não ser que a Inglaterra garantisse liberdade plena de comércio aos mercadores escoceses.90 Inicialmente, Ana recusou-se a apoiar este decreto, mas fê-lo no ano seguinte quando os Estados ameaçaram retirar o apoio da Escócia das guerras de Inglaterra.91

Por sua vez, o Parlamento Inglês respondeu com o Decreto de Alienação de 1705 que ameaçava impor sanções económicos e declarava que os súbditos escoceses estavam alienados de Inglaterra a não ser que a Escócia rejeitasse o Decreto de Escrutínio ou avançassem para uma união com Inglaterra.92 Os Estados preferiram a segunda opção e a rainha Ana nomeou comissários para negociar os termos de uma união.93 Os Artigos da União foram aprovados pelos comissários a 22 de Julho de 1706, e rectificados pelos Parlamentos de Inglaterra e Escócia a 16 de Janeiro de 6 de Março de 1707 respectivamente.94 Sob os Decretos de União, Inglaterra e Escócia foram unificadas num único reino chamado Grã-Bretanha, com um parlamento, a 1 de Maio de 1707.95

Política de Dois Partidos [editar]

A rainha Ana por autor anónimo.

O reinado de Ana foi marcado pelo desenvolvimento do sistema de dois partidos. De forma geral, os conservadores apoiavam a Igreja Anglicana e favoreciam "os interesses da terra" da aristocracia campestre, enquanto os liberais se identificavam mais com os interesses comerciais e os Dissidentes Protestantes. Sendo uma anglicana dedicada, Ana era mais favorável aos conservadores.96 O seu primeiro ministério era predominantemente conservador e incluía conservadores proeminentes como Daniel Finch, 2.º Conde de Nottingham, e o seu tio, Laurence Hyde, 1.º Conde de Rochester.97 Era chefiado por Lord Godolphin e pelo favorito de Ana, o duque de Marlborough, que eram considerados conservadores moderados, juntamente com o Orador da Casa dos Comuns, Robert Harley.98

Ana apoiou o Projecto de lei da Conformidade Ocasional de 1702, que foi promovido pelos conservadores e ao qual os liberais se oponham. O projecto de lei tinha o objectivo de retirar os Dissidentes Protestantes dos seus cargos públicos através da correcção de um pequeno erro nos Actos de Teste, uma legislação que restringia os cargos públicos a conformistas anglicanos. A lei em vigor permitia que os não-conformistas assumissem estes cargos se comungassem na Igreja Anglicana uma vez por ano. O marido de Ana ficou numa posição infeliz quando Ana o forçou a votar a favor do projecto de lei apesar de, sendo luterano, o príncipe ser também um conformista ocasional. Os liberais conseguiram impedir o projecto com sucesso durante toda a sessão parlamentar.99 Ana restituiu a pratica religiosa do toque contra o mal do rei que tinha sido afastado por Guilherme que a considerava uma superstição papista.100 Após a Grande Tempestade de 1703, Ana declarou um período de jejum geral para implorar a Deus "para perdoar os pecados latejantes desta nação que tinham levado a este triste julgamento".101 O projecto de lei da Conformidade Ocasional voltou a surgir após esta tempestade,102 mas Ana retirou o seu apoio, temendo que uma nova discussão em torno deste assunto levasse a uma desavença política. Mais uma vez o projecto não foi aprovado.103

Os liberais apoiaram entusiasticamente a Guerra de Sucessão Espanhola e tornaram-se mais influentes após o duque de Marlborough conquistar uma vitória importante na Batalha de Blenheim em 1704. Muitos dos conservadores mais importantes que se opunham a uma guerra terrestre contra a França foram dispensados dos seus cargos.104 Godolphin, Marlborough e Harley, que tinha substituído Nottingham como Secretário de Estado do Departamento Norte, criaram um "triunvirato" de poder.105 Foram forçados a depender cada vez mais no apoio dos liberais, principalmente dos senhores do Junto Liberal, Halifax, Orford, Wharton e Sunderland, de quem Ana não gostava.106 Sarah aconselhou a rainha consistentemente para apoiar mais os liberais e diminuir o poder dos conservadores, que considerava pouco melhores do que os Jacobitas, e a rainha começou a ficar cada vez mais descontente com ela.107

A rainha por Sir Godfrey Kneller.

Em 1706, Godolphin e Marlborough forçaram Ana a aceitar Lord Sunderland, um liberal Junto e genro de Marlborough, como colega de Harley na posição de Secretário de Estado para o Departamento do Sul.108 Apesar de esta atitude ter reforçado a posição do ministério no Parlamento, enfraqueceu a posição do ministério junto da rainha, uma vez que Ana começou a ficar cada vez mais irritada com Godolphin e com a sua antiga favorita, a duquesa de Marlborough, que apoiava Sunderland.109 A rainha procurou então o conselho privado de Harley, que se sentia pouco à vontade com a viragem de Marlborough e Godolphin para os liberais. Também procurou Abigail Hill, uma camareira que foi conquistando cada vez mais a rainha à medida que a sua relação com Ana se ia deteriorando.110 Abigail era parente tanto de Harley como da duquesa, mas sentia-se politicamente mais próxima de Harley.111

A divisão dentro do ministério atingiram o seu ponto alto a 8 de Fevereiro de 1708, quando Godolphin e Marlborough insistiram que a rainha tinha de demitir Harley ou dispensá-los a eles. Quando a rainha pareceu hesitante, Marlborough e Godolphin recusaram-se a participar numa reunião de gabinete. Harley tentou levar avante a reunião sem os seus antigos colegas, mas vários dos que estavam presentes, incluindo o duque de Somerset, recusaram participar enquanto eles não regressassem.112 A rainha perdeu a disputa e Harley foi dispensado.113

No mês seguinte, o meio-irmão católico de Ana, Jaime Francisco Eduardo Stuart, tentou desembarcar na Escócia com ajuda francesa para se tentar estabelecer como rei.114 Ana não concedeu promulgação real ao Decreto da Milícia Escocesa de 1708, discutida a 11 de Março, temendo que a milícia escocesa fosse desleal e ficasse do lado dos Jacobitas.115 Ana foi a última soberana britânica a vetar um decreto parlamentar, apesar de a sua atitude ser pouco comentada na altura.116 A frota de invasão nunca desembarcou e foi expulsa por navios britânicos comandados por Sir George Byng.117

Em Julho de 1708, a duquesa de Marlborough foi à corte para recitar um poema indecente de um propagandista liberal que implicava que a rainha mantinha uma relação lésbica com Abigail. A duquesa escreveu a Ana para lhe dizer que estava a prejudicar a sua reputação ao conceber "uma grande paixão por tal mulher (...) é estranho e incompreensível".118 Numa missa de agradecimento pela vitória na Batalha de Oudenarde, Ana não usou as jóias que Sarah lhe tinha escolhido. As duas envolveram-se numa discussão à porta da Catedral de São Paulo que culminou no momento em que Sarah mandou calar a rainha, o que constituía uma grave ofensa.119 Ana ficou consternada. Quando Sarah aproveitou uma carta do marido dirigida à rainha, que nada tinha a ver com o assunto, para enviar uma nota onde continuava a mesma discussão, Ana respondeu-lhe imediatamente, "Após as ordens que me deu no dia de acção de graças para que não lhe respondesse, não devia incomodá-la com estas linhas, mas para responder à carta do duque de Marlborough com segurança nas suas mãos, e pelo mesmo motivo, não diga nada em relação a isso, nem aqueles que a fecharam."120

Morte do Marido [editar]

Ana com o seu marido, o príncipe Jorge.

Ana ficou devastada com a morte do marido em Outubro de 1708,121 e este acontecimento acabou por se tornar no ponto de viragem da sua relação coma duquesa de Marlborough. A duquesa chegou ao Palácio de Kensington pouco antes de Jorge morrer e, depois de o príncipe falecer, insistiu que Ana deveria trocar o Palácio de Kensington pelo Palácio de St. James contra a sua vontade.122 Ana ficou ressentida com as atitudes intrusivas da duquesa que incluíram retirar um retrato de Jorge do quarto da rainha e depois recusar-se a devolvê-lo porque acreditava que era natural "evitar ver os papéis ou qualquer coisa que pertencesse a alguém de quem se gostava quando acabaram de morrer".123

Os liberais usaram a morte de Jorge a seu favor. Os liberais não gostavam que o falecido príncipe liderasse o almirantado e culpavam-no a ele e ao seu deputado, George Churchill (irmão do duque de Marlborough), de não saber gerir a marinha.124 Os liberais dominavam então o parlamento e Ana estava demasiado afectada com a morte do marido, por isso o partido liberal forçou-a a aceitar os líderes Junto Lord Somers e Lord Wharton no governo. Contudo, Ana insistiu em exercer os deveres dos quais o marido era responsável no almirantado, sem nomear um membro do governo para ocupar o lugar de Jorge como chefe nominal da marinha. De forma implacável, os Junto exigiram a nomeação do conde de Orford, outro membro dos Junto e um dos principais críticos do príncipe Jorge, como Primeiro Lorde do Almirantado. Ana nomeou Thomas Herbert, 8.º Conde de Pembroke, que era mais moderado, a 29 de Novembro de 1708. Insatisfeitos, os liberais Junto aumentaram a pressão sob Pembroke, Godolphin e a rainha e Pembroke acabaria por se demitir menos de um ano depois de assumir o cargo. Seguiu-se mais um mês de discussões até que a rainha aceitou finalmente nomear o conde de Orford para o cargo em Novembro de 1709.125

Sarah continuou a censurar a rainha pela sua amizade com Abigail e, em Outubro de 1709, Ana escreveu ao duque de Marlborough para que a sua esposa "deixe de me provocar e atormentar e comportar-se com a decência que deve tanto à sua amiga como à sua rainha".126 Na Quinta-Feira Santa de 6 de Abril de 1710, Ana e Sarah viram-se pela última vez. Segundo Sarah, a rainha foi taciturna e formal, repetindo sempre as mesmas frases ("Tudo o que possa ter a dizer, diga-o por escrito" e "Disse que não queria nenhuma resposta e é isso que farei") vezes e vezes sem conta.127

Guerra de Sucessão Espanhola [editar]

A rainha Ana.

À medida que a dispendiosa Guerra de Sucessão Espanhola se foi tornando impopular, a administração liberal foi sofrendo o mesmo destino.128 A impugnação de Henry Sacheverell, um conservador anglicano da Alta Igreja, que tinha pregado sermões anti-liberais, aumentou ainda mais o descontentamento popular. Ana era da opinião que Sacheverell deveria ser castigado por questionar a Revolução Gloriosa, mas que esse castigo deveria ser moderado para evitar tumultos públicos.129 Seguindo a opinião da rainha, Sacheverell foi condenado, mas a sua sentença (o impedimento de dar sermões durante três anos) foi tão leve que o seu julgamento foi ridicularizado.130 Rebentaram motins em Londres para demonstrar apoio por Sacheverell, mas as únicas tropas disponíveis para acalmar os distúrbios eram os guardas de Ana e o Secretário de Estado, Sunderland, não queria utilizá-los e deixar a rainha menos protegida. Ana declarou que Deus seria o seu guarda e ordenou a Sunderland que chamasse as suas tropas.130

A rainha, que desprezava cada vez mais os Malborough e o seu governo, aproveitou finalmente a oportunidade para dispensar Sunderland em Junho de 1710.131 Godolphin teve o mesmo destino em Agosto. Os liberais Junto foram dispensados dos seus cargos, embora Marlborough tivesse, na altura, permanecido na sua posição de comandante do exército. Para os substituir, Ana nomeou um novo governo, chefiado por Harleu, que começou a tentar obter um tratado de paz com a França. Ao contrário dos liberais, Harley e o seu governo estavam preparados para fazer cedências, nomeadamente entregar a coroa espanhola ao pretendente Bourbon, Filipe de Anjou, em troca de concessões comerciais.132 Nas eleições parlamentares que se seguiram a esta nomeação, Harley, com a ajuda do governo, conseguiu obter uma maioria para os conservadores.133 Em Janeiro de 1711, Ana forçou Sarah a demitir-se dos seus cargos na corte e Abigail passou a ser a Guardiã do Tesouro Privado da rainha.134 Harley foi apunhalado por um refugiado francês descontente, o marquês de Guiscard, em Março, e Ana chorou, temendo que ele morresse. Harley recuperou lentamente.135 A morte de Godolphin, devido a causas naturais, em Setembro de 1712 levou Ana às lágrimas. A rainha culpou os Marlborough pelo seu afastamento.136

A guerra foi resolvida devido a acontecimentos exteriores. O irmão mais velho do arquiduque Carlos, o sacro-imperador José I, morreu em 1711 e Carlos sucedeu-o na Áustria, Hungria e no Sacro Império Romano. Devido a esta mudança nos acontecimentos, a Grã-Bretanha já não tinha interesse em dar-lhe o trono espanhol, mas o Tratado de Paz de Utrecht, que foi entregue no Parlamento para rectificação, não chegou tão longe, uma vez que os liberais queriam limitar a influência dos Bourbon.137 Na Câmara dos Comuns, a maioria conservadora não conseguiu ser derrotada, mas tal não aconteceu na Câmara dos Lordes. Os liberais conseguiram obter o apoio do conde de Nottingham contra o tratado com a promessa de que o iriam apoiar no projecto-de-lei da Conformidade Ocasional.138 Vendo a necessidade de tomar uma decisão decisiva para contrabalançar a maioria ant-ipaz na Câmara dos Lordes, e sem mais alternativas, Ana decidiu criar reluntamente doze novos nobres. O marido de Abigail, Samuel Masham, recebeu o título de barão.139 Nunca se tinham criado tantos nobres de uma só vez anteriormente.140 No mesmo dia, Marlborough foi dispensado da sua posição de comandante do exército.140 O tratado de paz foi rectificado e o envolvimento britânico na Guerra de Sucessão Espanhola terminou.141

Ao assinar o Tratado de Utrech, o rei Luís XIV de França reconheceu a sucessão hanoveriana na Grã-Bretanha.142 Apesar de tudo, os rumores de que Ana e os seus ministros preferiam a sucessão do seu meio-irmão em vez dos seus parentes de Hanôver persistiram, mesmo apesar de a rainha o negar em público e privado.143 Os rumores foram alimentados pela sua recusa constante em permitir que qualquer membro da família real de Hanôver visitasse ou se mudasse para Inglaterra,144 e pelas intrigas de Harley e do Secretário de Estado conservador, Lord Bolingbroke, que estavam a levar a cabo discussões secretos em separado com o seu meio-irmão para uma possível restauração dos Stuart no início de 1714.145

Morte [editar]

Ana não conseguiu andar entre Janeiro e Julho de 1713.146 No Natal ganhou febre e ficou inconsciente durante várias horas,147 o que alimentou rumores de que a sua morte estaria próxima.148 Ana recuperou, mas voltou a adoecer gravemente em Março.149 A 27 de Julho de 1714, durante o intervalo de verão do Parlamento, a rainha dispensou Harley do seu cargo de Tesoureiro.150 A 30 de Julho de 1714, aniversário da morte do seu filho, o duque de Gloucester, Ana sofreu uma apoplexia que a deixou muda. Seguindo o conselho do Conselho Privado, entregou o cargo de tesoureiro ao liberal Charles Talbot, 1.º Duque de Shrewsbury.151 Morreu de gota suprimida que evoluiu para erisipela, por volta das sete e meia da manhã do dia 1 de Agosto de 1714.152 Foi enterrada num caixão quase quadrado153 ao lado do marido e dos filhos na capela Henrique VII no Altar Sul da Abadia de Westminster a 24 de Agosto.154

A princesa-eleitora Sofia tinha morrido a 8 de Junho, dois meses antes de Ana, por isso foi o seu filho, o príncipe-eleitor Jorge I de Hanôver, quem herdou a coroa britânica devido ao Decreto de Estabelecimento de 1701. Os possíveis pretendentes católicos, incluindo o meio-irmão de Ana, foram ignorados. A ascensão do príncipe-eleitor foi relativamente estável: uma revolta Jacobita em 1715 falhou.155 Marlborugh recuperou o seu lugar,156 e os ministros conservadores foram substituídos por liberais.157

Legado [editar]

Estátua da rainha Ana na Catedral de São Paulo em Londres.

A duquesa de Marlborough "desprezou devidamente" Ana nas suas memórias,158 e as suas recordações preconceituosas levaram a que muitos biógrafos a acreditar que Ana era "uma mulher fraca e irresoluta que se ocupava de desavenças no quarto e tomar decisões políticas importantes tendo por base personalidades".159 A duquesa escreveu sobre Ana:

"Era verdade que as suas intenções eram boas e não era nenhuma tola, mas ninguém pode dizer que era sensata nem divertida em conversas. Era ignorante em tudo, menos naquilo que os padres lhe tinham ensinado quando era criança (...). Sendo ignorante, muito medrosa, com muito pouco senso comum, é muito fácil dizer que as suas intenções eram boas, estando rodeada de tantas pessoas habilidosas, que finalmente decidiram que o seu objectivo era a sua desonra."160

Na opinião da historiadora Maureen Waller, as descrições tradicionais que caracterizam Ana como gorda, constantemente grávida, sob a influência dos seus favoritos e com falta de interesse e astúcia política, podem ter tido a sua origem em preconceitos chauvinistas por parte dos homens contra as mulheres.161 O escritor David Green reparou que "o governo dela não foi, como antes se assumia, um governo de saias. A rainha tinha um poder considerável, no entanto teve de ceder vezes e vezes sem conta."162 O professor Edward Gregg chegou à conclusão de que Ana não conseguiu muitas vezes impor a sua vontade, apesar de, sendo uma mulher numa época de predominância masculina e estando preocupada com a sua saúde, o seu reinado ficou marcado pelo aumento da influência dos ministros e uma diminuição da influência da coroa.163 Esteve presente em mais reuniões do governo do que qualquer um dos seus antecessores ou sucessores,164 e liderou uma era de avanços artísticos, literários, económicos e políticos que apenas foi possível devido à estabilidade e prosperidade do seu reinado.165 Na arquitectura, Sir John Vanbrugh construiu o Palácio de Blenheim e o Castelo Howard.166 Escritores tais como Daniel Defoe, Alexander Pope e Jonathan Swift floresceram.167 Henry Wise criou os novos jardins em Blenheim, Kensington, Windsor e de St. James.168 A união de Inglaterra e as conquistas diplomáticas dos governos de Ana, assim como a ausência de conflitos constitucionais entre a monarquia e o parlamento durante o seu reinado mostram que a rainha escolhia os seus ministros e exercia os seus direitos ponderadamente.169

Gravidezes [editar]

  1. Filha natimorta (12 de Maio de 1684), enterrada na Abadia de Westminster.
  2. Maria (2 de Junho de 1685 - 8 de Fevereiro de 1687), baptizada a 2 de Junho de 1685 pelo bispo de Londres, recebeu a forma de tratamento Lady Maria; morreu de varíola ao mesmo tempo que o seu pai e a irmã mais nova, Ana Sofia, no Castelo de Windsor, em inícios de 1687.
  3. Ana Sofia (12 de Maio de 1686 - 2 de Fevereiro de 1687), baptizada pelo bispo de Durham, sendo Lady Churchill uma das suas madrinhas, recebeu a forma de tratamento de Lady Ana Sofia; morreu de infecção aguda.
  4. Aborto (21 de Janeiro de 1687)
  5. Filho natimorto (22 de Outubro de 1687), Ana deu à luz aos sete meses de gestação, mas o bebé "estava morto há um mês dentro dela".
  6. Aborto (16 de Abril de 1688)
  7. Guilherme, Duque de Gloucester (24 de Julho de 1689 - 30 de Julho de 1700), morreu aos onze anos de idade, possivelmente devido a uma infecção no cérebro.
  8. Maria (14 de Outubro de 1690), nasceu dois meses antes do tempo e "viveu cerca de duas horas".
  9. Jorge (17 de Abril de 1692), "viveu apenas durante alguns minutos", apenas o suficiente para ser baptizado.
  10. Filha natimorta (23 de Março de 1693)
  11. Aborto (21 de Janeiro de 1694), as crónicas contemporâneos não especificam o sexo, dizendo apenas que Ana "abortou uma criança morta". Os historiadores modernos Edward Gregg e Alison Weir discordam um com o outro em relação ao mesmo assunto.
  12. Filha abortada (17 ou 18 de Fevereiro de 1696)
  13. Aborto (20 de Setembro de 1696), Luttrell disse que Ana "abortou um filho". O Dr. Nathaniel Johnson contou a Theophilus Hastings, 7.º Conde de Huntingdon, numa carta datada de 24 de Outubro de 1696: "Sua Alteza Real abortou duas crianças, uma delas com cerca de sete meses de gestação e a outra com dois ou três meses, segundo as contas dos seus médicos e da parteira. Um nasceu depois do outro". Se tal era verdade, o feto mais pequeno era um gémeo evanescente.
  14. Aborto (25 de Março de 1697)
  15. Aborto (inícios de Dezembro de 1697), segundo G. de L'Hermitage, um cidadão holandês em Londres, Ana abortou gémeos que "ainda estavam muito pouco desenvolvidos para que se pudesse determinar o seu sexo". Outras fontes dizem que esta gravidez terminou com o nascimento de um filho morto.
  16. Filho natimorto (15 de Setembro de 1698), James Vernon escreveu a Charles Talbot, 1.º Duque de Schrewsbury, que o médico de Ana acha que o feto "já estaria morto há oito ou dez dias".
  17. Filho natimorto (24 de Janeiro de 1700), fontes da época afirmam que Ana deu à luz aos sete meses e meio de gestação depois de o feto já estar morto há um mês.

Homenagens [editar]

O pirata Barba Negra deu o nome a seu navio de Queen Anne's Revenge (Vingança da Rainha Ana), homenageando a rainha.

Notas e referências

  1. Curtis, pp. 12–17; Gregg, p. 4
  2. Gregg, p. 4
  3. Curtis, pp. 19–21; Green, p. 20; Gregg, p. 6
  4. Curtis, pp. 21–23; Gregg, p. 8; Waller, p. 295
  5. Gregg, p. 5
  6. Curtis, pp. 23–24; Gregg, p. 13
  7. Green, p. 21; Gregg, p. 5
  8. Curtis, p. 28; Gregg, p. 13; Waller, p. 296
  9. Curtis, p. 27; Green, p. 21; Gregg, p. 28
  10. Curtis, p. 34; Green, p. 29; Gregg, p. 28
  11. Weir, pp. 260–261
  12. Curtis, p. 30; Green, p. 27; Gregg, p. 17
  13. Green, p. 28; Gregg, p. 17
  14. a b Green, p. 28: Gregg, p. 20
  15. Green, p. 28
  16. Curtis, pp. 35–37; Green, p. 31; Gregg, p. 24
  17. Gregg, p. 24–25
  18. Curtis, p. 37; Green, pp. 32–33; Gregg, p. 27
  19. Gregg, pp. 33–34
  20. Curtis, pp. 41–42; Green, pp. 34–35; Gregg, pp. 32–35
  21. Curtis, p. 42; Green, p. 34; Gregg, p. 35
  22. Curtis, p. 43; Green, p. 36; Gregg, p. 34
  23. Curtis, p. 44; Green, p. 37; Waller, p. 299
  24. Gregg, p. 36
  25. a b Weir, p. 268
  26. Ward, pp. 236–240
  27. Waller, p. 300
  28. Green, p. 38
  29. Citada em Green, p. 39 e Gregg, p. 43
  30. Green, p. 39; Gregg, p. 47; Waller, p. 301
  31. Curtis, p. 55; Gregg, p. 52
  32. Carta datada de 14 de Março de 1688, citada em Gregg, p. 54 and Waller, p. 303
  33. Waller, pp. 303–304
  34. Ward, pp. 241–242
  35. Waller, p. 304
  36. Nenner, p. 243
  37. Yorke, Philip Chesney (1911). "Anne (1665–1714)". Encyclopædia Britannica (11-ª ed.). Cambridge: University Press.
  38. Citada em Green, p. 43
  39. Gregg, pp. 62–63; Waller, p. 305
  40. Green, p. 39; Gregg, p. 47
  41. Gregg, p. 60
  42. Yorke, Philip Chesney (1911). "Anne (1665–1714)". Encyclopædia Britannica (11th ed.). Cambridge: University Press.
  43. Green, p. 47; Gregg, p. 63
  44. Gregg, p. 64
  45. Gregg, p. 65
  46. Gregg, pp. 65–66
  47. Green, pp. 45–47; Gregg, p. 67
  48. Gregg, p. 66
  49. Gregg, p. 68
  50. Diário de Lord Clarendon citado em Green, p. 49
  51. Ward, pp. 250–251, 291–292
  52. Green, p. 52; Gregg, p. 69
  53. Curtis, p. 72; Green, pp. 54–55
  54. Green, pp. 53–54; Gregg, pp. 76–79
  55. Curtis, pp. 75–76; Green, p. 58; Gregg, p. 80
  56. Curtis, pp. 78–80; Green, pp. 59–60; Gregg, pp. 84–87
  57. Green, p. 62; Gregg, p. 87
  58. Green, p. 62; Gregg, pp. 88–91, 96
  59. Curtis, p. 81; Green, pp. 62–63; Gregg, p. 90
  60. Curtis, p. 84; Green, pp. 66–67; Gregg, pp. 102–103
  61. Gregg, pp. 105–106
  62. Gregg, p. 104
  63. Gregg, p. 108
  64. Gregg, p. 122
  65. Green, p. 335; Gregg, pp. 100, 120; Weir, pp. 268–269
  66. Green, pp. 79, 336
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  68. Saxbe, W. B., Jr. (January 1972). "Listeria monocytogenes and Queen Anne", Pediatrics, vol. 49, no. 1, pp. 97–101
  69. Waller, p. 310
  70. Green, pp. 337–338; Waller, pp. 310–311
  71. Curtis, pp. 47–49; Green, pp. 337–338
  72. Curtis, p. 84
  73. Gregg, p. 330
  74. Jonathan Swift citado em Green, pp. 101–102 e Gregg, p. 343
  75. Green, p. 154
  76. Curtis, p. 146; Green, pp. 154–155; Gregg, p. 231
  77. Green, p. 80
  78. Green, pp. 86–87; Waller, p. 312
  79. Green, p. 90; Waller, p. 312
  80. Green, p. 91; Waller, p. 313
  81. Green, p. 94; Gregg, p. 160
  82. Green, p. 94; Waller, p. 315; Ward, p. 460
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  88. Gregg, pp. 130–131
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  96. Curtis, pp. 102–104; Gregg, pp. 133–134
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  99. Curtis, p. 107; Green, pp. 108–109; Gregg, pp. 162–163
  100. Green, p. 105; Waller, pp. 316–317
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  106. Curtis, pp. 134, 138–139; Green, pp. 117, 155, 172; Gregg, pp. 134, 218–219
  107. Gregg, pp. 174–175, 188–193
  108. Green, p. 155; Gregg, pp. 219–230
  109. Green, p. 156; Gregg, pp. 230–231
  110. Curtis, p. 152; Green, pp. 166–168; Waller, p. 324
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  116. Curtis, p. 157; Gregg, p. 144
  117. Curtis, p. 158; Green, p. 186; Gregg, p. 262
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  130. a b Green, p. 220; Gregg, p. 306
  131. Curtis, p. 176; Gregg, pp. 313–314
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  141. Gregg, pp. 358, 361
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  144. Curtis, p. 193
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  146. Curtis, p. 193; Green, p. 282
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  158. Yorke, Philip Chesney (1911). "Anne (1665–1714)". Encyclopædia Britannica (11th ed.). Cambridge: University Press.
  159. Gregg, p. 401
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  168. Curtis, pp. 131, 136–137
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Bibliografia [editar]

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  • Weir, Alison (1995). Britain's Royal Families: The Complete Genealogy, Edição Revista. Londres: Random House. ISBN 0-7126-7448-9.
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Precedida por:
Guilherme III da Inglaterra
Rainha de Inglaterra
8 de março de 1702 - 1 de maio de 1707
Sucedida por:
Tratado de União de 1707 unindo a Inglaterra e a Escócia, formando a Grã-Bretanha
Precedida por:
Guilherme III da Inglaterra
Rainha da Escócia
8 de março de 1702 - 1 de maio de 1707
Sucedida por:
Tratado de União de 1707 unindo a Inglaterra e a Escócia, formando a Grã-Bretanha
Precedida por:
Guilherme III da Inglaterra
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8 de março de 1702 - 1 de agosto de 1714
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Precedida por:
Novo título
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- TITULAR -
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8 de março de 1702 - 1 de agosto de 1714
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