Carlota de Mecklemburgo-Strelitz

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Carlota
Rainha Consorte do Reino Unido e Hanôver
Reinado 8 de setembro de 1761
a 17 de novembro de 1818
Coroação 22 de setembro de 1761
Predecessora Carolina de Ansbach
Sucessora Carolina de Brunsvique
Marido Jorge III do Reino Unido
Descendência
Jorge IV do Reino Unido
Frederico, Duque de Iorque e Albany
Guilherme IV do Reino Unido
Carlota, Princesa Real
Eduardo, Duque de Kent e Strathearn
Augusta Sofia do Reino Unido
Isabel do Reino Unido
Ernesto Augusto I de Hanôver
Augusto Frederico, Duque de Sussex
Adolfo, Duque de Cambridge
Maria do Reino Unido
Sofia do Reino Unido
Otávio da Grã-Bretanha
Alfredo da Grã-Bretanha
Amélia do Reino Unido
Nome completo
Sofia Carlota
Casas Mecklemburgo-Strelitz
Hanôver
Pai Carlos Luís Frederico de Mecklemburgo-Strelitz
Mãe Isabel Albertina de Saxe-Hildburghausen
Nascimento 19 de maio de 1744
Mirow, Alemanha
Morte 17 de novembro de 1818 (74 anos)
Palácio de Kew, Londres, Inglaterra
Enterro 2 de dezembro de 1818
Capela de São Jorge, Windsor, Berkshire, Inglaterra

Carlota de Mecklemburgo-Strelitz (Mirow, 19 de maio de 1744  — Palácio de Kew, 17 de novembro de 1818) foi esposa do rei Jorge III e rainha consorte do Reino da Grã-Bretanha e Irlanda e depois do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda de 1761 até sua morte.. Era também princesa-eleitora de Hanôver, no Sacro Império Romano-Germânico até à elevação do marido a rei de Hanôver em 12 de outubro de 1814, evento que a tornou rainha-consorte do território.

A rainha Carlota era uma mecenas das artes, conhecida de Johann Christian Bach e Wolfgang Amadeus Mozart entre outros. Era também uma botânica amadora que ajudou a expandir os Reais Jardins Botânicos de Kew. Jorge III e Carlota tiveram quinze filhos, treze dos quais chegaram à idade adulta.

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Sofia Carlota era a filha mais nova do duque Carlos Luís Frederico de Mecklemburgo, príncipe de Mirow, e da sua esposa, a duquesa Isabel Albertina de Saxe-Hildburghausen. Mecklemburgo-Strelitz era um pequeno ducado no norte da Alemanha que pertencia ao Sacro Império Romano-Germânico.

Carlota era neta do duque Adolfo Frederico II de Mecklemburgo-Strelitz e da sua terceira esposa, a princesa Cristiana Emília de Schwarzburg-Sondershausen. O irmão mais velho do seu pai reinou entre 1708 e 1753 como duque Adolfo Frederico III. Em 11 de dezembro de 1752, o irmão mais velho de seu pai morreu sem descendência masculina, e o irmão mais velho de Carlota, Adolfo Frederico, o sucede (devido a seu pai ter morrido seis meses antes, em 5 de junho de 1752). Com ele, a posição de Carlota e de sua família mudou consideravelmente, pois agora passavam a ter o controle de uma importante parte dos territórios de Mecklemburgo.

Os filhos do duque Carlos nasceram todos no Castelo de Mirow, um palácio modesto que quase pode ser considerado uma casa de campo. A vida em Mirow era quase idêntica à de uma família de simples baixa nobreza inglesa do campo.[1] A manhã era dedicada ao estudo e a aulas de costura, bordados e croché, para os quais as duquesas tinham muito talento. Foram educadas de forma muito cuidadosa, tendo recebido uma educação admirável e receberam os seus princípios religiosos por parte da mãe.[2] Foram também ensinadas por M. Gentzner, um pastor luterano de grande reputação que tinha um conhecimento profundo de botânica, mineralogia e ciência.[3]

Casamento[editar | editar código-fonte]

Carlota, em 1761, por Esther Denner.

Quando o rei Jorge III sucedeu ao trono da Grã-Bretanha após a morte do seu avô, o rei Jorge II, foi considerado que tinha chegado a altura de procurar uma noiva que pudesse cumprir todos os deveres da sua importante posição de forma a satisfazer todo o país.[4] No início da sua busca, Jorge estava muito interessado em Sarah Lenox, irmã do duque de Richmond, mas a sua mãe, a duquesa Augusta de Saxe-Gota, princesa viúva de Gales, e o seu conselheiro político, Lord Bute, aconselharam-no a não realizar tal união e o rei desistiu da ideia.

O coronel Graeme, que tinha sido enviado a várias cortes alemãs numa missão de investigação, falou dos encantos do carácter e das excelentes qualidades intelectuais da princesa Carlota, na altura com dezassete anos de idade.[5] Embora não fosse certamente uma beldade, o rosto da duquesa era muito expressivo e mostrava grande inteligência. Não era alta, mas tinha uma figura esbelta e bastante bonita. Os seus olhos brilhantes iluminavam-se com bom-humor e vivacidade, a sua boca era grande, tinha dentes brancos e direitos e o seu cabelo era de um bonito tom castanho-claro.[6]

O rei anunciou ao conselho a sua intenção de se casar com a princesa em julho de 1761, segundo era costume e lorde Hardwicke foi enviado a Mecklemburgo para pedir a mão de Carlota em nome do rei. O irmão de Carlota, o duque Adolfo Frederico IV de Mecklemburgo-Strelitz, e a sua mãe queriam um casamento proeminente para a jovem princesa e receberam-no com todas as honras que o pequeno Estado era capaz de lhe mostrar. O enviado regressou à Inglaterra um mês depois da sua partida, depois de ter completado todos os preliminares necessários e satisfeito com a sua missão.[7]

No fim de agosto de 1761, uma comitiva de escoltas partiu da Alemanha para acompanhar a duquesa Carlota à Inglaterra. Faziam parte do grupo a duquesa de Ancaster, a duquesa de Hamilton, ambas camareiras da rainha, Mrs. Tracey, criada de quarto, o conde Harcourt, que estava a representar o rei, e o general Graeme.[8] Uma forte tempestade apanhou-os no caminho e um trovão incendiou várias árvores na estrada que o grupo tinha de passar.[9]

Apesar de tudo, o grupo chegou em segurança a Cuxhaven e embarcou numa frota de iates e navios de guerra britânicos comandados pelo almirante Anson. Um dos navios era um iate especial que tinha sido rebaptizado de HMY Royal Charlotte em honra da futura rainha. A viagem por mar, que normalmente durava três dias, demorou nove devido a uma tempestade. Em vez de aportarem em Greenwich, onde estava tudo preparado para receber a princesa, o almirante Anson achou melhor largar âncora no porto mais próximo, Harwich, onde permaneceram o resto da noite de domingo, dia 6 de setembro. Na manhã seguinte, o grupo deixou o navio e viajou para Essex, onde descansaram e depois seguiram viagem para Londres. A princesa chegou ao Palácio de St. James no dia 7 de setembro e conheceu o rei e a família real. No dia seguinte, às nove da manhã, realizou-se a cerimónia de casamento na capela real, celebrada pelo arcebispo da Cantuária, Thomas Secker.[10]

Rainha[editar | editar código-fonte]

Carlota com os seus dois filhos mais velhos, por Allan Ramsay, na Royal Collection, Castelo de Windsor.

Existem poucas dúvidas de que os primeiros anos de casamento da jovem rainha não foram felizes. O rei estava atarefado com os seus deveres políticos e a sua mãe, segura do apoio do seu favorito, Lord Bute, podia exercer toda a influência e autoridade que a idade, o conhecimento e a posição de uma mãe lhe davam, ao contrário do casal jovem e pouco experiente.[11] A jovem rainha não conseguiu resistir e criou-se uma espécie de despotismo no palácio onde a sua sogra controlava tudo o que ela fazia. O próprio rei, muito influenciado pela mãe, não se sentia tentado a intervir e assumiu que tudo estava a correr bem. Carlota já não podia manter relações íntimas com as damas do palácio e era uma regra de etiqueta da corte que todos os que a frequentavam não deviam dirigir-se à rainha excepto acompanhados dos seus criados alemães. Os jogos de cartas, que Carlota adorava, também estavam interditos.[12]

Naturalmente, existiam também as facções alemãs e inglesas entre os criados, cada uma lutando zelosamente pelo favor da rainha, ditando os termos e condições do seu serviço e ameaçando regressar à Alemanha se não recebessem determinados privilégios. A rainha tinha tantos problemas com os seus criados como o seu marido tinha com os seus ministros insubordinados.[13]

Apesar disto, o casamento foi um sucesso, e, a 12 de agosto de 1762, a rainha deu à luz o seu primeiro filho, o príncipe de Gales que, mais tarde, se tornaria o rei Jorge IV. A 13 de setembro, a rainha esteve presente na capela real para a cerimónia de acção de graças que aconteceu pouco depois do nascimento. A cerimónia de baptismo do príncipe de Gales, que se realizou no Palácio de St. James, teve grande pompa e circunstância. O berço no qual o bebé estava deitado estava coberto de tecidos sumptuosos e renda de Bruxelas.[14] Ao longo do casamento, o casal teve quinze filhos, dos quais apenas dois (Otávio e Alfredo) morreram na infância.

A rainha Carlota era particularmente interessada nas artes e apoiou a Johann Christian Bach, que foi seu professor de música. Wolfgang Amadeus Mozart, então com apenas 8 anos de idade, lhe dedica sua Opus 3. Também fundou orfanatos e um hospital para mulheres grávidas. Também, foi uma aficcionada botânica e ajudou a estabelecer o que hoje são os Jardins de Kew.

A educação das mulheres era de grande importância para Carlota, e ela mesma viu que suas filhas foram melhor educadas do que geralmente eram as mulheres jovens daqueles tempos.

Depois do início de sua enfermidade, então tratada como loucura, Jorge III foi colocado sob os cuidados de sua esposa, a quem não podia visitar, devido a seu comportamento errático e ocasionais reações violentas. Entretanto, Carlota seguia sendo o apoio de seu marido durante sua enfermidade mental - provavelmente ligada a porfiria -, que pioraria na sua velhice.

Morreu na Dutch House, em Surrey (logo palácio de Kew), aos 74 anos de idade, sendo sepultada na Capela de São Jorge, no castelo de Windsor.

No momento de seu falecimento, estava a seu lado seu filho primogênito, o príncipe de Gales -futuro Jorge IV-, que estava sustentando sua mão enquanto ela estava sentada, posando para o retrato de família que era pintado naquele momento.

Por volta desta altura, o rei e a rainha mudaram-se para Buckingham House, a oeste do Parque de St. James, o actual Palácio de Buckingham. A casa que constituiu a base do actual palácio foi construída pelo primeiro duque de Buckingham e Bormanby em 1703 com um projecto de William Winde. Buckingham House foi posteriormente vendida pelo descendente de Buckingham, Sir Charles Sheffield, ao rei Jorge III em 1761 por £21,000.[15]

A casa tinha como objectivo inicial tornar-se um refúgio privado, principalmente para Carlota, e por isso era conhecida por "The Queen's House".[16] Catorze dos quinze filhos do casal real nasceu lá. O Palácio de St. James continuou a ser a residência oficial onde se realizavam todas as cerimónias formais.[17]

Interesses e apoios[editar | editar código-fonte]

Rainha Carlota, com os filhos por Benjamin West, na Royal Collection.

O rei Jorge III e a rainha Carlota eram grandes conhecedores de música e admiravam os trabalhos de George Frideric Handel. Ambos tinham um gosto especial por música alemã e davam honras especiais aos artistas e compositores deste país.[18]

Em 1764, Wolfgang Amadeus Mozart, na altura com oito anos de idade, visitou a Grã-Bretanha com a sua família durante a sua grande digressão pela Europa e ficou no país entre Abril e Junho desse ano.[19] A família Mozart foi chamada à corte no dia 19 de Maio e o compositor deu um concerto para um número muito reduzido de pessoas que durou das seis até às dez da noite. Johann Christian Bach, décimo-primeiro filho do grande Johann Sebastian Bach, era na altura o mestre de música da rainha e entregou composições complicadas de Handel, Bach e Abel para que o rapaz tocasse. Mozart tocou-as todas sem olhar para as partituras e os presentes ficaram impressionados.[20] Depois do concerto, Mozart acompanhou a rainha no piano para tocar uma ária que Carlota cantou e tocou durante algum tempo a sua flauta.[21] No dia 29 de Outubro, a família Mozart regressou ao país para celebrar o quarto aniversário do rei no trono. Como recordação do favor real, o pai de Mozart, Leopold, publicou seis sonatas compostas por Wolfgang, conhecidas por "Opus 3", que dedicou à rainha no dia 18 de Janeiro de 1765. A rainha agradeceu esta dedicação presenteando o compositor com cinquenta guinéus.

A rainha Carlota era uma botânica amadora que se interessou muito pelos Jardins de Kew e, na era da descoberta, quando os viajantes e exploradores como o capitão Cook e Sir Joseph Banks, traziam constantemente novas espécies e variedades de plantes, a rainha garantiu que as colecções eram enriquecidas e aumentadas.[22] O seu interesse por botânica levou a que a magnifica flor da África do Sul, o Pássaro do Paraíso, recebesse o nome de Strelitzia reginae em sua honra.[23]

Entre os artistas preferidos do casal real encontravam-se o marceneiro William Vile, o ourives Thomas Heming, o arquitecto de paisagens Capability Brown e o pintor alemão Johann Zoffany que pintava frequentemente o rei, a rainha e os filhos em cenas informais, tais como o retrato da rainha Carlota com os seus filhos ao lado de um toucador.[24]

A rainha também abriu orfanatos e um hospital para grávidas. A educação das mulheres tinha uma grande importância para Carlota e ela garantiu que as suas filhas eram educadas melhor do que o que era costume para mulheres da época. Contudo, insistiu que as suas filhas vivessem vidas isoladas perto da mãe e recusou-se a deixá-las casar até idades bastantes avançadas para a altura, o que fez com que nenhuma das suas filhas deixasse descendentes legítimos. Apenas uma, a princesa Sofia, terá tido um filho ilegítimo.

Em 2004, a Queen's Gallery, no Palácio de Buckingham exibiu uma exposição sobre o apoio às artes por parte do rei Jorge e da rainha Carlota, centrando-se principalmente no contraste entre este casal e os primeiros monarcas da dinastia de Hanôver, comparando-os favoravelmente com os gostos aventureiros do pai do rei, o príncipe Frederico de Gales.

Até 1788, os retratos de Carlota representavam-na frequentemente em poses maternais com os seus filhos e a rainha parecia sempre jovem e feliz.[25] Contudo, 1788 foi o ano em que o seu marido adoeceu gravemente e enlouqueceu durante um breve período de tempo. Atualmente, acredita-se que o rei sofresse de porfiria, uma doença genética, mas, na altura, não se sabia qual fosse a doença. O retrato da rainha, feito na época por Sir Thomas Lawrence, marca a transição para os retratos em que Carlota aparece muito mais velha. De fato, a responsável pela roupa da rainha, Mrs. Papendiek, escreveu que ela estava "muito mudada, com os cabelos bastante grisalhos."[26]

Relação com Maria Antonieta[editar | editar código-fonte]

Rainha Carlota, por Thomas Lawrence, na National Gallery.

A Revolução Francesa de 1789 provavelmente terá aumentado ainda mais a angústia da rainha.[27] Carlota e a rainha Maria Antonieta tinham uma relação bastante próxima. Carlota era onze anos mais velha do que a rainha francesa, mas ambas partilhavam muitos interesses, tais como o amor pela música e pelas artes que as duas apoiavam entusiasticamente. Embora nunca se tenham conhecido pessoalmente, trocavam correspondência com frequência. Maria Antonieta contou as suas angústias a Carlota durante a revolução. Carlota até preparou aposentos no seu palácio, esperando que família real francesa se refugiasse em Inglaterra.[28] Após a execução de Maria Antonieta e dos acontecimentos que se seguiram, diz-se que Carlota ficou chocada e completamente dominada pelo pensamento de que tal pudesse acontecer a um reino, principalmente um reino tão próximo da Grã-Bretanha.

Doença do marido[editar | editar código-fonte]

Depois de Jorge III começar a ter os seus primeiros ataques de loucura, foi colocado aos cuidados da sua esposa, que não conseguia visitá-lo com muita frequência devido ao comportamento errático e, por vezes, violento que o rei demonstrava. Acredita-se que Carlota não o voltou a ver a partir de Junho de 1812, apesar de continuar a defender e apoiar o marido ao longo de toda a sua doença que, actualmente, se acredita ter sido porfiria, e que foi piorando à medida que o rei envelhecia. Enquanto o seu filho mais velho, o príncipe-regente, detinha o verdadeiro poder político, Carlota foi a guardiã legal do marido de 1811 até à sua morte em 1818.

Morte[editar | editar código-fonte]

A rainha morreu na presença do seu filho mais velho, o príncipe-regente, que lhe estava a segurar a mão enquanto ela se sentava numa cadeira-de-baloiço na casa-de-campo da família, a Casa Dinamarquesa em Surrey (o actual Palácio de Kew). A rainha foi enterrada na Capela de São Jorge no Castelo de Windsor. O seu marido morreu pouco mais de um ano depois. Carlota é a segunda consorte que esteve mais tempo no trono britânico, sendo que o único que a ultrapassa é o actual duque de Edimburgo, consorte da rainha Isabel II. Ao todo, Carlota esteve no trono 57 anos e setenta dias.

O seu filho mais velho reivindicou as joias da mãe após a sua morte, mas o resto dos seus bens foram vendidos num leilão que durou de Maio a Agosto de 1819. As suas roupas, mobília e até a sua caixa de rapé foram vendidos pela Christie's.[29] É muito improvável que o seu marido tenha sabido da sua morte, tendo também ele vindo a morrer cego, surdo e coxo catorze meses depois.

Filmes[editar | editar código-fonte]

A rainha Carlota foi interpretada pela actriz Frances White na série "Prince Regent", transmitida pela BBC em 1979, e, mais tarde, por Helen Mirren no filme The Madness of King George de 1994.

Possível ascendência africana[editar | editar código-fonte]

Genealogia da rainha Carlota.

Mário de Valdes y Cocom, um investigador agrocentrista independente, defendeu[30] que Allan Ramsay, um abolicionista conhecido, pintava Carlota de uma forma que se dizia acentuar a alegada aparência mulata da rainha e que o quadro de coroação de Carlota feito pelo mesmo foi enviado para as colónias e utilizado pelos abolicionistas como um apoio "de facto" para a sua causa. Valdes y Cocom afirma também que, além das descrições da rainha que fazem referência ao seu "rosto mulato" (feitas, supostamente, pelo barão Stockmar, que Valdes y Cocom diz erradamente ter sido o médico pessoal de Carlota, [31] na sua autobiografia),[32] . As feições da rainha Carlota também foram descritas como sendo vandálicas, num poema escrito para celebrar o seu casamento ("a alusão mais literal", segundo Valdes y Cocom):

Cquote1.svg "Descended from the warlike Vandal race,

She still preserves that title in her face. Tho' shone their triumphs o'er Numidia's plain, And Andalusian fields their name retain; They but subdued the southern world with arms, She conquers still with her triumphant charms, O! born for rule, - to whose victorious brow The greatest monarch of the north must bow." [33]

Cquote2.svg

Valdes y Cocom não parece reparar que os vândalos eram um povo germânico, natural da Europa do norte que migrou primeiro para a Andaluzia no ano de 409 a.C., e depois para o norte de África em 429 a.C. (nomeadamente para a Numídia, onde estabeleceram o Reino Vândalo da África do Norte), e que este poema, na verdade, está a ligar Carlota aos seus ascendentes germânicos, o que acaba por comprometer ainda mais a credulidade das supostas origens africanas de Carlota. Além do mais, a referida raça vândala que é utilizada para descrever a rainha Carlota, está ligada a um dos títulos oficiais da Casa de Mecklemburgo, o de Princeps Vandalorum, ou seja, Príncipe dos Vândalos, uma referência às origens eslavas da família.[34] [35]

Todas estas referências levaram Mário de Valdes y Cocom a pesquisar os ancestrais e a genealogia da rainha. Ainda segundo o mesmo autor, uma das explicações para as feições supostamente negras de Carlota, é a possibilidade de esta as ter herdado de uma antepassada muito distante dela, Margarida de Castro e Souza, uma nobre portuguesa do século XV que era, por sua vez, descendente do rei Afonso III de Portugal e de uma das suas amantes, Madragana, que era negra.

Os críticos desta teoria defendem que a grande distância entre Carlota e Madragana, faz com que qualquer traço que a rainha possa ter herdado é irrelevante e está ao mesmo nível de qualquer outra origem germânica da princesa e, por isso, tal não serve para provar que a rainha era "mulata" ou "africana".[36] Tal como qualquer pessoa, além de Madragana, Carlota tinha mais 32,767 antepassados.

Além do mais, Valdez y Cocom assumiu que Madragana era uma mulher africana, mas, na verdade, existe apenas um cronista, Duarte Nunes de Leão, que disse que ela era moura.[37] Contudo, os investigadores modernos acreditam que Madragana era Moçárabe, ou seja, uma cristã ibérica que vivia segundo a religião muçulmana mas que tinha origens espanholas ou judaicas.[38]

Valdez e Cocom também defendeu que, na altura da coroação da rainha Isabel II em 1952, foi publicada uma apologia que defendia as origens asiáticas e africanas da rainha para defender a sua posição como líder da Commonwealth.[39] O Palácio de Buckingham negou esta teoria.

Descendência[editar | editar código-fonte]

  1. Jorge IV do Reino Unido (12 de agosto de 1762 - 26 de junho de 1830), rei do Reino Unido; casado com a duquesa Carolina de Brunswick; com descendência.
  2. Frederico, Duque de Iorque e Albany (16 de agosto de 1763 - 5 de janeiro de 1827), casado com a princesa Frederica Carlota da Prússia; sem descendência.
  3. Guilherme IV do Reino Unido (21 de agosto de 1765 - 20 de junho de 1837), rei do Reino Unido; casado com a duquesa Adelaide de Saxe-Meiningen; não teve descendentes legítimos, mas teve vários filhos ilegítimos e David Cameron, atual primeiro-ministro do Reino Unido, descende dele.
  4. Carlota, Princesa Real (29 de setembro de 1766 - 6 de outubro de 1828), casada com o rei Frederico I de Württemberg; sem descendência.
  5. Eduardo, Duque de Kent e Strathearn (2 de novembro de 1767 - 23 de janeiro de 1820), casado com a duquesa Vitória de Saxe-Coburgo-Saalfeld; tiveram uma filha, a rainha Vitória do Reino Unido.
  6. Augusta Sofia do Reino Unido (8 de novembro de 1768 - 22 de setembro de 1840), morreu solteira e sem descendência.
  7. Isabel do Reino Unido (22 de maio de 1770 - 10 de janeiro de 1840), casada com o landegrave Frederico VI de Hesse-Homburgo; sem descendência.
  8. Ernesto Augusto I de Hanôver (5 de junho de 1771 - 18 de novembro de 1851), rei de Hanôver; casado com a duquesa Frederica de Mecklemburgo-Strelitz; com descendência.
  9. Augusto Frederico, Duque de Sussex (27 de janeiro de 1773 - 21 de abril de 1843), casado primeiro com Augusta Murray; com descendência. Casado depois com Lady Ceciia Underwood; sem descendência.
  10. Adolfo, Duque de Cambridge (24 de fevereiro de 1774 - 8 de julho de 1850), casado com a landegravina Augusta de Hesse-Cassel; com descendência.
  11. Maria do Reino Unido (25 de abril de 1776 - 30 de abril de 1857), casada com o duque Frederico Guilherme de Gloucester e Edimburgo; sem descendência.
  12. Sofia do Reino Unido (3 de novembro de 1777 - 27 de maio de 1848), nunca se casou, mas é provável que tenha tido um filho ilegítimo.
  13. Otávio da Grã-Bretanha (23 de fevereiro de 1779 - 3 de maio de 1783), morreu na infância.
  14. Alfredo da Grã-Bretanha (22 de setembro de 1780 - 20 de agosto de 1782), morreu na infância.
  15. Amélia do Reino Unido (7 de agosto de 1783 - 2 de novembro de 1810), morreu solteira e sem descendência.

Homenagens[editar | editar código-fonte]

Em sua homenagem, foram batizados os seguintes lugares:

Genealogia[editar | editar código-fonte]

Os antepassados de Carlota de Mecklemburgo-Strelitz em três gerações
Carlota de Mecklemburgo-Strelitz Pai:
Carlos Luís Frederico de Mecklemburgo-Strelitz
Avô paterno:
Adolfo Frederico II de Mecklemburgo-Strelitz
Bisavô paterno:
Adolfo Frederico I de Mecklemburgo
Bisavó paterna:
Maria Catarina de Brunswick-Dannenberg
Avó paterna:
Cristiana Emília de Schwarzburg-Sondershausen
Bisavô paterno:
Cristiano Guilherme I de Schwarzburg-Sondershausen
Bisavó paterna:
Antónia Sibila de Barby-Mühlingen
Mãe:
Isabel Albertina de Saxe-Hildburghausen
Avô materno:
Ernesto Frederico I de Saxe-Hildburghausen
Bisavô materno:
Ernesto de Saxe-Hildburghausen
Bisavó materna:
Sofia de Waldeck
Avó materna:
Sofia Albertina de Erbach-Erbach
Bisavô materno:
Jorge Luís I de Erbach-Erbach
Bisavó materna:
Amália Catarina de Waldeck-Eisenberg

Notas e referências

  1. Percy Hetherington Fitzgerald: The good Queen Charlotte, 1899; pág. 7
  2. Charlotte Louise Henrietta Papendiek: Court and private life in the time of Queen Charlotte, 1887; pág. 3
  3. Percy Hetherington Fitzgerald: The good Queen Charlotte, 1899; pág. 7
  4. Charlotte Louise Henrietta Papendiek: Court and private life in the time of Queen Charlotte, 1887; pág. 9
  5. Charlotte Louise Henrietta Papendiek: Court and private life in the time of Queen Charlotte, 1887; págs. 2-3
  6. Charlotte Louise Henrietta Papendiek: Court and private life in the time of Queen Charlotte, 1887; pág. 9
  7. Charlotte Louise Henrietta Papendiek: Court and private life in the time of Queen Charlotte, 1887; pág. 4
  8. Charlotte Louise Henrietta Papendiek: Court and private life in the time of Queen Charlotte, 1887; pág. 9
  9. Charlotte Louise Henrietta Papendiek: Court and private life in the time of Queen Charlotte, 1887; pág. 6
  10. Percy Hetherington Fitzgerald: The good Queen Charlotte, 1899; págs. 32-33
  11. Percy Hetherington Fitzgerald: The good Queen Charlotte, 1899; page 51
  12. Percy Hetherington Fitzgerald: The good Queen Charlotte, 1899; págs. 51-52
  13. Percy Hetherington Fitzgerald: The good Queen Charlotte, 1899; page 52
  14. Charlotte Louise Henrietta Papendiek: Court and private life in the time of Queen Charlotte, 1887; pág. 27
  15. Nash, p. 18
  16. Em 1775, um decreto do parlamento estabeleceu que a propriedade pertencia à rainha Carlota em troca dos seus direitos em Somerset House.
  17. Westminster: Buckingham Palace, Old and New London: Volume 4 (1878), pp. 61–74. Consultado a 15 de Fevereiro de 2012. Ainda existe a tradição de enviar os embaixadores estrangeiros para a "corte de St. James", apesar de ser no Palácio de Buckingham que apresentam as suas credenciais e pessoal à rainha quando são nomeados.
  18. Otto Jahn, Sir George Grove: Life of Mozart, Volume 1, 1882, page 39
  19. Engel, Louis: From Mozart to Mario: Reminiscences of half a century, Volume 1, 1886, page 275
  20. Engel, Louis: From Mozart to Mario: Reminiscences of half a century, Volume 1, 1886, page 39
  21. Franz Eduard Gehring: Mozart, 1911, pág. 18
  22. Murray, John: A handbook for travellers in Surrey, Hampshire, and the Isle of Wight, 1876, page 130-131
  23. Missouri Botanical Garden: Missouri Botanical Garden bulletin, Volume 10, 1922, pág. 27
  24. Levey, p.4
  25. Levey, pp.7–8
  26. Levey, p.7
  27. Levey, p.15
  28. Fraser, Antonia: Marie Antoinette: The Journey, 2001; pág. 287
  29. Baker, Kenneth (2005). George IV: A Life in Caricature. London: Thames & Hudson. ISBN 9780500251270. p.114.
  30. PBS - The blurred racial lines of famous families - Queen Charlotte
  31. Na verdade, o barão Christian Friedrich Freiherr von Stockmar era médico pessoal da rainha Vitória, mas sim do príncipe Leopoldo de Saxe-Coburgo-Gota na altura em que este se casou com a sua neta, a princesa Carlota de Gales, em 1816.
  32. PBS - The blurred racial lines of famous families - Queen Charlotte
  33. Descendente da bélica raça vândala
    Ainda preserva tal título no rosto.
    Nele brilhavam os seus triunfos nas planícies da Numídia
    E os campos da Andaluzia ainda mantêm o seu nome;
    Submeteram o mundo do sul com as suas armas
    Ela ainda conquista com os seus encantos triunfantes
    Ó! Nascida para governar, - a cuja testa vitoriosa
    O maior monarca do norte tem de se curvar.
  34. Erich Bauer, F. A. Pietzsch, Kritisches zur Anfangsgeschichte der Göttinger und Heidelberger Vandalia. Einst und Jetzt 10 (1965), S. 10
  35. Albert Krantz, Wandalia oder Beschreibung Wendischer Geschicht, 1636
  36. Stuart Jeffries, "Was this Britain's first black queen?" The Guardian, 12 de Março de 2009.
  37. Duarte Nunes de Leão,Crónica d'El Rei Dom Afonso III, 1600; modern edition: Duarte Nunes de Leão, Crónica dos Reis de Portugal, Porto, Lello & Irmão, 1975.
  38. Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de Sintra, 3 vols., Lisbon, Imprensa Nacional-Casa de Moeda, 1973; António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Coimbra, Atlântida-Livraria Editora, 1946; Felgueiras Gayo & Carvalhos de Basto, Nobiliário das Famílias de Portugal, Braga, 1989; José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, Linhagens Medievais Portuguesas, 3 vols., Porto, Universidade Moderna, 1999; Manuel Abranches de Soveral, "Origem dos Souza ditos do Prado", in Machado de Vila Pouca de Aguiar. Ascendências e parentescos da Casa do Couto d'Além em Soutelo de Aguiar, Porto, 2000.
  39. PBS - The blurred racial lines of famous families - Queen Charlotte
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Casa de Mecklemburgo-Strelitz
Ramo da Casa de Mecklemburgo
19 de maio de 1744 – 17 de novembro de 1818
Precedida por
Carolina de Ansbach
Coat of Arms of Charlotte of Mecklenburg-Strelitz.svg
Consorte do Reino Unido e Hanôver
8 de novembro de 1761 – 17 de novembro de 1818
Sucedida por
Carolina de Brunsvique