Ex-gay

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"Ex-gay" é um termo utilizado por pessoas e/ou organizações que propõem ser possível eliminar os desejos homossexuais e desenvolver desejos heterossexuais em pessoas que estão em conflito em relação a sua atração pelo mesmo sexo ou que tentam se abster de praticar relações com indivíduos do mesmo sexo. O termo também é usado para descrever pessoas que eram consideradas como homossexuais ou bissexuais, mas que já não consideram essa a sua identidade atual. Quando o termo foi introduzido na literatura profissional, em 1980, E. Mansell Pattison definiu como descrever uma pessoa que "passou por uma mudança de base na orientação sexual."[1]

Muitas organizações de saúde mental afirmam que ser homossexual ou bissexual é compatível com uma saúde mental e um ajustamento social completamente normais.[2] Devido a isso, as principais organizações de saúde mental profissional não incentivam que as pessoas tentem alterar a sua orientação sexual de homossexual para heterossexual e avisam que a tentativa de fazer isso pode ser prejudicial.[3] [4] Durante audiências sobre a Lei de Defesa do Matrimônio em 23 de fevereiro de 2011, o procurador-geral dos Estados Unidos escreveu ao presidente da Câmara dos Representantes indicando que há um crescente consenso científico de que a orientação sexual é uma característica imutável.[5]

Grupos ex-gays[editar | editar código-fonte]

Os chamados grupos "ex-gays" são organizações, geralmente ligadas a grupos religiosos cristãos fundamentalistas,[6] como também a judeus e muçulmanos,[7] [8] que afirmam ser possível alterar a orientação sexual de um determinado indivíduo.

Um exemplo desse tipo de organização é a Exodus International, que em seu site oficial se define como "uma organização cristã dedicada a equipar e unir, grupos e indivíduos, para comunicar eficazmente a mensagem de liberdade da homossexualidade, bem como transmitir apoio e compreensão para indivíduos que enfrentam a realidade de um ente querido homossexual." A entidade crê na reorientação da atração do mesmo sexo e possui uma unidade no Brasil.[9] [10] Em julho de 2012, no entanto, a organização anunciou que iria abandonar a prática da "terapia reparativa" devido a falta de provas da eficácia desse tipo de procedimento.[11]

Outro exemplo é a Associação Nacional de Pesquisa e Terapia da Homossexualidade (NARTH - sigla em inglês), uma organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos que se define como uma "organização científica profissional que oferece esperança para aqueles que lutam com uma homossexualidade indesejada." A associação oferece terapia de reorientação sexual e outros procedimentos que se propõem a mudar a orientação sexual de indivíduos homossexuais que não estão satisfeitos com a sua condição.[12] Segundo seu website, a NARTH defende os direitos das pessoas com atração homossexual indesejada de receber atendimento psicológico eficaz, bem como o direito de profissionais em oferecer esse atendimento.[12] A entidade não se considera uma organização antigay. Também não se considera religiosa,[13] apesar de NARTH frequentemente fazer parcerias com grupos religiosos.[6] O People Can Change (Pessoas Podem Mudar) é outro grupo que diz fornecer material de apoio àqueles que estão insatisfeitos com os desejos por pessoas do mesmo sexo.[14]

Nos Estados Unidos, um dos exemplos mais citados é o de Michael Glatze, um dos fundadores da revista Young Gay America, que afirma ter mudado a sua orientação sexual.[15] Segundo uma declaração de Glatze, sua transformação se deu através de sua conversão ao cristianismo.[16]

No Brasil, alguns movimentos pára-eclesiásticos, ou seja, criados para servirem às igrejas, mas geralmente sem bandeira denominacional, também têm promovido a ideia de que a homossexualidade é uma característica mutável. Alguns exemplos são o Exodus, o Grupo de Amigos (GA), o Ministério Deus se Importa, o Movimento Pela Sexualidade Sadia (MOSES), entre outros grupos brasileiros que propõem ser possível reverter o comportamento homossexual.[17]

Críticas[editar | editar código-fonte]

No Brasil, Sergio Viula, um dos fundadores do Movimento Pela Sexualidade Sadia (MOSES), grupo brasileiro que propõe ser possível reverter o comportamento homossexual, e ex-pastor batista, concedeu uma entrevista à revista Época afirmando que os movimentos que prometem uma reversão da orientação sexual de uma pessoa são falsos e que tais tratamentos não funcionam. Depois de romper com o MOSES, Viula divorciou-se da esposa e assumiu a sua homossexualidade.[17]

Outro exemplo de oposição dentro dos próprios grupos de ex-gay aconteceu em 2007, quado o co-fundador, Michael Bussee, e outros ex-líderes da organização de ex-gays Exodus Internacional, grupo cristão que promove reversões de homossexuais (ver acima), emitiram um pedido de desculpas público e formal por seu trabalho como líderes ex-gays e os danos que causaram aos que tentaram ajudar.[18] Em 2010, Busse afirmou: "Eu nunca vi um de nossos membros ou outros líderes da Exodus se tornarem heterossexuais, então no fundo eu sabia que não era verdade." Wayne Besen, um americano que também foi um dos líderes da Exodus por cerca de oito anos, saiu da entidade, tornou-se um militante na luta contra tratamentos de reversão sexual, assumiu a sua homossexualidade e casou-de com um homem, sendo um dos mais proeminentes exemplos atuais de ex-ex-gay.[19] [20]

Entre a comunidade científica há um consenso cada vez maior de que orientação sexual humana é uma característica que não pode ser alterada[5] e de que a homossexualidade e a bissexualidade são atributos normais e saudáveis, assim como a heterossexualidade.[2]

Terapia de reorientação sexual[editar | editar código-fonte]

Algumas entidades ex-gay, como a Exodus International recomendam aos seus membros que se comprometam em esforços de mudança da orientação sexual através da terapia de conversão.[21] No entanto, a Exodus adverte contra conselheiros que dizem ao paciente que ele "pode eliminar definitivamente todas as atrações pelo o mesmo gênero ou que pode adquirir definitivamente atrações heteroeróticas."[22] A Evergreen International não defende qualquer forma específica de terapia[23] e adverte que "a terapia provavelmente não será uma cura no sentido de apagar todos os sentimentos homossexuais."[24]

Muitas organizações de saúde mental adotaram declarações políticas advertindo profissionais e o público sobre os perigos de tratamentos que se propõem a mudar a orientação sexual de um indivíduo. Estas incluem a Associação Americana de Psiquiatria,[25] Associação Americana de Psicologia,[2] Associação Nacional dos Trabalhadores Sociais dos Estados Unidos,[26] Associação Americana de Aconselhamento, o Royal College of Psychiatrists,[27] Sociedade Australiana de Psicologia[28] e o Conselho Federal de Psicologia do Brasil.[29] [30] A Associação Americana de Psicologia e o Royal College of Psychiatrists expressaram que as posições defendidas por grupos como a NARTH não são apoiadas pela ciência e criam um ambiente no qual o preconceito e a discriminação podem florescer.[4] [27] [30]

O terapeuta e professor de psicologia clínica da Universidade de Basileia, na Suíça, Udo Rauchfleisch, afirma que a verdadeira orientação sexual da pessoa, com seus sentimentos entrelaçados, com suas fantasias eróticas e sexuais, assim como com suas preferências sociais, não permitem modificação.[31]

Controvérsias em relação a adolescentes[editar | editar código-fonte]

Um aspecto controverso do movimento ex-gay tem sido o foco de algumas dessas organizações em adolescentes, incluindo ocasiões onde os jovens foram obrigados a comparecer a campos ex-gay por seus pais. Um relatório de 2006 publicado pelo Grupo de Trabalho Nacional Gay descreveu evidências de que algumas organizações ex-gay e grupos de terapia de conversão estavam, na época, cada vez mais com focados em crianças.[32]

A organização ex-gay Love in Action esteve envolvida em uma polêmica em torno de um adolescente. Em julho de 2005, o The New York Times publicou uma reportagem especial sobre Zachary Stark, um garoto de 16 anos de idade cujos pais o forçaram a participar de um acampamento de ex-gay mantido pela entidade.[33] Em julho de 2005, Stark foi internado no campo. Uma investigação do local pelo Departamento de Serviços Infantis do Tennessee não revelou sinais de abuso infantil.[34]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Throckmorton, Warren. (June 2002). "Initial empirical and clinical findings concerning the change process for ex-gays". Professional Psychology: Research and Practice 33 (3): 242–248 pp.. Associação Americana de Psicologia. DOI:10.1037/0735-7028.33.3.242.
  2. a b c Associação Americana de Psicologia: Resolution on Appropriate Affirmative Responses to Sexual Orientation Distress and Change Efforts (em inglês)
  3. Just the Facts about Sexual Orientation & Youth. American Psychological Association. Página visitada em 02/04/2011.
  4. a b Statement of the American Psychological Association
  5. a b Carta do procurador-geral dos Estados Unidos ao presidente da Câmara de Representantes dos EUA, RE: DOMA, 23 de fevereiro de 2011 "Em segundo lugar, enquanto a orientação sexual não carrega nenhuma distinção visível, um crescente consenso científico aceita que a orientação sexual é um característica que é imutável."
  6. a b Yoshino, Kenji (2002), "Covering", Yale Law Journal 111 (4)
  7. JONAH'S Mission Statement. Acessado em 6 de abril de 2007.
  8. News from JONAH
  9. Exodus Internacional
  10. Exodus Brasil
  11. Paulo Lopes (2 de julho de 2012). Paulo Lopes: Grupo cristão internacional anuncia ter desistido da ‘cura' de gay. Página visitada em 5 de janeiro de 2012.
  12. a b Missão da NARTH
  13. Equívocos sobre a NARTH
  14. Testemunhos do Grupo People Can Change
  15. (PDF) Interview with Michael Glatze, http://narth.com/docs/glatze.pdf, visitado em 23/09/2008 
  16. Ex-Gay defende o relacionamento com o Deus
  17. a b Gisela Anauate. Revista ÉpocaLibertando-se do armário - Sergio Viula, um dos criadores do grupo que defende a "cura" da homossexualidade, se assume como gay e diz que tratamento é uma farsa. Página visitada em 31 de maio de 2011.
  18. Artigo do Channel 7 News, "Former leaders of ex-gay ministry apologize for 'bringing harm' and causing shame", 28 de junho de 2007, author unknown, retrieved from http://www3.whdh.com/news/articles/national/BO55979/ on January 07, 2008
  19. Cooperman, Alan. "Ads Renew Ex-gay Debate", 2002-10-21.
  20. Wayne Besen.com: About Wayne. Página visitada em 14 de janeiro de 2012.
  21. Exodus International Policy Statements, Exodus International. Acessado em 4 de julho de 2007.
  22. January 11, 2010 (11 de janeiro de 2010). How to Find the Right Counselor for You – Exodus International. Exodusinternational.org. Página visitada em 13 de novembro de 2011.
  23. Evergreen Myths The Bottom Line: Evergreen does not advocate any particular form of therapy."
  24. Therapy-Evergreen International-Helping Latter-Day Saints overcome same-sex attraction (homosexuality). Evergreeninternational.org. Página visitada em 13 de novembro de 2011.
  25. Jason Cianciotto and Sean Cahill (2006). Youth in the crosshairs: the third wave of ex-gay activism. New York: National Gay and Lesbian Task Force Policy Institute.
  26. Expert affidavit of Gregory M. Herek, Ph.D.
  27. a b BBC Brasil. Terapeutas oferecem 'tratamento' para gays, diz estudo. Página visitada em 2-12-2010.
  28. Australian Psychological Society: Sexual orientation and homosexuality
  29. Conselho Federal de Psicologia (22 de março de 1999). RESOLUÇÃO CFP N° 001/99. Página visitada em 16 de janeiro de 2012.
  30. a b Correio Braziliense. Há 20 anos, a OMS tirou a homossexualidade da relação de doenças mentais: Uma conquista celebrada por organizações sociais de todo o planeta. Página visitada em 7 de dezembro de 2010.
  31. Prof. Dr. Udo Rauchfleisch. Ist eine sexuelle Orientierung «heilbar»?. Página visitada em 31 de maio de 2011.
  32. Cianciotto, J.; Cahill, S. (2006). Youth in the crosshairs: the third wave of ex-gay activism (PDF). National Gay and Lesbian Task Force. Página visitada em 2007-08-29.
  33. Williams, Alex. "Gay Teenager Stirs a Storm", New York Times, July 17, 2005. Página visitada em 2007-10-06.
  34. Palazzolo, Rose (28 de junho de 2005). Ex-Gay Camp Investigation Called Off – ABC News. Abcnews.go.com. Página visitada em 13 de novembro de 2011.