Gamo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Como ler uma caixa taxonómicaGamo
Macho com pelagem mosqueada, de Verão

Macho com pelagem mosqueada, de Verão
Estado de conservação
Status iucn2.3 LC pt.svg
Pouco preocupante
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Artiodactyla
Família: Cervidae
Subfamília: Cervinae
Género: Dama
Espécie: D. dama
Nome binomial
Dama dama
Linnaeus, 1758)
Distribuição geográfica
1: Nativo2: Possivelmente nativo3: Introduzido pelo homem antes de 19004: Introduzido pelo homem recentemente
1: Nativo
2: Possivelmente nativo
3: Introduzido pelo homem antes de 1900
4: Introduzido pelo homem recentemente

O gamo (Dama dama) é um mamífero ruminante, pertencente à família Cervidae, apresentando características idênticas ao veado, tendo porém, a cauda comprida e a parte superior das hastes achatadas e palmadas. A espécie é nativa na Turquia, Irão e sul da Europa (Braza, 2010), nomeadamente na Itália, Sicília e na Península Balcânica. Estes locais foram os refúgios da espécie no tempo pós-glacial da história da Terra (Chapman e Chapman, 1980); Masseti, 1996, 1999 e 2002). Actualmente, apenas se encontra uma população em estado selvagem no Parque Nacional Termessos, no sul da Turquia. 87 A espécie foi introduzida no Mediterrâneo Ocidental pelos fenícios e na Europa Central e do Norte pelos romanos e normandos. No entanto, a maioria das populações existentes actualmente na Europa resultam de introduções muito mais recentes. Em Portugal, a maioria dos gamos encontram-se dentro de áreas limitadas, tais como parques e zonas de caça privadas. Apesar de haver alguns animais dispersos, não há registos de populações selvagens (Cabral et al., 2005).

Descrição física[editar | editar código-fonte]

O gamo anatomicamente possui um pescoço comprido e fino, com o focinho longo e orelhas grandes (Palomo et al., 2007). A pelagem do gamo é variável ao longo do ano. No Inverno, a pelagem é negra e as manchas da pelagem dorsal são também escuras, sendo a região ventral a única parte em que se encontra branca. No Verão, o pêlo é castanho-avermelhado com as manchas dorsais brancas bem delineadas no dorso e nos lados. O ventre mantem-se branco ao longo de todo o ano. Na linha mediada do dorso, existe uma linha de pêlo de coloração castanha que vai escurecendo até à cauda (sendo que na cauda já é completamente negra). A cabeça e a região do interior dos membros geralmente não possuem manchas (Cabrera, 1994). Esta espécie apresenta dimorfismo sexual evidente. Os machos apresentam hastes, as quais aumentam na sua complexidade e tamanho durante o crescimento. Nos jovens gamos machos (entre um e dois anos) as hastes são chamadas de varetos e têm entre 5 a 13 cm de comprimento. Nos machos adultos as hastes têm um comprimento total entre 50 a 70cm e 7 a 20 cm de largura (Blanco, 1998). Contrariamente, as fêmeas não possuem hastes. O desmogue, isto é, a queda das hastes, ocorre anualmente na Primavera, e estas começam a crescer logo após a sua queda, estando no seu auge de crescimento no início do Verão. Este fenómeno ocorre ao longo da vida do animal, no entanto, em idade mais avançada, as hastes não crescem tão criteriosamente (Blanco, 1998). A genitália, em ambos os sexos, é caracterizada por uma porção relevante de pêlo que tem como principal função a protecção e a identificação do sexo entre os 88 indivíduos. Os machos possuem glândula odorífera junto ao pénis (McElligott et al., 2001). A nível sensorial, o gamo possui a audição e o olfacto muito bem desenvolvidos, bem como a sua visão, que é a cores. Geneticamente são seres diplóides (2n) com 68 cromossomas (McElligott et al., 2001).

Ecologia e comportamento[editar | editar código-fonte]

O gamo não é um animal territorial. Tendo abundância em alimento e se não for perturbado, não se desloca grandes distâncias. Porém, os machos dispersam mais que as fêmeas, variando a sua área de actividade ao longo do ano (consoante a vegetação fornecida naquela região). O gamo é um animal herbívoro, usando pastos e consumindo rebentos e frutos de árvores na sua alimentação. No entanto, a sua dieta está dependente da estação do ano em que se encontra e da disponibilidade alimentar, pelo que a sua alimentação no Verão passa por arbustos, frutos e hortícolas e no Inverno passa essencialmente por raízes e cereais (Reby et al., 1998). O alimento é encontrado essencialmente em espaços abertos, o que conduz a uma maior probabilidade de serem predados. Para contrariar este efeito, o gamo alimenta-se em grupo, ao amanhecer ou ao anoitecer (Reby et al., 1998). Os gamos são animais sociáveis e gregários, apresentando uma organização social maleável, estando a maior parte do ano com indivíduos do mesmo sexo ou então formando pequenos grupos com indivíduos dos dois géneros. A hierarquização é mais evidente no grupo das fêmeas (que poderá ter crias de ambos os sexos), sendo este normalmente dirigido por uma fêmea dominante. No grupo dos machos, que é composto essencialmente por adultos e alguns juvenis, a hierarquização é menos estruturada (Masseti, 1999). 89

Reprodução[editar | editar código-fonte]

Os gamos são animais polígamos. Notoriamente, na época de reprodução são formados grupos com machos e fêmeas, constituído em regra por várias fêmeas e um único macho. Por vezes, o grupo poderá ter mais do que um macho, no entanto, um deles é dominante (Braza, 2010). O macho é sexualmente activo, em média, aos dez meses e as fêmeas aos dezasseis meses. A época de reprodução ocorre essencialmente no Outono, no entanto, os machos permanecem férteis durante seis meses, pelo que poderá atrasar a época reprodutiva. Os gamos têm apenas uma ninhada por ano. Nesta época os machos são mais territoriais, competindo com outros machos e emitindo vocalizações com o objectivo de sinalizar a sua presença e atrair potenciais fêmeas. A condição corporal, a destacar o tamanho das hastes, é um dos principais factores de selecção das fêmeas para a procriação, pois um macho com hastes de maior tamanho é o que geralmente apresenta uma maior força corporal e virilidade. Assim, a selecção sexual actua no dimorfismo sexual da espécie (Masseti, 2002). A cópula é muito rápida e a gestação dura cerca de oito meses, nascendo normalmente apenas uma cria. Esta é mantida escondida nos primeiros dias de vida, apenas estabelecendo relação com a progenitora para a alimentar. O desmame ocorre às doze semanas de vida, sendo que a partir desse momento, a cria é integrada no grupo e os cuidados parentais são realizados exclusivamente pela progenitora (McElligott et al., 2001).

Factores de Ameaça[editar | editar código-fonte]

O gamo não apresenta grandes ameaças na Europa. Na área de distribuição onde a espécie é nativa (Turquia, Irão e sul da Europa), a caça e a conversão do habitat para a agricultura provocou quedas enormes no passado (Arslangündoğdu, 2010). A mortalidade desta espécie em Portugal é caracterizada essencialmente pela caça ou pela velhice (mortalidade natural), podendo também morrer de acidente ao atravessar estradas (Maia, 2001). 90 São animais resistentes a doenças e parasitas, no entanto, destacam-se os helmintes que diminuem as funções vitais do hospedeiro (gamo), podendo provocar a sua morte (Maia, 2001).

Conservação[editar | editar código-fonte]

O gamo está classificado com estatuto de conservação pouco preocupante (LC), segundo a Lista Vermelha da IUCN (Masseti & Mertzanidou (2008), tanto em Portugal como a nível internacional. O gamo encontra-se protegido em várias zonas de áreas protegidas por toda a Europa. O gamo faz parte da cadeia alimentar de vários predadores carnívoros, nomeadamente o lobo-ibérico (Canis lupus signatus) e o lince-ibérico (Lynx pardinus). Importância cultural e económica A relação que esta espécie tem com o homem é essencialmente cinegética, pois é usada como troféu de caça. Os machos são mais caçados que as fêmeas por ostentarem as hastes, existindo uma relação proporcional entre o tamanho das hastes e a posição de classificação dos caçadores. Em Portugal, o gamo também tem importância cinegética, pertencendo à lista de caça maior dos animais que se pode legalmente caçar.

Referências

[1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9] [10] [11] [12] [13] [14] [15]


Ícone de esboço Este artigo sobre artiodáctilos, integrado no Projeto Mamíferos é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.
  1. Appollonio, M. (1999). Dama dama. In: A. J. Mitchell-Jones, G. Amori, W. Bogdanowicz, B. Kryštufek, P. J. H. Reijnders, F. Spitzenberger, M. Stübbe, J. B. M. Thissen, V. Vohralík and J. Zima (eds), The Atlas of European Mammals, Academic Press, London, UK.
  2. Arslangündoğdu, Z. (2010). Development of the population of the European Fallow Deer, Dama dama dama (Linnaeus, 1758), in Turkey: (Mammalia: Cervidae). Zoology in the …. Retrieved from http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/09397140.2010.10638383
  3. Blanco, J. (1998). Mamíferos de España II. Cetáceos, Artiodáctilos, Roedores y. Retrieved from http://www.lavoisier.fr/livre/notice.asp?ouvrage=2410302
  4. Braza, F. (2010). Gamo–Dama dama (Linnaeus, 1758). vertebradosibericos.org. Retrieved from http://www.vertebradosibericos.org/mamiferos/pdf/damdam.pdf
  5. Cabral, M. J., Almeida, J., Almeida, P. R., Dellinger, T., Ferrand de Almeida, N., Oliveira, M. E., Palmeirim, J. M., Queiroz, A. I., Rogado, L. and Santos-Reis, M. (eds). (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa
  6. Cabrera, A. (1914). Fauna ibérica: mamíferos (Ulan Press., p. 512). Madrid - España: Museo Nacional de Ciencias Naturales. Retrieved from http://scholar.google.pt/scholar?q=Fauna+Ibérica+-+Mamíferos.+Instituto+Nacional+de+Ciências+Físico-Naturales.+Museo+Nacional+de+Ciências+Naturales,+Madrid&btnG=&hl=pt-PT&as_sdt=0,5#0
  7. Chapman, N. G. and Chapman, D. I. (1980). The distribution of fallow deer: a worldwide review. Mammal Review 10: 61-138.
  8. Maia, M. (2001). Helmintofauna do veado (Cervus elaphus L.) e do gamo (Dama dama L.) na Tapada Nacional de Mafra The Helminth Fauna of the red deer (Cervus elaphus L. fmv.utl.pt. Retrieved from http://www.fmv.utl.pt/spcv/PDF/pdf6_2001/Helminto.pdf
  9. Masseti, M. (1996). The postglacial diffusion of the genus Dama Frisch, 1775, in the Mediterranean region. Supplement. Ricerche Biologia Selvaggina 25: 7-29.
  10. Masseti, M. (1999). The European fallow deer Dama dama L., 1758, in the Aegean region.Contributions to the Zoogeography and Ecology of the Eastern Mediterranean Region 1: 17-30.
  11. Masseti, M. (2002). Island of Deer. Natural History of the Fallow Deer of Rhodes and of the Vertebrates of the Dodecanese (Greece). City of Rhodes Environment Organisation, Rhodes, Greece.
  12. Masseti, M. & Mertzanidou, D. 2008. Dama dama. In: IUCN 2013. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2013.2.
  13. McElligott, A., Gammell, M., & Harty, H. (2001). Sexual size dimorphism in fallow deer (Dama dama): do larger, heavier males gain greater mating success? Behavioral Ecology and …. Retrieved from http://link.springer.com/article/10.1007/s002650000293
  14. Palomo, L. J., Gisbert , J. y Blanco, J. C. (2007). Atlas de los mamíferos terrestres de España (Dirección ., p. 558). Madrid, España. Retrieved from http://scholar.google.pt/scholar?q=Atlas+de+los+Mamíferos+Terrestres+de+España&btnG=&hl=pt-PT&as_sdt=0,5#2
  15. Reby, D., Joachim, J., & Lauga, J. (1998). Individuality in the groans of fallow deer (Dama dama) bucks. Journal of …. Retrieved from http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1469-7998.1998.tb00074.x/abstract