Purgatório

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Imagem do purgatório no livro de orações Très Riches Heures du Duc de Berry

Purgatório é a condição e processo de purificação ou castigo temporário[1] em que as almas daqueles que morrem em estado de graça são preparadas para o Reino dos céus.[2] A noção de purgatório é particularmente associada com o Rito Latino da Igreja Católica, também presente nas igrejas orientais católicas (embora muitas vezes sem usar o termo específico de "Purgatório"); os Anglo-católicos geralmente também professam a crença. As Igrejas Ortodoxas acreditam na possibilidade de purificação das almas dos mortos, através das orações dos vivos e pela oferta da Divina Liturgia, [3] e muitos ortodoxos, especialmente entre os ascetas, na espera da apocatástase. [4] Uma opinião semelhante, que admite a possibilidade de uma salvação final é registrada no Mormonismo. [5] O Judaísmo também acredita na possibilidade da purificação após a morte[6] e pode usar a palavra "purgatório" para apresentar a sua compreensão do significado da Geena. [7] No entanto, o conceito "purificação" da alma pode ser negado explicitamente em outras tradições de fé.

A palavra "purgatório" passou a se referir também a uma ampla gama de concepções históricas e modernas de sofrimento pós-morte, [1] e é usado, em um sentido não-específico, para qualquer lugar ou condição de sofrimento ou tormento, especialmente um que é temporário.[8] A cultura popular também apresenta a concepção do purgatório como um lugar físico,[1] embora a Igreja (catolica) ensine que o Purgatório não indica um lugar, mas "uma condição de existência".[9]

História[editar | editar código-fonte]

A tradição católica do purgatório tem uma história que remonta, antes de Jesus, à crença encontrada no judaísmo de rezar pelos mortos, [10] [11] especula-se que o cristianismo pode ter tomado a sua prática similar. A Crença católica do purgatório se baseia, entre outras razões, sobre esta prática da oração pelos mortos.[12] .

Os católicos consideram que o ensino sobre o purgatório faz parte integrante da fé derivada da revelação de Jesus Cristo que foi pregada pelos apóstolos. Definições dogmáticas foram proclamadas pelos Segundo Concílio de Lyon (1274), o Concílio de Florença (1438-1445), e o Concílio de Trento (1545-63 ).[1]

Purgatório no catolicismo[editar | editar código-fonte]

A Igreja Católica dá o nome de Purgatório à purificação das almas que morrem na graça de Deus e na sua amizade, mas ainda são imperfeitas e portanto precisam ser purificadas.[13] Durante os anos da sua vida conventual, a freira carmelita Maria Anna Lindmayr recebeu inúmeras revelações particulares por parte das almas do purgatório e os seus escritos cedo se consideraram como um importante legado sobre essa matéria para os fiéis da Igreja Católica.

Céu, inferno e Purgatório[editar | editar código-fonte]

Segundo a doutrina católica, imediatamente após a morte, uma pessoa sofre o julgamento particular em que o destino da alma é especificado. No purgatório, as almas "obtém a santidade necessária para entrar na alegria do céu”. Alguns se unem com Deus no Paraíso, e em contrapartida, outros são destinados ao Inferno, sendo o inferno a morada de Satanás e de pessoas que em vida faziam muito mal ao próximo, viviam no meio do pecado, e nunca chegará a se redimir, pedir perdão sobre seus atos a Deus e tentar uma vida melhor, e ainda,lugar onde por toda eternidade pagará seus pecados e o céu seria um lugar divino, onde as pessoas que, seguiram os preceitos de Deus e propagaram a palavra, estariam na "vida eterna". No entanto, segundo a crença católica, algumas almas não estão suficientemente livres do pecado e suas conseqüências para entrar imediatamente no Paraíso, tais almas, em última análise, estão destinadas a se unirem com Deus no céu, e para isso devem passar pelo estado de purificação do purgatório. Algumas conseguiram, outras não, e por conseqüência será mandada diretamente ao inferno, condenada à tortura eterna

Pecados[editar | editar código-fonte]

O catolicismo distingue entre dois tipos de pecado [14] , o pecado mortal é uma "grave violação da lei de Deus", que "coloca o homem longe de Deus", [15] e se não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, resulta na sua exclusão do Reino de Deus e a punição no inferno. [16] Em contraste, o pecado venial (que significa "pecado perdoável”) "não nos coloca em oposição direta com a vontade e amizade de Deus" [17] e, embora "constitua uma desordem moral", [18] não priva o pecador da amizade com Deus e, conseqüentemente, da felicidade eterna do céu.[17]

De acordo com o catolicismo, o perdão dos pecados e a purificação podem ocorrer durante a vida, por exemplo, no Sacramento do Batismo [19] e no Sacramento da Penitência. [20] No entanto, se esta purificação não é atingida totalmente em vida, os pecados veniais podem ser purificados após a morte. [21] O nome específico dado a esta purificação dos pecados é "purgatório". [22]

Dor e fogo[editar | editar código-fonte]

Outra imagem de almas sendo purificadas pelas chamas do purgatório

O Purgatório é uma purificação que envolve um castigo doloroso, associada à idéia de fogo, semelhante ao inferno.[23] Diversos Padres da Igreja consideram 1 Coríntios 3:10-15 como evidência para a existência de um estado intermediário em que as transgressões leves são purificadas, e assim a alma será salva. [24] Santo Agostinho descreve o fogo da purificação como mais doloroso do que qualquer coisa que um homem pode sofrer em vida, [23] e o Papa Gregório I escreveu que deve haver um fogo de purificação para algumas pequenas falhas[25] . Orígenes escreveu sobre o fogo que tem de purificar a alma.[26] São Gregório de Nissa também escreveu sobre a purgação pelo fogo.[27]

Teólogos interpretaram o fogo tanto como um fogo material, embora de natureza diferente do fogo natural, como uma metáfora para um grande sofrimento espiritual[28] , que atualmente é a visão mais comum. O Catecismo da Igreja Católica fala de um “fogo purificador"[22] e cita a expressão "purgatorius ignis" (fogo purificador) usado pelo Papa Gregório Magno. Ele fala do castigo temporal pelo pecado, mesmo em vida, como uma questão de "sofrimentos e provas de todos os tipos".[29] [30]

Orações pelos mortos e Indulgências[editar | editar código-fonte]

Pintura das catacumbas de Roma, que possuem muitas inscrições e orações pelos mortos.[31]

A Igreja Católica ensina que o destino dos que estão no purgatório pode ser afetado pelas ações e intercessão dos vivos. Seu ensino se baseia na prática da oração pelos mortos mencionado em II Macabeus 12:42-46, considerada pelos católicos e ortodoxos parte da Sagrada Escritura. [32]

Além destes trechos do Antigo Testamento, a Igreja também justifica a doutrina sobre o estado de purificação final da alma na oração que o Apóstolo Paulo fez em favor de um amigo falecido, Onesíforo, nestes termos:

Que o Senhor conceda misericórdia à família de Onesíforo, porque ele muitas vezes me confortou e não se envergonhou de eu estar preso; ao contrário, quando chegou a Roma, ele me procurou com insistência, até me encontrar. Que o Senhor lhe conceda misericórdia junto a Deus naquele Dia. E quanto aos serviços que ele me prestou em Éfeso, você sabe melhor do que eu.
 
Segunda Epístola a Timóteo, capítulo I, do versículo 16 ao 18.,

Orações para os mortos e indulgências na crença católica diminuem a duração do tempo que os mortos passam no purgatório. O Papa Paulo VI escreveu a indulgência é "(...) uma remissão da pena (...) através da intervenção da Igreja”. [33]

Ensinamentos católicos[editar | editar código-fonte]

O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, publicado pela primeira vez em 2005, é um resumo em forma de diálogo do Catecismo da Igreja Católica. Trata-se de purgatório no seguinte diálogo:

210. O que é o purgatório?

O Purgatório é o estado dos que morrem na amizade de Deus, com a certeza de sua salvação eterna, mas que ainda têm necessidade de purificação para entrar na felicidade do céu.

211. Como podemos ajudar a purificação das almas do purgatório?

Por causa da comunhão dos santos, os fiéis que ainda são peregrinos na terra são capazes de ajudar as almas do purgatório, oferecendo orações em sufrágio por eles, em especial o sacrifício eucarístico. Eles também os ajudam dando esmolas, indulgências e obras de penitência.


Essas duas perguntas e respostas resumem as informações nas secções 1020-1032[34] e 1054[35] do Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992, que também fala do purgatório nas seções 1472 e 1473.[36]

A doutrina do Purgatório nas Igrejas Orientais[editar | editar código-fonte]

Igrejas Católicas de Rito Oriental[editar | editar código-fonte]

As Igrejas Católicas Orientais, ou seja, Igrejas sui iuris de tradição oriental e em comunhão plena com o Papa, divergem um pouco com a Igreja Latina quanto a alguns aspectos da doutrina do Purgatório. As Igrejas orientais católicas de tradição grega geralmente não utilizam o termo “Purgatório”, ainda que concordem que exista uma “purificação final” para as almas destinadas ao céu, e que as orações dos fiéis possam ajudar os falecidos a alcançarem a santificação necessária para ingressarem no Paraíso. Na verdade, nem os membros da Igreja Latina, nem os dessas Igrejas consideram essas diferenças como pontos de disputa, mas as veem como pequenas nuances resultantes de diferentes tradições.

O tratado que formalizou a admissão da Igreja Greco-Católica Ucraniana na comunhão plena com a Igreja de Roma declara: “Não vamos debater sobre o Purgatório, mas confiamo-nos ao ensinamento da Santa Igreja”,[37] o que implica, na opinião de um teólogo da Igreja, ambas as partes podem concordar ou não sobre especulações teológicas e opiniões sobre o que se designa como Purgatório, ao passo que há um acordo pleno sobre o dogma essencial. [38] Entre a Igreja Católica de Rito Latino e algumas outras Igrejas Católicas Orientais, como a Igreja Católica Siro-Malabar, não existem divergências teológicas sobre o Purgatório.[39] [40]

Igreja Ortodoxa[editar | editar código-fonte]

A Igreja Ortodoxa admite um estado intermediário para os crentes após a morte. Ela acredita na destinação ao Céu ou ao Inferno, como indicado na Bíblia, mas que a oração pelos mortos é necessária.

Certamente não é estranho que a alma, tendo passado pelas provações e terminado benignamente o curso terreno, deva, pois, ser entronizada verdadeiramente no outro mundo, num lugar do qual passará para a eternidade. Conforme as revelações do anjo a São Macário de Alexandria, as igrejas farão especial celebração do falecido no nono dia de sua morte, já que, neste período, são apresentadas à alma as belezas do Paraíso, de modo que, só depois disso, nos 40 dias restantes, são-lhe mostrados os tormentos e horrores do Inferno, antes de ser conduzido, no 40º dia, ao lugar onde aguardará a ressurreição dos mortos e do Juízo Final
 
Frei Seraphim, “A Alma após a Morte, St. Herman Press, Platina CA. 1995.,

Por outro lado, ainda que a oração pelos defuntos seja prática comum entre os ortodoxos, a Arquidiocese Ortodoxa Grega da América assim se posiciona:

O progresso moral da alma, seja para melhor ou para pior, termina no momento da separação do corpo e da alma, naquele momento o destino definitivo da alma na vida eterna está decidido. (...) Não há nenhuma possibilidade de arrependimento, não há possibilidade de fuga, não há reencarnação e nenhum auxílio do mundo exterior. Seu lugar é decidido sempre pelo seu Criador e Juiz. A Igreja Ortodoxa não acredita no Purgatório (um lugar de purificação), ou seja, no estado intermediário após a morte no qual as almas dos salvos (aqueles que não receberam punição temporal pelos seus pecados) são purificados de toda a mancha de preparação para entrar no Céu, onde cada alma é perfeita e apta para ver a Deus. Do mesmo modo, a Igreja Ortodoxa não acredita nas indulgências como remissão de pena purgatorial. Tanto o purgatório quanto as indulgências são hipóteses sem fundamento na Bíblia ou na Igreja Antiga, e quando foram implementadas, trouxeram más práticas em detrimento das verdades vigentes da Igreja. Se Deus Todo-Poderoso em suas misericórdias muda benignamente a situação terrível do pecador [após a morte], isso é desconhecido pela Igreja de Cristo. A Igreja viveu 1500 anos sem tal hipótese.
 
Site oficial da Arquidiocese Ortodoxa Grega da América: http://www.goarch.org/ourfaith/ourfaith7076 ,

Assim, o ensinamento ortodoxo é que, todos passam por um Juízo particular imediatamente após a morte, de maneira que nem o justo, nem o injusto atinge o estado final de felicidade ou punição antes do último dia,[41] com algumas exceções para as almas extraordinariamente justas, como a Theotokos (Mãe de Deus), que foi arrebatada aos céus pelos anjos.[42] .

A Igreja Ortodoxa sustenta, no entanto, que é necessário crer num estado intermediário após a morte, no qual os crentes são aperfeiçoados e conduzidos à plena santificação, um processo de crescimento e não de punição, que alguns também têm chamado Purgatório.[43] A teologia ortodoxa geralmente se omite em relação à situação dos mortos, como envolvendo sofrimento ou fogo, embora a descreva como uma "condição terrível".[44] As almas dos fieis falecidos estão em luz e descanso, com uma antecipação da felicidade eterna; mas as almas dos ímpios estão num estado infeliz. Assim, as almas dos fiéis que partiram na esperança da ressurreição, mas "sem ter tido tempo para produzir frutos dignos de arrependimento, podem ser auxiliadas para a realização de uma bendita ressurreição [na consumação dos séculos] por orações oferecidas em seu nome, especialmente aquelas oferecidas em comunhão com a oblação do sacrifício incruento do Corpo e Sangue de Cristo, assim como pelas obras de misericórdia realizadas na fé em sua memória". [45]

O estado em que as almas passam por esta experiência é muitas vezes chamada de "Hades".[46]

A Confissão Ortodoxa de Pedro Moguila (1596-1646), traduzida por Melécio Syrigos, e adotada pelo Concílio romeno de Iaşi em 1642, professa que “muitas almas são libertas das prisões do inferno (...) por meio de boas obras e das orações da Igreja viva oferecidas a eles e, sobretudo, mediante o sacrifício incruento, que é celebrado em certos dias por todos os vivos e por todos os mortos” (Artigo 64); e, sob o título “Como se deve considerar o fogo purificador?”, o documento responde que “a Igreja realiza corretamente por eles o sacrifício incruento e as orações, ainda que não se purifiquem pelo sofrimento. A Igreja, porém, nunca sustentou o que se refere às histórias populares de alguns sobre as almas de seus mortos”. (Artigo 66).[47]

O Sínodo de Jerusalém (1672) declarou que "as almas dos que adormeceram estão em repouso ou em tormento, conforme suas obras” (gozo ou condenação que só se concluirá após a ressurreição da carne), mas as almas de alguns “partirão para o Hades, e não hão de suportar as penas devido aos pecados que cometeram. No entanto, eles estarão cientes de seu futuro, de modo que serão lançados de lá e entregues à Misericórdia Suprema, por meio das orações dos sacerdotes e das boas obras que parente fizer em seu nome do falecido; de modo especial o Sacrifício incruento redentor de muitos; que cada um ofereça-o especialmente pelos seus parentes que já dormem, e que a Igreja Católica e Apostólica, do mesmo modo, ofereça-o diariamente por todos. Naturalmente, é fato que não sabemos o tempo de sua libertação. Sabemos e cremos, porém, que há libertação para sua terrível condição, e que será antes da ressurreição comum e do Juízo, mas quando precisamente não o sabemos”. [48] Alguns ortodoxos creem na doutrina dos “mitarstava” (estágios de provações) percorridos pelas almas dos mortos. Segundo esta teoria, que é rejeitada pela maioria dos orientais – ainda que conste no hinário da Igreja[49] – “após a morte duma pessoa, a alma deixa o corpo, e é escoltada pelos anjos até Deus. Durante a viagem, a alma passa nos ares por um reino governado por demônios. A alma encontra tais demônios em vários pontos chamados de “estágios”, nos quais estes acusam-na de pecado e tentam arrastá-la para o inferno”. [50]

Protestantismo[editar | editar código-fonte]

Há inúmeras linhas doutrinárias protestantes que divergem grandemente umas das outras, porém as igrejas protestantes (como os metodistas, batistas, presbiterianos, luteranos, quadrangulares etc.), não acreditam na existência do purgatório, por considerarem o livro de II Macabeus (de onde provém o conceito de Purgatório) como deutero-canônico (ou seja, não é divinamente inspirado, mas pertence à segunda classificação de cânones). Além disso, os protestantes acreditam que a santidade deve ser buscada em vida, não podendo o homem ter seu destino mudado após a morte.

Igreja Anglicana[editar | editar código-fonte]

A Comunhão Anglicana e muitas igrejas episcopais rejeitam a doutrina do Purgatório, com exceção de alguns anglo-católicos.[51] O artigo XXII dos Trinta e Nove Artigos da Religião afirma que "A doutrina romana relativa ao Purgatório, Indulgências, Veneração e Adoração tanto de imagens como de relíquias, e também à invocação dos Santos, é uma coisa fútil e vãmente inventada, que não se funda em testemunho algum da Escritura, mas ao contrário repugna à Palavra de Deus". [52] No entanto, entre os anglo-católicos, que muitas vezes se identificam fortemente com a teologia e a liturgia católico-romana, há aqueles que aceitam a existência do purgatório. O teólogo anglicano Clive Staples Lewis disse que tinha boas razões para “lançar dúvidas sobre a ‘doutrina romana do Purgatório’, pelo que tinha se tornado: não apenas como um ‘escândalo comercial’, mas também uma imagem dum inferno passageiro, no qual as almas são atormentadas por demônios, cuja presença nos é ‘mais horrível e aflitiva que a própria dor’, e onde o espírito sofre uma tortura indizivelmente dolorosa”. Apesar disso, ele acreditava no Purgatório pormenorizado pelo Beato John Henry Newman, ex-anglicano que, em seu poema “O Sonho de Gerôncio[53] , sustenta que a religião reclama o Purgatório: processo de purificação que envolve sofrimento. [54] [55]

Igreja Metodista[editar | editar código-fonte]

As Igrejas Metodistas afirmam, em consonância com o artigo 14º dos Vinte e Cinco Artigos de Fé da Igreja Metodista que “A doutrina romana do purgatório (...) é uma invenção fútil, sem base em nenhum testemunho das Escrituras e até repugnante à Palavra de Deus”.[56] Seu fundador, John Wesley acreditava que não existe “um estado intermediário entre a morte e o juízo final, onde aqueles que rejeitaram Cristo estariam cientes de sua vinda, e os crentes iriam partilhar do ‘Seio de Abraão’ ou ‘Paraíso’, lugar no qual continuarão a crescer em santidade”. [57] [58] O Metodismo não afirma formalmente essa crença, mantendo silêncio sobre o que está reservado aos homens entre a morte e o juízo final.[59]

O Purgatório segundo Lutero[editar | editar código-fonte]

Diversamente do que se imagina, Martinho Lutero, fundador do Protestantismo, não contestou a doutrina do Purgatório nem tampouco as indulgências nas suas famosas 95 teses[60] , mas unicamente a sua venda abusiva. Treze de suas teses fazem referência direta ao Purgatório.

Nas suas alegações doutrinais, Lutero não questiona a autenticidade do Purgatório, mas a incoerência dos líderes da Igreja de Roma em lucrar com a venda de indulgências. O ex-monge criticou, por exemplo, na 10ª tese, a prática das penitências canônicas impostas pelos padres aos fiéis moribundos para que estes as cumprissem no Purgatório: "Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõem aos moribundos poenitentias canonicas ou penitências para o purgatório a fim de ali serem cumpridas."

Lutero estava convencido que os padres não tinham autoridade para transformar a penitência dos fiéis em penas a serem cumpridas no Purgatório. É o que ele sustenta na 11ª tese: "Este joio, que é o de se transformar a penitência e satisfação, previstas pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado quando os bispos se achavam dormindo".

Para ele, o Purgatório parece ser um lugar de horrores: "Este temor e espanto em si tão só, sem falar de outras cousas, bastam para causar o tormento e o horror do purgatório, pois que se avizinham da angústia do desespero". (15ª tese). No entanto, na tese seguinte, ele define-o como um lugar de "quase desespero", pouco abaixo da "certeza" do Céu.

Assim, a partir da 16ª tese, Martim Lutero define o que supõe ser o Purgatório e o estado das almas que nele se encontram: "Inferno, Purgatório e Céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza. Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, nelas também deve crescer e aumentar o amor."

Para ele, as almas que estão no Purgatório são plenamente capazes de crescerem no amor e de alcançarem méritos divinos. É isso que Lutero sustenta nas teses 18 e 19: "Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas ações e nem pela Escritura, que as almas no Purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor. Ainda parece não ter sido provado que todas as almas do Purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem por ela, não obstante nós termos absoluta certeza disto".

As críticas de Lutero não eram contra o Purgatório, mas o uso que se fazia dele para manipular os fiéis financeiramente. Sua 22ª tese vai nesse sentido: "Pensa com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas no purgatório das que segundo os cânones da Igreja deviam ter expiado e pago na presente vida”. De modo semelhante, a 25ª tese questiona a autoridade do Papa sobre as penas do Purgatório: “Exatamente o mesmo poder geral, que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d’almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular".

Na 29ª tese, Lutero demonstra acreditar que nem todas as almas do Purgatório querem, a priori, a purificação. "E quem sabe se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com São Severino e São Pascoal".

Assim, para ele, as almas do Purgatório só serão de fato purificadas quando arrependerem-se. Sua 35ª tese parece sugerir isso: "Ensinam de maneira ímpia os que alegam que aqueles que querem livrar almas do Purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar".

Para Lutero, a autoridade do Papa não se estende ao Purgatório, uma vez que não poderia livrar os fiéis das penas purificatórias. É o que ele questiona na sua 82ª tese: "Por que o Papa, movido por santíssima caridade, não tira duma só vez todas as almas do Purgatório, e em face da mais urgente necessidade das almas, que seria justíssimo motivo para tanto, quando em troca de vil dinheiro para a construção da basílica de São Pedro, livra um sem número de almas, logo por motivo bastante insignificante?".

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. a b c d Encyclopaedia Britannica
  2. Mateus 5:25-26-5,8
  3. Orthodox Confession of Faith, questions 64-66.
  4. Olivier Clément, L'Église orthodoxe. Presses Universitaries de France, 2006, Section 3, IV
  5. See, for instance, LDS Life After Death
  6. Jewish Encyclopedia: Gehenna
  7. Gehinnom
  8. Collins English Dictionary
  9. Audience of 4 August 1999
  10. Gerald O' Collins and Mario Farrugia, Catholicism: the story of Catholic Christianity (Oxford: Oxford University Press, 2003) p. 36; George Cross, "The Differentiation of the Roman and Greek Catholic Views of the Future Life", in The Biblical World (1912) p. 106; cf. Pastor I, iii. 7, also Ambrose, De Excessu fratris Satyri 80
  11. George Cross, "The Differentiation of the Roman and Greek Catholic Views of the Future Life", in The Biblical World (1912) p. 106
  12. Catechism of the Catholic Church, 1032
  13. Catechism of the Catholic Church, 1030-1031
  14. CCC 1854
  15. __P6C.HTM CCC 1855
  16. CCC 1861
  17. a b __P6C.HTM CCC 1863
  18. CCC 1875
  19. CCC 1263
  20. __P4F.HTM CCC 1468
  21. CCC 1030
  22. a b CCC 1031
  23. a b Catholic Encyclopedia on Purgatory
  24. New Advent Catholic Encyclopedia-Purgatory, http://www.newadvent.org/cathen/12575a.htm
  25. Gregory the Great [regn. A.D. 590-604], Dialogues, 4:39 (A.D. 594).
  26. Origen, Homilies on Jeremias, PG 13:445, 448 ( A.D. 244).
  27. Gregory of Nyssa, Sermon on the Dead, PG 13:445,448 (ante A.D. 394).
  28. Catholic Encyclopedia on "poena sensus"
  29. CCC 1473.
  30. (Spe salvi, 46-47).
  31. Cabrol and Leclercq, Monumenta Ecclesiæ Liturgica. Volume I: Reliquiæ Liturgicæ Vetustissimæ (Paris, 1900-2) pp. ci-cvi, cxxxix.
  32. CCC 1032
  33. Pope Paul VI, Apostolic Constitution on Indulgences, norm 5
  34. __P2N.HTM Catechism of the Catholic Church, sections 1020-1032
  35. Catechism of the Catholic Church, section 1054
  36. __P4G.HTM Catechism of the Catholic Church, sections 1472-1473
  37. Treaty of Brest, Article 5
  38. Doctrine
  39. Saint Alphonsa Syro-Malabar Catholic Church
  40. Answers from the Bishop
  41. Ted A. Campbell, Christian Confessions: a Historical Introduction (Westminster John Knox Press 1996 ISBN 0-664-25650-3), p. 54
  42. Michael Azkoul, What Are the Differences Between Orthodoxy and Roman Catholicism?
  43. Ted A. Campbell, Christian Confessions: a Historical Introduction (Westminster John Knox Press 1996 ISBN 0-664-25650-3), p. 54
  44. Confession of Dositheus, Decree 18
  45. Catechism of St. Philaret of Moscow, 372 and 376; Constas H. Demetry, Catechism of the Eastern Orthodox Church p. 37; John Meyondorff, Byzantine Theology (London: Mowbrays, 1974) p. 96; cf. "The Orthodox party ... remarked that the words quoted from the book of Maccabees, and our Saviour's words, can only prove that some sins will be forgiven after death" (OrthodoxInfo.com, The Orthodox Response to the Latin Doctrine of Purgatory)
  46. What Are the Differences Between Orthodoxy and Roman Catholicism?; Constas H. Demetry, Catechism of the Eastern Orthodox Church p. 37
  47. Introdução à História da Teologia Ortodoxa*; Battista Mondin, Teologia Ortodoxa
  48. Confessione di Dositeo (1672); Silvio Giuseppe Mercati, Enciclopedia Italiana
  49. In both the Greek and Slavonic Euchologion, in the canon for the departure of the soul by St. Andrew, we find in Ode 7: "All holy angels of the Almighty God, have mercy upon me and save me from all the evil toll-houses" (Evidence for the Tradition of the Toll Houses found in the Universally Received Tradition of the Church). "When my soul is about to be forcibly parted from my body's limbs, then stand by my side and scatter the counsels of my bodiless foes and smash the teeth of those who implacably seek to swallow me down, so that I may pass unhindered through the rulers of darkness who wait in the air, O Bride of God" (Octoechos, Tone Two, Friday Vespers). "Pilot my wretched soul, pure Virgin, and have compassion on it, as it slides under a multitude of offences into the deep of destruction; and at the fearful hour of death snatch me from the accusing demons and from every punishment" (Ode 6, Tone 1 Midnight Office for Sunday).
  50. Death and the Toll House Controversy
  51. Pathan. Encyclopædia Britannica Eleventh Edition. Página visitada em 2009-05-23.
  52. [ http://www.monergismo.com/textos/credos/39artigos.htm O Monergismo, Os Trinta e Nove Artigos da Religião (Livro de Oração Comum da Igreja Episcopal do Brasil (1950)), p. 601-611]
  53. Newmanreader.org
  54. Lewis, C.S.. Prayer: Letters to Malcolm. [S.l.: s.n.]. p. 104. ISBN 0-00-628057-9
  55. Letters to Malcolm, chapter 20, paragraphs 7–12
  56. http://www.igreja-metodista.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=69&Itemid=80
  57. What happens after a person dies?. The United Methodist Church. Página visitada em 10 March 2011. "Purgatory is believed to be a place where the souls of the faithful dead endure a period of purification and cleansing, aided by the prayers of the living, prior to their entrance into heaven. Although John Wesley believed in an intermediate state between death and the final judgment, that idea is not formally affirmed in Methodist doctrine, which “reject the idea of purgatory but beyond that maintain silence on what lies between death and the last judgment.” (Methodist Doctrine: The Essentials by Ted A. Campbell)"
  58. Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas Wesley
  59. http://www.umc.org/site/apps/nlnet/content3.aspx?c=lwL4KnN1LtH&b=4746355&content_id={94F6F768-0EA6-4C1B-B6B6-0C88EC04E8A2}&notoc=1
  60. 95 teses de Lutero

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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