Falenas
| Falenas | ||||
|---|---|---|---|---|
| Autor(es) | Machado de Assis | |||
| Idioma | Português | |||
| País | ||||
| Gênero | Poesia | |||
| Editora | Garnier | |||
| Lançamento | 1870 | |||
| Páginas | 216 | |||
| Cronologia | ||||
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Falenas é o segundo livro de poesias do escritor brasileiro Machado de Assis, ainda da sua fase romântica, e seu primeiro livro impresso fora do país, em Paris. Foi publicado em 1870. Segundo o machadólogo Ubiratan Machado, a obra demonstra "a maturidade do artista no gênero e a evolução do poeta. Nas Crisálidas [fase entre a larva e a borboleta], ele ainda aguarda o momento de soltar as asas. Falenas [borboletas noturnas] indicam que já se encontra em pleno voo. [...] Com um tom mais amargo do que as Crisálidas, o livro sinaliza o cansaço de Machado com o romantismo e demonstra a busca de novos caminhos e de um maior apuro formal."[1]
Poemas do livro
[editar | editar código]O livro divide-se em quatro partes.
Primeira parte
A primeira parte, denominada "Vária" ("coleção de obras variadas")[2] contém 25 poemas, quatro deles traduzidos e um escrito originalmente em francês, dos quais nove foram eliminados da edição das Poesias Completas de 1901 (marcados com asterisco):[3]
- Prelúdio*
- Ruínas
- Musa dos olhos verdes
- La marchesa de Miramar. Título em italiano, embora o poema seja em português. Tradução: A marquesa de Miramar. Em Nota ao final do livro, Machado justifica o título italiano: "Conta um biógrafo do arquiduque Maximiliano que este infeliz príncipe, quando estava em Miramar, costumava retratar fotograficamente a arquiduquesa, escrevendo por baixo do retrato : 'La marchesa de Miramar.'"
- Sombras
- Quando ela fala
- Visão*
- Manhã de inverno
- Ite missa est. Título em latim. A forma correta é: Ite, missa est, "Ide, a missa terminou" ou "Ide, esta é a dispensa", marcando o final da missa tradicional em latim.
- Flor da mocidade
- Noivado
- Menina e moça*
- A Elvira. Tradução da elegia "À El***", do poeta francês Alphonse de Lamartine, incluída nas Nouvelles Méditations Poétiques (1823).[4]
- Lagrimas de cera
- No espaço*
- Os deuses da Grécia.* Tradução de um poema do alemão Schiller, com base numa versão francesa em prosa, conforme consta em Nota do autor no final do livro: "Não sei alemão; traduzi estes versos pela tradução em prosa francesa de um dos mais conceituados interpretes da língua de Schiller."
- Livros e flores
- Pássaros
- Cegonhas e rodovalhos.* Tradução de Cigognes et Turbots de Louis-Hyacinthe Bouillet. "Rodovalho" é uma espécie de peixe.[5]
- A um legista*
- O verme
- Estâncias a Ema.* Tradução dos versos que se encontram no romance La Dame aux Perles (1954) de Alexandre Dumas Filho.[6]
- Un vieux pays. Poema escrito originalmente em francês por Machado de Assis. Uma tradução portuguesa de seu amigo Joaquim Serra encontra-se na seção Notas ao final do livro.
- Luz entre Sombras. Um soneto.
- A morte de Ofélia.* Criado a partir de uma cena de Hamlet, de William Shakespeare.
Nesta primeira parte, Machado prossegue na pegada romântica que adotara no seu primeiro livro de poesias e em sua obra em geral. Mas a partir da segunda parte Machado já explora outros caminhos, como a poesia chinesa (segunda parte), da antiguidade clássica (terceira parte) e o modelo da poesia épica camoniana (quarta parte).[7]
Segunda parte
A segunda parte, "Lira chinesa", reúne oito poemas chineses que Machado traduziu da versão francesa em prosa de Judith Walter (pseudônimo de Judith Gautier, filha do escritor Théophile Gautier), em Le livre de Jade, a saber:[8]
1. "Coração triste falando ao sol" (Su-Tchon). Poema convertido em canção pelo compositor Alberto Nepomuceno (“Coração triste”, op. 18, n. 1 do seu álbum 12 Canções). Pode ser ouvido no vídeo "História da Música Brasileira - Cap. 10. Romantismo e patriotismo: afinal, somos brasileiros?" no YouTube (a partir de 10:16). O poema também foi incluído no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro para 1878 publicado em Portugal.[9] Eis o poema:
No arvoredo sussurra o vendaval do outono,
Deita as folhas à terra, onde não há florir
E eu contemplo sem pena esse triste abandono;
Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cair.
Como a escura montanha, esguia e pavorosa
Faz, quando o sol descamba, o vale enoitecer,
A montanha da alma, a tristeza amorosa,
Também de ignota sombra enche todo o meu ser.
Transforma o frio inverno a água em pedra dura [gelo],
Mas torna a pedra em água um raio de verão;
Vem, ó sol, vem, assume o trono teu na altura,
Vê se podes fundir meu triste coração.
2. "A folha do salgueiro" (Tchan-Tiú-Lin)
3. "O poeta a rir"' (Han-Tiê)
4. "A uma mulher" (Tchê-Tsi)
5. "O imperador" (Thu-Fu)
6. "O leque" (De-Tan-Jo-Lu)
7. "As flores e os pinheiros" (Tin-Tun-Sing)
8. "Reflexos" (Thu-Fu)
Esta é a ordem na edição original de 1870. A partir das Poesias Completas de 1901, a ordem passou a ser: 1. “O poeta a rir”, 2. “A uma mulher”, 3. “O imperador”, 4. “O leque”, 5.“A folha do salgueiro”, 6. “As flores e os pinheiros”, 7. “Reflexos”, 8. “Coração triste falando ao sol”. Os nomes dos poetas chineses são aqueles usados por Machado na edição original. Uma discussão sobre quais poetas seriam realmente encontra-se no artigo "A 'Lira chinesa', de Machado de Assis" de José Américo Miranda, a partir da página 186.[10]
Na nota ao final do livro, esclarece Machado: "Os poetas imitados nesta coleção são todos contemporâneos. Encontrei-os no livro publicado em 1868 pela Sra. Judith Walter, distinta viajante que dizem conhecer profundamente a língua chinesa, e que traduzo em simples e corrente prosa". Na verdade, a maioria não são poetas da época de Machado, e sim poetas clássicos, como Tchan-Tiú-Lin (ou Chang Chiu Ling), da dinastia Tang (678-740).
Terceira parte
A terceira parte contém a peça teatral em versos alexandrinos "Uma Ode de Anacreonte", subtítulo "Quadro Antigo", dedicada a Manoel de Mello, em oito cenas, com seis personagens (Lísias, Cleon, Mirto e três escravos), tendo por cenário a cidade grega de Samos. A ode usada na peça é “Metamorfoses de cobiçar", traduzida por Antônio Feliciano de Castilho e incluída no volume A lírica de Anacreonte, publicado em 1866. Consta da Cena V, página 155 da edição original, quando Mirto abre um papiro e lê a ode. Em Nota no final do livro o autor esclarece: "É do Sr. António Feliciano de Castilho a tradução desta odezinha, que deu lugar à composição do meu quadro. Foi
imediatamente à leitura da Lírica de Anacreonte, do imortal
autor dos Ciúmes do Bardo ["Os Ciúmes do Bardo", poema narrativo de Castilho], que eu tive a ideia de pôr em ação a ode do poeta de Teos, tão portuguezmente saída das mãos do Sr. Castilho que mais parece original que tradução."[11]
Quarta parte
A quarta parte contém o poema narrativa (daí o autor chamá-lo de "conto" na edição original de Falenas) "Pálida Elvira", em versos decassílabos na maioria heroicos (com acento tônico na sexta e décima sílaba), seguindo o esquema da oitava-rima (primeiro verso rimando com o terceiro e o quinto, segundo verso rimando com o quarto e o sexto, e os dois últimos versos rimando entre si) da poesia épica camoniana. Contém 97 estrofes de oito versos cada, totalizando 776 versos.[12]
Recepção pela crítica
[editar | editar código]Enquanto as Crisálidas eram um livro de poemas basicamente românticos, ao gosto da época, a partir da segunda parte das Falenas Machado passa a lidar com formas poéticas alternativas, menos corriqueiras: poesia chinesa, poesia clássica greco-romana, modelo formal da poesia épica camoniana – causando certa estranheza entre seus avaliadores, de modo que o livro recebeu críticas variadas: positivas, negativas e mistas.
Em um folhetim de 20 de janeiro de 1870 no jornal A Reforma, não assinado mas provavelmente de Joaquim Serra[13], o autor não poupa elogios: "São versos de uma grande riqueza musical quer exprimam doçura ou energia; quer os sonhos da imaginação ou as emoções da alma. [...] Formoso livro na verdade. [...] Se todos os anos tivéssemos um ou dois volumes como esse, a nossa literatura em pouco tempo opulentava-se de obras-primas."[14]
Augusto de Castro (A.C.), em A Vida Fluminense de 2 de abril de 1870, reconhece que as Falenas "são incontestavelmente superiores às Crisálidas", com poesias "lindíssimas, e algumas até sublimes", nas observa que, sendo as falenas borboletas noturnas, ocorre no livro um excesso de sombras ("essas sombras que meu ser povoam", "ensanguentada sombra", "sombrios pesadelos", etc.) e reclama do "pequeno número de poesias originais", ou seja, excesso de traduções.[15]
Em longo "estudo literário" no Diário do Rio de Janeiro de 5 de fevereiro de 1870 (págs. 2-3), Luís Guimarães Júnior de início elogia Machado de Assis, "poeta e artista pelo coração e inteligência", afirmando que seus alexandrinos "são magníficos: versos puros, corretos e cheios de pensamento. [...] Não há no mecanismo desses magníficos versos o menor descuido, a falta mais passageira, o mais leve desvio. O autor é mestre, e maneja o alexandrino com uma felicidade e delicadeza raríssimas." Mas depois desses elogios passa a criticá-lo pela falta de espontaneidade ("o Sr. Machado de Assis parece ter desviado o voo espontâneo da sua inspiração íntima"), pela falta de brasilidade e excesso de lusitanismo ("O poeta das Falenas sujeitou o seu livro às regras metódicas do velho classismo [classicismo] latino e português. A própria frase, o próprio estilo não pertence a escritor nacional [...]" E compara as duas obras: "À exceção de algumas composições fugitivas [fugazes] da primeira parte – Vária, tudo o mais revela melhor o artista clássico do que o poeta brasileiro. Eis o motivo por que eu prefiro as Crisálidas em pensamento às Falenas e as Falenas às Crisálidas em estrutura mecânica, em valor de verso."[16] Ou seja, em termos formais, da estrutura dos versos, Falenas é melhor, mas em termos de inspiração, Crisálidas vence.
Araripe Júnior, sob o pseudônimo Oscar Jagoanharo,[17] no folhetim ao pé da primeira página do jornal Dezesseis de Julho de 6 de fevereiro de 1870, também critica o autor pela falta de brasilidade: "Justíssimas queixas deveria expor ao seu autor pela ingratidão com que se tem havido para com este tão formoso Brasil, para com este tão prolífico solo ao qual deve a vigorosa imaginação que possui [...]".[18] Possivelmente devido a essas críticas, Machado de Assis, "cinco anos depois iria voltar-se para temas brasileiros nas Americanas, tão impregnadas de um indianismo um tanto retardatário [...]"[19]
No pequeno jornal pernambucano A Crença, um tal de Sílvio Ramos, estudante de direito de 20 anos, desfechou um ataque contra o livro, combatendo "o seu lirismo subjetivista e o seu humorismo pretensioso". Seu nome completo era Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero e mais tarde passaria a assinar seus textos como Silvio Romero, feroz crítico de Machado de Assis.[20]
Em Portugal o escritor Júlio César Machado escreveu na revista A América uma crítica elogiosa ao livro: "Longe está o autor deste livro; mas, se acontecer ler-me, deixe que lhe dê, com toda a admiração que me inspira o seu talento, os meus agradecimentos de jornalista e de leitor.[21]
Referências
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo, 2a edição, 2021, verbete "Falenas".
- ↑ Dicionário Priberam
- ↑ Os poemas da primeira parte mantidos nas Poesias Completas podem ser lidos em: «Machadiana Eletrônica: v. 9 n. 17 (2026)». Consultado em 6 de janeiro de 2026; já aqueles retirados das Poesias Completas podem ser lidos em: «Machadiana Eletrônica: v. 5 n. 10 (2026)». Consultado em 6 de janeiro de 2026
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo, 2a edição, 2021, verbete "A Elvira".
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo, 2a edição, 2021, verbete "Cegonhas e rodovalhos".
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, Imprensa Oficial do Governo do Estado de São Paulo, 2a edição, 2021, verbete "Estâncias a Ema".
- ↑ "Os títulos dos dois primeiros livros de poesias de Machado de Assis, Crisálidas (1864) e Falenas (1870), sugerem muito fortemente a existência de uma continuidade entre as duas obras. Entretanto, [...] se no primeiro livro a matéria dos versos tinha origem nas experiências íntimas do poeta, no segundo tal traço distintivo não explica todo o volume – só se aplica à sua primeira parte [...]. Sendo assim, o título Falenas só cabe aos versos dessa parte; mas o livro tem outras três, que escapam à designação atribuída ao conjunto." Ver José Américo Miranda. «A "Lira chinesa", de Machado de Assis». Consultado em 26 de dezembro de 2025.
- ↑ Os poemas da Lira Chinesa, na versão machadiana e em outras versões, podem ser lidos no v. 7 n. 13 (2024) da Machadiana Eletrônica: «Machadiana Eletrônica: v. 7 n. 13 (2024)». Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ R. Magalhães Júnior, Vida e Obra de Machado de Assis, Volume 2, Ascensão, pág. 87 e MACHADIANA ELETRÔNICA, v. 7, n. 13, jan.-jun. 2024, pág. 46, acessível na Internet.
- ↑ "Apesar de avanços na identificação dos poetas, ainda persiste alguma confusão", etc. José Américo Miranda. «A "Lira chinesa", de Machado de Assis». Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ Uma análise pormenorizada da peça encontra-se neste artigo da Machadiana Eletrônica: Nilton de Paiva Pinto. «"Uma ode de Anacreonte": poesia dramática"». Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ Ver Marcelo Corrêa Sandmann. «A Poesia Narrativa de Machado de Assis» (PDF). Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete "Falenas", pág. 213.
- ↑ Jornal A Reforma de 20/1/1870, folhetim da primeira página, acessado na Hemeroteca Digital.
- ↑ Jornal A Vida Fluminense de 2/4/1870, pág. 104, acessado na Hemeroteca Digital.
- ↑ Diário do Rio de Janeiro de 6/2/1870, págs. 2-3, acessado na Hemeroteca Digital.
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, Verbete "Falenas".
- ↑ Jornal Dezesseis de Julho de 6/2/1870, página 1, acessado na Hemeroteca Digital.
- ↑ R. Magalhães Júnior, Vida e Obra de Machado de Assis, Volume 2, Ascensão, pág. 91.
- ↑ R. Magalhães Júnior, Vida e Obra de Machado de Assis, Volume 2, Ascensão, págs. 91-2.
- ↑ Idem, págs. 92-3.



