Um Homem Célebre

Um Homem Célebre é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 29 de junho de 1888, e posteriormente incluído na coletânea Várias Histórias em 1896. Trata-se de um conto psicológico, sobre o tema do músico que não alcança a plena realização, já abordado antes em "O Machete" (1878) e "Cantiga de Esposais" (1883).[1]
Enredo
[editar | editar código]Pestana conhece a fama nos salões do Rio de Janeiro com suas canções populares do estilo polca. Porém, seu maior desejo é a consagração como compositor erudito, e ele se sente frustrado por não conseguir compor uma grande obra clássica, no estilo de Mozart ou Beethoven.
O casamento com Maria, uma jovem viúva e cantora, reacende nele a esperança de finalmente produzir uma obra erudita autêntica. No entanto, essa expectativa se revela ilusória. Após a morte da esposa, Pestana tenta abandonar a música, mas a necessidade financeira e a pressão do mercado o fazem retomar a composição de polcas sob contrato com um editor. Mesmo envelhecendo, continua produzindo música popular com facilidade, mas jamais alcança a realização erudita que deseja.
TRECHO: A moça dormia ao som da polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta não cuidava nem da polca nem da moça, mas das velhas obras clássicas, interrogando o céu e a noite, rogando aos anjos, em último caso ao diabo. Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais?
Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de ideia; ele corria ao piano, para aventá-la inteira, traduzi-la, em sons, mas era em vão; a ideia esvaía-se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os dedos correrem, à ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart; mas nada, nada, a inspiração não vinha, a imaginação deixava-se estar dormindo.
Análise da trama
[editar | editar código]O conto reflete sobre a dualidade entre o que o artista deseja realizar e o que precisa ser produzido para se obter sucesso. O elemento central é a questão da ambição versus a vocação, pela qual passa Pestana, que não consegue atingir os mesmos feitos dos seus ídolos da música clássica. Além disso, a música se torna meramente parte do comércio, e artistas muitas vezes ficam presos a modas estabelecidas pela indústria cultural e adotadas por produtores para atingir a cultura de massa.[2]
O personagem de Pestana representa o artista que se vê obrigado a reproduzir o gosto médio do consumo, por motivos de sobrevivência. As polcas que cria alcançam sucesso com o público, mas sua pretensão artística está na elaboração de uma obra clássica. No âmbito popular encontra seu ganha-pão, e no erudito o que lhe alimenta o espírito. "A incompatibilidade entre essas formas de expressão da música situa-se como uma instância que transtorna o espírito do artista que não consegue enxergar-se no que lhe possibilita viver, constituindo-se em medida do que lhe consigna a condição e o valor."[3]
Para Luiz Antonio Aguiar, este conto "seria quase desolador, se não fosse a mão de Machado. Nem por isso deixa de nos infiltrar um sentimento de desproteção diante do Destino. É a história do maestro Pestana, popular autor de polcas, e sua obsessão por compor grandes obras clássicas.[4]
Adaptação
[editar | editar código]Um Homem Célebre
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|---|---|
1974 • cor • 90 min | |
| Género | drama |
| Direção | Miguel Faria Jr. |
| Roteiro | Miguel Faria Jr. Jorge Laclette |
| Elenco | Walmor Chagas Darlene Glória Maria Lúcia Dahl |
| Distribuição | Embrafilme |
| Idioma | português |
O conto foi adaptado para o cinema em 1974. A produção foi dirigida por Miguel Faria Jr., com roteiro dele e Jorge Laclette.[5]. O elenco inclui Walmor Chagas como Pestana, Darlene Glória como Marcela e Bibi Vogel como Maria.[6] Possui uma participação especial de Nara Leão.
Referências
- ↑ VALENTE JUNIOR, Valdemar. O popular e o erudito: a música nos contos de Machado de Assis. Scriptorium, [s.l.], n. 2, 2018. DOI: 10.15448/2526-8848.2018.2.32183. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/scriptorium/article/view/32183 . Acesso em: 26 dez. 2025.
- ↑ COELHO, Luana da Silva; FERREIRA, Raphael Bessa. “Um Homem Célebre”: uma análise do conto de Machado de Assis sob a perspectiva bakhtiniana. Muiraquitã: Revista de Letras e Humanidades, v. 11, n. 2, p. XX-XX, 2023. DOI: 10.29327/266889.11.2-11. Disponível em: https://periodicos.ufac.br/index.php/mui/article/view/6870 . Acesso em: 26 dez. 2025.
- ↑ VALENTE JUNIOR, Valdemar. O popular e o erudito: a música nos contos de Machado de Assis. Scriptorium, [s.l.], n. 2, 2018. DOI: 10.15448/2526-8848.2018.2.32183. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/scriptorium/article/view/32183 . Acesso em: 26 dez. 2025.
- ↑ AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias. Rio de Janeiro: Record, 2008. ISBN 978-85-01-08099-8.
- ↑ «Um Homem Célebre (1974)». Cinemateca Brasileira. Consultado em 5 de setembro de 2022
- ↑ «Eternamente Pagu». adorocinema.com. Consultado em 21 de novembro de 2023
