Zebu

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Como ler uma caixa taxonómicaZebu
Bos taurus indicus.jpg

Estado de conservação
Não avaliada: Domesticado
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Artiodactyla
Família: Bovidae
Género: Bos
Espécie: B. taurus
Subespécie: B. t. indicus
Nome trinomial
Bos taurus indicus
Linnaeus, 1758

Zebu é um bovino da subespécie Bos taurus indicus, apelidado por sua característica marcante de boi de corcova, ou "Bos gibosus". A "corcova" é também chamada giba ou cupim, no Brasil, país onde a subespécie demonstrou grande potencial de adaptação.

Originário da Índia, onde o grande rebanho não tem utilização para abate, o gado foi objeto de diversos cruzamentos em dezenas de países, devido sua natural predisposição para a adaptação e resistência.

Contabilizando as raças puras, como Sindi, Nelore, Gir, Kangayam e Guzerá e as raças Neozebuínas, como Indubrasil, Tabapuã e Brahman, o Zebu constitui hoje mais de 80 por cento dos animais criados no Brasil - sendo um dos maiores rebanhos bovinos do mundo.[1] Sua principal destinação econômica é a resistência ao clima quente, onde produz animais mestiços adequados para a produção de carne e leite. Seu hábitat, então, está dentro da faixa intertropical.

A subespécie foi introduzida no Brasil no século XIX. A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu é a entidade que controla a Registro Genealógico e as Provas Zootécnicas entre os criadores, sendo ainda responsável pela realização, em Uberaba, Capital Mundial do Zebu, da Expozebu. Este evento, considerado uma das maiores feiras agropecuárias do mundo, acontece entre 1 e 10 de maio, e movimenta mais de 150 milhões de Reais, reunindo normalmente mais de 40 países.

De onde teria vindo o nome "Zebu"? Os antigos davam grande importância ao nome das coisas e existia até uma ciência apropriada para esse fim. O nome dos bebês humanos era dado por sacerdotes que estudavam essa ciência, correlacionando-a com a Astrologia e outras.[2] Tudo tinha um nome adequado na ciência sagrada. Os semitas apreciavam a expressão: "Diga-me teu nome e te direi quem é". Uma das antigas línguas mais respeitadas é o Sânscrito, de onde derivam muitas das modernas palavras.[3]

No mundo ocidental, a origem da palavra "bovino" vem de bos (genitivo bovis), latina, cognata da palavra grega "bous", do inglês "cow" e do sânscrito gauh, todas remontando ao proto-indo-europeu *gWōu-. 


A língua indiana nunca menciona o nome de uma ou outra raça bovina. Todas as raças, ou agrupamentos étnicos, são denominados de acordo com a região. Exemplo: gado Gir, Gujarat, Ongole, Hariana, Surti, Meshana, Sindhi, Jaffarabadi - todos indicando a região de origem. Não há um nome para o conjunto de gados.

Os brasileiros importaram gado da Índia e trouxeram também o nome já definido de "Zebu". De onde, porém, teria tido origem esse nome? Afinal, "Zebu" seria uma palavra indiana, ou não? Existem cinco hipóteses.[4]

1 - "ZEBROX"

Segundo Charles Wilford Johnson (1951) em "The origin and domestication of Bos indicus" teria sido um naturalista francês que teria escolhido o nome de "Zebu" para todo o conjunto de gados da Índia, por volta da metade do século XIX. Joe A. Akerman, autor do livro oficial "American Brahman", cita que esse naturalista era Buffon que havia se empolgado com o enorme trabalho que o gado prestava à agricultura indiana. Segundo o mestre Buffon, esse trabalho somente tinha paralelo na Polônia e na Ucrânia, onde se criavam bois-de-carro ("bestas-de-cargas") que eram famosas por sua rusticidade e força. Esses bois-de-carro tinham o nome genérico de "Zebr-ox", que significa "gado nativo" ("Ox") chamado "Zebu" ("Zebr").

Buffon, portanto, teria considerado os bovinos indianos como típicos "Zebr-ox" e daí fundiu o nome "Zebu". É mais fácil acreditar que o naturalista francês tenha ouvido corretamente o nome do gado indiano e, por sua conta, o comparou com a expressão "Zebr-ox". Ele teria ouvido corretamente e anotado erradamente.[5]

Historicamente, essa expressão "Zebr-ox" não teria germinado na Índia. Se existisse, os lusitanos, espanhóis e brasileiros teriam derivado para "Zebró". Etimologicamente a derivação terminaria aí, pois não existiria nenhum motivo fonético para determinar a mudança de uma sílaba tônica aberta ("ó") em outra tônica ("ú").

2 - "GEBO"

Nos bancos escolares do Brasil, a maioria dos livros antigos de Zootecnia, ou Zebutecnia, insistem numa mesma direção: o nome "Zebu" origina-se de "Gebo", palavra castelhana que significa "Giba".[6]

A palavra "Gebo", de origem latina, estaria indicando o animal giboso. Em latim, esse animal seria apontado como "Gibosus". Não é difícil imaginar a expressão "Bos indicus" como sinônimo de "Bos gibosus". Caso fosse possível reconstituir a expressão "Bos gibosus" então estaria correto realizar a derivação etimológica de "Gibosus" para "Gibô", depois "Zibô" e, finalmente, "Zebu". Na Índia, porém, todo gado era "giboso" e não havia necessidade de diferenciação. Ou seja, não há sentido em trocar o todo pela parte, o significante pelo significado: a giba é parte do "Bos gibosus" e, assim, a palavra "Gebo" não pode ser o ponto de partida para a derivação. Ademais, a derivação da palavra castelhana "Gebo" levaria a "Zêbo" e, daí para frente, não haveria motivo fonético para trocar a tônica "zê" por "bu", que resultasse em "Zebu".

3 - "ZUBU", ou "CEBÚ"

A ilha de Cebu fica no centro das Filipinas e já era um reinado antes das invasões espanholas. Já havia gente naquelas ilhas, mas foi entre os séculos 13 e 16 que grande quantidade de indianos migrou para as Filipinas, levando consigo o gado da Índia, na categoria de "animal sagrado", o "Zri-Bhu", que deu nome à ilha escolhida, inicialmente, como Ilha de "Sugbo", depois "Zubú". Eram hinduístas, budistas e animistas, comandados por Rajás e Datus ("sultões"). O povoamento de Cebú foi fundado por Sri Lumay (Rajamuda Lumaya), da dinastia Chola.

A ilha Cebú, no centro das Filipinas

Em 1521, o explorador Fernão de Magalhães, a serviço do Rei da Espanha, convenceu o chefe local, Humabon a se converter ao Catolicismo, abandonando boa parte dos deuses da Natureza. Humabon e a esposa foram batizados como Carlos e Juana. O explorador entregou uma estátua do Menino Deus (Santo Niño) à Rainha de Cebú, como um símbolo de paz e amizade entre os espanhóis e os Cebuanos, erguendo uma grande cruz de madeira nas margens do Cebu e imediatamente batizando cerca de 700 nativos. O nome da ilha foi anotado, então, como sendo "Cebú", espanholando o nome do antigo gado. Afinal, a Espanha era o maior império econômico do mundo, havendo o ditado "Deus é espanhol" e, por isso, em 1543, o conjunto de 7.107 ilhas recebeu o nome de "Ilhas Filipinas", em homenagem ao Imperador Filipe-II. Em 1565, os espanhóis começaram a colonização sistemática das ilhas, durando mais de 300 anos, tendo à frente a religião Católica. 

Na cidade de Cebú, a mais antiga das Filipinas, em 1595, foi criada a Universidade de San Carlos. Em 1611, foi fundada a Universidade de Santo Tomás. Durante o século XVIII, a região foi atacada por piratas chineses e havia a preocupação com a ocupação por colonizadores holandeses, portugueses e ingleses; tendo entre 1762 e 1764 a capital foi dominada pelos britânicos. Em 1898, a ilha foi cedida aos Estados Unidos após a Guerra Hispano-Americana Guerra e Filipino-Americana. Em 1901, Cebu foi governado pelos Estados Unidos por um breve período, mas a soberania foi reconhecida em 1946.

Hoje, as Filipinas atingiram 100 milhões de habitantes. A Ilha de Cebú tem 2,6 milhões de habitantes, ou 13,1% do total das Filipinas. A capital, Cebú, tem 900.000 habitantes, sendo a 5a maior cidade das Filipinas. 

Os portugueses e brasileiros tinham afinidades com os espanhóis. A Coroa espanhola dominou o Brasil de 1580 a 1640 ("União Ibérica"), havendo intenso comércio entre os dois exploradores dos mares. A ilha de Cebú era famosa como ponto de transição entre as rotas marítimas. Quando os brasileiros interessaram-se pelo gado Zebu (1870), já o nome Cebú existia há mais de 300 anos nos livros espanhóis. O Brasil, sempre carente de livros, estudava nos livros castelhanos e, por isso, a adoção do nome "Cebú" para o gado indiano foi comum, apenas copiando o que os espanhóis já faziam. 

Houve, então, duas "espanholadas": primeiro, mudando "Zri-Bhu" para "Cebú"; segundo, mudando "Cebú" para "Zebu" (por imitação dos livros castelhanos).

4 - "ZABHU"

É importante, porém, retornar à própria Índia e consultar sua língua original, pois ela consegue explicar a origem da palavra "Zebu", com mais segurança e objetividade.

1 - Do sânscrito vinha "Su", prefixo de "bom augúrio" e bênção. Também vem "Go", indicando a vaca, ou touro. Então, "Sugu" é o "gado bom, abençoado". Daí vem "Godhenu", ou "boa vaca que realiza os desejos", que levou à sagrada "Kandhenu" (ou "Kamadhenu"). Também "Gorabhi" (vaca que produz muitas outras preciosidades), nome que leva à deusa Surabhi, mãe de todos os gados, ou que indica a "vaca primordial".[7]

2 - A palavra "Zabhu" pode ser lida como "Zêbu" pelos britânicos, em sua forma urbanizada e, então, seria óbvia a adoção da atual grafia "Zebu", mas tal não aconteceu.

"Zabhu" significa "Gado de Shiva", o deus que determina a própria existência sobre o planeta Terra. É o deus da fortuna, da felicidade e da festa.[8] Por causa disso é muito cultuado. Afinal, até no credo cristão é comum buscar a bênção dos sacerdotes para as maratonas da vida, tanto quanto utilizar água-benta, ramo-santo, vela benzida, escapulários, relíquias, etc., sempre com a mesma finalidade, ou seja, apaziguar o destino dos homens por meio de uma oferta, ou solicitação ao deus, ou algum santo.

Na Índia, tudo que é dedicado a Shiva recebe o prefixo "Za", indicando "Supremo" (o mais comum, porém, é "Sa", que tem muitas outras definições). Daí que a palavra "Za + Bhu" signifique "gado abençoado por Shiva", ou apenas "um gado abençoado pela fortuna". Em uma forma mais popular, "Sabhu" seria o gado popular, prestigiado por Shiva, bem como "Zabhu" seria seu arquétipo transcendental.

A Trindade Sagrada indiana é composta por Vishnu, Shiva e Brahma. A união dos três deuses supremos forma o Todo-Poderoso, o Uno, o Brahman. Muitos deuses e semideuses têm ligação com os bois e vacas, como o próprio Krishna. Seria correto indicar o prefixo apenas de Shiva? No profundo espírito religioso dos indianos é fácil acreditar que apenas uma parcela de devotos iria adotar a expressão "Zabhu" como indicativo de todo e qualquer gado indiano.

5 - "ZRI-BHU"

Voltando à origem do estudo da palavra "Zebu", com o episódio do francês Buffon, aventou-se que ele poderia ter escutado corretamente e anotado erradamente. O naturalista francês deve ter escutado algo como "Zri-Bhu" e imaginou que seria uma pronúncia adulterada da língua inglesa, pretendendo indicar algo como "Zebr-ox".

É estranho notar que uma personalidade famosa e pesquisadora como Buffon não tenha procurado, dentro da língua indiana, o significado para aquilo que havia escutado. O que é que teria acontecido, na realidade, naquele dia tão longínquo? Aparentemente, o naturalista teria perguntado a algum monge, na rua:

- Que gado é esse?

O indiano, em sua milenar solicitude, teria respondido como é comum em sua faina respeitosa para com o gado:

- Esse é um "Zri-Bhu".

Ainda hoje, se alguém perguntar, na Índia, para uma pessoa: "Que bovino é esse?" poderá ter algumas repostas, a saber:

- É "Gam", ou "Gu". - Indica que o indiano não pertence à religião hinduísta, pois acha que o animal é um animal como qualquer outro. Poderia ser a resposta de um muçulmano, ou um indiano "candala", ou um "mlechha", todos sem vínculos com a intensa religiosidade do país.

- É um "Zabhu". - Indica que a pessoa vê no animal um presente de Shiva, o doador da boa fortuna. Mostra um indivíduo interessado em contar com as boas graças do deus, enquadrando-se como um "vaisya", ou classe artesã.

- É um "Zri-Bhu". - Indica que a pessoa vê no animal o símbolo vivo da própria doutrina hinduísta. Mostra que o indivíduo é um "brahmana", ou "ksatrya", pessoa de elevado espírito religioso, com grande respeito pela vaca sagrada, como preconizado pelos livros sagrados, os Vedas.

Se Buffon tivesse anotado corretamente a palavra "Zri-Bhu" de há muito já se saberia o significado de "Zebu". O indiano apenas descreveu o animal, como já vinha sendo feito há milênios. Essa era a forma mais respeitosa de mencionar aquele gado de boa aparência que havia impressionado o naturalista francês.

Em sânscrito, "Sri" indica beleza, fortuna, um bezerro lindo, opulência, transcendente. Na modernidade, também se escreve "Shree".

No mundo cristão, qualquer pessoa santificada, ou beatificada, recebe o nome de "São", ou "Santo", daí surgindo os nomes populares de São Pedro, São Paulo, Santa Clara, etc. Na religião hinduísta, seriam denominados de "Sri Pedro", "Sri Antônio", etc., assim como é comum encontrar Sri Laksmi (deusa da Fortuna), Sri Krishna, etc. Se um indiano recebe um visitante ilustre, ele o designa com o prefixo "Sri".

O que separa o "Zri" do "Sri", ou "Shree" é a santidade consolidada.[9] O prefixo "Zri" é distintivo de fortuna, de beleza, de glória, de riqueza, de tesouro, de poder sobre humano, de satisfação plena, de dignidade, de majestade, de soberania - sempre no plano transcendental. Em caso extremado, indica exaltação. Pode significar divino, sagrado, bendito, etc. É o que H. P. Blavatsky anotou em seus estudos no Tibete, incluindo em seu "Theosophical Glossary".

Etimologicamente, "Zri-Bhu" variou para "Zribhu", depois foneticamente para "Zribu" e, finalmente, "Zebu".

Durante o período de ocupação britânica, divulgou-se muito a "Holy Cow" ("vaca sagrada"). Em poucos séculos a expressão milenar "Zri-Bhu" desapareceu e, hoje, somente indianos muito cultos na língua sânscrita conseguem explicá-la. Ironicamente, "Holy Cow" (inglês) e "Zri-Bhu" (sânscrito) têm enorme afinidade teológica.

O respeito religioso do indiano para com seu gado vem de milênios. Ele considera que todas as raças, ou ecótipos, são da mesma essência. Todos eram "Zri-Bhu". Ele apenas os notava e os classificada de acordo com a região.

Os pioneiros brasileiros compreenderam, após duras experiências no país, que somente a pureza genética do gado podia garantir a necessária rusticidade para a sobrevivência nas difíceis condições de um país tropical. O melhoramento do gado deveria acontecer após a compreensão exata e determinação adequada do grau de pureza. Ou seja, o melhoramento funcional precisaria estar alicerçado sobre animais realmente puros de origem. Por conta dessa imperiosidade, realizaram-se várias importações, surgindo grandes nomes na zebuinocultura, todos procurando aperfeiçoar a pureza original.

A palavra "Zebu", ou "Zri-Bhu", portanto, está relacionada com fundamentos milenares nos altares, nos templos, nos livros sagrados. Tem algo de muito santificado.[10]

"Zri-Bhu", na Índia, ou "Zebu" no Brasil significa "gado abençoado, gerador de fortuna, símbolo da Terra e uma lembrança, ou reverberação, do mundo celestial". Muito acertado, na Índia, que tinha, então, um nome adequado para todo seu gado. Muito acertado para o mundo dos trópicos que tem, garantidamente, uma bênção dos céus para enfrentar as duras condições climáticas. O próprio nome, por si só, já indica majestade e a glória do gado; uma ligação entre o Céu e a Terra.  Zebu, portanto, é um gado sagrado até no nome.[4]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. SANTOS, Rinaldo - Zebu: a Pecuária Sustentável, Uberaba, MG, 2013, cap. 2
  2. SANTOS, Rinaldo - O Zebu na proto-história da Terra. In: Nelore: a vitória brasileira, vol. I. Edit. Agrop. Tropical. Uberaba, MG – 1993.
  3. DASGUPTA, Satish Chandra - The cow in India - I - Calcutta, India, 1945.
  4. a b Rinaldo, Dos Santos. Agropecuária Tropical. [S.l.]: Edit. Agrop. Tropical, 1992.
  5. SANTOS, Rinaldo - O gado sagrado da Índia - Uberaba, MG: Ed. Agrop. Tropical, 1990.
  6. DOMINGUES, Octavio - O gado indiano no Brasil - Rio de Janeiro, RJ: Plaman/Serv. Gráf. IBGE, 1966.
  7. WINTER, Robin - Sacred Cow - http://archaeologyonline.net/artifacts/sacred-cow.html
  8. JANI, D. H. – Romance of the cow. The Bombay Humanitarian League. Bombay, India – 1932.
  9. BLAVATSKY, H. P. - A doutrina secreta, 6v. - Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1974. Apud Theosophical Glossary.
  10. SANTOS, Rinaldo - Cem mil anos de história do Zebu. In: Anuário Brasileiro do Zebu/1992. Edit. Agrop. Tropical. Uberaba, MG – 1992.
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