Fotoquímica

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Ilustração do espectro eletromagnético

Fotoquímica é um ramo da química que estuda as interações de átomos e pequenas moléculas com a luz (ou radiação eletromagnética).1 Alguns processos importantes relacionados com a fotoquímica são a fotossíntese, fotólise, fotografia e fotofosforilação.

Alguns campos de aplicação e estudo deste campo científico são a espectroscopia UV/visível, as reações fotoquímicas em química orgânica e diversos processos bioquímicos, como a já citada fotossíntese, a produção de melanina humana e a relacionada produção de filtros solares eficientes.

Bases científicas[editar | editar código-fonte]

Como muitos campos científicos, a fotoquímica utiliza o sistema de medidas métrico ou SI. Unidades e constantes importantes que apresentam-se regularmente incluem o metro (e variantes tais como o centímetro, milímetro, nanômetro, etc), segundos, hertz, joules, moles, a constante dos gases R, e a constante de Boltzmann. Estas unidades e constantes são também relacionadas ao campo da físico-química.

Fotoquímica pode também ser apresentada didaticamente como uma reação em que ocorre a absorção de luz. Normalmente uma reação (não somente uma reação fotoquímica) ocorre quando uma molécula ganha a energia de ativação necessária para iniciar as transformações químicas. Um simples exemplo poderia ser a combustão de gasolina (um hidrocarboneto) em dióxido de carbono e água. Esta é uma reação química onde uma ou mais moléculas/espécies químicas são convertidas em outras. Para esta reação ocorrer, a energia de ativação deve ser fornecida na forma de calor ou de uma faísca. No caso das reações fotoquímicas, a luz é o mecanismo que fornece a energia de ativação.

A primeira lei da fotoquímica, conhecida como lei de Grotthuss–Draper (formulada pelos químicos Theodor Grotthuss e John W. Draper), estabelece que a luz deve ser absorvida por uma substância química para produzir uma reação fotoquímica.2

A lei de Beer-Lambert estabelece que há uma relação exponencial entre a fração de radiação absorvida por uma substância e a concentração da substância, e que esta fração de radiação absorvida é independende da intensidade da radiação incidente.3

A segunda lei da fotoquímica, a lei de Stark-Einstein, estabelece que para cada fóton de luz absorvido por um sistema químico, somente uma molécula é ativada em uma reação fotoquímica. Isto é também conhecido como a lei de fotoequivalência e foi derivada por Albert Einstein no tempo em que a teoria quântica (dos fótons) de luz estava sendo desenvolvida.2

A absorção de um fóton de luz pela molécula de reagente resulta em um estado cuja a energia é maior do que a energia inicial, conhecido como estado excitado. A perda do excesso de energia absorvida pode ocorrer por emissão do estado excitado singlete (fluorescência), por emissão do estado excitado triplete (fosforescência), por um processo de relaxação não radiativo ou por uma reação química.4 A intensidade de uma transição eletrônica é regida pelo princípio de FranckCondon.5 O princípio institui que durante uma transição eletrônica, a probabilidade de ocorrer uma mudança de um nível de energia vibracional para outro será maior se as duas funções de onda coincidirem significativamente.6 7

A regra de Kasha estabelece que a emissão do fóton (fluorescência ou fosforescência) por uma molécula eletronicamente excitada somente ocorre com rendimentos quânticos apreciáveis a partir do estado excitado de menor energia de uma dada multiplicidade. Esta regra foi proposta pelo físico-químico e espectroscopista molecular americano Michael Kasha em 1950.8 9 Um corolário da regra de Kasha é a regra de Kasha–Vavilov, que estabelece que o rendimento quântico de luminescência é em geral independente do comprimento de onda de excitação.10

A eficiência dos vários processos mencionados acima pode ser medida através de rendimentos quânticos ou eficiências quânticas, que descrevem a fração de moléculas retidas em cada etapa em relação ao total de fótons absorvidos.2 A soma dos rendimentos quânticos é 1 (exceto para reações em cadeia).11

Adicionalmente, a absorção do fóton pode permitir que ocorra uma reação não apenas fornecendo a energia de ativação necessária, mas também alterando a simetria da configuração eletrônica molecular e permitindo um caminho de reação outrora inacessível, conforme descrito pelas regras de seleção de Woodward-Hoffmann.12 Uma reação de cicloadição 2+2 é um exemplo de reação pericíclica que pode ser analisada utilizando tais regras ou pela teoria dos orbitais moleculares de fronteira, também relacionada.

Reações fotoquímicas envolvem a reorganização eletrônica iniciada pela radiação eletromagnética e são muitas ordens de magnitude mais rápidas que as reações térmicas. Frequentemente são observadas reações da ordem de 10−9 segundos e processos na faixa de 10−15 segundos.

Regiões espectrais[editar | editar código-fonte]

O espectro eletromagnético é amplo e os fotoquímicos tipicamente trabalham em apenas algumas regiões-chave. Algumas das seções mais amplamente usadas, e seus comprimentos de onda, são as seguintes:

Aplicações[editar | editar código-fonte]

Muitos processos químicos importantes envolvem fotoquímica. Um exemplo é a fotossíntese, na qual algumas plantas utilizam a luz solar para converterem dióxido de carbono e água em glicose e oxigênio no interior dos cloroplastos, contribuindo no metabolismo celular. A glicose é usada pela mitocôndria na produção de adenosina trifosfato. Os humanos dependem da fotoquímica para a formação da vitamina D. Em vaga-lumes, as enzimas localizadas no abdomem do inseto produzem bioluminescência. A visão é iniciada pela reação fotoquímica da rodopsina.13

Processos fotoquímicos também podem ser altamente destrutivos, provocando a degradação de materiais como o cloreto de polivinila (PVC).14 Os frascos de remédio são feitos com vidro escurecido (vidro âmbar) para evitar que o fármaco contido sofra algum processo fotoquímico. Uma reação bastante conhecida é a geração de oxigênio singlete a partir da reação de fotossensibilização do oxigênio triplete. Fotossensibilizadores típicos incluem a tetrafenilporfirina e o azul de metileno. O oxigênio singlete resultante é um agente oxidande extremamente agressivo, capaz de converter ligações C-H em grupos C-OH. Na terapia fotodinâmica, a luz é empregada para destruir tumores pela ação do oxigênio singlete.

Os tióis ou mercaptanas são produzidas pela adição fotoquímica de sulfeto de hidrogênio (H2S) em olefinas. Uma das aplicações das mercaptanas é fornecer um odor perceptível ao gás natural (inodoro), garantindo que um vazamento de gás seja rapidamente identificado. Muitas polimerizações são iniciadas por fotoiniciadores, os quais decompoem por absorção de luz e produzem os radicais livres necessários à polimerização radicalar. Alguns caminhos de reação fotoquímicos permitem a síntese de certas classes de compostos, como os ciclobutanos (compostos estereoespecíficos), os quais não são facilmente (em alguns casos são quase impossíveis) de serem preparados utilizando rotas de síntese orgânica convencionais.

Montagem experimental[editar | editar código-fonte]

Tubo de Schlenk contendo uma mistura laranja de cristais de Fe2(CO)9 em ácido acético, após síntese fotoquímica a partir de Fe(CO)5. A lâmpada de mercúrio (ligada ao fio branco) pode ser vista à esquerda, montada dentro do tubo de quartzo com circulação de água.

Reações fotoquímicas necessitam de uma fonte de luz que emita no comprimento de onda correspondente à transição eletrônica do reagente. Nos estudos seminais (e na vida cotidiana) a luz solar era a fonte luminosa empregada, apesar de ser uma fonte policromática. Atualmente, lâmpadas de vapor de mercúrio são as de uso mais corriqueiro no laboratório. As lâmpadas de vapor de mercúrio de baixa pressão emitem em 254 nm. Outras fontes monocromáticas são LEDs e lasers. Para fontes policromáticas, comprimentos de onda específicos podem ser selecionados através de filtros.

A luz emitida deve chegar ao grupo funcional em questão sem ser bloqueada pelo reator, meio reacional ou outros grupos funcionais presentes. Em muitas aplicações, o quartzo é empregado tanto em reatores como no recipiente que contem a lâmpada, por absorver apenas em comprimentos de onda abaixo dos 200 nm. O vidro Pirex absorve em comprimentos de onda inferiores a 275 nm.

O solvente escolhido é um parâmetro experimental importante por ser um reagente em potencial. Consequentemente, a utilização de solventes clorados é evitada, pois a ligação C-Cl pode levar à cloração do substrato. Solventes que eventualmente absorvam a radiação podem evitar que os fótons cheguem ao reagente. Os hidrocarbonetos absorvem apenas em comprimentos de onda curtos e são então preferidos em experimentos fotoquímicos que necessitem de fótons com alta energia. Solventes que contenham ligações insaturadas absorvem em comprimentos de onda mais longos e são úteis para filtrar os comprimentos de onda curtos. Por exemplo, ciclohexano e acetona "cortam" (absorvem fortemente) comprimentos de onda menores que 215 e 330 nm, respectivamente.

Excitação[editar | editar código-fonte]

A fotoexcitação é o primeiro passo em um processo fotoquímico, onde o reagente é levado ao estado excitado. O fóton pode ser absorvido diretamente pelo reagente ou por um fotossensibilizador, que absorve o fóton e transfere a energia para o reagente. O processo oposto, conhecido como supressão, é quando um estado fotoexcitado é desativado por um reagente químico.

A maioria das transformações fotoquímicas ocorre através de uma série de etapas simples, conhecidas como processos fotoquímicos primários.15 Um exemplo destes processos é a transferência de prótons no estado excitado (ESPT).

Fotoquímica Orgânica[editar | editar código-fonte]

Muitas reações importantes de alcenos ocorrem via transição π-π* fotoinduzida. O primeiro estado eletrônico excitado de um alceno carece da ligação π, de modo que a rotação em torno da ligação C-C é facilitada e a molécula pode seguir por reações não observadas termicamente. Estas reações incluem isomerização cis-trans, cicloadição a outro alceno (no estado fundamental) resultando em derivados do ciclobutano. A isomerização cis-trans de um (poli)alceno ocorre na retina, um dos componentes do mecanismo da visâo. A dimerização de alcenos é relevante nos processos de danos ao ADN, onde dímeros de timina são observados após iluminar o ADN com radiação ultravioleta. Tais dímeros de timina interferem na transcrição molecular. Os efeitos benéficos da luz solar estão associados a indução fotoquímica da reação de retrociclização do ergosterol, fornecendo a vitamina D. Na reação DeMayo um alceno reage com uma 1,3-dicetona via enol e resulta em uma 1,5-dicetona. Outra reação fotoquímica comum é o rearranjo di-π-metano de Zimmerman, formando um aril- ciclopropano substituído.16 17

Do ponto de vista industrial, cerca de 100.000 toneladas de cloreto de benzila são preparadas anualmente através da reação fotoquímica em fase gasosa entre tolueno e cloro.18 O fóton induz a ruptura homolítica da ligação Cl-Cl, e o radical de cloro resultante converte o tolueno no radical benzílico:

Cl2 + hν → 2 Cl·
C6H5CH3 + Cl· → C6H5CH2· + HCl
C6H5CH2· + Cl· → C6H5CH2Cl

Fotoquímica inorgânica e organometálica[editar | editar código-fonte]

Complexos de coordenação e compostos organometálicos também são fotorreativos. Estas reações podem englobar a isomerização cis-trans. Em geral, o mecanismo de fotorreação mais comum para estes compostos resulta na dissociação dos ligantes, uma vez que o fóton excita um elétron da ligação com o metal para um orbital antiligante em relação aos grupos ligantes. Deste modo, carbonilas metálicas que resistem à substituição térmica procedem à descarbonilação sob irradiação com luz ultravioleta (UV). A irradiação UV de uma solução de hexacarbonila de molibdênio em THF fornece o complexo de THF, o qual é sinteticamente útil:19

Mo(CO)6 + THF → Mo(CO)5(THF) + CO

Em uma reação relacionada, a fotólise da pentacarbonila de ferro20 21 resulta em nonacarbonila de ferro (figura acima):

2 Fe(CO)5 → Fe2(CO)9 + CO

Aspectos Históricos[editar | editar código-fonte]

Apesar de o processo de fotobranqueamento ser praticado desde a antiguidade, a primeira reação fotoquímica foi descrita pelo químico e farmacêutico alemão Johann Bartholomew Trommsdorf em 1834.22 Ele observou que cristais do composto α-santonina (incolor) ficavam amarelos e quebravam-se quando eram expostos à luz solar. Em um estudo de 2007 a reação foi descrita como uma sucessão de três passos ocorrendo no interior do cristal.23

Reação Fotoquímica da Santonina.

O primeiro passo é a reação de rearranjo levando a um intermediário da ciclopentadienona (2), o segundo passo é uma dimerização através de uma reação de Diels-Alder (3) e o terceiro passo envolve uma cicloadição [2+2] intramolecular (4). O efeito de explosão do cristal é atribuído à grande mudança de volume no passo de dimerização.

Referências

  1. União Internacional de Química Pura e Aplicada. "Fotoquímica". Compêndio de Terminologia Química Edição da internet.
  2. a b c K. K. Rohatgi-Mukherjee. Fundamentals of Photochemistry (Revised Edition) (em Inglês). Calcutta, India: New Age International Limited, Publishers, 1991. 371 p. p. 3–7. ISBN 0852267843 Página visitada em 05 de Março de 2011.
  3. União Internacional de Química Pura e Aplicada. "Lei de Beer-Lambert". Compêndio de Terminologia Química Edição da internet.
  4. Nicholas J. Turro. Modern Molecular Photochemistry (em Inglês). Sausalito, CA: University Science Books, 1991. 628 p. p. 1-628. ISBN 978-0935702712 Página visitada em 05 de Março de 2011.
  5. União Internacional de Química Pura e Aplicada. "Princípio de Franck-Condon". Compêndio de Terminologia Química Edição da internet.
  6. Franck, J.. (1926). "Elementary processes of photochemical reactions" (em Inglês). Transactions of the Faraday Society 21: 536–542. DOI:10.1039/tf9262100536.
  7. Condon, E.. (1926). "A theory of intensity distribution in band systems" (em Inglês). Physical Review 28: 1182–1201. DOI:10.1103/PhysRev.28.1182.
  8. Kasha, M.. (1950). "Characterization of electronic transitions in complex molecules" (em Inglês). Discussions of the Faraday Society 9 (1): 14-19. DOI:10.1039/DF9500900014.
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  10. União Internacional de Química Pura e Aplicada. "Regra de Kasha-Vavilov". Compêndio de Terminologia Química Edição da internet.
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  12. Robert B. Woodward, Roald Hoffmann. Die Erhaltung der Orbitalsymmetrie (em Alemão). Weinheim: Verlag Chemie, 1970. 178 p. p. 1–178. ISBN 3-527-25323-8
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  20. Edmund Speyer, Hans Wolf. (1924). "Über die Bildungsweise von Eisen-nonacarbonyl aus Eisen-pentacarbonyl" (em Alemão). Berichte der Deutschen Chemischen Gesellschaft. 60: 1424-1425. DOI:10.1002/cber.19270600626.
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Ver também[editar | editar código-fonte]