Guerra da Cisplatina

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Guerra da Cisplatina
Juncal MuratureJose 1865.png
Frota das Províncias Unidas do Rio da Prata na Batalha de Juncal.
Data 18251828
Local Sul do Brasil, Uruguai e foz do Rio da Prata.
Desfecho Interferência diplomática do Reino Unido
Criação da República Oriental do Uruguai.
Combatentes
Flag of Argentina (alternative).svg Províncias Unidas do Rio da Prata
(atuais Argentina e Uruguai)
Flag of Empire of Brazil (1870-1889).svg Império do Brasil
Flag of Prussia 1892-1918.svg Mercenários Alemães
Principais líderes
Flag of Argentina (alternative).svg Juan Antonio Lavalleja
Flag of Argentina (alternative).svg Guillermo Brown
Flag of Argentina (alternative).svg Bernardino Rivadavia
Flag of Argentina (alternative).svg Francis Drummond
Flag of Argentina (alternative).svg Carlos María de Alvear
Flag of Empire of Brazil (1870-1889).svg Dom Pedro I
Flag of Empire of Brazil (1870-1889).svg Rodrigo Pinto Guedes
Flag of Empire of Brazil (1870-1889).svg Marquês de Barbacena
Flag of Empire of Brazil (1870-1889).svg Carlos Frederico Lecor

A guerra da Cisplatina ou campanha da Cisplatina (língua espanhola: Guerra del Brasil) foi um conflito ocorrido entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata, no período de 1825 a 1828, pela posse da Província Cisplatina, a região da atual República Oriental do Uruguai. Na historiografia argentina é denominada como Guerra do Brasil ou Guerra Contra o Império do Brasil.

Foi o primeiro de quatro conflitos armados internacionais em que o Brasil lutou pela supremacia sul-americana, tendo o segundo sido a Guerra do Prata, o terceiro a Questão Uruguaia e o último a Guerra do Paraguai. Juntos, integram o conjunto das Questões Platinas, na História das Relações Internacionais do Brasil.

O termo Cisplatina (cis, aquém, da parte de cá de + platina, relativa ao rio da Prata), indica a localização geográfica do território da antiga província, a Leste daquele rio; em castelhano era conhecida como Província Oriental del Río de la Plata, constituindo-se no atual Uruguai.

Localizada na entrada do estuário do Rio da Prata, a Província Oriental era uma área estratégica, já que quem a controlava tinha grande domínio sobre a navegação em todo o rio, acesso aos rios Paraná e Paraguai, e via de transporte da prata andina.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Bandeira da Província Cisplatina

A região era disputada pelas coroas de Portugal e da Espanha desde a fundação da Colônia do Santíssimo Sacramento (1680), pelos portugueses, sendo objeto de vários tratados territoriais, dos quais os principais foram o Tratado de Madrid (1750), o Tratado de Santo Ildefonso (1777) também chamado Tratado dos Limites, por ter decidido a posse do território aos espanhóis, e o Tratado de Badajoz (1801).

Cisplatina.png
O Império do Brasil (verde) e a Província da Cisplatina (vermelho).
Conflitos na História do Brasil
- Império -
Primeiro Reinado
Guerra da Independência: 1822-1823
Independência da Bahia: 1821-1823
Confederação do Equador: 1824
Guerra contra as Províncias Unidas: 1825-1828
Revolta dos Mercenários: 1828
Período Regencial
Federação do Guanais: 1832
Revolta dos Malês: 1835
Cabanagem: 1835-1840
Farroupilha: 1835-1845
Sabinada: 1837-1838
Balaiada: 1838-1841
Segundo Reinado
Revoltas Liberais: 1842
Revolta Praieira: 1848-1850
Guerra contra Oribe e Rosas: 1851-1852
Ronco da Abelha: 1851-1852
Questão Christie: 1863
Guerra contra Aguirre: 1864
Guerra do Paraguai: 1864-1870
Questão Religiosa: 1872-1875
Revolta dos Muckers: 1874
Revolta do Quebra-Quilos: 1874-1875
Questão Militar: década de 1880


Na posse espanhola, com a independência da Províncias Unidas do Rio da Prata, constituiu-se em território daquele país até 1816 quando foi invadida pelo general Carlos Frederico Lecor, comandante da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, para a coroa portuguesa, na Guerra contra Artigas. Ali desenvolveu uma inteligente política de ocupação, com a fundação das Escolas Mútuas do Método Lancaster e o apoio às elites Orientais. Em 31 de julho de 1821, foi incorporado ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves pelo príncipe-regente português, com o nome de Província Cisplatina. A anexação foi justificada, à época, pelos alegados direitos sucessórios que sua esposa, a rainha Carlota Joaquina, teria sobre a região.

O conflito[editar | editar código-fonte]

Alimentando pretensões de recuperar o território da Província Oriental ou Cisplatina as Províncias Unidas do Rio da Prata ajudaram os patriotas orientais (uruguaios), liderados por Juan Antonio Lavalleja, a que se levantassem contra a dominação brasileira na região. Para esse fim, os argentinos ofereciam-lhes apoio político, além de suprimentos de boca e de guerra. O conflito acabou eclodindo em 1825, quando líderes militares orientais, como Lavalleja e Fructuoso Rivera proclamaram a independência da região. Lavalleja desembarcou com suas forças na praia da Agraciada e, com o apoio da população, declarou a incorporação da Província Oriental às Províncias Unidas do Rio da Prata. Em resposta, em 10 de dezembro, o governo imperial brasileiro declarou guerra às Províncias Unidas, que retribuíram a declaração de guerra em 1º de janeiro de 1826.

Forças oponentes[editar | editar código-fonte]

O Brasil tinha uma significativa vantagem populacional em relação aos seus inimigos. A população brasileira era de 4,5 milhões de pessoas (incluindo 1,1 milhão de escravos), enquanto que a população das Províncias Unidas era de 600.000 (150.000 na província de Buenos Aires) e a do Uruguai, 60.000.[1] O tamanho da população, entretanto, não era uma medida adequada da força dos países. Muitos brasileiros estavam fisicamente e emocionalmente afastados do conflito. Nas Províncias Unidas, somente os portenhos estavam interessados na luta. Apesar da maioria dos uruguaios terem lutado com os portenhos, alguns se aliaram aos brasileiros.

Tanto o Brasil quanto as Províncias Unidas tinham dificuldades em criar exércitos nacionais. A espinha dorsal do Exército Brasileiro, que havia lutado no Uruguai entre 1811 e 1821, era portuguesa. Depois que o Brasil proclamou sua independência em 1822, as tropas portuguesas em Montevidéu retornaram à Europa em março de 1824, sendo substituídas por tropas brasileiras recém recrutadas. A partir de 1822, o Império Brasileiro começou a criar um exército nacional com as unidades brasileiras que já existiam, mas ainda havia muito a se fazer.

O efetivo da tropa, entretanto, caiu muito além do que era necessário, obrigando o governo a determinar o recrutamento forçado. John Armitage escreveu que:

Diante da dificuldade de recrutar brasileiros para servir no exército, mercenários foram recrutados na Alemanha e Irlanda, mas essas tropas não ofereciam ajuda imediata.[3]

O Exército Brasileiro de 1826 contava com 10.000 homens, 6.000 deles na Banda Oriental do Uruguai: 2.500 em Montevidéo, 1.100 em Colônia do Sacramento, 1.100 espalhados em guarnições ao longo dos rios Uruguai e Negro, e o restante em outros lugares. Muitos desses 6 mil homens eram recrutas locais.

As Províncias Unidas também tiveram problemas para levantar um exército. O caudilho Juan de las Heras, governador da Província de Buenos Aires levantou um exército de 800 homens sob o comando do General Martín Rodriguez perto de Concepción del Uruguay, na Argentina. A nata da força humana da cidade havia sido enviada à costa oeste da América do Sul para enfrentar os realistas, e as províncias do interior não tinham o mesmo entusiasmo com a guerra contra o Brasil quanto os portenhos e não enviaram tropas.

Embora a população uruguaia fosse pequena comparada às do Brasil e das Províncias Unidas, o país teve menos dificuldade em levantar um exército. A maioria dos uruguaios vivia nas planícies do interior eram apropriados para servir como cavalaria irregular. Armitage descreveu o típico homem do front:

As marinhas eram outra questão. Apesar do Lorde Cochrane ter voltado para a Inglaterra, a Marinha do Brasil, criada por ele e integrada principalmente por 1.200 mercenários ingleses, irlandeses e norte-americanos, permaneceu praticamente intacta. Um terço dos oficiais da Marinha do Brasil era inglês. A marinha sofria por falta de oficiais juniores. Em 1826, a Marinha do Brasil possuía um navio de linha, seis fragatas, dezoito brigues e bergantins, além de umas vinte e cinco embarcações inferiores.

Batalha de Juncal, 1865.

A Marinha de Buenos Aires era inferior à brasileira. Inicialmente, consistia nas brigues General Belgrano (14 canhões) e General Balacre (14 canhões) e algumas poucas canhoneiras. Também foram comprados e equipados alguns navios mercantes, sendo o mais importante a corveta Comércio de Lima, que se tornou a 25 de Mayo (28 canhões). As Províncias Unidas também compraram três belonaves chilenas que estavam no dique há algum tempo — a frigata O'Higgins (44 canhões), renomeada para Buenos Aires; a corveta Independencia (28 canhões); e a corveta Chacabuco (20 canhões). Os navios zarparam de Valparaíso em 25 de maio de 1826; o Buenos Aires, entretanto, naufragou no Cabo Horn após uma tempestade, causando a perda de 500 vidas, e o Independencia encalhou, com perda total. Mais da metade dos cinqüenta e seis oficiais eram norte-americanos e britânicos. O comércio regional estava crescendo e o potencial para prêmios em dinheiro era grande. Por isso, encorajar os corsários era fácil.

Estratégias iniciais[editar | editar código-fonte]

O Brasil esperava que a demonstração de seu poderio naval antes do início das hostilidades moderasse as ações dos portenhos e que os mesmos desistiriam de seu apoio aos uruguaios. A partir de abril de 1825, o Brasil começou a enviar significativos reforços à sua pequena esquadra no Rio da Prata. O comando foi dado ao vice-almirante Rodrigo Ferreira Lobo.

Essa demonstração de força falhou no intuito de deter a guerra, então o Brasil esperou que um bloqueio a Buenos Aires persuadisse os portenhos. O bloqueio do porto de Buenos Aires, entretanto, se mostrou uma missão muito difícil. As águas imediatamente anteriores à enseada eram muito rasas para as belonaves brasileiras mais pesadas, e o canal de acesso à enseada era estreito e tempestuoso. Além disso, havia poucos pontos de referência distinguíveis no mar para auxiliar na navegação. Por essas mesmas razões, o bombardeio de Buenos Aires seria extremamente difícil.

A estratégia inicial das Províncias Unidas era furar o bloqueio através de rápidas incursões contra os bloqueadores utilizando belonaves menores e mais ágeis. As belonaves portenhas de pequeno calado zarparam de Buenos Aires, tentando atrair os bloqueadores brasileiros para águas rasas, onde deveriam encalhar. Uma vez encalhados, eles podiam ser atacados com sucesso por belonaves menores. O plano de Buenos Aires também consistia garantir suprimentos aos gaúchos uruguaios, aproveitando sua grande motivação de lutar contra as tropas brasileiras de ocupação.

Desenrolar da guerra[editar | editar código-fonte]

Operações do Império Brasileiro em fevereiro de 1827.

Para apoiar as forças de Juan Antonio Lavalleja, um exército argentino atravessou o Rio da Prata, estabelecendo acampamento em Durazno, iniciando uma invasão do território brasileiro pelo general Carlos Maria de Alvear (1826). O visconde de Barbacena, no comando das tropas imperiais, deu combate aos argentinos na batalha de Ituzaingó.

Em apoio ao Exército Brasileiro, o imperador Pedro I enviou uma esquadra para bloquear o estuário do rio da Prata, assim como o porto de Buenos Aires. A Argentina revidou, atacando o litoral do Rio Grande do Sul. Contudo, a pressão da Marinha do Brasil conseguiu, com o tempo, estrangular o comércio argentino.

O Império Brasileiro iniciou a ofensiva terrestre a partir do final de 1826, por meio da concentração de tropas no sul do país. Essas tropas eram formadas, em sua maioria, por voluntários e por algumas unidades de mercenários europeus.

A dificuldade do imperador em reunir forças para o conflito deveu-se, em grande parte, ao fato de que seu governo estava enfrentando à época várias rebeliões populares e levantes militares nas províncias do recém-independente Brasil (inclusive na capital Rio de Janeiro).

A falta de tropas atrasou em muito a capacidade de resposta brasileira ao apoio de Buenos Aires ao levante no Sul. Por volta de 1826, esse apoio não era mais somente político e logístico: já havia a convocação de tropas para lutar contra o Império.

A guerra foi marcada por diversos encontros de pequena monta e por escaramuças de grupos armados de ambos os lados. Estes encontros em nada contribuíram para a solução do impasse político e militar.

Somente as batalhas de Sarandi e Passo do Rosário se constituíram em encontros militares de maior vulto. Em ambas, o exército imperial foi derrotado. Contudo, graças à falta de recursos humanos e logísticos também por parte das Províncias Unidas como da Banda Oriental, para explorarem estas vitórias, elas foram de pouco proveito.

A guerra prosseguiu, por terra e mar, com vantagem para as forças imperiais, que derrotaram as forças republicanas na decisiva Batalha de Monte Santiago (1827).

Na primeira metade do ano seguinte, Fructuoso Rivera reconquistou para a Província Oriental (e para as Províncias Unidas) o Território dos Sete Povos das Missões que havia passado ao Império Português em 1801 (ver Tratado de Badajoz 1801).

Após esta vitória dos argentinos e orientais, dado o impasse em terra (Montevidéu e Colônia do Sacramento, as duas maiores cidades do Uruguai permaneceram sob o controle do Brasil durante todo o conflito), o bloqueio naval brasileiro (que impunha consequências econômicas severas às Províncias Unidas[4] ), os altos custos para os beligerantes da continuação da guerra, a pressão britânica para que um acordo fosse firmado, além da precariedade militar e política dos países em conflito, a paz começou a ser negociada, com a mediação da França e da Grã-Bretanha.

Desse modo, o Império do Brasil e a República das Províncias Unidas do Rio da Prata, pela Convenção Preliminar de Paz, assinada em 27 de agosto de 1828, no Rio de Janeiro, renunciaram às suas conquistas e reconheceram como Estado independente a Província Oriental, que passou a se chamar República Oriental do Uruguai.

Consequências[editar | editar código-fonte]

O Juramento dos Treinta y Tres Orientales, 1877.

A perda da Província Cisplatina foi um motivo adicional para o crescimento da insatisfação popular com o governo de D. Pedro I. Na realidade, a guerra era impopular desde o início, pois para muitos brasileiros representava aumento de impostos para o financiamento de mais um conflito.

Quando o Império do Brasil assinou o acordo pela independência da região, muitos utilizaram isto como argumento para tornar ainda mais impopular o governo, alegando que o imperador havia depauperado os cofres públicos e sacrificado a população por uma causa perdida.

Entretanto, a guerra da Cisplatina não foi uma causa direta para a abdicação do imperador, em 1831. Ela se insere dentro de uma conjuntura que concorreu para a sua queda. Entre as causas da abdicação, sem dúvida, o estilo centralizador de governar foi o principal.

Referências

  1. Kirkpatrick, Latin Amercia, 155; Hubert Herring, A History of Latin America (New York: Alfred A. Knopf, 1955), 601; Vale, "The Creation", 67.
  2. a b ARMITAGE, John. Historia do Brazil, desde a chegada da real família de Bragança, em 1808, até a abdicação do imperador D. Pedro I, em 1831. Trad. de Joaquim Teixeira de Macedo. Rio de Janeiro: Typ. Imp. e Const. de Villeneuve e Comp., 1837. pág. 173.
  3. W. H. Koebel, British Exploits in South America (New York: The Century Company, 1917), 327-29; Armitage, The History of Brazil, 1: 260-61; Levene, A History of Argentina, 381.
  4. [1]
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CARNEIRO, David. História da Guerra Cisplatina. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1946.
  • DONATO, Hernâni. Dicionário das Batalhas Brasileiras. São Paulo: Editora Ibrasa, 1987.
  • DUARTE. Paulo de Q. Lecor e a Cisplatina 1816-1828. v. 2. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1985.
  • SCHEINA, Robert L. Latin America's Wars: the age of the caudillo, 1791-1899, Brassey's, 2003.
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Ver também[editar | editar código-fonte]