História ambiental

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Searchtool.svg
Esta página ou secção foi marcada para revisão, devido a inconsistências e/ou dados de confiabilidade duvidosa. Se tem algum conhecimento sobre o tema, por favor verifique e melhore a consistência e o rigor deste artigo. Pode encontrar ajuda no WikiProjeto Ambiente.

Se existir um WikiProjeto mais adequado, por favor corrija esta predefinição. Este artigo está para revisão desde outubro de 2009.

Por muitos anos se acreditou em um distanciamento entre Cultura e Natureza. Este distanciamento influenciou sobremaneira as relações estabelecidas entre o Homem como ser diferenciado e destacado da natureza em contraposição à Natureza e seus recursos.

Criou-se posteriormente a distinção entre paisagem natural e paisagem cultural, esta última seria o objeto de estudo do historiador. Esta visão ainda destacava o Homem de seu contexto natural, só serviriam aos estudos históricos as paisagens transformadas pela acção do homem. Atualmente, existe a preocupação dos historiadores em perceber as relações entre o homem e seu meio ambiente. Nada mais óbvio que enxergar as inter-relações entre os diversos fatores que norteiam esta relação.

A tecnologia e a economia são fatores importantes na relação entre uma dada sociedade e o ambiente natural que a cerca. É seguindo esta perspectiva teórica de inter-relações que se produzem atualmente os trabalhos acadêmicos em torno da História Ambiental.

As relações "Humanos x Mundo Natural"[editar | editar código-fonte]

Ponting (1995:30), em sua obra "Uma História Verde do Mundo" inicia sua discussão sobre as relações entre os seres humanos e o meio ambiente chamando a atenção para o fato de que a "história humana não pode ser compreendida em um vácuo". Para esse autor a vida na terra depende de como os seres humanos se relacionam com o seu ambiente, pois a existência desses depende de um complexo sistema de inter-relações entre processos físicos, químicos e biológicos.

Ao fazer essa afirmação Ponting nos indica uma mudança no modo de pensar a relação Homem e Natureza. Essa mudança de atitude pode ser um desdobramento da degradação ambiental causada pelo uso abusivo e descontrolado dos recursos naturais, e os problemas decorrentes desse processo diversas partes do globo. Assim, a história humana se apresenta também como a história do ambiente.. Esta constatação não é recente e já fazia parte dos escritos de Karl Marx. (1981) A História pode ser encarada de dois lados e dividida em História da Natureza e História dos Homens. Mas os dois lados não podem ser separados do tempo; enquanto houver homens, a História da Natureza e a História dos Homens se condicionarão reciprocamente.

Mas, se hoje, esse pensamento tem se firmado cada vez mais, até a algumas décadas atrás o mesmo não acontecia, mesmo na academia. A formação e consolidação da ciência moderna parece ter naturalizado algumas visões de mundo que são definidas pela oposição de categorias como homem e natureza; sujeito e objeto; espírito e matéria, subjetividade e objetividade. É principalmente a primeira oposição, homem e natureza, que nos interessa mais neste trabalho.

Essa separação se consolida nos séculos XVI e XVII, quando o Homem deixa definitivamente o universo do mundo natural. Pensadores como Francis Bacon e principalmente René Descartes, que concebiam este mundo como algo exterior à sociedade humana, influenciaram o nascimento da ciência moderna cristalizando essa visão de natureza alheia ao homem, passível de controle por meio do conhecimento, ou seja, da Ciência (Gonçalves, 1998, Oliveira, 2002; Silva & Schramm, 1997) .

Para Gonçalves (1998), a modernidade, assim como a própria ciência moderna, expressava, já na sua gênese, dois aspectos: primeiramente a visão pragmática do conhecimento, que deve ser "útil", em oposição a uma filosofia especulativa. A Natureza, dessa forma é entendida como um recurso, um meio para se atingir um fim. Em concordância com essa primeira característica, o caráter antropocêntrico do pensamento moderno. O homem, o sujeito, é colocado, ao mesmo tempo em oposição e como dominador do objeto, no caso o mundo natural. A ruptura entre homem e Natureza se acelera no momento em que ele se descobre como protagonista único, e ao mesmo tempo inicia a "mecanização do planeta" (Santos, 1992). É nesse ambiente ideológico que a ciência moderna se formou e que ainda a influencia de forma significativa.

Contudo, é ainda no século final do século XIX que as Ciências Naturais começam a questionar o postulado de que não era necessário mais que alguns poucos milênios para investigar e conceitualizar as sociedade humanas, normalmente associada com a escrita. As ciências naturais se propunham a investigar processos onde o "tempo cultural" não era mais suficiente. Assim as ciências Naturais lançam mão do "tempo geológico", que jogava luz sobre o papel do ambiente na história da evolução humana, e que empurrava a história da humanidade para muitos milênios antes da escrita (Drummond, 1991:3).

No caso específico da História a adoção desse paradigma também repousa na própria definição do campo de atuação: o estudo da trajetória humana e da formação e transformações das civilizações através do tempo (Ribeiro 2005:15). O que implica uma visão de superioridade dos seres humanos em relação à natureza. Consequentemente, o período em que supostamente estivemos mais subordinados à Natureza torna-se parte da Pré-História, objeto de estudo da arqueologia. Contudo, os problemas ambientais, a emergência dos movimentos ecológicos e a percepção da amplitude da ação humana no ambiente, levaram as ciências humanas, a partir segunda metade do século XX, a uma mudança de postura, principalmente no que diz respeito às relações entre o seu objeto, os humanos, e o ambiente natural. No rastro destas tendências, as ciências humanas iniciam várias frentes de aproximação com as ciências naturais. Como por exemplo, o aparecimento a partir da década de trinta, da Ecologia Cultural, tendo à frente Julian Steward e da Ecologia Humana da Escola de Chicago.

É nesse contexto que a História Ambiental começa a se desenvolver. Mas é nos anos 1980 e 90, que o campo ganha status cientifico e institucional, com a criação de cursos de pós-graduação, de periódicos (Environmental History) e de uma sociedade, a American Society for Environmental History, principalmente nos Estados Unidos. (Stewart, 1998). Na Europa, em 1999, é fundada a European Society for Environmental History e a revista Environmental and History. Essas eventos nos mostram que o esforço por parte dos historiadores de estabelecer esta especialidade, procurando institucionalizar as discussões teóricas e metodológicas da nova abordagem.

Os precursores dessa nova História são encontrados entre os autores da chamada História das Civilizações, onde se destacam autores como Arthur Toynbee ( Mankind and Mother Earth: A Narrative History of the World) e Gordon Childe (Man Makes Himself). Esses autores analisaram como sociedades tiveram sua existência vinculada ao uso dos recursos naturais (Drummond, 1991).

Na Europa, Marc Bloch e Lucien Febvre lançaram a "Revue des Annales" que deu origem à chamada "Nova História". Esta nova corrente historiográfica propunha a construção de uma história recorrendo a tudo o que estivesse relacionado ao homem, incluindo a natureza. Em seu estudo sobre a vida rural na França, Bloch, assim como Febvre, deu uma atenção especial ao meio-ambiente (Freire, 2004).

Mas foi Fernand Braudel e a sua concepção de que o ambiente molda a vida humana, quem mais contribuiu e continua influenciando os historiadores dessa nova modalidade. Na sua obra sobre o mundo Mediterrânico ele estuda a história "do homem em relação ao seu meio", ou como o próprio Braudel chamava, uma "geo-história" (Dosse, 1992:133-143). Em sua visão, a geo-história é a história que o meio impõe aos homens por suas constantes ou leves variações. Essas variações não são percebidas ou acabam sendo negligenciadas na "curta medida do homem". (Dosse, 1992; Aguirre Rojas, 2000, Burke 1997, Drummond, 1991, Worster, 1991).

A geo-história se preocupa em estudar os vínculos homem-natureza, pensada na forma de uma ação e reação ao longo do tempo. Braudel divide os processos históricos segundo suas diferentes velocidades, cabendo à história lenta, quase imóvel, as relações do homem e o seu meio, sendo a base onde as outras duas histórias, a social e a individual são desenvolvidas. Assim Essa nova história "rejeita a premissa de que a experiência humana se desenvolveu sem restrições naturais, de que as conseqüências ecológicas de seus feitos passados podem ser ignoradas" e tem como objetivo "entender como os seres humanos foram afetados pelo ambiente natural e inversamente como eles afetaram esse ambiente e com que resultados" (Worster, 1991:01).

A História Ambiental como Campo de estudo[editar | editar código-fonte]

Vários autores (Stewart, 1998, Worster, 1991, Drummond, 1991, 1997) concordam em afirmar que a História Ambiental tem sido feita, de modo geral, em três categorias de análises: reconstrução de ambientes naturais do passado, estudo dos modos humanos de produção e seu impacto sobre o ambiente; e a análise da história das idéias, das percepções e dos valores sobre o mundo natural. Esses níveis podem aparecer integrados, como no estudo sobre a mata Atlântica de Warren Dean (1996) ou de forma separadas, como no estudo das idéias conservacionistas de Pádua (2002) em "Um sopro de destruição". Embora possa haver maior ênfase neste ou naquele plano, há a preocupação entre a maior parte dos estudos de evitar uma "racionalização das necessidades do estômago" ou um extremado ideacionismo, evitando a dicotomia "Barriga" e "Pensée".

A necessidade da integração de diferentes níveis de análises fez com que uma das principais características da História Ambiental seja o diálogo com outras disciplinas como a geologia, biologia, geografia, antropologia e, principalmente, a ecologia. Worster (1991:06) qualifica esse diálogo da seguinte maneira:

No seu conjunto as ciências naturais são instrumentos indispensáveis para o historiador ambiental, que precisa sempre começar com a reconstrução de paisagens do passado, verificando como eram e como funcionavam antes que as sociedades humanas as penetrassem e as modificassem. Trata-se de colocar a natureza na História (Cronom, 1983), ou ir mais além, "colocar a história humana no contexto da natureza não-humana" (Soffiati, s/d).

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • AGUIRRE ROJAS, C. A. Os Annales e a historiografia francesa: tradições críticas de Marc Bloch a Michel Foucault. Maringá: Eduem, 2000.
  • BRAUDEL, Fernand (2002): Geohistória. IN: Entre passado e futuro. Nº 1. São Paulo: Maio.
  • BURKE, P. A Escola dos Annales (1929-1989): A Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: Fundação Editora da Unesp. 1997.
  • CRONON, W. Changes in the land: indians, colonists and ecology of New England. New York: Hill and Wang, 1983.
  • Crosby, Alfred W. (1986): Ecological imperialism: the biological expansion of Europe, 900 - 1900. Cambridge: Cambridge University Press. (Studies in environment and history).
  • DEAN, Warren. A Ferro e Fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. Trad. São Paulo, Cia. Das Letras, 1996.
  • DOSSE, F. A história em migalhas: dos Annales à Nova História. São Paulo: Ensaio. Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1992.
  • DRUMMOND, José Augusto. A História Ambiental e o choque das civilizações. In Ambiente e Sociedade, Ano III, n5, 2ª Semestre, 1999.
  • ________________________. A História Ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa. In Estudos Históricos, RJ, vol.4, n. 8. 1997 Abstracts, Texto integral
  • GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Os (Des) Caminhos do Meio Ambiente. São Paulo: Ed. Contexto, 1998.
  • MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. 1º capítulo, seguido das teses sobre Feuerbach. Trad. de Álvaro Pina. Lisboa: Avante, 1981. (Biblioteca do Marxismo-Leninismo/16)
  • OLIVEIRA, Ana Maria de. Relação Homem/Natureza no Modo de Produção Capitalista. In Scripta Nova. Revista Electrónica de Geografia Y Ciencias Sociales. Vol. VI, n. 119 (18), 1 de Agosto de 2002.
  • PÁDUA, J.A. Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista, 1786-1888. RJ: Jorge Zahar Editora, 2002.
  • PONTING, Clive. Uma História Verde do Mundo. RJ: Civilização Brasileira, 1995.
  • RIBEIRO, Ricardo Ferreira. Florestas anãs do Sertão – O Cerrado na História de Minas Gerais. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
  • Shepard Krech III, J.R. McNeill, and Carolyn Merchant (Editors)(2004): Encyclopedia of World Environmental History. New York: Routledge.
  • SILVA, E. R. DA. & SCHRAMM, F. R. A questão ecológica: entre a ciência e a ideologia de uma época. Cad. Saúde Publica, 13(3): 255-382, RJ. 1997
  • SILVA, Francisco Carlos Teixeira da (1997): História das paisagens. IN: CARDOSO, Ciro Flamarion et VAINFAS, Ronaldo (orgs.) Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus.
  • SOFFIATI, A. Destruição e proteção da Mata Atlântica no Rio de Janeiro: ensaio bibliográfico acerca da eco-história. (texto eletrônico), s/d.
  • STEWART, M.A. Environmental History: Profile of a developing Field. IN The History Teacher, vol. 31, nº 3, 1998.
  • Winiwarter, Verena (1998): Was ist Umweltgeschichte? Ein Überblick. (= Social Ecology Working Paper 54). Wien: Institut für Soziale Ökologie, Fakultät für Interdisziplinäre Forschung und Fortbildung IFF.
  • WORSTER, D. Para fazer História Ambiental. In Estudos Históricos, vol. 4, n. 8, 1991.
  • ____________. Transformações da Terra: Para uma Perspectiva Agroecológica na História. Ambiente e Sociedade. V.5, n.2 . Campinas, 2003

Ligações externas[editar | editar código-fonte]