Passeata dos Cem Mil

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Vladimir Palmeira, o líder do movimento civil, discursando durante a Passeata dos Cem Mil, em 1968

A Passeata dos Cem Mil foi a manifestação popular de protesto contra a Ditadura Militar no Brasil, ocorrida em 26 de junho de 1968, na cidade do Rio de Janeiro, organizada pelo movimento estudantil e que contou com a participação de artistas, intelectuais e outros setores da sociedade brasileira.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Prisões e arbitrariedade eram as marcas da ação do governo militar, relativamente às crescentes manifestações de protesto dos estudantes contra a ditadura que se instalara no país, em 1964. A repressão policial atingiu seu apogeu no final de março de 1968, com a invasão do restaurante universitário "Calabouço", onde os estudantes protestavam contra a elevação do preço das refeições. Durante a invasão, o comandante da tropa da PM, aspirante Aloísio Raposo, matou o secundarista Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos,[1] com um tiro à queima roupa no peito.

O fato, que comoveu todo o país, serviu para acirrar os ânimos. Durante o velório do estudante, o confronto com policiais ocorreu em várias partes do Rio de Janeiro. Nos dias seguintes, manifestações sucederam-se no centro da cidade, todas reprimidas com violência, até culminar na missa da Candelária (4 de abril), quando soldados a cavalo investiram contra estudantes, padres, repórteres e populares.[2]

No início de junho de 1968, o movimento estudantil começou a organizar um número cada vez maior de manifestações públicas. No dia 18, uma passeata, que terminou no Palácio da Cultura, resultou na prisão do líder estudantil, Jean Marc van der Weid.

No dia seguinte, o movimento se reuniu na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) para organizar novos protestos e pedir a libertação de Jean e de outros alunos presos. Mas o resultado foi a detenção de 300 estudantes, ao final da assembleia.

Três dias depois, uma manifestação estudantil, em frente à embaixada norte-americana, gerou um conflito que terminou com 28 mortos, centenas de feridos, mil presos e 15 viaturas da polícia incendiadas. Aquele dia ficou conhecido como "Sexta-Feira Sangrenta".

Diante da repercussão negativa do episódio, o comando militar acabou permitindo uma manifestação estudantil, marcada para o dia 26 de junho. Segundo o general Luís França, 10 mil policiais estariam prontos para entrar em ação, caso fosse necessário..

A passeata[editar | editar código-fonte]

Logo pela manhã, os participantes da passeata já tomavam as ruas da Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro. A marcha começou às 14h, com cerca de 50 mil pessoas. Uma hora depois, esse número já havia dobrado.

Além dos estudantes, também artistas, intelectuais, políticos e outros segmentos da sociedade civil brasileira engrossaram a passeata, tornando-a uma das maiores e mais expressivas manifestações populares da história republicana brasileira.

Ao passar em frente à igreja da Candelária, a marcha interrompeu seu andamento para ouvir o discurso inflamado do líder estudantil, Vladimir Palmeira, que lembrou a morte de Edson Luís e cobrou o fim da ditadura militar.

Tendo à frente uma enorme faixa, com os dizeres: "Abaixo a Ditadura. O Povo no poder", a passeata prosseguiu, durante três horas, encerrando-se em frente à Assembleia Legislativa, sem conflito com o forte aparato policial que acompanhou a manifestação popular, ao longo de todo o seu percurso.

Depois da passeata[editar | editar código-fonte]

Depois do evento, o então presidente Costa e Silva marcou uma reunião com líderes da sociedade civil - entre eles os universitários Franklin Martins e Marcos Medeiros - ocasião em que lhe foi pedida a libertação de estudantes presos, o fim da censura e a restauração das liberdades democráticas. Nenhuma dessas reivindicações foi aceita. O resultado foi a realização de outra passeata, que reuniu cerca de 50 mil pessoas.

Nos outros estados, os protestos estudantis ampliaram seu nível de organização e mobilização, como em Goiás, onde a polícia baleou 4 estudantes.[3] Mas à medida que cresciam as manifestações contra a ditadura, também crescia a ação repressiva do governo militar, em todo o território nacional:

  • No dia 2 de agosto, Vladimir Palmeira foi preso. Logo em seguida, outros 650 estudantes foram para a cadeia.
  • No dia 4, 300 alunos foram detidos em São Paulo.
  • Em 21 de agosto, o Congresso rejeitou o projeto que concedia anistia aos estudantes e operários presos.
  • Em 12 de outubro, mais de 400 estudantes foram detidos durante um congresso clandestino da UNE (União Nacional dos Estudantes) em Ibiúna, interior de São Paulo.

Apesar da repressão, as manifestações estudantis continuaram, até 13 de dezembro de 1968, quando foi promulgado o AI-5 (Ato Institucional nº 5), marcando o início dos "Anos de chumbo" da Ditadura Militar brasileira.

A foto e a poesia[editar | editar código-fonte]

O fotojornalista Evandro Teixeira que, à época, trabalhava para o Jornal do Brasil, tornou-se o autor da foto mais conhecida e representativa da Passeata dos Cem Mil. A foto exibe a massa humana que percorreu o centro do Rio de Janeiro e a enorme faixa contendo as frases: "Abaixo a Ditadura. O povo no poder"

Além desta, Evandro produziu outras fotos sobre a repressão militar às manifestações estudantis, como o conflito na Candelária, em 4 de abril de 1968.

Inspirado nelas, o poeta Carlos Drummond de Andrade compôs o belo poema "Diante das fotos de Evandro Teixeira".

"Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?"
- Trecho do poema

Participantes da passeata[editar | editar código-fonte]

Nomes de pessoas com visibilidade pública, que participaram da Passeata dos 100 mil:

Referências

  1. Nascido de uma família pobre, em Belém do Pará, Edson Luís mudara-se para o Rio de Janeiro, para fazer seus estudos de segundo grau no Instituto Cooperativo de Ensino, que funcionava no Restaurante Calabouço
  2. O governo militar proibira a realização dessa missa, mas o vigário-geral do Rio de Janeiro, D. Castro Pinto, insistiu em realizá-la. A missa foi celebrada com cerca de seiscentas pessoas. Do lado de fora, havia soldados a cavalo com os sabres desembainhados, um batalhão do Corpo de Fuzileiros Navais e vários agentes do DOPS. Após a cerimônia, os clérigos saíram na frente de mãos dadas, fazendo um "corredor" da porta da igreja até a rua Rio Branco para que todos os que estavam na igreja pudessem sair com segurança. Os militares aguardaram que todos saíssem e então atacaram. O saldo foi de dezenas de feridos.
  3. Um dos estudantes baleados, Ivo Vieira, morreu

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Teixeira, Evandro. 1968 Destinos 2008: passeata dos 100 mil. Ed. Textual, 2008
  • Valle, Maria Ribeiro do. 1968: O diálogo é a violência: movimento estudantil e ditadura militar no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, 1999.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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