Santo Daime

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Santo Daime
Santo Cruzeiro
Também conhecido como cruz de caravaca

O Santo Daime é uma manifestação religiosa surgida em plena região amazônica nas primeiras décadas do século XX. Consiste em uma doutrina espiritualista que tem como base o uso sacramental de uma bebida enteógena (para os psiquiatras,[1] [2] uma droga psicodélica[3] ), a ayahuasca. A doutrina não possui proselitismo, sendo a prática espiritual essencialmente individual, sendo o autoconhecimento e internalização os meios de obter sabedoria.

Segundo seus adeptos, a doutrina do Santo Daime é uma missão espiritual cristã, que encaminha os seus praticantes ao perdão e a regeneração do seu ser. Isto acontece porque o daimista, ao participar dos cultos e ingerir o Santo Daime inicia um processo de auto conhecimento, que visa corrigir os defeitos e melhorar-se sempre, para que possa um dia alcançar a perfeição.[4]

Nos rituais sempre há uma forte presença musical. São sempre cantados hinos religiosos e são usados maracás, um instrumento indígena ancestral, na maioria dos locais de culto, além de violas, flautas, bongôs e atabaques.

Surgiu no estado brasileiro do Acre, no início do século XX, tendo como fundador o lavrador e descendente de escravos Raimundo Irineu Serra, que passou a ser chamado dentro da doutrina e por todos que o conheciam como Mestre Irineu. Após conhecer a bebida sacramental chamada de ayahuasca pelos nativos da região Amazônica, Irineu Serra teve uma visão de características marianas, em que um ser espiritual superior lhe entrega a missão do Santo Daime.

Ouça o artigo (info)
Este áudio foi criado a partir da revisão datada de 23 de julho de 2010 e pode não refletir mudanças posteriores ao artigo (ajuda com áudio).

Mais artigos audíveis

História[editar | editar código-fonte]

Raimundo Irineu Serra nasceu em São Vicente Ferrer, no Estado do Maranhão em 1892. No final da primeira década do século, embarcou para o então Território do Acre para trabalhar nos seringais, onde se estabeleceu próximo à cidade de Brasileia, na fronteira com a Bolívia. Foi ali que Raimundo Irineu Serra, teve sua iniciação com a ayahuasca (um dos muitos nomes da beberagem), recebendo a missão de uma entidade feminina associada com a Virgem Maria (Virgem da Conceição ou Rainha da Floresta) de expandir a doutrina e utilizar todo o conhecimento nela inserida para a cura.

Mestre Irineu não inventou a ayahuasca, foi apenas responsável pela cristianização do seu uso, rebatizando a bebida a partir do rogativo "Dai-me Amor", "Dai-me Firmeza". A nova seita religiosa mesclou elementos culturais diversos como as tradições caboclas e xamânicas, o catolicismo popular, o esoterismo e tradições afro-brasileiras.[5]

Na década de 1930 inicia seus trabalhos espirituais com um pequeno grupo de seguidores nos arredores de Rio Branco e, com o passar dos anos, viu esse grupo aumentar em tamanho e importância no cenário acreano. Raimundo Irineu Serra faleceu em 6 de julho de 1971.

Fugindo dos princípios da doutrina, e desrespeitando aos advertimentos do Mestre antes do falecimento[6] , iniciou-se um movimento de expansão com a criação de novos centros como o CEFLURIS liderada por Sebastião Mota de Melo.[7]

Em 2006, estimava-se em aproximadamente 10.000 [carece de fontes?] os seguidores dessa doutrina no Brasil e no mundo. Há centros legalmente instituídos em quase todos os estados brasileiros e em países como Espanha e Países Baixos, além de grupos que celebram os cultos em países como Estados Unidos, Canadá, Japão, Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela e Portugal.[8]

A doutrina ficou então dividida em duas vertentes principais:

O Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (CICLU)[9] - Alto Santo - dirigido pela viúva do mestre, Peregrina Gomes Serra[10]

O CEFLURIS, fundado pelo Sebastião Mota de Melo, natural de Eirunepé, Amazonas. O Centro Eclético de Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra (CEFLURIS) foi registrado em 1974, com sede na cidade do Rio Branco, como um centro espírita estruturado sob a forma de sociedade religiosa sem fins lucrativos, responsável pela organização da Doutrina e pela feitio e distribuição da bebida sacramental utilizada nos rituais.

Inúmeros centros independentes ou não diretamente ligados ao CICLU ou ao CEFLURIS surgiram após a expansão para o resto do país. Um dos mais recentes desdobramentos desta expansão é o surgimento de centros independentes, que promovem sincretismos com a Umbanda, o Hinduísmo[carece de fontes?]. Um centro considerado expansionista, mas que ritualísticamente segue os princípios do Alto Santo é o Centro Eclético Flor do Lótus Iluminado - CEFLI, com sede em Capixaba, Acre, e dirigido por Luiz Mendes do Nascimento, mas com seguidores em vários locais do mundo.

O uso ritual de substâncias psicoativas como a ayahuasca vem sendo discutido em vários países. No Brasil, o CONAD (Conselho Nacional Antidrogas) do Brasil, retirou a ayahuasca da lista de drogas alucinógenas conforme portaria publicada no Diário Oficial da União em 10 de novembro de 2004, permitindo o uso ritual.

O ministro da Cultura, Gilberto Gil, encaminhou em 2008 ao IPHAN,[11] um processo para transformar o uso do chá de ayahuasca, em patrimônio imaterial da cultura brasileira.[12]

Estrela utilizada pelos fardados.

Legislação para uso do chá[editar | editar código-fonte]

Dimetiltriptamina, ou DMT, o princípio ativo da ayahuasca.

Em janeiro de 2010 o governo brasileiro formalizou legalmente o uso religioso do chá ayahuasca, vetando o comércio e propagandas do mesmo, que só poderá ser utilizado com fins religiosos e não lucrativos, com a criação de um cadastro facultativo para as entidades que o utilizam. A bebida chegou a ser proibida no país em 1985, sendo liberada dois anos depois, e ocorreu uma nova tentativa de proibição nos anos 1990. Atualmente não há impedimento para o uso do chá em cerimônias religiosas, porém não existiam orientações para o seu uso em conformidade com o direito.[13]

Atualmente[editar | editar código-fonte]

Em 2010, o cartunista Glauco Villas-Boas foi assassinado por uma pessoa que frequentou a doutrina. A família do assassino acusa o consumo do chá, de levá-lo a ter delírios psicóticos que desencadeou o assassinato. Outras fontes declaram que o jovem já sofria de problemas psiquiátricos antes de frequentar as sessões com o Santo Daime e que estaria passando por uma crise.[14]

Referências

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • LABATE, BEATRIZ CAIUBY Reinvenção do uso da ayahuascha em centros urbanos, Mercado de Letras, 2004
  • MACRAE, Edward Guiado pela lua, Editora Brasilense, 1992.
  • MOTIMER, Lúcio Nosso Senhor Aparecido na floresta s/ed
  • SANTANA, RICARDO J. ARRUDA, CAROLINA Centro Livre - Ecletismo cultural no Santo Daime, All Print.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]