Análise do discurso

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Análise do discurso ou análise de discurso é uma prática e um campo da linguística e da comunicação especializado em analisar construções ideológicas presentes em um texto. É muito utilizada, por exemplo, para analisar textos da mídia e as ideologias que os engendram. A análise do discurso é proposta a partir da filosofia materialista que põe em questão a prática das ciências humanas e a divisão do trabalho intelectual, de forma reflexiva.

De acordo com uma das leituras possíveis, discurso é a prática social de produção de textos. Isto significa que todo discurso é uma construção social, não individual, e que só pode ser analisado considerando seu contexto histórico-social, suas condições de produção; significa ainda que o discurso reflete uma visão de mundo determinada, necessariamente, vinculada à do(s) seu(s) autor(es) e à sociedade em que vive(m).

Texto, por sua vez, é o produto da atividade discursiva, o objeto empírico de análise do discurso; é a construção sobre a qual se debruça o analista para buscar, em sua superfície, as marcas que guiam a investigação científica. É necessário, porém, salientar que o objeto da análise do discurso é o discurso.

Contexto[editar | editar código-fonte]

Contexto é a situação histórico-social de um texto, envolvendo não somente as instituições humanas, como também outros textos que sejam produzidos em volta e com ele se relacionem. Pode-se dizer que o contexto é a moldura de um texto. O contexto envolve elementos tanto da realidade do autor quanto do receptor — e a análise destes elementos ajuda a determinar o sentido. A interpretação de um texto deve, de imediato, saber que há um autor, um sujeito com determinada identidade social e histórica e, a partir disto, situar o discurso como compartilhando desta identidade. Salientando que o texto só receberá esta nomenclatura (texto) se o receptor da mensagem conseguir decifrá-la.

Ordem de discursos[editar | editar código-fonte]

Uma ordem de discursos é um conjunto ou série de tipos de discursos, definido socialmente (Foucault) ou temporalmente (Fairclough), a partir de uma origem comum. São os discursos produzidos num mesmo contexto de uma instituição ou comunidade, para circulação interna ou externa e que interagem não apenas entre eles, mas também com textos de outras ordens discursivas (intertextualidade). Sua importância para a análise do discurso está em contextualizar os discursos como elementos relacionados em redes sociais e determinados socialmente por regras e rituais, bem como modificáveis na medida em que lidam permanentemente com outros textos que chegam ao emissor e o influenciam na produção de seus próprios discursos.

Universo de concorrências[editar | editar código-fonte]

O universo de concorrências ou mercado simbólico é o espaço de interação discursiva no qual discursos de diferentes emissores se dirigem ao mesmo público receptor: por exemplo, diferentes marcas de cerveja apelando ao mesmo segmento de mercado (homens entre 20-45 anos, classes A/B, solteiros). A concorrência ocorre quando cada um destes discursos tenta "ganhar" o receptor, "anulando" os demais ou desarticulando seus argumentos ou credibilidade em seu próprio favor. O modo de interpelar o receptor definirá as características do seu discurso (posicionamento competitivo) e determinará seu êxito ou insucesso.

Dificuldades da contextualização[editar | editar código-fonte]

A contextualização de um discurso é dificultada por, fundamentalmente, três itens:

  • a relação de causalidade entre características de um texto e a sociedade não é entre dois elementos distintos A→ B, um causa e outro conseqüência, mas é dialética, ou seja, a continência de um pelo outro é uma relação contraditória.
  • pelo mesmo raciocínio, os discursos (esfera da superestrutura) não sofrem apenas os determinantes econômicos (esfera da infraestrutura), mas também culturais, sexuais, etários etc..
  • o não-imediatismo da passagem da análise semiológica para a interpretação semântica, ou seja: não basta demarcar e classificar as palavras para imediatamente interpretar seus significados. É preciso considerar o máximo possível de variáveis presentes no contexto.

Discurso estético[editar | editar código-fonte]

A teoria do Discurso Estético parte do princípio de que, se a imagem também é um texto, e há discurso das imagens, não apenas semântico, deve haver discurso estético, sintático, perceptivel não logicamente, mas esteticamente.

Teoricamente, há estética em tudo. Todas as formas existentes são passíveis de percepção estética—logo, de apreciação e informação. Por isso, o que falamos pode ser chamado de um "discurso estético" ou discurso das imagens, que se dê pela percepção estética, não-lógica, de determinados valores ideológicos inculcados e identificáveis por meio de suas marcas de enunciação e interpelação. No caso das imagens, tais marcas podem ser encontradas, entre outros modos, por meio da Análise da Imagem e das leis da Teoria da Percepção.

É possível, por exemplo, analisar linhas de formas, texturas, cores, nas imagens produzidas por uma sociedade, uma instituição ou um período, e a partir destas marcas encontrar formas de interpelação (posicionamento & poder) e valorizações de determinados conceitos que são fundamentalmente ideológicos.

A ideia do discurso como "transmissor" de ideologia é aplicada às formas de Arte e de Comunicação Visual mais recentemente, em virtude da evolução das relações de produção, que vem distanciando quem cria de quem produz.

Na história da feitura de artefatos (fabricação de objetos e obras de arte), a produção deslocou-se da união designer/produtor para a gradual separação entre esses dois agentes. Antigamente, um artesão era ao mesmo tempo o projetista e o fabricante de um objeto ou uma obra. Já no contexto da produção industrial, o profissional que aplica valores estéticos aos objetos que serão produzidos (designer) não é o mesmo que os executa. Assim, indaga-se se é ele quem cria e determina esses valores estéticos, ou se eles já lhe são passados, pelo ambiente cultural, ideológico ou econômico.

Por exemplo: se os cartazistas russos do período revolucionário (1917-1922) utilizavam praticamente só cores preta e vermelha, isto era uma condição imposta pela economia de guerra, que não dispunha de variedade de tintas, ou era reflexo de um discurso ideológico extremista que defendia altos contrastes e opostos bem definidos, desprestigiando nuances e meios-termos?

Ou, por outro lado, o estilo Barroco da Contra-Reforma católica dá ideia de riqueza e opulência, fazendo frente à austeridade sombria da estética protestante, que pregava a não-representação (abolição do culto às imagens de santos etc.) e a ascese.

Embora não seja fácil definir qual é a relação causa-e-conseqüência do fenômeno, o certo é que os valores estéticos impregnados num trabalho e o ambiente ideológico estão intrinsecamente ligados, produzindo discursos muito mais do que verbais. Assim, é possível encontrar discursos estéticos nas instituições (aparelhos ideológicos do Estado, segundo Althusser, ou aparelhos de hegemonia, segundo Gramsci), dentro do que se considera "cultura", e pode-se considerar a atividade de comunicação visual como produtora de estética.

O que se propõe como Discurso Estético para as imagens vale igualmente para a Música, a Poesia, a Literatura e outras manifestações estéticas.

Ethos[editar | editar código-fonte]

A noção de ethos foi retomada há pouco (final dos anos 80) pelos analistas do discurso. Essa noção remonta aos retóricos antigos como Aristóteles, que a entendiam como "o carater que o orador deve aparentar em seu discurso para se mostrar crível". Não o que ele é, mas o que ele aparenta ser: honesto, simpático, solidário etc. Oswald Ducrot assimila a noção à sua teoria polifônica da enunciação, mostrando que não se trata do elogio que o locutor possa fazer de si mesmo ("Eu sou honesto"), o que, pelo contrário, criaria uma imagem negativa, mas do seu modo de se portar, que está implicito no enunciado. É Dominique Maingueneau quem introduz o ethos nas preocupações da Análise do Discurso, já que todo texto traz um tom, o qual não pode escapar ao estudo do analista. Ruth Amossy, mais recentemente, nos mostra a amplitude da noção, que mesmo não sendo chamada por esse nome (ethos), está presente em estudos das diferentes ciências humanas. Seja na Sociologia da linguagem, de Pierre Bourdieu, ou na Linguística, de Émile Benveniste, ou na Nova Retórica, de Chaïme Perelman, dentre outros. O importante, segundo ela, é observar que "todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si", da qual nenhuma enunciação pode escapar. Mais recentemente, Patrick Charaudeau desenvolveu essa noção junto ao que ele denomina estratégias de discurso, um conceito central de sua Teoria Semiolinguística do Discurso. Nessa teoria, o conceito de ethos está ligado ao de credibilidade, já que não basta poder tomar a palavra, é necessário ser levado a sério.

Pathos[editar | editar código-fonte]

Assim como o ethos,o pathos faz parte da tradição retórica da antiguidade clássica, e é definido como sendo as emoções (paixões) que o orador provoca em seu auditório para deixá-lo mais apto a receber seus argumentos. Em sua "Retórica", Aristóteles realiza um verdadeiro tratado de psicologia, descrevendo algumas emoções e mostrando em que circunstâncias são sentidas. A análise do discurso, nos últimos anos, seguindo a teoria de Patrick Charaudeau, procura falar em patemização, uma vez que esse termo evita que se caia em problemas terminológicos como: Emoção? Afeto? Sentimento? Sensação?

Escola Francesa[editar | editar código-fonte]

A Análise de Discurso Francesa (doravante AD) é compreendida como uma disciplina de entremeio que abarca conhecimentos advindos da Linguística, do Marxismo e da Psicanálise. Essas três epistemologias distintas sofrem questionamentos e intervenções por parte da AD, o que não significa dizer que as substitua. Os pressupostos teóricos da AD – que eram distintos dos pressupostos da disciplina “discourse analysis” já existente na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos – despontaram com Michel Pêcheux no final da década de 60 na França.

Numa França ainda conturbada pelo movimento de Maio de 1968 e sob a influência do estruturalismo (cf. DOSSE, 2007), paradigma que se apresentou como um método rigoroso de padronização das ideias, a AD francesa foi fomentada tanto por motivações políticas quanto por motivações linguísticas, as quais levaram à ruptura política e epistemológica vivenciada à época. As ciências humanas, especificamente a Linguística, estavam sujeitas ao estruturalismo. No campo social, aumentavam as desigualdades e discriminações sociais na Europa Ocidental. Nas palavras de Courtine (2006:104), Maio de 1968 “marca a emergência repentina de novos valores: um desejo de liberdade individual, de expressão pessoal que refuta as hierarquias, as tutelas e as tradições”[1].

É nesse contexto teórico-político de crítica à ideologia operária que, devido a condução burocrata do Estado por parte da URSS, se dissipa o sonho da internacional comunista. Nessa direção, a crise da esquerda encontra-se instaurada e, por seu turno, impulsiona o questionamento que sustenta a produção da análise de discurso liderada por Pêcheux.

O nascimento da AD francesa está, portanto, atrelado a uma proposta de intervenção política que “aparece como portadora de uma crítica ideológica apoiada em uma arma científica”[2] (GADET, 1993:8), cujo objetivo é o de combater o formalismo linguístico, a automatização presente na relação com a linguagem. Para desconstruir a ilusão de que haveria neutralidade na gramática e a de que os sujeitos são as fontes de seus dizeres e sentidos, Pêcheux ancora seu trabalho na noção de sujeito, que foi deliberadamente excluída durante o percurso estruturalista como forma de marcar posição contrária aos postulados advindos de ciências como a fenomenologia, a hermenêutica e o psicologismo no campo dos estudos da linguagem.

De 1966 a 1983, Pêcheux publica suas teses acerca da análise de discurso. Para tanto, empreende uma “aventura teórica” (termo de Althusser citado por Pêcheux num artigo de 1966) para dar conta do conceito de discurso. Durante seu percurso intelectual, dialoga com vários pensadores como, por exemplo, Louis Althusser, Paul Henry, Michel Plon, Jacques Lacan, Michel Foucault que estavam em pleno ativismo político na época.

A Análise de Discurso que se estabelece na França tem como marco a publicação de “Análise Automática do Discurso” em 1969 (doravante AAD 69) por Pêcheux. Conforme aponta Maldidier (2003: 24), esse livro é o “primeiro momento de um itinerário”[3] no qual questões fundamentais sobre os textos, a leitura e o sentido são abordadas por Pêcheux. Na introdução do livro, Pêcheux contesta que as disciplinas que se afastam de uma relação com a política possam ser chamadas de ciências.

Vale destacar ainda que, mais adiante, ao tratar do texto como material de análise, Pêcheux afirma que a construção da Linguística enquanto ciência se deu por conta do que foi chamado de “esquecimento voluntário”: o sujeito e a situação relacionados ao texto foram deixados de lado. Desse modo, para passar da função para o funcionamento do objeto simbólico, Pêcheux prevê elementos que dariam conta de uma teoria do discurso, ainda que essa expressão não apareça com solidez. Pêcheux permite ao leitor de suas reflexões inferir que essa teoria, a qual ainda está por ser desenvolvida, estará relacionada com uma teoria da ideologia (termo que aparece apenas citado no livro) e com uma teoria do inconsciente. Essas inferências partem da ideia de que o texto deve ser analisado a partir de uma inclusão daquilo que foi desprezado. Pêcheux postula a construção de uma teoria não subjetiva do sujeito e a existência de uma relação constitutiva entre o texto e a situação, isto é, entre o texto e as condições de produção. Maldidier (2003:21) sintetiza essas questões ao apresentar o que Pêcheux sugere nas últimas páginas de AAD 69: “uma teoria do discurso é postulada, enquanto teoria geral da produção dos efeitos de sentido, que não será nem o substituto de uma teoria da ideologia nem o de uma teoria do inconsciente, mas poderá intervir no campo dessas teorias”[4].

Embora evoque as reflexões de Marx e Freud, Pêcheux dialoga diretamente com Saussure em AAD 69, já que ele é, para o Pêcheux, o ponto de origem da ciência linguística. Pêcheux não propõe a superação da dicotomia entre língua e fala. Ele interroga se haveria uma possibilidade, na Linguística, de um estudo que articulasse língua e fala. Nessa direção, o modelo que arrancaria a leitura da subjetividade está associado à compreensão do discurso como um processo constituído por um tecido histórico-social. Essa relação entre o discurso e as condições de produção ratifica a relação com a exterioridade que buscava articular língua, ideologia e discurso e que, por sua vez, não deve ser confundida com a perspectiva também presente nesse período de pesquisadores próximos à Sociolinguística que visavam descrever a diferenciação linguística presente em distintos grupos sociais (cf. Labov, 2008, [1972]).

A leitura de AAD 69 apresenta mais perguntas do que respostas de modo a sugerir que elas serão buscadas em terrenos distintos do que até então caminhavam os estudos da linguagem – logicismo (ou formalismo; corrente na qual encontramos linguistas como Noam Chomsky) e sociologismo. Isso quer dizer que a construção de novas bases para o estudo do discurso era urgente. As questões pouco desenvolvidas em AAD 69 foram retomadas, preservadas ou ressignificadas, nas publicações que se seguiram. Vale citar o artigo “Há uma via para a Linguística fora do logicismo e do sociologismo?” que Pêcheux, com a colaboração de Françoise Gadet, publica em 1977.

O lançamento da revista Langages, organizada por Jean Dubois, também é de suma importância na consolidação da escola francesa de Análise de Discurso. Pêcheux publica dois artigos nessa revista. O primeiro, publicado no nº 24 de 1971, escrito em colaboração com Claudine Haroche e Paul Henry, intitula-se “A semântica e o corte saussuriano: língua, linguagem e discurso”. Já o segundo foi publicado no nº 37 em Março de 1975 com o seguinte título: “Atualizações e perspectivas a propósito da análise automática do discurso”. Neste texto, Pêcheux contou com a colaboração da linguista Catherine Fuchs.

O referido artigo do nº 24 da Langages apresenta de modo mais cuidadoso e preciso as novas bases sobre as quais estão assentadas as discussões sobre a relação entre língua e discurso, asseverando a existência de um nível discursivo. A partir de uma análise crítica da Semântica em Saussure, os autores, desenvolvendo uma ideia presente na AAD 69, expõem que, diferentemente dos níveis fonológico, morfológico e sintático, o sentido, objeto da semântica, extrapola o campo da Linguística: “o laço que liga as “significações” de um texto às condições sócio-históricas desse texto não é de forma alguma secundária, mas constitutivo das próprias significações”[5] (MALDIDIER, 2003:31). É a partir do funcionamento desses diferentes níveis que se precisará refletir sobre os processos discursivos.

Outro ponto central deste artigo para a formulação de uma teoria do discurso é a contribuição advinda do materialismo histórico e da teoria das ideologias. Determinados em lutar contra o empirismo e o formalismo, os autores, com base no materialismo histórico, postulam conceitos atrelados ao discurso, os quais são postos em relação com a ideologia. Conceitos indispensáveis às problematizações suscitadas pela AD como formação ideológica e formação discursiva (expressão inicialmente usada por Foucault em “Arqueologia do Saber” publicado em 1969) são definidos neste artigo: “as formações ideológicas [...] comportam necessariamente como um de seus componentes uma ou mais formações discursivas inter-relacionadas que determinam o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa, etc.) a partir de uma posição dada em uma conjuntura”[6] (MALDIDIER, 2003:32).

No artigo de 71, os autores esclarecem ainda que não se trata de verificar apenas quais palavras foram empregadas, mas principalmente de analisar as condições nas quais essas palavras foram produzidas: o sentido é, pois, determinado sócio-historicamente.

Embora não cite, no artigo de nº 24, o famoso artigo “Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado (notas a uma pesquisa) de Althusser publicado na revista La Pensée em junho de 1970, todo o trabalho de Pêcheux passa a ser marcado pelas contribuições presentes neste artigo. Numa perspectiva althusseriana, “o discurso é implicitamente assimilado a uma prática específica, requerida pela relação de forças sociais e sempre realizado através de um aparelho”[7] (MALDIDIER, 2003:33). Os sentidos são determinados pela história e pela ideologia no funcionamento da língua, os quais não estão completos ou são dados a priori: a incompletude é a condição da linguagem. O sujeito está, portanto, sujeito a esquecimentos e a falhas.

Os domínios semânticos estão inseridos na tensão entre processos parafrásticos (o mesmo) e polissêmicos (o diferente). Dadas as condições de produção, os sentidos são sempre constituídos no momento da enunciação, envolvendo os sujeitos, a situação e também a memória sobre aquilo que já foi dito. Assim, os sujeitos sempre podem ser outros, pois variam mediante as relações estabelecidas entre o sujeito, a língua e a história.

A partir de postulados melhor definidos, Pêcheux dedica-se, no artigo publicado no nº 37, ao tratamento das relações entre análise de discurso e teorias do discurso. Como já anuncia o título do artigo, Pêcheux atualiza os dizeres ditos anteriormente, demonstrando as idas e vindas de um percurso científico. Neste artigo, as principais questões envolvem a organização de um quadro epistemológico de referência para a AD que envolve: o materialismo histórico, enfatizando a questão da ideologia, a Linguística e a teoria do discurso. Essas três referências estavam interligadas à psicanálise sob o rótulo de “teoria da subjetividade”. O centro da proposta de Pêcheux e Fuchs é a questão da leitura na relação que se estabelece com o sujeito.

Com base na fórmula althusseriana de que “a ideologia interpela os indivíduos em sujeito”, Pêcheux inaugura uma reflexão sobre a relação entre ideologia e inconsciente. É neste artigo que emergem as duas formas de esquecimento presentes no discurso. O esquecimento número 1 é resultado do modo como somos afetados pelo inconsciente. É dele que decorre a ilusão de que somos a fonte do sentido quando, na verdade, retomamos sentidos preexistentes. Já o esquecimento número 2 situa-se na fronteira entre o dito e o não-dito, haja vista que o dizer pode ser outro. Neste artigo, então, Pêcheux apresenta o primeiro esboço da relação entre enunciação e imaginário que será desenvolvido no livro “Semântica e Discurso” publicado em Maio de 1975. Cumpre dizer que, apesar da proximidade temporal das publicações do nº 37 (Março de 1975) e desse livro (Maio de 1975), o artigo foi escrito bem antes. Essa distância é percebida pelo amadurecimento das reflexões de Pêcheux na leitura de ambos os textos.

Segundo Maldidier (2003:44-45), “As verdades de la Palice”, traduzido para o português como “Semântica e Discurso, é “uma obra forte de um filósofo inquieto com a linguística” em que “o discurso é a figura central”, pois “liga todos os fios: da linguística e da história, do sujeito e da ideologia, da ciência e da política”[8].

A análise da oposição entre relativa explicativa e relativa determinativa revela os efeitos de sentido no nível discursivo. Nas palavras do próprio Pêcheux (1988:44), “a relação determinativa, pelo jogo de relação entre compreensão e extensão, diz respeito exclusivamente à ordem do ser, o mundo das essências, fora de toda adjunção do pensamento: estamos no nível em que o ser se designa a si mesmo. A relação explicativa, ao contrário, intervém como uma incidência do pensamento sobre a ordem das essências”[9].

Pêcheux (1988:99) utiliza o termo “pré-construído”, proposto por Paul Henry, “para designar o que remete a uma construção anterior, exterior, mas sempre independente, em oposição ao que é “construído” pelo enunciado. Trata-se do efeito discursivo ligado ao encaixe sintático”[10]. Ainda segundo ele (1988:99), “[...] o fenômeno sintático da relativa determinativa é, ao contrário, a condição formal de um efeito de sentido cuja causa material se assenta, de fato, na relação dissimétrica por discrepância entre dois “domínios de pensamento”, de modo que um elemento de um domínio irrompe num elemento do outro sob a forma do que chamamos “pré-construído”, isto é, como se esse elemento já se encontrasse aí.”[11]

O “pré-construído” e a articulação dos enunciados são funcionamentos determinantes na compreensão do processo discurso. O primeiro termo remete à realidade e ao seu sentido. Já a segunda expressão diz respeito ao sujeito e sua relação com o sentido. É ainda a partir desse trabalho que Pêcheux apresenta os conceitos de interdiscurso e intradiscurso. Segundo Pêcheux (1988:167), o interdiscurso “enquanto pré-construído fornece a matéria prima na qual o sujeito se constitui como “sujeito falante””, ou seja, abarcaria todos os dizeres. Já o intradiscurso é o “fio do discurso”, “efeito do interdiscurso sobre si mesmo”, uma “interioridade” determinada “do exterior”, ou seja, é aquilo que é dito num determinado momento em condições dadas. A partir do “primado do interdiscurso sobre o intradiscurso”[12], observamos a relação entre o já dito e o que se está dizendo dito.

Outro aspecto importante abordado no livro diz respeito à questão do sujeito que aparece como uma resposta aos questionamentos de Pêcheux decorrentes da tese sobre a interpelação ideológica proposta por Althusser. Pêcheux (1988:178), para responder a questões como “o que significa lutar?” e “o que significa produzir (e “reproduzir”) conhecimentos científicos?”[13], adota como ponto de partida a expressão althusseriana “forma-sujeito” que designa um sujeito do saber de uma determinada formação discursiva. Sujeito e sentido não se separam. Dizer alguma coisa é, portanto, filiar-se a uma formação discursiva a qual, por sua vez, está inscrita numa determinação formação ideológica. Na perspectiva discursiva, desse modo, a língua não é transparente, mas sim opaca. Essa opacidade permite ter acesso a diferentes possibilidades de leitura que coexistem em um mesmo campo de significância.

Apesar do título original do livro não fazer referência ao discurso, este é o termo a partir do qual todos os demais conceitos coadunados por Pêcheux são postos em movimento em “Semântica e Discurso”.

Após toda a efervescência que culminou com as orientações teórico-metodológicas da AD no livro de 1975, seguiu-se um período de busca por novas questões e, ao mesmo tempo, de questionamento sobre o que é ser marxista em Linguística. Pêcheux tentou adquirir novo fôlego ao trabalhar com novos parceiros como Jacqueline Authier na questão na heterogeneidade e, até 1983, ano de seu falecimento, trabalhou com o objetivo de demonstrar que a língua está sempre em movimento, assim como a ideologia, a história e o próprio sujeito.

Nas palavras de Maldidier (2003:96), “o percurso de Michel Pêcheux deslocou alguma coisa. De uma ponta à outra, o que ele teorizou sob o nome de “discurso” é o apelo de algumas ideias tão simples quanto insuportáveis: o sujeito não é a fonte do sentido; o sentido se forma na história através do trabalho da memória, incessante retomada do já-dito; o sentido pode ser cercado, ele escapa sempre”[14].

Escola Brasileira[editar | editar código-fonte]

A Análise do Discurso no Brasil ou Escola Brasileira de Análise de Discurso amadureceu e se consolidou no campo dos estudos da linguagem realizados pelas ciências humanas. No Brasil, essa linha de pesquisa recebeu influência tanto dos estudos clássicos da análise do discurso europeia como da americana. Os estudos realizados na França por Michel Pêcheux ganharam desdobramentos e diferenciações que contribuíram para a manutenção e desenvolvimento dessa linha de pesquisa em solo brasileiro[15].

Eni Orlandi contribuiu para instituir a análise do discurso no Brasil, na década de 70. Em seu trabalho, ela considera não somente a forma abstrata ou empírica, mas o que tem “desenvolvido como forma material, em consonância com as contribuições do Materialismo Histórico, da Psicanálise e da Linguística[16].

Análises do discurso[editar | editar código-fonte]

Em março de 1995, a revista Langages, número 117, trouxe o título de "Les Analyses du Discours en France" (As Análises do Discurso na França). Essa edição era dirigida por Dominique Maingueneau, e contava com a colaboração, entre outros, de Patrick Charaudeau, Simone Bonnafous, Pierre Achard, Jacques Guilhaumou, Sonia Branca-Rosoff etc. Fazia-se na ocasião um balanço crítico da Análise do Discurso na França, e constatava-se que não se poderia resumi-la em Escola Francesa. O que havia eram tendências francesas, inúmeras, por sinal. E viam-se duas necessidades: a primeira, de romper com a primazia do estudo do discurso político, entendendo que ele é apenas mais um dentre tantos, e nem sequer faz parte dos discursos fundadores, que Maingueneau e Cossuta chamam Discursos Constituintes (religioso, filosófico, jurídico, científico e literario); a segunda, como já se foi visto, que existem diferentes Análises do Discurso.

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  • AMOSSY, R (org). Imagens de si no discurso. São Paulo: Contexto, 2005.
  • CHARAUDEAU, P; MAINGUENEAU, D. Dicionário de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 2004.
  • EMEDIATO, Wander. A construção da opinião na mídia. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2013.
  • ESCOBAR, Carlos Henrique. Discurso científico e discurso ideológico. In: Revista Tempo Brasileiro, n. 3, vol. 2, pp. 7–31. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1971.
  • ESCOBAR, Carlos Henrique. Discursos, Instituições e História. Rio de Janeiro: Rio, 1975.
  • FIORIN, José Luiz. Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 1988.
  • FREIRE, Sérgio Augusto. Conhecendo Análise do Discurso: linguagem, sociedade e ideologia. Manaus: Valer, 2006.
  • FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1998.
  • GREGOLIN, Rosário. Discurso e mídia: a cultura do espetáculo. São Carlos: Editora Claraluz, 2004.
  • GREGOLIN, Rosário. Foucault e Pêcheux na análise do discurso: diálogos e duelos. São Carlos: Editora Claraluz, 2005.
  • MAINGUENEAU, Dominique. Gênese dos discursos. Trad. Sírio Possenti. Curitiba: Criar Edições, 2005.
  • MAINGUENEAU, Dominique. Discurso e Análise do Dircurso. Trad. Sírio Possenti. São Paulo: Parábola Editorial, 2015.
  • ORLANDI, Eni. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 1990.
  • OSAKABE, Haquira. Argumentação e discurso político. São Paulo: Kairós, 1979.
  • PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Trad. Eni Puccinelli Orlandi et al. Campinas: Unicamp, 1988.
  • POSSENTI, Sírio. Discurso, estilo e subjetividade. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
  • POSSENTI, Sírio. Os limites do discurso. São Paulo: Criar Edições, 2002.
  • POSSENTI, Sírio. Questões para analistas do discurso. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.
  • PINTO, Milton José. Comunicação e Discurso. São Paulo: Hackers, 1999.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Linguística

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Artigos relacionados
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  1. COURTINE, Jean Jacques (2006). Metamorfoses do Discurso Político: as derivas da fala pública. São Carlos: Claraluz. 104 páginas 
  2. GADET, Françoise (1993). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campinas: Editora da Unicamp. 08 páginas 
  3. MALDIDIER, Denise (2003). A Inquietação do Discurso - (Re)Ler Michel Pêcheux Hoje. Campinas: Pontes. 24 páginas 
  4. MALDIDIER, Denise (2003). A Inquietação do Discurso - (Re)Ler Michel Pêcheux Hoje. Campinas: Pontes. 21 páginas 
  5. MALDIDIER, Denise (2003). A Inquietação do Discurso - (Re)Ler Michel Pêcheux Hoje. Campinas: Pontes. 31 páginas 
  6. MALDIDIER, Denise (2003). A Inquietação do Discurso - (Re)Ler Michel Pêcheux Hoje. Campinas: Pontes. 32 páginas 
  7. MALDIDIER, Denise (2003). A Inquietação do Discurso - (Re)Ler Michel Pêcheux Hoje. Campinas: Pontes. 33 páginas 
  8. MALDIDIER, Denise (2003). A Inquietação do Discurso - (Re)Ler Michel Pêcheux Hoje. Campinas: Pontes. pp. 44–45 
  9. PÊCHEUX, Michel (2009). Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp. 44 páginas 
  10. PÊCHEUX, Michel (2009). Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp. 99 páginas 
  11. PÊCHEUX, Michel (2009). Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp. 99 páginas 
  12. PÊCHEUX, Michel (2009). Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp. 167 páginas 
  13. PÊCHEUX, Michel (2009). Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp. 178 páginas 
  14. MALDIDIER, Denise (2003). A Inquietação do Discurso - (Re)Ler Michel Pêcheux Hoje. Campinas: Pontes. 96 páginas 
  15. FERREIRA, Maria Cristina Leandro. «O quadro atual da Análise de Discurso no Brasil» (PDF). O quadro atual da Análise de Discurso no Brasil. FERREIRA 
  16. «A Análise de Discurso em suas diferentes tradições intelectuais: o Brasil» (PDF)