Fanzine

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Fanzine é uma abreviação de fanatic magazine, mais propriamente da aglutinação da última sílaba da palavra magazine (revista) com a sílaba inicial de fanatic. Fanzine é portanto, uma revista editada por um fan (fã, em português). Trata-se de uma publicação despretensiosa, eventualmente sofisticada no aspecto gráfico, podendo enfocar histórias em quadrinhos (banda desenhada), ficção científica, poesia, música, feminismo, vegetarianismo, veganismo, cinema, jogos de computador e vídeo-games, em padrões experimentais.

Embora essa manifestação midiática seja comumente relacionada aos jovens, há produtores e leitores de fanzines em quase todas as faixas etárias. Fanzines como qualidade profissional são chamados de "prozines"[1] Uma biblioteca de fanzines é chamada de "fanzinoteca".[2]


História[editar | editar código-fonte]

The Reign of the Superman" no fanzine Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization #3 (Junho de 1933). O Superman desta história é um vilão, com bastante semelhança com o vilão Lex Luthor, criado anos depois por Siegel e Shuster

Quando Hugo Gernsback publicou a primeira revista de ficção científica, Amazing Stories em 1926, permitiu que a sessão de cartas divulgasse enderenços de leitores, que passaram a trocar correspondências.[3] Em 1929, aos 14 anos, Jerry Siegel criou um dos candidatos a primeiro fanzine de ficção científica dos Estados Unidos, Cosmic Stories, um publicação produzida de forma amadora pelo próprio Siegel usando uma máquina de escrever e um hectográfo.[4]

Em 1930, a Science Correspondence Club, produziria The Comet em Chicago. O fanzine era editado por Raymond A. Palmer e Walter Dennis[2] Não havia muita profissionalização ou estudo do que estava acontecendo à época - o termo fanzine, cunhado para designar essas publicações amadoras, só surgiria em outubro de 1940, assim denominado por Russ Chauvene. [2]


As histórias em quadrinhos eram citadas e discutidas já no final dos anos 1930 nos fanzines de ficção científica. A primeira versão do Superman (um vilão careca) apareceu em 1933 na terceira edição do fanzine "Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization" de Jerry Siegel e Joe Shuster num conto ilustrado chamado The Reign of the Superman, Mais tarde, o personagem seria reformulado como um herói para o formato de histórias em quadrinhos.[3]

As revistas eram distribuída através dos correios, para outros fãs de ficção científica, numa época em que essas histórias ainda eram considerados um gênero inferior e marginalizado da literatura.[4]

Em outubro de 1947, Malcolm Willits e Jim Bradley lançaram The Comic Collector's News, o primeiro fanzine de quadrinhos. Em 1952, Ted White havia mimeografado um panfleto de quatro páginas sobre Superman, e James Taurasi emitiu durante um curto período, o Fantasy Comics. Em 1953, Bhob Stewart publicou The EC Fan Bulletin, um fanzine sobre a editora EC Comics, notória pelos quadrinhos de terror e ficção científica. Poucos meses depois, Stewart, White e Larry Stark produziram Potrzebie, planejado como um jornal literário de comentário crítico sobre a EC por Stark. Entre a onda de fanzines sobre a EC que se seguiu, o mais conhecido era Hoo-Hah ! de Ron Parker.[5] Depois disso, surgiram fanzines pelos seguidores das revistas satíricas editadas por Harvey Kurtzman: Mad (criada pela EC após ser perseguida pelas histórias de terror e ficção científica),[6] Trump e Humbug. Editores destes fanzines incluíram futuras estrelas do quadrinhos underground como Jay Lynch e Robert Crumb.[7]


Em 1960, Richard e Pat Lupoff lançou seu fanzine de ficção científica e quadrinhos, Xero. Na segunda edição, "The Spawn of M.C. Gaines" por Ted White foi o primeiro de uma série de artigos analíticos e nostálgicos sobre quadrinhos por Lupoff, Don Thompson, Bill Blackbeard, Jim Harmon e outros sob o título, "All In Color For A Dime". Em 1961, surge Alter Ego de Jerry Bails, dedicada aos heróis fantasiados, tornou-se um ponto focal para fandom des quadrinhos de super-heróis e é, assim, às vezes erroneamente citado como o primeiro fanzine de quadrinhos.[5]


O uso dos fanzines foi marcante na Europa, especialmente na França, durante os movimentos de contracultura, de 1968.[8] Os fanzines também são geralmente (de forma errônea) indicados como tendo aparecido no movimento punk, devido ao uso marcante de fanzines pelo movimento. Essas publicações começaram ser conhecidas apenas como "zines".[9]


Como a tecnologia de impressão profissional progrediu, assim como a tecnologia de fanzines. Fanzines iniciais eram ou datilografado em uma máquina de escrever manual ou redigido à mão e impressos utilizando técnicas de reprodução primitivas. Apenas um pequeno número de cópias pode ser feita em um momento, por isso a circulação era extremamente limitada.

Fanzines no Brasil[editar | editar código-fonte]

No Brasil o termo fanzine é genérico para toda produção independente. Houve uma distinção entre fanzines (feitos por fãs) e produção independente (produção artística inédita), mas a disseminação do termo "fanzine" fez com que toda a produção independente no Brasil fosse denominada fanzines.[10]

O primeiro fanzine foi o O Cobra, "Órgão Interno da 1.ª Convenção Brasileira de Ficção Científica" realizada entre 12 e 18 de Setembro de 1965 em São Paulo[11] , o primeiro a tratar sobre histórias em quadrinhos foi Ficção (Boletim do Intercâmbio Ciência-Ficção Alex Raymond), criado por Edson Rontani em 12 de Outubro de 1965 em Piracicaba, São Paulo. Este fanzine trazia textos infomativos e uma interessante relação de publicações brasileiras de quadrinhos desde 1905.[2] Na época, o termo que definia produção independente era "boletim"[12] .

No estado do Rio Grande do Sul, Oscar Kern, foi o criador do fanzine de histórias em quadrinhos "Historieta" criado em 1972, o seu Fanzine continha artigos, republicação de histórias brasileiras, e revelação de novos talentos, foi o primeiro a colocar, em banca de jornais, pela Press Editorial, Kern também criou o Confraria dos Dinossauros com Valdir Damaso, o fanzine republicava histórias em quadrinhos norte-americanas da Era de Ouro.[13] A esses fanzines com quadrinhos de décadas anteriores deram o nome de fanzines de nostalgia, dentro dessa categoria também estão: Quadrix, de Worney Almeida de Souza, e O Grupo Juvenil de Jorge Barwinkel.[2]

Em São Paulo, onde a cena de rock e underground era forte nos anos 1980 e os jovens se reuniam em frente à "Woodstock Discos" no Vale do Anhangabaú, em busca de informações sobre as bandas e novidades dos estilos que então surgiam e hoje entraram para a história, surgiram os primeiros fanzines feitos de maneira mais eclética. Um deles, inclusive, tinha este nome: Ekletik. Neles havia entrevistas, artigos sobre lançamentos, tournées, críticas sociais, grafite - então uma novidade e assim criando uma rede que com a internet apenas aumentou migrando para os blogs.


Cesar R.T. Silva publicou (juntamente com José Carlos Neves e Mário Dimov Mastrotti) o fanzine Hiperespaço desde 1983, abrindo caminho para o aumento de fãs de ficção científica no país. Em 1985, com a fundação do Clube de Leitores de Ficção Científica em São Paulo, foi lançado o Somnium, fanzine (e em alguns momentos, um prozine) com notícias do Clube e do gênero no Brasil e no mundo, além de contos, resenhas e ilustrações. Outro fanzine de ficção científica a surgir na década de 1980 foi o Megalon, criado por Marcello Simão Branco e Renato Rosatti, em 1987[12] .

Diante da grande produção de fanzines no Brasil, diversas iniciativas vêm sendo tomadas com o objetivo de registrar a produção nacional. Foi criada a Fanzinoteca de São Vicente, que se tornou a segunda maior fanzinoteca do mundo por seu acervo de edições catalogadas. Em 2004 foi lançado o Catálogo oficial da Fanzinoteca de São Vicente contendo dados de 1.000 fanzines nacionais.[14]


Em 2011, foi lançado o Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas, obra que catalogou 120 títulos independentes produzidos no país[15] . No país, ocorrem anualmente convenções de fanzines ligados a eventos de anime/mangá, é o caso da "Fanzine expo" que acontece dentro da "Anime Dreams" e "Anime Friends".[16] A inspiração para esses eventos é a Comiket, convenção japonesa de dōjinshis (os fanzines japoneses).[17]

Fanzines em Portugal[editar | editar código-fonte]

Em Portugal, fizeram sucesso nos anos 80 alguns fanzines vocacionados para a cultura pop e Rock e ligados ao meio literário alternativo. Destacam-se no período os fanzines portugueses Anarcopunks, que tinham a música como foco central, mas não dispensavam a crítica política e social.

No final da década de 90 surgem vários títulos de fanzines que ultrapassam os limites do papel e procuram marcar o leitor com experiências sensoriais, recorrendo a texturas (alcatifas, papéis de parede, solas de chuteira...), cheiros (óleo de linhaça, perfumes Ach. Brito...) e a apêndices (postais, fragmentos de performances, recortes, fotografias...).


Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Sidney Gusman (18/03/2010). "Roberto Guedes lança, por selo próprio, o Almanaque Meteoro". Universo HQ. 
  2. a b c d e Henrique Magalhães. In: Marca da Fantasia. O rebuliço apaixonante dos fanzines - 3a. edição. [S.l.: s.n.], 2013. ISBN 978-85-7999-077-9
  3. a b Gerard Jones. Homens do Amanhã - geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. [S.l.]: Conrad Editora, 2006. 85-7616-160-5
  4. a b Tom Andrae, Geoffry Blum e Gary Coddington. (Agosto de 1983). "Of Supermen And Kids With Dreams". Nemo: The Classic Comics Library (2): 1. Estados Unidos: Fantagraphics Books. (Arquivo do site americano "Superman Through the Ages")
  5. a b Bill Schelly. Founders of Comic Fandom: Profiles of 90 Publishers, Dealers, Collectors, Writers, Artists and Other Luminaries of the 1950s and 1960s. [S.l.]: McFarland, 2010. 9780786457625
  6. "Quando a nomenclatura faz a diferença". Universo HQ (em português). 8 de maio de 2008. Consult. 16 de maio de 2010.  |coautores= requere |autor= (Ajuda)
  7. Maremaa, Thomas (2004). "Who is this Crumb?". In Holm, D. K. R. Crumb: Conversations. University Press of Mississippi. pp. 16–33. ISBN 978-1-57806-637-7.
  8. La France marginale, Irène Andrieu, Albin Michel (1975), à propos d'Actual-Hebdo deMicberth.
  9. Nécio Turra Neto. Enterrado vivo: identidade punk e território em Londrina. [S.l.]: Scientific Eletronic Library Online e Editora UNESP, 2004. 107 p. 9788539302765
  10. Gazy Andraus e Sonia M. Bibe Luyten. In: hedra. Cultura pop japonesa. [S.l.: s.n.]. 67 p. ISBN 8587328891, 9788587328892
  11. Roberto de Sousa Causo. In: Editora UFMG. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil, 1875 a 1950. [S.l.: s.n.]. 297 p. ISBN 8570413556, 9788570413550
  12. a b Roberto de Sousa Causo (16/07/2011). "Súdito do fanzinato". Portal Terra. 
  13. "Historieta: muito mais que um fanzine". Universo HQ. 01/10/07. Consult. 20/05/2010.  |coautores= requere |autor= (Ajuda)
  14. "Fanzinoteca São Vicente abre inscrições para 2ª Mostra de fanzines". Universo HQ (em português). 06/04/05. Consult. 23/04/2010.  |coautores= requere |autor= (Ajuda)
  15. Marcelo Naranjo. (14/03/2011) Conheça o Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas. Universo HQ
  16. Press release (20/05/2010). "Fanzinecon". RedeRPG. Consult. 20/05/2010. 
  17. Alexandre Nagado (19 de Abril de 2002). "O bê-a-bá do mangá". Omelete. 
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