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Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco

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Estação da Calçada, Salvador, Bahia. Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco.
Estação inglesa de Alagoinhas, Bahia. Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco.

A Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco (EFBSF) foi uma ferrovia que conectou a cidade de Salvador à de Alagoinhas. Inaugurada em junho de 1860, a ferrovia foi idealizada por políticos e membros da Junta da Lavoura, sendo a primeira a ser construída na Bahia e a quarta no Brasil.[1]

História

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Com a promulgação do Decreto Imperial n.º 641, de 26 de junho de 1852, os membros da Junta da Lavoura enviaram um documento solicitando à Presidência da Província da Bahia a concessão para a construção de uma ferrovia que ligasse Salvador ao Juazeiro. A Junta da Lavoura foi agraciada com a concessão, mas não levantou capital suficiente para o empreedimento. Tal fato motivou a transferência da concessão para Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto, conforme aduz o Decreto Imperial n.º 1.299, de 19 de dezembro de 1853. Por se tratar de um empreendimento de conhecimento técnico e dispendioso Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto foi convencido por políticos da necessidade de transferir a concessão para investidores ingleses. Em Londres, foi organizada a empresa que recebeu o nome de Bahia and San Francisco Railway Company para a qual Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto vendeu os seus direitos de concessão, tendo sido aprovada a transferência e o estatuto pelo Governo Brasileiro nos termos dos Decretos Imperiais n.º 1.614, de 9 de junho de 1855 e o n.º 1.615, de 9 de junho de 1855.[2]

Inicialmente o capital social foi fixado em 1,8 milhão de libras esterlinas, dividido em noventa mil ações de vinte libras esterlinas cada uma, das quais cinco mil ações seriam negociadas no Brasil. O canteiro da obra foi instalado em 1858, no atual bairro soteropolitano da Calçada, sendo iniciado os trabalhos em 1º de setembro de 1859. A primeira seção foi inaugurada em 28 de junho de 1860, entre Jequitaia e Aratu. A segunda seção foi inaugurada em 10 de setembro de 1860, entre Aratu e o Rio Joanes. A terceira seção foi inaugurada em 10 de setembro de 1861, entre o Rio Joanes e Feira Velha, atual Dias d'Ávila. A quarta seção foi inaugurada em 4 de agosto de 1862, entre Feira Velha e Pitanga, região de Mata de São João. A quinta e última seção foi inaugurada em 13 de fevereiro de 1863, ligando Pitanga a Alagoinhas, totalizando 123,340 quilômetros.[3]

A Companhia ao inaugurar a Estação de Alagoinhas, também conhecida como Estação São Francisco,[4] em 13 de fevereiro de 1863, cumpria com a construção das vinte primeiras léguas estabelecidas nos contratos, fazendo jus à garantia de juros de 7% acordados com os Governos Imperial e da Província da Bahia. Por não persistir mais tal garantia, os ingleses desistiram de construir a seção entre Alagoinhas e Juazeiro. Com a entrada em vigor da Lei n.º 652, de 23 de novembro de 1899, e da Lei n.º 746, de 29 de dezembro de 1900, a Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco foi resgatada e arrendada aos engenheiros Jerônimo Teixeira de Alencar Faria e Austricliano de Carvalho. Mais tarde, foi transferida para a razão Teive Argolo & Cia. e, em 1909, para a Companhia Viação Geral da Bahia. Em 1911, passou a ser administrada pela empresa franco-belga Compagnie des Chemins de Fer Fédéraux de l'Est Brésilien. Por fim, se dá a encampação da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco em 1935, por determinação do presidente Getúlio Vargas, sendo transferido o patrimônio para a Viação Férrea Federal Leste Brasileiro S/A (VFFLB).[1]

O mundo do trabalho ferroviário

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A força de trabalho

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O plano da Bahia and San Francisco Railway Company de interligar Salvador e áreas ao norte do Recôncavo, tendo o sertão baiano de Juazeiro como ponto de chegada, teve início no final da década de 1850. Os caminhos do primeiro empreendimento ferroviário baiano alcançaram a Vila de Santo Antônio d’Alagoinhas em 1863, passando por localidades como Pojuca e Catu. A chegada dos trilhos à região estabeleceu uma importante ligação entre o interior e a capital da Província da Bahia, e impactou a paisagem natural e a dinâmica urbana da antiga freguesia e suas circunvizinhanças, dinamizando atividades comerciais e a circulação de pessoas e mercadorias no entorno dos canteiros, oficinas e estações da linha férrea.[5]

A força de trabalho empregada na construção da linha Salvador-Alagoinhas era profundamente diversificada em sua composição, isto é, em termos de origem, profissão, raça e condição jurídica. Em meados do século XIX, contrariando a legislação imperial que proibia o usufruto do trabalho escravo em negócios desse tipo, empreiteiros utilizaram escravizados como mão de obra na construção de estradas de ferro país afora.[6]No caso da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco, trabalhadores escravizados compartilhavam espaços e situações de exploração com trabalhadores livres e libertos, incluindo indígenas, sertanejos e imigrantes provenientes de países como Itália, Inglaterra, Bélgica e Portugal, contratados para o trabalho na ferrovia.[7][8]

Além disso, o contingente de trabalhadores era bastante numeroso. Em 1860, por exemplo, estima-se que 2.639 trabalhadores labutavam na construção da ferrovia, a maioria de nacionais (2.069) e o restante de italianos (446), ingleses (107), alemães (11), franceses (4) e suíços (2). No ano seguinte, havia 1.897 operários nacionais nos canteiros de obras da companhia inglesa, sendo 583 deles somente em Pojuca, próximo de Alagoinhas.[9]O mundo do trabalho ferroviário englobava máquinas, ferramentas, carvão, madeira e, ainda, atividades laborais caracterizadas por uma acentuada divisão entre ofícios especializados e não especializados, como carregadores, pedreiros, cavouqueiros, foguistas, maquinistas, desenhistas, engenheiros, entre outros.

Organizações operárias

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A partir de meados da década de 1870, os caminhos da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco prolongaram-se em duas direções a partir da vila de Alagoinhas. Enquanto o primeiro simbolizava a retomada de uma das metas do plano original da companhia inglesa, isto é, levar os trilhos ao sertão de Juazeiro, o segundo prolongamento apontava em direção à fronteira com Sergipe. A ferrovia não apenas ampliava sua abrangência, como colocava Alagoinhas no mapa das conexões ferroviárias da Bahia e do Brasil entre o final do Império e a Primeira República.[10]

Os trabalhadores da Estrada de Ferro, negros em sua maioria, desempenharam papel fundamental na expansão da malha ferroviária. Mesmo sob o peso da violência física e verbal dos supervisores, das ameaças de demissão, da aplicação de multas, das epidemias, das jornadas exaustivas, dos baixos salários e dos acidentes no local de trabalho,[11] operários e empregados da ferrovia firmaram laços de solidariedade como estratégia para enfrentar as duras condições de vida e trabalho.

Muitos organizaram ou participaram de associações de auxílio mútuo, recreativas e dançantes, num período em que havia importantes organizações como o Clube dos Maquinistas (1889), o Centro Operário da Bahia (1894), a Sociedade Beneficente Cachoeirana (1900), a Sociedade União Operária, de São Félix (1901), entre outras.3 Os trabalhadores ligados à ferrovia fundaram, em Salvador, a Associação Geral de Auxílios Mútuos dos Empregados da Estrada de Ferro de São Francisco e a Filarmônica Recreio Operário. Em 1900, os operários das oficinas de Aramari, localidade com grande presença de ferroviários, criaram a Associação Geral de Auxílios Mútuos, sediada em Alagoinhas e com presença dos administradores da empresa em seu quadro de associados. Mais tarde, instituíram uma agremiação cultural e literária, chamada Clube Minerva, e a Filarmônica Lira Operária – rebatizada, posteriormente, como Sociedade Filarmônica União e Recreio Operário.[12]

Na década de 1930, sob o Governo Vargas, o Centro Operário Beneficente de Alagoinhas reunia trabalhadores da ferrovia para representar os interesses da classe trabalhadora local e promover ações de assistência médica, cultural e educativa. Parte dos trabalhadores do setor ferroviário estabeleceu relações com o Partido Comunista do Brasil (PCB), atuando em debates políticos sobre representação e direitos trabalhistas.[13]

Ver também

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Referências

  1. 1 2 Centro-Oeste. «Estrada de Ferro Bahia ao São Francisco». Consultado em 12 de fevereiro de 2013. Cópia arquivada em 11 de abril de 2026
  2. FERNANDES, Etelvina Rebouças. Do mar da Bahia ao Rio do Sertão: Bahia and San Francisco Railway. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, 2006.
  3. JUNIOR, Cyro Diocleciano Ribeiro Pessoa. Estudo descriptivo das Estradas de Ferro do Brazil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. 1886.
  4. «São Francisco -- Estações Ferroviárias do Estado da Bahia». www.estacoesferroviarias.com.br. Consultado em 10 de julho de 2021. Cópia arquivada em 19 de janeiro de 2026
  5. ESTRELA, Reginaldo Andrade Silva (2018). Caminhos da liberdade em Alagoinhas e Inhambupe (1871-1888). Alagoinhas: Universidade do Estado da Bahia. pp. 36–38
  6. SOUZA, Robério Santos (2015). Trabalhadores dos trilhos: imigrantes e nacionais livres, libertos e escravos na construção da primeira ferrovia baiana (1858-1863). Campinas, SP: Editora da Unicamp. pp. 31–32
  7. SOUZA, Robério Santos (2015). Trabalhadores dos trilhos: imigrantes e nacionais livres, libertos e escravos na construção da primeira ferrovia baiana (1858-1863). Campinas, SP: Editora da Unicamp. pp. 80–96
  8. SOUZA, Robério Santos (2015). Trabalhadores dos trilhos: imigrantes e nacionais livres, libertos e escravos na construção da primeira ferrovia baiana (1858-1863). Campinas, SP: Editora da Unicamp. pp. 57–60
  9. SOUZA, Robério Santos (2011). Tudo pelo trabalho livre! Trabalhadores e conflitos no pós-abolição (Bahia, 1892-1909). Salvador: EDUFBA; São Paulo: FAPESP: [s.n.] pp. 79 e 95
  10. SOUZA, Robério Santos (2011). “Tudo pelo trabalho livre!” Trabalhadores e conflitos no pós-abolição (1892-1909). Salvador: EDUFBA. pp. 35–44
  11. SOUZA, Robério Santos (2011). “Tudo pelo trabalho livre!” Trabalhadores e conflitos no pós-abolição (1892-1909). Salvador: EDUFBA. pp. 84–89
  12. SOUZA, Robério Santos (2011). “Tudo pelo trabalho livre!” Trabalhadores e conflitos no pós-abolição (1892-1909). Salvador: EDUFBA. pp. 91–98
  13. BATISTA, Eliana Evangelista (2015). Alagoinhas: histórias e historiografia. Alagoinhas: Quarteto/FIGAM. pp. 159–163

Ligações externas

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