Real (antiga moeda brasileira)
Modelo de nota de um conto de réis (1923). | |
| Unidade | |
|---|---|
| Plural | Réis |
| Símbolo | Rs[1] |
| Inflação |
|
| Denominações | |
| Super-unidade | Conto de réis (Rs 1.000.000,00) |
| Sub-unidade 1/1000 | Real |
| Moedas | 20, 40, 80, 100, 200, 300, 400, 640, 1.000, 2.000 |
| Notas | 500, $1.000, $2.000, $5.000, $10.000, $20.000, $50.000, $100.000, $200.000, $500.000 e $1.000.000 |
| Demografia | |
| Data de retirada | 1 de novembro de 1942[3] |
| Substituído por | Cruzeiro |
| Usuário(s) | Brasil |
| Emissão | |
| Banco central | Tesouro Nacional, Banco do Brasil |
| Fabricante | Diversos |
Real (plural réis) foi a unidade monetária utilizada no Brasil[4] desde sua colonização[5] até 5 de outubro de 1942, quando foi substituída pelo cruzeiro na razão de 1 cruzeiro por 1 mil-réis.[6][nota 1]
Como essa unidade monetária não era fracionável (diferente do Real adotado em 1994, que se fraciona em centavos) o uso do termo réis, no plural, era predominante. Um real na realidade seria equivalente a um centavo, 100 réis é que seria equivalente a 1 real (a moeda atual, lembrando que esta comparação não é no sentido de conversão de moeda). O réis funcionava de maneira similar ao iene, moeda moderna que não é fracionária. Além disso, como essa unidade monetária circulou por um longo período de tempo em cédulas múltiplas de 1000, à época, tornou-se comum o uso do termo "mil-réis" (comumente pronunciado "mirréis" ou até "merréis") como se fosse uma única palavra ou uma nova unidade monetária. "Mil-réis" seria o equivalente hoje de forma genérica a "dez reais".
Conto de réis foi uma expressão adotada no Brasil e em Portugal para indicar um milhão de réis (Rs 1:000$000). Por se tratar de uma moeda não fracionária, de forma genérica e simplista um conto de réis equivaleria a "dez mil reais" numa comparação com a moeda moderna (e se ignorarmos a conversão de moeda)[7] "Conto" deriva do latim computus, a conta dez vezes cem mil.[8] Um conto de réis correspondia a mil vezes a importância de um mil-réis (Rs 1$000), sendo assim o real 1/1 000.000 de um conto de réis em representação matemática decimal atual.
Um conto de réis era uma quantia de grande valor intrínseco: em 1833, 2$500 era representado por uma oitava (equivalente a aproximadamente 3,59 gramas) de ouro de vinte e dois quilates,[9] sendo que um conto de réis corresponderia a 1,4 quilogramas do mesmo material.
Origens e primeiros anos
[editar | editar código]O real, cujo plural é "réis", foi a primeira moeda oficial do Brasil, utilizada desde o período colonial pelos portugueses, até 1 de novembro de 1942. No entanto, durante grande parte do período colonial, o Brasil utilizava uma mistura de moedas, incluindo a moeda espanhola (o peso), e até mesmo o ouro em pó, como meio de troca. A história do real está profundamente entrelaçada com a evolução econômica e política do país.[10][11][12]
Adoção pelo Brasil independente e consolidação
[editar | editar código]Com a independência do Brasil em 1822, o país continuou a utilizar o Real como sua unidade monetária oficial. Durante o século XIX, o governo brasileiro começou a cunhar suas próprias moedas em reais, consolidando a moeda como símbolo da soberania nacional. A moeda de mil-réis, que equivalia a 1 000 réis, tornou-se uma denominação comum e amplamente utilizada no comércio e nas transações diárias.[10][11][12]
Desvalorização e reforma monetária
[editar | editar código]O Governo Provisório republicano permitiu que alguns bancos emitissem cédulas. Este período ficou conhecido como período da "Pluralidade Bancária". As emissões multiplicaram-se desordenadamente, gerando inflação, o que resultou no retorno à ideia de um único emissor que, de 1892 a 1896, foi o Banco da República do Brasil. O valor da cédula de 30 mil-réis, que surgiu neste período, é comparável a "300 reais" hoje.[13][14][15]
No início do século XX, o Real passou por diversas crises inflacionárias, resultando em uma contínua desvalorização da moeda. O processo inflacionário foi exacerbado por fatores econômicos e políticos, incluindo as crises econômicas globais, como a Grande Depressão. Essa desvalorização levou à necessidade de uma reforma monetária.[10][11][12]
Em 1 de novembro de 1942, o Real foi finalmente substituído pelo Cruzeiro, na razão de 1 Cruzeiro para cada 1 000 mil-réis. Esta mudança marcou o fim da longa história do Real como moeda oficial do Brasil.[10][11][12]
Legado
[editar | editar código]O Real permaneceu como a moeda do Brasil por mais de quatro séculos, sendo testemunha de diversos períodos históricos importantes, desde o Brasil colonial, passando pela independência, o Império, e as várias fases da República. Apesar de ter sido substituído pelo Cruzeiro em 1942, o nome "Real" foi resgatado em 1994, quando uma nova moeda foi introduzida como parte do Plano Real, um programa de estabilização econômica que ajudou a controlar a hiperinflação no Brasil.[10][11][12]
Tesouro Nacional, Caixa de Conversão, Caixa de Estabilização e Banco do Brasil
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Após a crise causada pela "Pluralidade Bancária", as emissões foram centralizadas no Tesouro Nacional. Como o mil-réis já estava bastante desgastado pela inflação, surgiu a ideia de se adotar uma moeda lastreada no Ouro, que se chamaria Cruzeiro. Para preparar o país para esta mudança foram emitidas cédulas de Mil-réis em nome da "Caixa de Conversão" e em nome da "Caixa de Estabilização".[13][14][15]
O projeto do Cruzeiro-Ouro foi abandonado e as Cédulas da Caixa de Conversão e Estabilização foram incorporadas às demais cédulas do Tesouro Nacional. Também houve uma tentativa, na década de 1920, de se padronizar as cédulas em emissões assinadas pelo Banco do Brasil.[13][14][15]
Moedas
[editar | editar código]Denominações especiais
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- Vintém - 20 réis (equivalente a "20 centavos")
- Tostão - 80 réis (período Colonial e Imperial); 100 réis (em cuproníquel emitida entre 1917 a 1932). Equivalente a "80 centavos" ou "1 real" de hoje.
- Pataca - 320 réis (equivalente hoje a "3 reais e 20 centavos)
- Cruzado - 400 / 480 réis (equivalente a "4 reais/4 reais e 80 centavos")
- Patacão - 960 réis (equivalente a "9 reais e 60 centavos")
- Dobra - 12 800 réis (12$800) (equivalente a "128 reais" de hoje)
- Dobrão - 20 000 réis (20$000) (equivalente a "200 reais")
Moedas que se destacaram
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- 200 réis (1889 e 1900)
- Família de moedas em cuproníquel composta por moedas de 100 e 200 réis com desenho aproveitado das moedas do final do II Reinado. O anverso passou a ter a legenda "15 de novembro de 1889" - data da Proclamação da República e o reverso teve o Brasão Imperial trocado pelas Armas Nacionais da República do Brasil. Como o real não era fracionável, pode ser comparado a "2 reais" de hoje.[13][14][15]
- 400 réis (1901)
- Moeda de maior valor da série batida em cuproníquel em 1901, encomendada à firma Basse & Selve, da Alemanha, que contratou serviços de diferentes Casas da Moeda estrangeiras. Foi cunhado um total de 161 250 000 peças, a maior produção de moedas do mundo, na época (única moeda brasileira em que a data está em algarismo romano - MCMI). A série é composta de moedas de 100, 200 e 400 Réis, com a figura da Abundância no anverso e efígie Representando a República no Reverso. Como o real não era fracionável, pode ser comparado a "4 reais" de hoje.[13][14][15]
- 40 e 20 réis (até 1912)
- A cunhagem das moedas de bronze, iniciada no final do Império, recomeçou no período republicano. As peças inovavam com a apresentação de legendas e temas diferentes, de acordo com o valor. Deixaram de ser cunhadas em 1912. A moeda de 20 Réis trazia o lema "Vintém Poupado, Vintém Ganho". A moeda de 40 Réis tem como lema "A Economia Faz a Prosperidade". Como o real não era fracionável, pode ser comparado a "20 centavos" e a "40 centavos" de hoje.[13][14][15]
- Prata da República
- Assim como as moedas de ouro, as de prata começaram a cair em desuso no meio circulante no período republicano, uma vez que o valor de face era depreciado pela inflação. A república abandonou as moedas de ouro em 1921 (moedas de 20$000 Réis). Já as moedas de prata continuaram em circulação até o fim do padrão Mil-réis (em 1942), sendo a última emissão em 1936, em uma moeda de 5$000 Réis homenageando Santos Dumont. No entanto o teor de prata era cada vez menor em sua composição (variando entre 50% e 60% de acordo com a moeda). É curioso observar que as moedas de prata de 1906 traziam marcado seu peso em apenas uma das faces.[13][14][15]
Cédulas
[editar | editar código]- Seleção de cédulas com valores em réis
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500 réis (1880; Dom Pedro II)
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1$000 (Campos Sales)
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5$000 (modelo; Barão do Rio Branco)
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5$000 (Domingos Jorge Velho), Tesouro do Estado de São Paulo (emitida na revolução de 1932)
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10$000 (1833), Tesouro Nacional
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20$000 (1894; efígie da República segurando uma espada) emitido pela Caixa de Conversão
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20$000 (1925; Deodoro da Fonseca). Retificada com carimbos para 20 cruzeiros após a reforma monetária de 1942.
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200$000 (Dom Pedro II)
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500$000 (1931; Floriano Peixoto)
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1:000$000 (1923; Dom Pedro I)
Conversão a moedas atuais
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No livro 1808, Laurentino Gomes faz uma conversão de réis em reais, baseando-se em outros autores que se empenharam para torná-la a mais próxima do valor atual, levando em consideração os valores da inflação.[16] Cabe lembrar que a conversão, mesmo próxima, não é exata. O valor aproximado é o seguinte:[13][14][15]
- 1 real (plural: réis) - R$ 0,123
- 1 mirréis (1$000; mil-réis) - R$ 123,00
- 1 conto de réis (1:000$000; mil mirréis) - 123 mil reais
- 900 contos de réis - 110,7 milhões de reais
- Em 1846, o Império conseguiu o 1º orçamento superavitário graças às novas rendas da Alfândega. Nessa época 1 saca de café era comprada por 12$000 réis e um escravo valia 350$000 réis, os escravos com habilidades (carpinteiro, fundidor, maquinista, etc.) valiam 715$000 réis.
- Em 1854, a receita total do Império foi de 35.000 contos de réis.
- Entre 1856 e 1862, em Vassouras, 1 conto de réis (1:000$000=1 milhão de réis) comprava 1 escravo.
- Em 1860, 1 conto de réis (1:000$000 = 1 milhão de réis) comprava 1 kg de ouro.
- Considerando que, em 15 de novembro de 1889, o menor salário mensal (de uma pessoa sem nenhum conhecimento) do Brasil Imperial era 25$000 Réis ou 22,5 gramas de ouro, ou para o caso do ouro cotado em R$ 130,00 o grama (2017) o salário mínimo seria de R$ 2 925,00 (2017), o salário de uma professora primária era 45$000 Réis (aproximadamente R$ 5 269,00), o salário mensal de um reitor ou professor secundário 167$000 Réis (R$ 19 555,00), o maior salário mensal do País em 300$000 Réis (R$ 35 125,00) e para fins de referência e cálculos toma-se aqui o ouro puro, ou seja, 9 (nove) gramas de ouro 24 quilates, em 15 de novembro de 1889 valiam 10$000 réis. Vale recordar que os valores expostos são meramente simbólicos e a conversão se baseia somente na cotação do ouro.
Notas e referências
Notas
Referências
- ↑ Moedas do Brasil. «Reformas Monetárias». Consultado em 27 de setembro de 2015
- ↑ Paulo Neuhaus (1978). «A inflação brasileira em perspectiva histórica». Fundação Getúlio Vargas. Consultado em 27 de setembro de 2015
- ↑ a b «Decreto-lei Nº 4.791». Câmara dos Deputados. 5 de outubro de 1942. Consultado em 13 de julho de 2025
- ↑ BRASIL, Banco do. Brasil através da Moeda. Rio de Janeiro, Centro Cultural Banco do Brasil/Oswaldo Colin, 1995.
- ↑ O Caixa. «Histórico das Alterações na Moeda Nacional». Consultado em 27 de setembro de 2015. Arquivado do original em 15 de novembro de 2015
- ↑ Antonelli, Diego (20 de julho de 2013). «Do pau-brasil ao real». Gazeta do Povo. Arquivado do original em 23 de outubro de 2013
- ↑ Quanto era 1 conto de réis?
- ↑ GVOZDANOVIĆ, Jadranka (1991). Indo-European Numerals (em inglês). [S.l.]: Walter de Gruyter. p. 473. ISBN 3110113228. Consultado em 27 de setembro de 2015
- ↑ Cândido José de Araújo Viana. «Lei nº 59, de 8 de outubro de 1833». Câmara dos Deputados do Brasil
- ↑ a b c d e Bueno, Eduardo. A História do Brasil para quem tem pressa. 2013.
- ↑ a b c d e Fausto, Boris. História do Brasil. 1994.
- ↑ a b c d e Furtado, Celso. Formação Econômica do Brasil. 1959.
- ↑ a b c d e f g h Amato, C.; Neves, I.S.; Russo, Arnaldo: Cédulas do Brasil, São Paulo, 4ª edição, 2007.
- ↑ a b c d e f g h Amato, C.; Neves, I.S.; Russo, Arnaldo: Livro das moedas do Brasil, São Paulo, 11ª edição, 2004.
- ↑ a b c d e f g h Souza, S.D.: Cédulas Brasileiras, São Paulo, 7ª edição, 1994.
- ↑ Gomes, Laurentino, 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil, São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.
