Macunaíma (livro)

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Macunaíma - o herói sem nenhum carácter
Autor(es) Mário de Andrade
Idioma português
País  Brasil
Género Literatura do Brasil, Ficção, Romance, humor
Localização espacial Amazónia, São Paulo
Arte de capa Di Cavalcanti
Lançamento 1928
Páginas 180
ISBN 9788520932605

Macunaíma é um romance de 1928 do escritor brasileiro Mário de Andrade, considerado a mais importante das suas obras e um dos grandes romances modernistas do Brasil. Nascido das pesquisas que o autor fazia sobre as origens e as especificidades da cultura e do povo brasileiro, e inserido em um movimento de identificação e articulação de um discurso em torno da "verdadeira" identidade nacional, no seu lançamento o livro passou quase despercebido pela crítica e pelo público, mas depois veio a ser reconhecido como uma grande obra de arte e um dos mais originais e penetrantes retratos do Brasil. Tem dado origem a volumosa bibliografia crítica, bem como a adaptações e releituras em variadas modalidades da arte, dos quadrinhos ao teatro. A personagem-título entrou na cultura popular, a mesma de onde Mário retirou a maior parte do seu material constitutivo, e o conteúdo geral do livro é conhecido pela maioria dos brasileiros letrados, sendo hoje parte do cânone literário do país. Para vários críticos influentes é a mais representativa produção do modernismo literário brasileiro e a que melhor realizou o processo de abrasileiramento da literatura local. É obra muito estudada também por pesquisadores estrangeiros e foi traduzida para várias línguas.[1]

Visão geral[editar | editar código-fonte]

A personagem-título, "herói sem nenhum caráter" (anti-herói), é um índio que representa o povo brasileiro, mostrando a atração pela cidade grande de São Paulo e pela máquina. A frase característica da personagem é "Ai, que preguiça!". Como na língua indígena o som "ai que" significa "preguiça", Macunaíma seria duplamente preguiçoso. A parte inicial da obra assim o caracteriza: "No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite."

A obra é considerada um indianismo moderno e é escrita sob a ótica cômica. Critica o Romantismo, utiliza os mitos indígenas, as lendas, provérbios do povo brasileiro e registra alguns aspectos do folclore do país até então pouco conhecidos (rapsódia). O livro possui estrutura inovadora, não seguindo uma ordem cronológica e espacial. É uma obra surrealista, onde se encontram aspectos ilógicos, fantasiosos e lendas. Adota como protagonista uma personagem fantasiosa e complexa, na qual se misturam os mais diversos traços de nossa formação cultural, com uma critica à linguagem culta no Brasil.

Em Macunaíma, Andrade tenta escrever um romance que represente o multi-culturalismo brasileiro. A obra valoriza as raízes brasileiras e a linguagem dos brasileiros, buscando aproximar a língua escrita ao modo de falar paulistano. Mário de Andrade tinha uma ideia de uma "gramatitinha" brasileira que desvincularia o português do Brasil do de Portugal, o que, segundo ele, vinha se desenrolando no país desde o Romantismo. Ao longo da obra são comuns as substituições de "se" por "si", "cuspe" por "guspe", dentre outras. No episódio "Carta pras Icamiabas", Andrade satiriza ainda mais o modo como a gramática manda escrever e como as pessoas efetivamente se comunicam. Aproveitando-se do artifício de uma carta escrita, Macunaíma escreve conforme a grafia arcaica de Portugal, explicitando a diferença das regras normativas arcaicas e da língua falada: "Ora sabereis que sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra".[2]

Para Antônio Cândido, o livro de Mário é o que mais teve sucesso no projeto de abrasileirar a tradição literária recebida do estrangeiro, "mostrando como a cada valor aceito na tradição acadêmica e oficial correspondia, na tradição popular, um valor recalcado que precisava adquirir um estado de literatura".[1] Segundo Fábio Rodrigues,

"Como o próprio Mário declarou, ele teve muitas intenções ao escrever Macunaíma, tratando de diversos problemas brasileiros: a falta de definição de um caráter nacional, a cultura submissa e dividida do Brasil, o descaso para com as nossas tradições, a importação de modelos socioculturais e econômicos, a discriminação linguística etc. Mas a principal preocupação de Mário de Andrade foi buscar uma identidade cultural brasileira. O Brasil na época (e também hoje) não tinha 'competência' para desenvolver uma cultura autônoma e toma emprestado modelos europeus, que não se adaptam ao nosso clima quente. A nossa cultura, então, deveria ser distinta das outras e possuir, por outro lado, uma totalidade racial; deveria provir das raízes que aqui haviam, das culturas populares existentes nos recantos do país. O Brasil, como entidade cultural, seria construído pela mistura de todas essas culturas (orais) de cada região brasileira. É justamente o que o escritor faz em Macunaíma: compõe a sua rapsódia reunindo lendas, folclores, crendices, costumes, comidas, falares, bichos e plantas de todas as regiões, não se referindo a nenhuma delas, misturando inclusive as diversas manifestações culturais e religiosas, dando assim um aspecto de unidade nacional, que não condiz com a realidade dividida de nossa cultura".[3]

Resumo da obra[editar | editar código-fonte]

Macunaíma nasceu numa tribo amazônica. Lá passa sua infância, mas não é uma criança igual as outras do lugar. É um menino mentiroso, traidor, pratica muitos atos incorretos , fala muitos palavrões, além de ser extremamente preguiçoso. Tem dois irmãos, Maanape e Jiguê.

Vai vivendo assim a sua meninice. Cresce e se apaixona pela índia CI, A Mãe do Mato, Seu único amor, que lhe deu um filho, um menino morto. Depois da morte de sua mulher, Macunaíma perde um amuleto que um dia ela havia lhe dado de presente, era a pedra "muiraquitã". Fica desesperado com esta perda, até que descobre que a sua muiraquitã havia sido levada por um mascate peruano, Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piamã, que morava em São Paulo. Depois da descoberta do destino de sua pedra, Macunaíma e seus irmãos resolvem ir atrás dela para recuperá-la. Piamã era o famoso comedor de gente, mas mesmo assim ele vai atrás de sua pedra.

A história, a partir daí, começa a discorrer contando as aventuras de Macunaíma na tentativa de reaver a sua "muiraquitã" que fora roubada pelo Piamã, um comerciante. Após conseguir a pedra, Macunaíma regressa para a sua tribo, onde após uma série de aventuras finais, finalizando novamente na perda de sua pedra. Então, ele desanima, pois sem o seu talismã, que, no fundo, é o seu próprio ideal, o herói reconhece a inutilidade de continuar a sua procura, se transforma na constelação Ursa Maior, que para ele, significava se transformar em nada que servisse aos homens, por isso, vai parar no campo vasto do céu, sem dar calor nem vida a ninguém.

Direitos autorais[editar | editar código-fonte]

A obra entrou em domínio público no dia 1 de Janeiro de 2016, podendo ser editado e traduzido livremente — assim como todas as outras de Mário de Andrade.[4]

Adaptações[editar | editar código-fonte]

Cinema
Ver artigo principal: Macunaíma (filme)

Foi adaptado para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade em 1969. Também foi feita uma premiada peça de teatro, por Antunes Filho, encenada pela primeira vez na década de 1970 e que chegou a ser montada em vários países.

Histórias em quadrinhos

Em 2008, a Ática publicou uma quadrinização, escrita e desenhada por Rodrigo Rosa,[5] em 2016, a editora Peirópolis publicou uma quadrinização produzida pelos ilustradores Angelo Abu e Dan X.[6]

Música

Em 2008, a cantora Iara Rennó gravou o CD Macunaó.peraí.matupi ou Macunaíma Ópera Tupi, com 13 canções inspiradas pelo livro.[7]

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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