Rei Artur

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Rei Artur, em escultura da alemã renascentista dos anos 1520 (Igreja da Corte, Innsbruck).

Rei Artur (em inglês King Arthur) é uma figura lendária britânica que, de acordo com histórias medievais e romances, teria comandado a defesa contra os invasores saxões chegados à Grã-Bretanha no início do século VI. Os detalhes da história de Artur são compostos principalmente pelo folclore e pela literatura, e sua existência histórica é debatida e contestada por historiadores modernos. A escassez de antecedentes históricos de Artur é retratada por diversas fontes.

O lendário Artur cresce como uma figura de interesse internacional em grande parte pela popularidade do livro de Geoffrey de Monmouth, Historia Regum Britanniae (História dos Reis Britânicos). Porém, alguns contos de Gales e da Bretanha e poemas relativos a história do Rei Arthur foram feitos antes deste livro; nestas obras Artur aparece como um grande guerreiro que defende a Grã-Bretanha dos homens e inimigos sobrenaturais, ou como uma figura fascinante do folclore, às vezes associada com o Outro Mundo, Annwn. Quanto ao livro de Geoffrey de Monmouth, foi mais adaptado dessas obras do que inventado por ele mesmo, porque ele é desconhecido.

Embora os temas, acontecimentos e personagens da lenda de Artur variem de texto para texto e não exista uma versão totalmente comprovada, a versão de Geoffrey sobre os eventos é frequentemente usada como ponto inicial das histórias posteriores. Geoffrey descrevia Artur como um rei britânico que venceu os saxões e estabeleceu um império composto pela Grã-Bretanha, Irlanda, Islândia e Noruega. Na realidade, muitos elementos e acontecimentos que agora fazem parte da história de Artur apareceram no livro de Geoffrey, incluindo Uther Pendragon, pai de Arthur, o mago Merlim, a espada Excalibur, o nascimento de Arthur em Tintagel, sua batalha final em Camlann contra Mordred em Camelot e o fim de Avalon. Chrétien de Troyes, escritor francês do século XII que adicionou Lancelote e o Santo Graal à história, iniciou o gênero de romance arthuriano que se tornou uma importante vertente da literatura medieval. Nestas histórias francesas, a narrativa foca frequentemente em troca do Rei Arthur para outros personagens, como os Cavaleiros da Távola Redonda. A literatura arthuriana teve sucesso durante a Idade Média, mas diminuiu nos séculos que se seguiram até ter um ressurgimento significativo no século XIX. No século XXI, as lendas continuam vivas, tanto na literatura como em adaptações para teatro, cinema, televisão, revista em quadrinhos e outras mídias.

Historicidade discutida[editar | editar código-fonte]

Tapeçaria com Artur como uma dos Nove Bravos, 1385.

A origem do mito do rei Artur é um ponto muito debatido pelos estudiosos até hoje. Alguns acreditam que o personagem Artur está baseado em alguma figura histórica, provavelmente um chefe guerreiro britânico da Antiguidade tardia e início da Idade Média, a partir do qual se criaram as lendas que conhecemos hoje. Outros estudiosos crêem que Artur é pura invenção mitológica, sem relação com nenhum personagem real.

A escola que crê num Artur histórico baseia-se em antigas obras como História dos Bretões (Historia Brittonum) e Anais da Câmbria (Annales Cambriae), as quais relatam de maneira fantasiosa eventos históricos ou pseudo-históricos ocorridos nas Ilhas Britânicas. Estes textos apresentam Arthur como figura real, um líder romano-britânico que lutou contra a invasão da Britânia pelos anglo-saxões, situando o período do Artur histórico entre o final do século V e começo do século VI. O livro Historia Brittonum, escrito em latim por volta do ano 830, é o mais antigo em que aparece seu nome. A obra relata doze batalhas que Artur disputou, referindo-se a ele não como rei senão como "dux bellorum" (chefe guerreiro). Estas chegam a seu ponto máximo na Batalha do Monte Badon onde o cronista diz que Artur matou sozinho 960 homens. Estudos recentes, porém, questionam a utilidade do livro Historia Brittonum como fonte histórica deste período.

A outra crônica antiga que parece apoiar a existência histórica de Arthur são os Annales Cambriae, escritos no século X, que também ligam Arthur à Batalha do Monte Badon. O livro data essa batalha entre 516-518 e também menciona a batalha de Camlann, na qual morrem Arthur e Mordred e que teria ocorrido entre 537-539. Estes detalhes aparentemente apóiam a versão da Historia Brittonum, confirmando que Artur realmente lutou no Monte Badon. No entanto, os manuscritos dos Annales Cambriae tem uma história complexa, e é possível que cronistas tenham utilizado o Historia Brittonum como fonte sobre as seções sobre Artur dos Annales no século X. Neste caso, o Historia Brittonum e os Annales Cambriae não seriam duas fontes independentes da historicidade de Artur.

Geografia[editar | editar código-fonte]

Geografia da Grã-Bretanha por volta dos anos 500.

A Grã-Bretanha, na Europa, é sujeita a controvérsias. A história mais provável é que o Rei Artur tenha existido na Bretagne, região da França. Como exemplo, os menhirs e os dolmens que existiam na vila de Carnac e muitos outros que são vestígios deixados por povos celtas ou gauleses ou "galloise" como pronunciado na França. O fato é que existem várias hipóteses. Aqui temos uma descrição da literatura inglesa. Pode ser que seja boa, mas até hoje não existe nada que prove. Para os curiosos a literatura francesa também tem a sua versão da história.

Em princípios do século V, o imperador de Roma, Honório, já farto das revoltas da província da Bretanha mandou retirar as legiões e quadros administrativos dessa província; essas legiões deviam ser comitenses, tropas móveis (uma vez que se sabe que as tropas junto à Muralha de Adriano continuaram a cumprir o seu dever mesmo sem um império a quem servir).

A partir daí, de fato pouco se sabe, sendo a principal fonte um monge bretão do século VI, Gildas. Gildas, além de tudo um monge muito forte e de conhecimento da magia negra e branca ajudou Artur em muitas de suas batalhas defendendo e protegendo-o.

Os pictos do norte e os irlandeses do oeste começaram a lançar ataques cada vez mais atrevidos; em meados do século V, um rei Voltigern pede ajuda a saxões do continente para combater essas ameaças, mas rapidamente os mercenários decidem passar a combater por conta própria para conquistar esse país tão fértil (pelo menos do seu ponto de vista), chamando mais tropas do continente.

A situação estava estacionária quando, em finais do século V, Ambrosius Aurelianus, um romano da Bretanha (seja o que for que esse termo implique décadas depois da partida de Roma) consegue numa batalha esmagadora deter os saxões, a célebre Mons Badicus. Por algumas décadas a maré saxã parece ser detida (os achados arqueológicos demonstram-no), mas a incapacidade dos bretões em se manter unidos permite aos saxões resistirem, depois lançarem-se novamente ao ataque. Na segunda metade dão-se uma série de batalhas que destroem primeiro os reinos celtas do sul, depois são os do norte, até os celtas ficarem reduzidos à Cornualha, Gales e mais uns enclaves. A Inglaterra ia começar.

Depois da destruição dos reinos celtas, só existem novamente fontes com Beda, o venerável, em princípios do século VIII. Infelizmente, as informações que ele fornece para o período de Artur são copiadas de Gildas e os seus próprios dados começam só por volta de 600 com as missões católicas aos reinos saxões.

Em pleno século VIII temos informações relevantes vindas de um Bretão, Nennius. Finalmente o nome de Arthur é referido (não é certo pela 1ª vez, mas sim relacionado com os fatos corretos). É descrito como um comandante militar que teria vencido 12 batalhas contra os saxões sendo a mais gloriosa Badon Hill (sendo assim ignorado Ambrosius). O problema desta fonte é que, segundo os historiadores, Nennius tinha uma certa tendência a “preencher” as lacunas com fatos inventados por ele. Isso não significa que ele tenha inventado tudo, mas que pode ter embelezado ou distorcido conforme as necessidades.

No século X surgem as “Annales Cambriae”, uma cronologia (de origem galesa podemos agora dizer, e não bretã) bastante sucinta. Para o ano 516 registra a vitória de Artur contra os saxões e em 537 registra a morte de Arthur e Medraut (o futuro Mordred, embora não seja dito que eles fossem inimigos) numa batalha. Por curiosidade, na entrada de 573 é referido que Merlin enlouqueceu, não é dito que é um mágico, bardo ou o que quer que seja mas apenas que enlouqueceu. Artur continua a ser referido como um chefe militar mas não como um rei.

Ora acima foi dito que o nome de Artur já era referido antes de Nennius o descrever. De fato, em algumas baladas galesas que remontam ao século VII, o nome de Artur como rei aventureiro no norte da Bretanha surge, mas nenhuma informação concreta é fornecida (para além de que enfrentava seres fantásticos e corrigia injustiças). Quanto muito ficamos a saber que o imaginário popular já se apoderara dele e retirando todo o contexto real lhe dera uma nova dimensão (como Mircea Elliade tão bem se apercebeu com outras figuras). Essas baladas teriam a mais bela concretização no Mabinogion.

As crônicas anglo-saxônicas sendo muito posteriores (começaram a ser compiladas no século IX e vão até ao século XII) descrevem todo o processo de destruição progressiva dos bretões (embora omitindo as suas próprias derrotas) mas não referem os nomes dos líderes bretões, o que é uma forte lacuna.

E assim chegamos a Geoffrey de Monmouth. É do século XII e o último autor que diz estar a fazer história. Argumentou que utilizou um livro vermelho em língua bretã de onde tirou todas as suas informações (não se pode negar ou aceitar, mas era hábito da época justificar-se que se tinha uma fonte mais antiga). Ele vai acabar por dar alguns dos últimos acrescentos da futura lenda arturiana. Incorpora Uther Pendragon (pai de Artur) como irmão de Aurelius Ambrosius, refere a célebre passagem em que Merlin disfarça Uther com o aspecto do marido de Igraine, Mordred é já inimigo de Artur (mas apenas sobrinho e não filho incestuoso), Arthur conquista o império romano, etc. Estamos de fato nos domínios da literatura.

Em finais do século XII Chrétien de Troyes, um francês, escreve contos sobre as aventuras do Rei Artur, Lancelote, Guinevere, Gawaine, Percival. Sabe-se que Arthur e os seus cavaleiros eram personagens populares na época e as histórias a partir da Bretanha de língua céltica e de Gales tinham-se espalhado por outros países. Mas Chrétien, apropriando-se de mitos conhecidos, dá-lhe um cunho pessoal e sobretudo ficam guardados para a posterioridade. A partir daí, é um nunca mais terminar: o ciclo da vulgata francesa, o Parzival alemão, o La mort d’Arthur de sir Thomas Malory só para citar os mais conhecidos. Alguns escrevem sobre todo o ciclo desde a morte de Jesus Cristo até a morte de Artur, criando uma narrativa de séculos, outros descrevem apenas episódios que acontecem a cavaleiros. São incorporados mitos exteriores sem ligação inicial (a história de Tristão e Isolda, o mito do Graal, A Távola Redonda, Tintagel), novos personagens são criados (Galahad). As obras são traduzidas para todas as línguas do ocidente cristão, reescritas, fundidas, influenciando muito a maneira de pensar (ou pelo menos o conceito do que deveria ser o ideal) dos cavaleiros. No século XVII dá-se uma certa diminuição do interesse, mas não muito, pois na ópera continua-se a utilizar o tema. E o romantismo do século XIX com o seu interesse na Idade Média restaura o interesse (até escritores americanos como Mark Twain o fazem). O século XX, graças ao cinema e desenhos animados, completa o trabalho, mantendo o interesse vivo e permitindo que um maior público tenha acesso; os grupos neo-pagãos também tentam apropriar-se da lenda devido ao seu lado mais místico (centrando-se em Morgana, Viviane e Merlin por contraposição ao elemento cristão).

Os historiadores, depois de terem feito uma crítica feroz aos mitos arturianos, chegando mesmo a negar a sua existência, limitam-se a uma prudente reserva. O que nos fica então para além de belas histórias? Não podemos afirmar com toda a certeza que Arthur existiu, pois não existem relatos contemporâneos.

Os arqueólogos, com as limitações que a ausência de registos implica, preferem falar de um período sub-romano para definir aquilo que é o período arturiano: séculos V e VI. Arthur era de fato um nome até relativamente vulgar na época. Sabe-se que um comandante romano de um destacamento sármata do século II na Bretanha tinha esse nome. Outras figuras antes e depois do “Artur” que nos interessa tinham esse nome. Uma divindade do norte também tinha um nome semelhante.

Os nomes de origem romana ainda comuns nos séculos V e VI nas crônicas vão progressivamente desaparecendo à medida que, empurrados para Gales, os celtas vão se tornando galeses. Teria sido criado um herói a partir dos feitos de várias personagens que foram amalgamados pela memória coletiva? Ou de fato houve alguém que guerreou contra os saxões depois de Ambrosius e conseguiu depois adquirir um estatuto lendário? Ou nunca existiu ninguém assim e aos poucos surgiu uma lenda que foi crescendo? São várias as hipóteses mas nenhuma pode se impor no momento.

Ver também[editar | editar código-fonte]


Referências

Bibliografia
  • Ritson, Joseph. Life of King Arthur From Ancient Historians and Authentic Documents. [S.l.]: Kessinger Publishing, 2003, 1825.
  • Barber, Richard. King Arthur: Hero and Legend. [S.l.]: Boydell Press, 1986.
  • Zimmer Bradley, Marion. The Mists of Avalon. [S.l.: s.n.], 1979.
  • Cornwell, Bernard. The Winter King. [S.l.: s.n.], 1995.
  • Cornwell, Bernard. Enemy of God. [S.l.: s.n.], 1996.
  • Cornwell, Bernard. Excalibur: A Novel of Arthur. [S.l.: s.n.], 1997.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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