Estação Ferroviária de Abrantes

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Abrantes
Comboio Talgo na Estação de Abrantes, em 1993.
Inauguração 7 de Novembro de 1862
Linha(s) L.ª da B. Baixa (PK 134,919)
L.ª do Leste (PK 0,0)
Coordenadas 39° 26′ N 8° 11′ W
Concelho Abrantes
Serviços Ferroviários Regional, InterCidades
Serviços Ligação a autocarros Serviço de táxis Parque de estacionamento Bilheteiras e/ou máquinas de venda de bilhetes Acesso para pessoas de mobilidade reduzida Lavabos Sala de espera Caixas de correio Telefones públicos

A Estação Ferroviária de Abrantes é uma interface ferroviária das Linhas da Beira Baixa e do Leste, que serve a cidade de Abrantes, no Distrito de Santarém, em Portugal. Foi inaugurado em 7 de Novembro de 1862.[1]

Automotora 2242 em Abrantes.

Caracterização[editar | editar código-fonte]

Localização e acessos[editar | editar código-fonte]

Esta interface encontra-se junto à Rua da Estação de Abrantes, na Freguesia de Rossio ao Sul do Tejo.[2][3]

Descrição física[editar | editar código-fonte]

Em Janeiro de 2011, apresentava 3 vias de circulação, com 508, 311 e 271 m de comprimento; as duas plataformas tinham ambas 207 m de extensão, e 70 cm de altura.[4]

História[editar | editar código-fonte]

Diagrama da estação de Abrantes, em 1871.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Antes da construção das vias férreas, existiam grandes problemas de comunicações na região entre Torres Novas, Tomar e Abrantes, sendo principalmente utilizado como meio de transporte o eixo fluvial, através do Rio Tejo.[5] No entanto, o rio era de navegação perigosa, especialmente de Inverno, enquanto que no Verão era intransitável.[6] A rede de estradas estava em péssimo estado, sendo as principais vias terrestres as estradas reais.[6]

Estação de Abrantes, na segunda metade do Século XIX.

Planeamento, construção e inauguração[editar | editar código-fonte]

Já nos projectos originais para o Caminho de Ferro do Leste, estava incluída a instalação de uma gare ferroviária na zona do Rossio ao Sul do Tejo, de forma a servir a vila de Abrantes.[7] Em Agosto de 1855, o engenheiro Thomaz Rumball apresentou um relatório sobre os estudos que tinha feito sobre a continuação da linha férrea além de Santarém até à fronteira, onde propôs três percursos.[8] A terceira opção saía de Santarém e seguia por Tancos e Abrantes, Ponte de Sor, Crato e Monforte, terminando em Badajoz.[9] A linha atravessaria o Rio Tejo logo após Santarém, através do Mouchão do Inglês, na zona da Boa Vista, e continuaria ao longo da margem Sul até à Cabeça do Canedo, onde viraria para sul, tendo uma estação pouco depois, na zona do Rossio de Abrantes.[9] Rumball defendeu particularmente a necessidade de instalar ali a estação, por ser o centro para onde vinham os produtos do Alentejo, provenientes de Monforte, Portalegre, Elvas, Estremoz e de outros pontos.[9]

No ano seguinte, o engenheiro Wattier foi encarregado de estudar os traçados das linhas do Norte e Leste, tendo igualmente apresentado três propostas para esta última, uma delas atravessando o Tejo em Constância, situando igualmente uma estação no Rossio de Abrantes.[9] Numa carta de 26 de Junho de 1856[10], o rei D. Pedro V também defendeu a passagem por Abrantes: «As linhas férreas, sobretudo para nós, são mais do que agentes de produção, são também linhas estratégicas. Assim por exemplo: a linha de Espanha é indispensável que passe por Abrantes e Constância, e que roce as fortificações de Elvas.».[11] Para a Linha do Norte, uma das propostas de Wattier saía de Santarém e passava por Constância, Abrantes, Coimbra, Viseu e Lamego, terminando em Vila Nova de Gaia, embora considerasse este percurso pouco provável pela zona montanhosa que seria necessário atravessar.[12]

O troço entre Santarém e Abrantes foi autorizado a entrar ao serviço por uma portaria de 3 de Novembro de 1862, e abriu no dia 7 de Novembro, pela Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, como parte da Linha do Leste.[13] Com a inauguração até Abrantes, verificou-se uma grande alteração no modo de exploração da linha, e foi criado um comboio ascendente e outro descendente até Abrantes.[14] O lanço seguinte da linha, até ao Crato, foi aprovado por uma portaria de 7 de Abril de 1863, e entrou ao serviço em 5 de Maio.[13] Com esta abertura, os comboios ascendente e descendente que iam apenas até Abrantes foram prolongados até ao Crato.[14]

Durante a construção da linha, várias estações, incluindo a de Abrantes, ficaram sem estradas de acesso, ou então apenas com caminhos de terra batida, situação que afectava consideravelmente o seu movimento.[14] Numa carta enviada em 1 de Junho de 1863 ao governo, o administrador delegado D. José de La Fuente pediu que fossem tomadas medidas para resolver esta situação, tendo relatado que «em poucas semanas a linha do Leste achar-se-à inteiramente entregue à exploração, e, apesar disso, importantes pontos intermédios, tais como Santarém, Abrantes, etc., estão, por assim dizer, sem comunicação com as estações circunvizinhas. [...] Bastam alguns dias de chuva para tornar impraticáveis os caminhos, tais como hoje existem, e reduzir a metade as nossas receitas.»[14]

A linha foi concluída com a inauguração até à fronteira com Espanha, em 24 de Setembro de 1863.[15]

Carta de 29 de Janeiro de 1876, mostrando o projecto para a Linha da Beira Baixa na saída da estação de Abrantes, ainda com término previsto em Monfortinho.

Ligação à Linha da Beira Baixa[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Linha da Beira Baixa

Em Março de 1873, foi apresentado ao parlamento um projecto de lei para uma linha férrea de Abrantes a Monfortinho, com um ramal para a Covilhã.[16] Em 1 de Fevereiro de 1879, o Ministro Lourenço de Carvalho apresentou uma proposta de lei para a construção da linha de Abrantes a Monfortinho.[17] Uma lei de 26 de Abril de 1883 ordenou a abertura do concurso para a Linha da Beira Baixa, tendo o ponto terminal sido modificado para a Estação de Guarda, na Linha da Beira Alta.[17] O contrato para a linha foi assinado em 29 de Julho de 1885[17], tendo as obras começado nos finais desse ano, e foi inaugurada em 6 de Setembro de 1891.[18][19] Após a conclusão da Linha da Beira Baixa, a Companhia Real organizou, nos dias 5 e 6 de Setembro, comboios especiais de Abrantes até Castelo Branco e Covilhã, para que o público pudesse visitar a nova linha.[20]

Em 4 de Novembro de 1887, iniciou-se a circulação do comboio internacional Sud Expresso, que ligava Lisboa a Calais, seguindo originalmente por Abrantes, Torre das Vargens e Marvão.[21] Em 1895, verificou-se uma alteração no percurso deste comboio, que passou a circular pela Linha da Beira Alta.[21]

Em 16 de Maio de 1893, a Gazeta dos Caminhos de Ferro noticiou que esta estação estava a ser alvo de obras de ampliação.[22]

Século XX[editar | editar código-fonte]

Após a implantação da República, a câmara municipal da Chamusca e a Comissão Paroquial de Montargil enviaram uma representação ao governo, de forma a pedir que a linha até Mora fosse prolongada até ao Entroncamento ou Abrantes, servindo pelo caminho a Chamusca e por outras localidades do concelho.[23]

Em 1913, existia uma carreira de diligências entre a estação e a vila de Abrantes.[24]

Em 1934, a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses realizou obras de reparação nesta interface[25], e em 1936 construiu um armazém de víveres[26], projectado pelo arquitecto Cottinelli Telmo.[27]

Em 17 de Maio de 1995, foi organizado um comboio especial entre o Pego e Abrantes, como parte de uma excursão de vários membros do governo às zonas centro e Norte do país, para visitar as obras da Rede Rodoviária Nacional.[28]

Referências literárias[editar | editar código-fonte]

No livro Uma Visita a Portugal em 1866, Hans Christian Andersen relata a sua passagem pela Linha do Leste, vindo de Espanha:

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. NONO, Carlos (1 de Maio de 1950). «Efemérides ferroviárias» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 63 (1497). p. 113-114. Consultado em 15 de Setembro de 2014. 
  2. «Abrantes - Linha da Beira Baixa». Infraestruturas de Portugal. Consultado em 16 de Junho de 2015. 
  3. «Abrantes». Comboios de Portugal. Consultado em 12 de Novembro de 2014. 
  4. «Quadro resumo das características da infra-estrutura». Directório da Rede 2012. Rede Ferroviária Nacional. 6 de Janeiro de 2011. p. 70-85 
  5. ROCHA, 2006:36
  6. a b POUSINHO, 2010:35-36
  7. «Documentos para a Historia» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 30 (700). 16 de Fevereiro de 1917. p. 58-59. Consultado em 14 de Julho de 2012. 
  8. ABRAGÃO, Frederico (1 de Abril de 1956). «No Centenário dos Caminhos de Ferro em Portugal» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 69 (1639). p. 172-177. Consultado em 20 de Fevereiro de 2017. 
  9. a b c d «No Centenário dos Caminhos de Ferro em Portugal: Algumas notas para a sua história» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 69 (1640). 16 de Abril de 1956. p. 190-193. Consultado em 20 de Fevereiro de 2017. 
  10. ABRAGÃO, Frederico (16 de Maio de 1956). «No Centenário dos Caminhos de Ferro em Portugal: Algumas notas para a sua história» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 69 (1642). p. 217-222. Consultado em 20 de Fevereiro de 2017. 
  11. ABRAGÃO, Frederico (1 de Junho de 1956). «No Centenário dos Caminhos de Ferro em Portugal: Algumas notas para a sua história» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 45 (1643). p. 235-241. Consultado em 20 de Fevereiro de 2017. 
  12. ABRAGÃO, Frederico (16 de Setembro de 1956). «No Centenário dos Caminhos de Ferro em Portugal: Algumas notas sobre a sua história» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 69 (1650). p. 393-400. Consultado em 12 de Março de 2017. 
  13. a b ABRAGÃO, Frederico (1 de Setembro de 1956). «No Centenário dos Caminhos de Ferro em Portugal» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 69 (1649). p. 392-399. Consultado em 22 de Fevereiro de 2017. 
  14. a b c d ABRAGÃO, Frederico de Quadros (16 de Outubro de 1956). «No Centenário dos Caminhos de Ferro em Portugal: Algumas notas sobre a sua história» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 69 (1652). p. 472-509. Consultado em 23 de Setembro de 2017. 
  15. TORRES, Carlos Manitto (16 de Fevereiro de 1958). «A evolução das linhas portuguesas e o seu significado ferroviário» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 70 (1681). p. 9-12. Consultado em 8 de Setembro de 2013. 
  16. POUSINHO, 2010:37
  17. a b c SOUSA, José Fernando de (16 de Setembro de 1927). «As nossas ligações ferroviárias internacionais e as linhas de Salamanca à fronteira portuguesa» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 40 (954). p. 266-270. Consultado em 28 de Setembro de 2016. 
  18. TORRES, Carlos Manitto (16 de Janeiro de 1958). «A evolução das linhas portuguesas e o seu significado ferroviário» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 70 (1682). p. 61-64. Consultado em 8 de Setembro de 2013. 
  19. REIS et al, 2006:12
  20. «Tarifas de transporte» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro de Portugal e Hespanha. 4 (89). 3 de Setembro de 1891. p. 266-267. Consultado em 3 de Janeiro de 2017.. Cópia arquivada (PDF) em 27 de Setembro de 2015 
  21. a b Conde de Penavalva de Alva (16 de Outubro de 1956). «A C. P. e os Wagons-Lits» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 69 (1652). p. 465-466. Consultado em 23 de Setembro de 2017. 
  22. «Efemérides» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 51 (1226). 16 de Janeiro de 1939. p. 81-85. Consultado em 15 de Outubro de 2013. 
  23. FONSECA, 2006:32
  24. «Serviço de Diligencias». Guia official dos caminhos de ferro de Portugal. 39 (168). Outubro de 1913. p. 152-155. Consultado em 13 de Dezembro de 2017. 
  25. «O que se fez nos Caminhos de Ferro Portugueses, durante o ano de 1934» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 47 (1130). 16 de Janeiro de 1935. p. 50-51. Consultado em 11 de Outubro de 2012. 
  26. «O que se fez em Caminhos de Ferro durante o ano de 1936» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 49 (1179). 1 de Fevereiro de 1937. p. 86-87. Consultado em 4 de Agosto de 2013. 
  27. MARTINS et al, 2006:131-132
  28. A Rede Rodoviária Nacional, Anexo 9-10
O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre a Estação de Abrantes

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • A Rede Rodoviária Nacional. Lisboa: Junta Autónoma de Estradas. 1995. 52 páginas 
  • ANDERSEN, Hans Christian (1984). Uma Visita a Portugal em 1866 2.ª ed. Lisboa: Instituto da Cultura e Língua Portuguesa. 134 páginas 
  • FONSECA, João José Samouco da (2006). História da Chamusca. Volume 3 de 3. Chamusca: Câmara Municipal de Chamusca. 298 páginas 
  • MARTINS, João; BRION, Madalena; SOUSA, Miguel; et al. (1996). O Caminho de Ferro Revisitado: O Caminho de Ferro em Portugal de 1856 a 1996. Lisboa: Caminhos de Ferro Portugueses. 446 páginas 
  • POUSINHO, Nuno (2010). Castelo Branco: Roteiros Republicanos. Col: Roteiros Republicanos. Matosinhos: Quidnovi - Edição e Conteúdos, S. A. 128 páginas. ISBN 978-989-554-723-4 
  • REIS, Francisco; GOMES, Rosa; GOMES, Gilberto; et al. (2006). Os Caminhos de Ferro Portugueses 1856-2006. Lisboa: CP-Comboios de Portugal e Público-Comunicação Social S. A. 238 páginas. ISBN 989-619-078-X 
  • ROCHA, Francisco Canais (2009). Para a História do Movimento Operário em Torres Novas: Durante a Monarquia e a I República (1862/1926). Torres Novas: Câmara Municipal de Torres Novas. 221 páginas. ISBN 978-972-9151-72-9 

Leitura recomendada[editar | editar código-fonte]

  • CAMPOS, Eduardo; LOPES, Francisco (2005). Cronologia de Abrantes no século XIX. Abrantes: Câmara Municipal de Abrantes. 152 páginas. ISBN 972-9133-31-X 
  • SILVA, Joaquim Candeias da (2016). História cronológica do concelho de Abrantes: da pré-história a 1916. Abrantes: Câmara Municipal de Abrantes. 199 páginas. ISBN 978-972-9133-53-4 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


Ícone de esboço Este artigo sobre uma estação, apeadeiro ou paragem ferroviária é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.