Malês

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Malê (do hauçá málami, "professor", "senhor", no iorubá imale, "muçulmano") era o termo usado no Brasil, nos século XIX, para designar os negros muçulmanos que sabiam ler e escrever em língua árabe. Eram muitas vezes mais instruídos que seus senhores, e, apesar da condição de escravos, não eram submissos, mas muito altivos. Na História do Brasil, notabilizaram-se pela chamada Revolta dos Malês, que ocorreu em 1835, na Bahia, onde eram encontrados em maior número, embora fossem encontrados também em Pernambuco, Alagoas e Rio de Janeiro.[1]

História[editar | editar código-fonte]

Entre os séculos XVI e XIX não existia liberdade religiosa. Quem não era católico teve de se converter. Houve repressão aos dissidentes e muitos resistiram a esse exclusivismo. No Brasil, dispersos entre Pernambuco e Bahia em um primeiro momento, os malês resistiram e reagiram ao catolicismo imposto para manter sua crença e cultura. Para enfrentar a repressão os malês usavam um recurso de resistência espiritual (dissimulação religiosa), já utilizado pelos muçulmanos xiitas, denominado, pelos teólogos islâmicos, de al'tagiyya (literalmente, "guardar-se").[2]

Vendidos como escravos pelos vencedores em guerras locais, principalmente a jihad declarada em 1804 pelo xeque Usman Dan Fodio (1754-1817) - líder islâmico fulani[3] - contra os hauçás, os muçulmanos chegaram ao Brasil no final do século XVIII, oriundos da região sudanesa da África e pertenciam a vários grupos etnoculturais. No Brasil, todos ficaram conhecidos genericamente como malês ou mussurumim. Apesar de "convertidos" ao catolicismo, continuaram a praticar ocultamente as suas crenças ancestrais.[2]

Os malês possuiam um nível cultural superior, se comparados aos brasileiros da época: eram bilíngues e alfabetizados em árabe. Inconformados com a condição de escravos, articularam vários levantes que desaguaram no maior deles durante o Ramadã (mês de jejum islâmico) em Salvador, 1835.[2]

Descobertos por uma patrulha militar na noite anterior, o confronto foi antecipado. Os malês sofreram pesadas baixas nas ruas de Salvador. Eram inferiores em número e em organização bélica. Eles lutavam pela condição de homens livres e pretendiam um governo próprio. Lutavam contra o estado e a hostilidade até mesmo de outros escravos.[2]

Derrotados, muitos voltaram (deportados) para Ajudá (atual Benin), onde foram recebidos por Francisco Félix de Sousa (1754-1849), traficante de escravos que abastecia o mercado brasileiro. Dos que ficaram no Brasil, uns migraram para o Rio de Janeiro, e outros permaneceram em Salvador. Hostilizados e imersos na população de afro-descendentes, começaram a perder a sua identidade e a adquirir novos costumes e crenças. Em Salvador, os malês pós-levante exerciam atividades de marceneiros, pedreiros, professores, douradores de imagens. Houve até um deputado e conselheiro do Império - o médico baiano Salustiano Ferreira Souto (1814-1877), que, ao falecer, foi enterrado com os rituais de seu grupo.[2][4][5][6]

Referências

  1. «VÉUS SOBRE A RUA HALFELD: UM ESTUDO SOBRE AS MULHERES MUÇULMANAS DA MESQUITA DE JUIZ DE FORA E O USO DO VÉU» (PDF). Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da Universidade Federal de Juiz de Fora. Agosto de 2006. pp. 39–40. Consultado em 16 de outubro de 2011. No Brasil, os escravos muçulmanos ficaram conhecidos como Malês e, segundo Reis (2003), a origem desse termo tem sido muito discutida. Alguns autores sugerem que o termo derivasse de 'má-lei', que seria como os católicos consideravam o Islã; outros associam a palavra malê, com Malan, que significa mestre ou clérigo. Autores como Rodrigues (1982) e Bastide (1971) colocam que o termo malê vem de Mali para identificar os fundadores do Império Mali, reino muçulmano no vale do rio Niger. No Brasil, mas especificamente na Bahia, onde se concentrou a maioria dos escravos muçulmanos, malê denominava o africano que adotasse o Islã. Esses negros são assim descritos por Ramos (1972, p. 45): "Era altos robustos, fortes e trabalhadores. Usavam como outros negros muçulmanos, um pequeno cavanhaque, de vida regular e austera, não se misturavam com os outros escravos". Os malês procuraram, mesmo que de forma discreta, preservar no Brasil a sua religião. Promoveram secretamente atividades de alfabetização e memorização do Alcorão. Foram esses escravos, agentes de revoltas e de movimentos de libertação na Bahia do século XIX. Para historiadores como Reis (2003), a identidade étnica e uma combativa religião convergiram na mobilização dos escravos malês como líderes rebelados. A insurreição de maior proporção ocorreu, em 1835, na Bahia e ficou conhecida por Levante Malê. Os insurgentes foram subjugados. Muitos muçulmanos foram deportados para a África a fim de diminuir sua influência sobre os outros negros. Muitos foram condenados à morte. Para sobreviver, alguns se mantiveram na clandestinidade. A religião islâmica passou por uma severa repressão, após 1835, diminuindo a possibilidade de difundir-se. Segundo Reis (2003, p. 180), antes da devassa havia um "forte movimento de proselitismo e conversão em curso na Bahia". Depois da supressão das revoltas, os cultos malês foram desestruturados. 
  2. a b c d e História Viva, nº 20, pp. 80-85. Editora Duetto. São Paulo (2005).
  3. Povo africano de origem subsaariana e berbere.
  4. LOPES, Nei. Mandingas da mulata velha na Cidade Nova. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009.
  5. História da Medicina, artigo 37. Memória Histórica do Colégio Médico-Cirúrgico da Cidade da Bahia – 1819.
    "... em virtude da transferência do titular da cadeira, Dr. Salustiano Ferreira Souto, para a de Medicina Legal."
  6. LOPES, Nei Dicionário escolar afro-brasileiro.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • FARELLI, Maria Helena. Malês: os Negros Bruxos. São Paulo: Madras, s.d.. 96p. il. ISBN 8573742402
  • REIS, João José dos - “Rebelião Escrava no Brasil” - Rio de Janeiro: Ed. Brasiliense, 1987

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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