Alpes Cócios (província romana)

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Provincia Alpes Cottiae
Província dos Alpes Cócios
Província do(a) Império Romano

63295
Location of Alpes Cócios
Alpes Cócios em 117
Capital: Segúsio
Período : Antiguidade Clássica
 -  Anexada por Nero 63 d.C.
 -  Desapareceu com a criação dos Alpes Marítimos 295 d.C.

Alpes Cócios ou Alpes Cótios (em latim: Alpes Cottiae) era o nome de uma província do Império Romano, uma das três localizadas nos Alpes entre os territórios correspondentes às atuais França e Itália. Sua função mais importante era proteger a comunicação nos passos alpinos. A província fazia divisa com a Gália Narbonense a oeste, os Alpes Marítimos ao sul, a Itália a leste e os Alpes Peninos (Poenninae) a norte. A capital era Segúsio (atual Susa, no Piemonte).

História[editar | editar código-fonte]

Reino Cócio[editar | editar código-fonte]

Depois das Guerras Púnicas, no século II a.C., as tribos da região dos Alpes Cócios formaram um reino celta-ligúrio chamado de Reino Cócio que, graças a uma sábia política de aliança com Roma, foi capaz de manter a sua independência até a época de Augusto, quando a população já estava toda romanizada.

O reino reuniu diferentes tribos (civitates) ligúrias, agora já fortemente misturadas com os celtas, principalmente por causa da influência cultural das tribos gaulesas. A partir daí, a região passou a ser comandada por um rei que, por conta da postura mais ligúria que gaulesa da região, muitas vezes não era obedecido pelas tribos, que tinham um alto grau de independência. Entre elas estavam os segóvios, segusinos, belacos, caturigos, médulos, tebávios, adanates, savincates, ectinos, veaminos, venisanos, iemérios, vesubianos e quaratos[1] .

A capital era Segúsio (a moderna Susa, mas é provável que, no princípio, a capital tenha sido o ópido de Excigômago[2] (provavelmente a moderna Exilles), mais para o interior e mais fácil de defender. Outro local importante foi o ópido chamado Ocelo (moderna Avigliana), um entreposto comercial para os limes que separavam o Reino Cócio e o território diretamente controlado pelos romanos.

A incrível longevidade de um reino independente num cenário no qual o poder romano rapidamente subjugava os povos que encontrava deu-se principalmente por conveniência: os cócios reconheciam o poderio militar romano e sabiam o que acontecia com as nações que se opunham a ele enquanto os romanos sabiam das dificuldades de combater no terreno montanhoso da Ligúria e precisavam de uma passagem segura para completar a conquista da Gália.

Pouco antes de conquistar a região da moderna Espanha (61 a.C.), Júlio César fechou um acordo com rei ligúrio Dono I que lhe assegurava a passagem segura de suas tropas pelo Reino Cócio. Este acordo criou uma aliança que permitiu que os cócios prosperassem através do comércio transalpino e também que se expandissem para o território de seus vizinhos derrotados pelos romanos.

Depois da morte de César e de um período de afastamento, a aliança com Augusto foi reforçada pelo filho de Dono, Cótio. Para celebrar a ocasião foi construído, em honra de Augusto, um arco triunfal em Segúsio (9-8 a.C.), que lá está até hoje. O acordo previa também a mudança do território de Cócio, que perdeu uma parte de seus domínios do lado francês [3] . Em homenagem a ele, as montanhas da região passaram a ser conhecidas como "Alpes Cócios".

Com a morte dele, Dono II foi sucedido por seu filho, que, por sua vez, foi sucedido por seu sobrinho, Cócio II. Este último, que reinou por um longo período, aumentou o território administrado pelo avô graças à doações de terras do imperador Cláudio.

A partir do século I d.C., o Vale de Susa passou a contar com a via das Gálias, que terminava no estratégico Mons Matrona (moderno Montgenevre), um dos três passos para chegar na Gália.

Influência[editar | editar código-fonte]

Os monarcas cócios eram muito admirados pelas tribos celtas e ligúrias das montanhas e tidos como um exemplo de justiça e providência[4] . No século IV, o túmulo de Cócio ainda era adorado e, na Idade Média, Dono passou a ser reverenciado como um santo.

Província romana[editar | editar código-fonte]

Depois, no reinado de Nero (r. 37–68), um procurador foi nomeado quando Cócio II morreu (63 d.C.) e a região tornou-se oficialmente uma província romana[5] . Os governadores eram prefeitos da ordem equestre.

A província foi abolida durante as reformas administrativas do imperador Diocleciano (r. 284–305) e seu território foi fundido ao da província dos Alpes Marítimos.

Província bizantina[editar | editar código-fonte]

Provincia Alpes Cottiae
Província dos Alpes Cócios
Província do(a) Império Bizantino

554/568643
Location of Alpes Cócios
Eparquias da Itália por volta de 580
Capital: Gênua
Governador: Juiz provincial
Período : Antiguidade Tardia
 -  Recriada depois da Guerra Gótica 554-568 d.C.
 -  Fundida na Eparquia Urbicária 580 d.C.
 -  Conquistada pelos lombardos 643 d.C.

Entre 554 e 568, depois do fim da Guerra Gótica e da conquista bizantina da Itália, a província dos Alpes Cócios foi reconstituída, incluindo o Piemonte e a Ligúria[6] . Paulo, o Diácono, em sua descrição da divisão da Itália na época da invasão lombarda, descreve uma província com o nome de "Alpes Cócios"[7] .

Acredita-se que esta província foi a sede de um dos quatro ducados fronteiriços bizantinos que defendiam os Alpes. De acordo com as disposições da Pragmática Sanção de 554, a província passou a ser governado por um governador civil (juiz provincial [iudex Provinciae]) eleito pelos bispos e nobres. Após a conquista lombarda da cidade mais setentrional da província (Paulo, o Diácono, argumenta que os bizantinos detinham uma única cidade no litoral da Ligúria),[8] , a província foi abolida e fundida, se acreditamos que o Descriptio orbis romano Giorgio Ciprio a outras áreas bizantinas remanescentes na Ligúria, Túscia, Valéria, Piceno e no norte da Campânia), na Eparquia Urbicária por volta de 580[9] . Quatro anos depois, ela também foi suprimida e a Ligúria romana assumiu o nome de "Marítima dos Itálicos" (Marittima Italorum), finalmente caindo nas mãos dos lombardos por volta de 643 após as conquistas do rei Rotário.

Principais cidades[editar | editar código-fonte]

Os principais assentamentos romanos na região eram:

Atualmente[editar | editar código-fonte]

Localizada na porção sudoeste dos Alpes, onde forma a fronteira entre a França (Altos-Alpes e Saboia) e a Itália (Piemonte), a cordilheira alpina é conhecida atualmente como Alpes Cócios[10] (em francês: Alpes Cottiennes; em italiano: Alpi Cozie).

Referências

  1. Estão listadas no Arco de Augusto, em Segúsio.
  2. Estrabão, IV, 1, 3
  3. A inscrição no arco de Segúsio cita "civitates quae sub eo praefecto fuerunt"
  4. Amiano Marcelino, XV, 10, 7
  5. Suetônio, Nero, 18
  6. Bavant. Le duché byzantin de Rome. Origine, durée et extension géographique (em francês). [S.l.: s.n.]. p. pp. 44-50..
  7. Paulo, o Diácono, Historia Langobardorum, II, 16.
  8. Paulo, o Diácono, Historia Langobardorum, II, 25.
  9. Bavant. Le duché byzantin de Rome. Origine, durée et extension géographique (em francês). [S.l.: s.n.]. p. pp. 49-50..
  10. A forma vernácula é registrada no Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves, e no Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, em ambos casos no verbete "Cótio".

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Tilmann Bechert: Die Provinzen des römischen Reiches: Einführung und Überblick. von Zabern, Mainz 1999.
  • Bartolomasi : Valsusa Antica . Alzani, 1975.
  • Prieur - La province romaine des Alpes Cottiennes, Lyon 1968.