Campanha de Galípoli

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Campanha de Galípoli
Parte da(o) Teatro de Operações do Oriente Médio (I Guerra Mundial)
A batalha de Galípoli, Fevereiro-Abril 1915.
Campanha de Galípoli, Abril 1915.
Data 25 de abril de 1915 a 6 de janeiro de 1916
Local Península de Galípoli, Turquia
Desfecho Vitória turca
Combatentes
Reino Unido Império Britânico

França França

Império Otomano Império Otomano
 Império Alemão
 Áustria-Hungria[1]
Principais líderes
Reino Unido Lord Kitchener
Reino Unido Ian Hamilton
Reino Unido Charles Monro
Reino Unido Sackville Carden (Marinha Real Britânica)
Reino Unido John de Robeck (Marinha Real Britânica)
Império Alemão Otto Liman von Sanders
Império Otomano Esat Paşa
Império Otomano Mustafa Kemal (Cmt Div)
Forças
5 divisões (inicial)
16 divisões (final)
6 divisões (inicial)
15 divisões (final)
Vítimas
220 000, 59% baixas[2] 253 000, 60% baixas[3]
As defesas do estreito de Dardanelos em fevereiro e março de 1915, mostrando os campos minados, as redes anti-submarino e as baterias de costa.

A Campanha de Galípoli, também conhecida como Batalha dos Dardanelos, teve como palco a península de Galípoli (em turco: Gelibolu) na Turquia, de 25 de abril de 1915 a 9 de janeiro de 1916, durante a I Guerra Mundial. Foi uma das campanhas mais custosas e trágicas da guerra. Forças britânicas, francesas, australianas e neozelandesas desembarcaram em Galípoli, numa tentativa de invasão da Turquia e captura do estreito de Dardanelos. A tentativa falhou, com pesadas perdas para ambos os lados. Os aliados se retiraram do local durante os meses de dezembro de 1915 e janeiro de 1916.

As divisões ANZAC (Australian and New Zealand Army Corps) se viram especialmente danificadas, e esta campanha passou a significar certa dissensão por parte do aliados oriundos da Nova Zelândia e da Austrália, que acusaram as tropas britânicas de arrogância, crueldade e inaptidão, bem como principais responsáveis pelo fracasso das operações. O Anzac Day (25 de abril) continua a ser a comemoração mais significativa dos veteranos na Austrália e na Nova Zelândia, superando o Dia do Armistício / Dia da Lembrança.

A Campanha de Galípoli repercutiu profundamente em todas as nações envolvidas. Na Turquia, a batalha é percebida como um momento definitivo na história da nação — a defesa final da terra-mãe após séculos de desintegração do Império Otomano. A luta estabeleceu as bases para a Guerra de Independência Turca e a fundação da República Turca oito anos mais tarde, sob Atatürk, ele próprio um comandante em Galípoli.

Operações Navais[editar | editar código-fonte]

No início de 1915, tentando obter importante vantagem estratégica, o governo britânico autorizou o ataque à península de Galípoli tendo por objetivo final capturar Istambul, capital do Império Otomano, bem como obter uma rota segura para a Rússia através do Mar Negro. Em 13 de janeiro o Conselho de Guerra Britânico aprovou os planos para uma operação naval no estreito de Dardanelos.

As defesas do estreito estavam divididas em externas, intermediárias e internas. As defesas externas estavam suscetíveis a bombardeios navais, enquanto as defesas internas se localizavam na parte mais estreita da passagem, perto de Çanakkale. A área era defendida ainda por uma série de 10 campos minados marítimos, contendo 370 minas.

Em 19 de fevereiro de 1915 dois navios britânicos foram enviados para sondar a entrada do estreito e foram engajados pelas baterias das defesas externas de Kum Kale, o bombardeio foi longo e pesado durante o dia. Em 25 de fevereiro uma nova tentativa foi realizada e, com o abandono dos turcos das fortificações mais externas, a frota aliada penetrou no estreito e engajou as defesas intermediárias. Equipes de demolição dos Fuzileiros Navais Britânicos atacaram as defesas de Sedd el Bahr e Kum Kale encontrando pouca resistência.

Navios caça-minas foram despachados, e lograram penetrar cerca de 10 km para dentro do estreito de Dardanelos, mas o trabalho de limpeza das minas marítimas ali colocadas era lento devido à forte correnteza na área e pela falta de prática das tripulações dos navios, que eram em sua maioria civis, e não estavam acostumadas a trabalhar sob fogo. Desse modo, avançar ainda mais dentro do estreito se tornara impossível para a frota aliada, pois as fortalezas turcas se encontravam agora muito afastadas para serem neutralizadas pela artilharia dos navios aliados. A falta de progresso dos aliados encorajou os defensores turcos.

Winston Churchill, então Primeiro Lorde do Almirantado, impaciente com o lento avanço que o Almirante Sir Sackville Hamilton Carden realizava em Galípoli, exigiu que o próximo estágio do plano fosse iniciado. O plano consistia em um avanço de toda frota aliada à luz do dia, protegendo os caça-minas que deveriam limpar a área minada. O Almirante Carden, com sérias dificuldades para tomar tal decisão, começou a apresentar sinais de estresse e insônia. Em 15 de março seu médico informou que o comandante estava à beira de um colapso nervoso. Foi então enviado de volta para casa e substituído pelo Vice-Almirante Sir John de Robeck que imediatamente ordenou que a toda a frota aliada avançasse através do estreito de Dardanelos.

Secretamente os turcos haviam lançado uma 11ª linha de minas na região da baía de Eren Köy. Cerca de 20 a 26 minas foram instaladas paralelamente à costa, fato que passou despercebido aos reconhecimentos aliados e que seria decisivo na batalha que se aproximava.

Em 18 de março de 1915, os 18 navios de guerra da frota aliada penetraram no estreito. A frota foi distribuída em três linhas pelo Almirante Carden, sendo duas britânicas e uma francesa, com navios de apoio no flanco e dois em reserva:

Ordem de Batalha de 18 de março
Em cinza: Seriamente danificado, Em vermelho: afundado
Linha A britânica HMS Queen Elizabeth HMS Agamemnon HMS Lord Nelson HMS Inflexible
Linha B francesa Gaulois Charlemagne Bouvet Suffren
Linha C britânica HMS Vengeance HMS Irresistible HMS Albion HMS Ocean
Navios de apoio HMS Majestic HMS Prince George HMS Swiftsure HMS Swiftsure
Reserva HMS Swiftsure HMS Cornwallis    
Artilharia pesada retirada do cruzador alemão SMS Roon, 1915.

No início a frota conseguiu fazer bom progresso, apesar do intenso bombardeio das baterias turcas. A certa altura o Bouvet realizou uma manobra na região da baía de Eren Köy e colidiu com uma mina, e em poucos minutos adornou e afundou matando os 600 homens da tripulação. Próximo do mesmo local o HMS Inflexible bateu em outra mina, o que causou a morte de cerca de 30 homens, mas permaneceu flutuando e acabou encalhado na ilha de Bozcaada. Em seguida foi a vez do HMS Irresistible também atingir uma mina e ficar inoperante. O HMS Ocean foi despachado para rebocá-lo, mas ao chegar na área uma mina destruiu seu leme e ficou à deriva. A maior parte da tripulação destes dois navios conseguiu ser resgatada com vida, mas os navios tiveram que ser abandonados.

Após os reveses do dia 18 de março, a frota aliada foi forçada a retrair, após contar uma perda de mais de 700 homens. A frota aliada perdeu três navios que foram afundados, e teve outros três severamente danificados. As dez linhas do campo minado permaneciam quase intactas e as defesas internas, com baterias de artilharia de costa não haviam ainda sido engajadas.

Operações Terrestres[editar | editar código-fonte]

Cabo Helles: As praias de desembarque.

O Vice-Almirante Sir John de Robeck informou Winston Churchill que não seria possível capturar a península de Galípoli sem a ajuda do exército. O General Sir Ian Hamilton, comandante da Força Expedicionária do Mediterrâneo aquartelada na ilha grega de Lemnos, participou em 22 de março de uma conferência com o Almirante Robeck a bordo do HMS Queen Elizabeth, onde tomaram a decisão de realizar o desembarque anfíbio em larga escala em Galípoli.

Líderes do exército grego informaram Lord Kitchener, Secretário de Estado da Guerra, que ele precisaria de cerca de 150 000 homens para tomar Galípoli. Kitchener concluiu que somente a metade seria necessária. Enviou a experiente 29º Divisão Britânica para se juntar às tropas da Austrália, Nova Zelândia e tropas coloniais francesas em Lemnos.

Informações chegaram ao comandante do Quinto Exército otomano , o Tenente-General alemão Otto Liman von Sanders, a respeito dos 70 000 homens aliados reunidos na ilha grega. Von Sanders prevendo o ataque iminente, começou a posicionar seus 84 000 homens ao longo da costa onde ele esperava que os planos de invasão tivessem lugar.

Dispositivo do 5.º Exército Turco.

O comandante da 19ª Divisão de Exército, Mustafá Kemal, com sua experiência anterior em operações militares na região de Galípoli, conseguiu prever o lugar onde os desembarques aliados ocorreriam, e deteve as tropas aliadas no local até a retirada final. Angariou fama e tornou-se um herói nacional, sendo o primeiro presidente da república no pós-guerra.

O ataque se iniciou em 25 de abril de 1915 com o estabelecimento de duas cabeças-de-ponte, em Helles e Gaba Tepe. Outro grande desembarque teve lugar na baía de Sulva em 6 de agosto. Entretanto as tentativas de tomar toda a península fracassaram, frente a resistência tenaz oferecida pelas forças turcas. Até ao final de agosto os aliados haviam perdido mais de 40 000 homens. O General Ian Hamilton solicitou mais 95 000 homens, embora apoiado por Winston Churchill, Kitchener não estava disposto a enviar mais tropas para a área, uma vez que não podia desfalcar a frente ocidental na Europa.

Em 14 de outubro, o General Hamilton foi substituído pelo Tenente-General Sir Charles Monro. Após percorrer as três frentes de combate, o General Monro recomendou uma retirada imediata das forças aliadas. Lord Kitchener, que chegou à frente de combate duas semanas depois, concordou que os 105.000 homens restantes deveriam ser retirados. A operação começou pela baía de Sulva em 7 de dezembro. As última unidades foram evacuadas do Cabo Helles em 9 de janeiro de 1916.

Resultado Final[editar | editar código-fonte]

Divisões ANZAC desembarcam em Galípoli, 1915.

Cerca de 480 000 soldados aliados tomaram parte na fracassada Campanha de Galípoli. As tentativas de abrir caminho através da península resultaram infrutíferas, devido às dificuldades do terreno e à obstinada resistência das tropas turcas. O estreito permaneceu fechado aos aliados até o final da guerra, dificultando o apoio aos russos.

Os britânicos e seus aliados tiveram cerca de 220 000 baixas (43 000 mortos). Houve mais de 33 600 perdas entre as tropas ANZAC (mais de 1/3 de mortos) . As tropas coloniais franceses tiveram 47 000 baixas (5 000 mortos). Do outro lado, as baixas turcas são estimadas atualmente em cerca de 250 000 (65 000 mortos).

Referências

  1. Peter, Jung. Austro-Hungarian Forces in World War 1 (Part 1) (em ). Londres: Osprey Publishing, 2003. 48 pp. vol. 1 de The Austro-Hungarian Forces in World War I. ISBN 9781841765945.
  2. Dennis, Peter. Gallipoli Campaign. USA: Microsoft Corporation, 2006. vol. Microsoft Encarta.
  3. ÇANAKKALE SAVA?INDA 57000 ASKERYMYZ ?EHYT DÜ?TÜ (em turco).

Notas

  1. As tropas do Império Britânico eram apoiadas por um Corpo Auxiliar Egípicio de 3 000 homens que executavam trabalhos pesados, como por exemplo cavar trincheiras. Mansfield, Peter. A history of the Middle East. Londres: Penguin Books, 2004. 429 pp. ISBN 9780143034339.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Carlyon, Les. Gallipoli (em ). 1. ed. Austrália: Pan Macmillan, 2001. 600 pp. ISBN 9780732910891.
  • Erickson, Edward J. Ordered to Die: A History of the Ottoman Army in the First World War (em ). 2. ed. Westport, Connecticut: Greenwood Publishing Group, 2001. 265 pp. ISBN 9780313315169.
  • Haythornthwaite, Philip J. Gallipoli 1915: Frontal Assault on Turkey (em ). Inglaterra: Osprey Publishing, 1991. 96 pp. ISBN 9781855321113.
  • James, Robert Rhodes. Gallipoli: A British historian's view (em ). Parkville: University of Melbourne, 2001. 13 pp. ISBN 9780732512194.
  • Tyquin, Michael Bernard. Gallipoli: the Medical War (em ). Sydney: New South Wales University Press, 1993. 277 pp. ISBN 9780868401898.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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