Mar de Aral

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Mar de Aral
Mar de Aral
Mar de Aral, em 1985
Localização Ásia Central
Coordenadas 45º0'N 59º56'L
Tipo Águas salgadas
Área da superfície 68.000 km²
Afluentes Amu Dária e Sir Dária
Efluentes não possui
Profundidade máxima 31 m
Volume 1.100 km³
Bacia hidrográfica Bacia Endorréia do Aral
Ilhas 1.500 (1960)
inexistentes (2009)
Cidades vizinhas Aral
País(es)  Cazaquistão
 Uzbequistão

Mar de Aral era um lago de água salgada, localizado na Ásia Central, entre as províncias cazaques de Aqtöbe e Qyzylorda (ao norte), e a região autônoma usbeque de Caracalpaquistão (ao sul). O nome (em português, Mar das Ilhas) refere-se à grande quantidade de ilhas presentes em seu leito (mais de 1.500). Este já foi o quarto maior lago do mundo com 68.000 km² de superfície e 1.100 km³ de volume água, mas hoje encontra-se dividido em três porções menores, em avançado processo de desertificação.[1]

Índice

[editar] Formação

O lago localiza-se numa bacia hidrográfica endorréica, isto é, onde as águas das precipitações e rios correm para uma depressão no solo, um ponto fechado onde se acumulam. No período Terciário (68 a 1,8 milhão de anos atrás), provavelmente aquela depressão estava conectada ao Mar Cáspio, ao Mar Negro, e a outros lagos próximos de mesma origem geológica e formação endorréica. Durante o Pleistoceno (de 1,8 milhão até 20 mil anos atrás), certamente ocorreu a separação e o isolamento final do Mar de Aral, porém ele continuou a ser alimentado simultaneamente com as águas dos rios Amu Daria e Syr Darya, tornando-o um verdadeiro oásis no deserto da Ásia Central. Com o tempo, a água do lago passou a concentrar todo o sal trazido pelos rios,[1] uma vez que a água acumulada continuou o seu ciclo, evaporando por milhares de anos.

[editar] Afluentes

As nascentes dos dois rios afluentes ficam nas altas montanhas do sistema do Himalaia e distanciam cerca de 2.000 km da foz. Durante toda esta extensão, os rios cortam quatro países (a saber: Afeganistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão), sendo uma preciosa fonte de recursos naturais, com grande variedade biológica, em meio ao clima desértico. A atividade pesqueira era a principal atividade econômica da região. No século XX, os dois rios passaram a receber lixo, esgoto e poluentes com o desenvolvimento das comunidades próximas, e foram alvo de sucessivas drenagens pelo governo soviético das repúblicas da Ásia Central. A partir de 1920 o fluxo dos rios diminuiu consideravelmente.

[editar] História

O rio Syr Darya e seu caudaloso volume de água

O governo soviético começou a desviar parte das águas dos rios que alimentavam o Mar de Aral, o Amu Darya (ao sul) e o Syr Darya (no nordeste) em 1918. Com o fim da I Guerra Mundial havia a necessidade de aumentar a produção de alimentos, tais como arroz, cereais e melões. Havia também planos de se produzir algodão no deserto próximo ao lago; o algodão sempre valorizado era chamado “ouro branco”.

Em 1940 acelerou-se a construção dos canais de irrigação que captavam água dos afluentes do Mar de Aral. O conhecimento rudimentar da técnica e engenharia produziu canais ineficientes (mal construídos), e havia perda de até 75% de toda água captada em vazamentos e evaporação.

No início, a irrigação das plantações consumia aproximadamente 20 km³ de água a cada ano, porém, em ritmo crescente. Já na década de 1960, a maior parte do abastecimento de água do lago tinha sido desviado e o Mar de Aral começou a perder tamanho. De 1961 à 1970 o lago baixou 20 cm por ano, e essa taxa cresceu 350% até 1990. Em 1987, a redução contínua do nível da água levou ao aparecimento de grandes bancos de areia, causando uma separação em duas massas de água, formando o Aral do Norte (ou Pequeno Aral) e o Aral do Sul (ou Grande Aral).

A quantidade de água retirada dos rios que abasteciam o Mar de Aral duplicou entre 1960 e 2000, assim como a produção de algodão. No mesmo período, o Uzbequistão tornou-se o 3º maior exportador de algodão do mundo.[2][3] Como conseqüência da redução do volume de água, a salinidade do lago quase quintuplicou e matou a maior parte de sua fauna e flora naturais.[1] A próspera indústria pesqueira faliu, assim como as cidades ao longo das margens. Houve desemprego e dificuldades econômicas.

As poucas águas do Mar de Aral também ficaram fortemente poluídas, em grande parte como resultado de testes com armamentos e projetos industriais, e o uso massivo de pesticidas e fertilizantes. As pessoas passaram a sofrer com a falta de água doce e as culturas na região estão sendo destruídas pelo sal depositado sobre a terra. Nos últimos anos, o vento tem soprado sal a partir do solo seco e poluído, e causado danos à saúde pública. Há também relatos de alterações climáticas na região, com verões cada vez mais quentes e secos, e invernos mais frios.[4][5] A situação do Mar de Aral e sua região é descrita como a maior catástrofe ambiental da história.[6][7][8]

[editar] Produção local

O Mar de Aral abrigou uma indústria pesqueira considerável que, no seu auge, empregava cerca de 40.000 pessoas e produzia 1/6 de todo o pescado da União Soviética. Ainda é possível encontrar os restos dessa época de farta produção. O leito do lago, sem água, transformou-se num cemitério para as grandes embarcações que operavam na pesca. Além do pescado, a região deixou de produzir 500.000 peles de rato-almiscarado[9] por ano, uma vez que a caça predatória e a escassez de água contribuíram para o desaparecimento do animal dos deltas do Amu Darya e Syr Darya.

[editar] Desertificação e desaparecimento

Embarcação abandonada perto do antigo porto de Aral, Cazaquistão
O lago deu lugar ao Aralkum, um deserto de sal e poluentes sólidos

O Mar de Aral encontra-se em rápido processo de desertificação, com perda substancial de seu volume de água e redução da vazão dos rios que nele desembocam. Em 1960, quando o influxo de água para o lago perdeu para os canais de irrigação, o Aral era o quarto maior lago do mundo, com 68 mil km² de superfície e 1.100 km³ de volume de água. Em 1998, sua superfície reduziu para 29 mil km² (queda de 60%) e seu volume, para 220 km³ (queda de 80%), e era o oitavo maior lago. Durante o mesmo período de tempo (1960-1998) a sua salinidade aumentou de 10 g/L para 45 g/L.

Há duas vertentes que pretendem explicar o processo de desertificação:

  1. Fenômeno Natural: o Mar de Aral estaria morrendo naturalmente devido a fatores climáticos e geológicos (vertente defendida oficialmente pelo governo soviético no início do fenômeno);
  2. Fenômeno Antropogênico: o desvio das águas dos rios que desembocam no Mar de Aral estaria causando o problema (vertente consensual defendida atualmente).

Alguns peritos do governo soviético consideraram, na época, como “erro da natureza” o que estava acontecendo com o Aral. Um engenheiro soviético declarou, em 1968, que era “óbvio para todos que a evaporação do Mar de Aral era inevitável”,[10] confirmando a tese de causas naturais. Contudo, já se sabia das manobras da União Soviética com as águas e das prováveis conseqüências das ações. Um outro membro do governo soviético, o engenheiro Aleksandr Asarin, salientou que o lago estava condenado, explicando que aquilo “fazia parte dos planos qüinqüenais, aprovado pelo Conselho de Ministros e do Politburo. Ninguém, de menor patente, ousaria dizer uma palavra contradizendo os planos”.[9] Tal afirmação, em 1964, vem corroborar com a certeza de que o perecimento do lago não foi uma surpresa para os soviéticos, pois eles esperavam que acontecesse muito antes.

A EVOLUÇÃO DO MAR DE ARAL
Década Fluxo registrado Redução do nível Superfície Volume
1951-1960
60 km³.ano-1 ~ 0 cm.ano-1 68.000 km² 1.100 km³
1961-1970
38,5 km³.ano-1 20 cm.ano-1
-
-
1971-1980
10 km³.ano-1 50 a 60 cm.ano-1
-
-
1981-1990
1,3 km³.ano-1 80 a 90 cm.ano-1
-
-
1991-2000
-
-
28.687 km² 220 km³
2000-2010
-
-
~ 6.630 km² ~ 110 km³

[editar] Situação atual

A tragédia anunciada segue o seu caminho

Em 2003, com a redução do nível das águas, o Aral do Sul sofreu uma nova separação por um banco de areia, formando duas bacias (“oriental” e “ocidental”), e sua superfície era de 17.160 km² (25% do tamanho original). Em 2007 sua superfície reduziu para apenas 10% do original e sua salinidade chegou a 100 g/L.[1] A situação atual do Mar de Aral é crítica e o lago está prestes a desaparecer. A previsão é que até meados de 2010 não haja mais água.

[editar] Possíveis soluções

O futuro do Mar de Aral é incerto. Não se sabe se é possível, viável e necessário recuperá-lo. Há diversas sugestões no sentido de ajudar em sua recuperação, tais como:

» Melhorar a eficiência dos canais de irrigação;
» Instalar estações de dessalinização de água;
» Instruir os agricultores a usar menos as águas dos rios;
» Plantar cultivares de algodão que necessitem de menos água; [11]
» Usar menos produtos químicos nas plantações;
» Reduzir o número de fazendas de algodão próximas ao lago e afluentes;
» Construir barragens para encher o Mar de Aral;
» Redirecionar a água dos rios Volga, Ob e Irtich. Assim, se levaria de 20 a 30 anos para restaurar sua antiga dimensão, a um custo provável de US$50 milhões; [12]
» Diluir a água do Aral com água do oceano e do Mar Cáspio, através de bombas e gasodutos.[13]

[editar] Galeria de imagens

[editar] Ver também

[editar] Referências

  1. 1,0 1,1 1,2 1,3 Philip Micklin; Nikolay V. Aladin. "Reclaiming the Aral Sea", Scientific American, March 2008. Página visitada em 2008-05-17.
  2. https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/uz.html#Econ
  3. USDA-Foreign Agriculture Service (2008). Cotton Production Ranking. National Cotton Council of America. Página visitada em 2008-05-17.
  4. U.S. Geological Survey (2007-05-01). Earthshots: Aral Sea. U.S. Department of the Interior. Página visitada em 2008-05-17.
  5. Godwin O. P. Obasi, Challenges and Opportunities in Water Resource Management, World Meteorological Organization (Lecture at the 93rd Annual Meeting of the American Meteorological Society, February 11, 2003)
  6. "Aral Sea". Encyclopædia Britannica. (2007). Encyclopædia Britannica Online. Visitado em 2008-05-17. 
  7. Dust Storm, Aral Sea, NASA Earth Observatory image, June 30, 2001
  8. Whish-Wilson (2002). "The Aral Sea environmental health crisis" (PDF). Journal of Rural and Remote Environmental Health 1 (2): 30. DOI:<br 10.1146/annurev.earth.35.031306.140120<br.
  9. 9,0 9,1 Michael Wines. "Grand Soviet Scheme for Sharing Water in Central Asia Is Foundering", The New York Times, 2002-12-09. Página visitada em 2008-03-08.
  10. Bissell, Tom (2002). Eternal Winter: Lessons of the Aral Sea Disaster. Harper's, 41–56.
  11. http://www.adb.org/water/actions/uzb/farmers-scientists.asp
  12. Ed Ring (2004-09-27). Release the Rivers: Let the Volga & Ob Refill the Aral Sea. Ecoworld. Página visitada em 2008-05-17.
  13. Aral Sea Refill: Seawater Importation Macroproject. The Internet Encyclopedia of Science (2008-06-29).

[editar] Leitura recomendada

[editar] Links externos

Commons
O Wikimedia Commons possui multimedia sobre Mar de Aral

Ferramentas pessoais
Criar um livro