Mar de Aral
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| Mar de Aral | |
|---|---|
| Localização | Ásia Central |
| Coordenadas | 45º0'N 59º56'L |
| Tipo | Águas salgadas |
| Área da superfície | 68.000 km² |
| Afluentes | Amu Dária e Sir Dária |
| Efluentes | não possui |
| Profundidade máxima | 31 m |
| Volume | 1.100 km³ |
| Bacia hidrográfica | Bacia Endorréia do Aral |
| Ilhas | 1.500 (1960) inexistentes (2009) |
| Cidades vizinhas | Aral |
| País(es) | |
Mar de Aral era um lago de água salgada, localizado na Ásia Central, entre as províncias cazaques de Aqtöbe e Qyzylorda (ao norte), e a região autônoma usbeque de Caracalpaquistão (ao sul). O nome (em português, Mar das Ilhas) refere-se à grande quantidade de ilhas presentes em seu leito (mais de 1.500). Este já foi o quarto maior lago do mundo com 68.000 km² de superfície e 1.100 km³ de volume água, mas hoje encontra-se dividido em três porções menores, em avançado processo de desertificação.[1]
Índice |
[editar] Formação
O lago localiza-se numa bacia hidrográfica endorréica, isto é, onde as águas das precipitações e rios correm para uma depressão no solo, um ponto fechado onde se acumulam. No período Terciário (68 a 1,8 milhão de anos atrás), provavelmente aquela depressão estava conectada ao Mar Cáspio, ao Mar Negro, e a outros lagos próximos de mesma origem geológica e formação endorréica. Durante o Pleistoceno (de 1,8 milhão até 20 mil anos atrás), certamente ocorreu a separação e o isolamento final do Mar de Aral, porém ele continuou a ser alimentado simultaneamente com as águas dos rios Amu Daria e Syr Darya, tornando-o um verdadeiro oásis no deserto da Ásia Central. Com o tempo, a água do lago passou a concentrar todo o sal trazido pelos rios,[1] uma vez que a água acumulada continuou o seu ciclo, evaporando por milhares de anos.
[editar] Afluentes
As nascentes dos dois rios afluentes ficam nas altas montanhas do sistema do Himalaia e distanciam cerca de 2.000 km da foz. Durante toda esta extensão, os rios cortam quatro países (a saber: Afeganistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão), sendo uma preciosa fonte de recursos naturais, com grande variedade biológica, em meio ao clima desértico. A atividade pesqueira era a principal atividade econômica da região. No século XX, os dois rios passaram a receber lixo, esgoto e poluentes com o desenvolvimento das comunidades próximas, e foram alvo de sucessivas drenagens pelo governo soviético das repúblicas da Ásia Central. A partir de 1920 o fluxo dos rios diminuiu consideravelmente.
[editar] História
O governo soviético começou a desviar parte das águas dos rios que alimentavam o Mar de Aral, o Amu Darya (ao sul) e o Syr Darya (no nordeste) em 1918. Com o fim da I Guerra Mundial havia a necessidade de aumentar a produção de alimentos, tais como arroz, cereais e melões. Havia também planos de se produzir algodão no deserto próximo ao lago; o algodão sempre valorizado era chamado “ouro branco”.
Em 1940 acelerou-se a construção dos canais de irrigação que captavam água dos afluentes do Mar de Aral. O conhecimento rudimentar da técnica e engenharia produziu canais ineficientes (mal construídos), e havia perda de até 75% de toda água captada em vazamentos e evaporação.
No início, a irrigação das plantações consumia aproximadamente 20 km³ de água a cada ano, porém, em ritmo crescente. Já na década de 1960, a maior parte do abastecimento de água do lago tinha sido desviado e o Mar de Aral começou a perder tamanho. De 1961 à 1970 o lago baixou 20 cm por ano, e essa taxa cresceu 350% até 1990. Em 1987, a redução contínua do nível da água levou ao aparecimento de grandes bancos de areia, causando uma separação em duas massas de água, formando o Aral do Norte (ou Pequeno Aral) e o Aral do Sul (ou Grande Aral).
A quantidade de água retirada dos rios que abasteciam o Mar de Aral duplicou entre 1960 e 2000, assim como a produção de algodão. No mesmo período, o Uzbequistão tornou-se o 3º maior exportador de algodão do mundo.[2][3] Como conseqüência da redução do volume de água, a salinidade do lago quase quintuplicou e matou a maior parte de sua fauna e flora naturais.[1] A próspera indústria pesqueira faliu, assim como as cidades ao longo das margens. Houve desemprego e dificuldades econômicas.
As poucas águas do Mar de Aral também ficaram fortemente poluídas, em grande parte como resultado de testes com armamentos e projetos industriais, e o uso massivo de pesticidas e fertilizantes. As pessoas passaram a sofrer com a falta de água doce e as culturas na região estão sendo destruídas pelo sal depositado sobre a terra. Nos últimos anos, o vento tem soprado sal a partir do solo seco e poluído, e causado danos à saúde pública. Há também relatos de alterações climáticas na região, com verões cada vez mais quentes e secos, e invernos mais frios.[4][5] A situação do Mar de Aral e sua região é descrita como a maior catástrofe ambiental da história.[6][7][8]
[editar] Produção local
O Mar de Aral abrigou uma indústria pesqueira considerável que, no seu auge, empregava cerca de 40.000 pessoas e produzia 1/6 de todo o pescado da União Soviética. Ainda é possível encontrar os restos dessa época de farta produção. O leito do lago, sem água, transformou-se num cemitério para as grandes embarcações que operavam na pesca. Além do pescado, a região deixou de produzir 500.000 peles de rato-almiscarado[9] por ano, uma vez que a caça predatória e a escassez de água contribuíram para o desaparecimento do animal dos deltas do Amu Darya e Syr Darya.
[editar] Desertificação e desaparecimento
O Mar de Aral encontra-se em rápido processo de desertificação, com perda substancial de seu volume de água e redução da vazão dos rios que nele desembocam. Em 1960, quando o influxo de água para o lago perdeu para os canais de irrigação, o Aral era o quarto maior lago do mundo, com 68 mil km² de superfície e 1.100 km³ de volume de água. Em 1998, sua superfície reduziu para 29 mil km² (queda de 60%) e seu volume, para 220 km³ (queda de 80%), e era o oitavo maior lago. Durante o mesmo período de tempo (1960-1998) a sua salinidade aumentou de 10 g/L para 45 g/L.
Há duas vertentes que pretendem explicar o processo de desertificação:
- Fenômeno Natural: o Mar de Aral estaria morrendo naturalmente devido a fatores climáticos e geológicos (vertente defendida oficialmente pelo governo soviético no início do fenômeno);
- Fenômeno Antropogênico: o desvio das águas dos rios que desembocam no Mar de Aral estaria causando o problema (vertente consensual defendida atualmente).
Alguns peritos do governo soviético consideraram, na época, como “erro da natureza” o que estava acontecendo com o Aral. Um engenheiro soviético declarou, em 1968, que era “óbvio para todos que a evaporação do Mar de Aral era inevitável”,[10] confirmando a tese de causas naturais. Contudo, já se sabia das manobras da União Soviética com as águas e das prováveis conseqüências das ações. Um outro membro do governo soviético, o engenheiro Aleksandr Asarin, salientou que o lago estava condenado, explicando que aquilo “fazia parte dos planos qüinqüenais, aprovado pelo Conselho de Ministros e do Politburo. Ninguém, de menor patente, ousaria dizer uma palavra contradizendo os planos”.[9] Tal afirmação, em 1964, vem corroborar com a certeza de que o perecimento do lago não foi uma surpresa para os soviéticos, pois eles esperavam que acontecesse muito antes.
| A EVOLUÇÃO DO MAR DE ARAL | ||||
|---|---|---|---|---|
| Década | Fluxo registrado | Redução do nível | Superfície | Volume |
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60 km³.ano-1 | ~ 0 cm.ano-1 | 68.000 km² | 1.100 km³ |
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38,5 km³.ano-1 | 20 cm.ano-1 |
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10 km³.ano-1 | 50 a 60 cm.ano-1 |
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1,3 km³.ano-1 | 80 a 90 cm.ano-1 |
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28.687 km² | 220 km³ |
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~ 6.630 km² | ~ 110 km³ |
[editar] Situação atual
Em 2003, com a redução do nível das águas, o Aral do Sul sofreu uma nova separação por um banco de areia, formando duas bacias (“oriental” e “ocidental”), e sua superfície era de 17.160 km² (25% do tamanho original). Em 2007 sua superfície reduziu para apenas 10% do original e sua salinidade chegou a 100 g/L.[1] A situação atual do Mar de Aral é crítica e o lago está prestes a desaparecer. A previsão é que até meados de 2010 não haja mais água.
[editar] Possíveis soluções
O futuro do Mar de Aral é incerto. Não se sabe se é possível, viável e necessário recuperá-lo. Há diversas sugestões no sentido de ajudar em sua recuperação, tais como:
- » Melhorar a eficiência dos canais de irrigação;
- » Instalar estações de dessalinização de água;
- » Instruir os agricultores a usar menos as águas dos rios;
- » Plantar cultivares de algodão que necessitem de menos água; [11]
- » Usar menos produtos químicos nas plantações;
- » Reduzir o número de fazendas de algodão próximas ao lago e afluentes;
- » Construir barragens para encher o Mar de Aral;
- » Redirecionar a água dos rios Volga, Ob e Irtich. Assim, se levaria de 20 a 30 anos para restaurar sua antiga dimensão, a um custo provável de US$50 milhões; [12]
- » Diluir a água do Aral com água do oceano e do Mar Cáspio, através de bombas e gasodutos.[13]
[editar] Galeria de imagens
[editar] Ver também
- Escassez de água
- Lago
- Montanhas Pamir
- Bacia Hidrográfica
- Hidrologia
- União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
- Ciclo da água
- Recursos naturais
- Poluição
[editar] Referências
- ↑ 1,0 1,1 1,2 1,3 Philip Micklin; Nikolay V. Aladin. "Reclaiming the Aral Sea", Scientific American, March 2008. Página visitada em 2008-05-17.
- ↑ https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/uz.html#Econ
- ↑ USDA-Foreign Agriculture Service (2008). Cotton Production Ranking. National Cotton Council of America. Página visitada em 2008-05-17.
- ↑ U.S. Geological Survey (2007-05-01). Earthshots: Aral Sea. U.S. Department of the Interior. Página visitada em 2008-05-17.
- ↑ Godwin O. P. Obasi, Challenges and Opportunities in Water Resource Management, World Meteorological Organization (Lecture at the 93rd Annual Meeting of the American Meteorological Society, February 11, 2003)
- ↑ "Aral Sea". Encyclopædia Britannica. (2007). Encyclopædia Britannica Online. Visitado em 2008-05-17.
- ↑ Dust Storm, Aral Sea, NASA Earth Observatory image, June 30, 2001
- ↑ Whish-Wilson (2002). "The Aral Sea environmental health crisis" (PDF). Journal of Rural and Remote Environmental Health 1 (2): 30. DOI:<br 10.1146/annurev.earth.35.031306.140120<br.
- ↑ 9,0 9,1 Michael Wines. "Grand Soviet Scheme for Sharing Water in Central Asia Is Foundering", The New York Times, 2002-12-09. Página visitada em 2008-03-08.
- ↑ Bissell, Tom (2002). Eternal Winter: Lessons of the Aral Sea Disaster. Harper's, 41–56.
- ↑ http://www.adb.org/water/actions/uzb/farmers-scientists.asp
- ↑ Ed Ring (2004-09-27). Release the Rivers: Let the Volga & Ob Refill the Aral Sea. Ecoworld. Página visitada em 2008-05-17.
- ↑ Aral Sea Refill: Seawater Importation Macroproject. The Internet Encyclopedia of Science (2008-06-29).
[editar] Leitura recomendada
- Micklin (2007). "The Aral Sea Disaster". Annual Review of Earth and Planetary Sciences 35 (4): 47–72. DOI:10.1146/annurev.earth.35.031306.140120.
- Bissell, Tom. "Eternal Winter: Lessons of the Aral Sea Disaster", Harper's, April 2002, pp. 41–56. Página visitada em 2008-05-17.
- Bissell, Tom (2004). Chasing The Sea: Lost Among the Ghosts of Empire in Central Asia. New York: Vintage Books.
- Ellis, William S. "A Soviet Sea Lies Dying", National Geographic, February 1990, pp. 73–93.
- Ferguson, Rob (2003). The Devil and the Disappearing Sea. Vancouver: Raincoast Books.
- Kasperson, Jeanne, Kasperson, Roger; Turner, B.L (1995). The Aral Sea Basin: A Man-Made Environmental Catastrophe. Dordrecht; Boston: Kluwer Academic Publishers, 92.
- Bendhun, François; Renard, Philippe (2004). "Indirect estimation of groundwater inflows into the Aral sea via a coupled water and salt mass balance model". Journal of Marine Systems 47 (1-4): 35–50. DOI:10.1016/j.jmarsys.2003.12.007.
[editar] Links externos
- Aral Sea Foundation
- Union for Defence of the Aral Sea and Amudarya river (UDASA)
- Water-related vision for the Aral Sea basin for the year 2025, UNESCO, March 2000
- article on UNESCO's Water Related Vision for the Aral Sea Basin
- Kazakhstan Government and World Bank Project for Saving Aral Sea, 14 de dezembro de 2006
- BBC article by David Shukman on a study that finds high levels of DNA damage that could explain the region's abnormally high cancer rate; Muynak, Uzbekistan, 29 de junho 2004
- New Scientist article, 21 de julho 2003
- BBC article on planned dam, 29 de outubro 2003
- BBC article on approved loan from World Bank, 9 de abril 2007
- EcoWorld article "Arctic to Aral", 6 de novembro 2005
- Satellite images of the Aral Sea on NASA's Visible Earth website
- Earth Observatory: Rebirth island joins the mainland
- www.american.edu: Aral Sea Loss and Cotton
- Anthrax 'time bomb' ticking in Aral Sea, researchers say - CNN's report on bioweapons dump on Vozrozhdeniya Island
- Atlas of Our Changing Environment - United Nations Environment Programme.
- Aral 2006 (in Russian)
- Information Centre for Kazakhstan with Infos on Aral Sea


