Ada Rogato

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Ada Rogato
Nome nativo Ada Rogato
Nascimento 22 de dezembro de 1920
São Paulo
Morte 15 de novembro de 1986 (65 anos)
São Paulo
Cidadania Brasil
Ocupação piloto

Ada Leda Rogato (São Paulo, 22 de dezembro de 1910São Paulo, 15 de novembro de 1986) foi uma pioneira da aviação no Brasil.

Foi a primeira mulher a obter licença como paraquedista, a primeira volovelista (piloto de planador) e a terceira a se brevetar em avião (1935).[1] Também se destacou pelas acrobacias aéreas e foi a primeira piloto agrícola do país. Voando em aeronaves de pequeno porte e – ao contrário de outras famosas aviadoras – sempre sozinha, a fama nacional e internacional cresceu a partir dos anos 1950, graças à ousadia cada vez maior das proezas, que fizeram dela:[2]

Feitos notáveis[editar | editar código-fonte]

  • A primeira piloto brasileira a atravessar os Andes; feito realizado por onze vezes, ida e volta, em 1950;
  • A única aviadora do mundo, até 1951, a cobrir uma extensão de 51.064 km em voo solitário pelas três Américas, chegando até o Alasca; o trajeto levou aproximadamente 6 meses;
  • A primeira a atingir o aeroporto de La Paz, na Bolívia, o mais alto do mundo até então (1952), com um avião de apenas 90 HP – feito inédito na história da aviação boliviana;
  • O primeiro piloto, homem ou mulher, a cruzar a selva amazônica - o temido "inferno verde" - em um pequeno avião, sem rádio, em voo solitário, apenas com uma bússola (1956);
  • A primeira aviadora a chegar sozinha à Terra do Fogo, no extremo sul do nosso continente (1960).
  • Detém o brevê número um de primeira paraquedista, entre homens e mulheres; e foi a primeira mulher no mundo a saltar de um helicóptero, realizando 105 saltos; e a primeira paraquedista das Américas;[3]
  • A primeira mulher a receber a comenda da Ordem do Mérito Aeronáutico, no grau de Cavaleiro, a Comenda Asas da Força Aérea Brasileira e o título da FAB de Piloto em ''Honoris Causa''.[4]
  • Realizou mais de mil "voos de coqueluche" porque acreditava-se que a altura exterminava a bactéria da doença
  • A primeira a pousar em Brasília, quando a capital do país ainda estava em construção [5]

Quando o paraquedismo como atividade esportiva começava a ganhar os primeiros adeptos no Brasil, a audaciosa Ada se tornou campeã da modalidade - brasileira em 1943 e paulista em 1948, ano em que também iniciou as atividades como piloto agrícola; e aproveitou seu reide de 1950 por quatro países sul-americanos para demonstrações em paraquedas, tornando-se assim a primeira mulher a saltar no Paraguai e no Chile.

Histórico[editar | editar código-fonte]

Filha única do casal de imigrantes italianos Mariarosa Greco e Guglielmo Rogato, naturais de San Marco Argentano, na Calábria, Ada recebeu dos pais a mesma educação dada à maioria das moças da época, para torná-las "prendadas" – além do colégio, aulas de piano e pintura -, mas a ambição ia além: queria aprender a voar. E não abandonou a meta mesmo quando os pais se separaram e ela teve de ajudar a mãe não só nas atividades domésticas como em bordados e trabalhos artesanais para se sustentar.

Conseguiu juntar dinheiro suficiente para as aulas que lhe possibilitaram tirar em 1935 o primeiro brevê feminino de voo a vela e, no ano seguinte, a primeira licença concedida a uma mulher pelo Aeroclube de São Paulo para pilotar avião. Um curso de paraquedismo feito no Campo de Marte em 1941 lhe garantiu o primeiro certificado de pára-quedista concedido a uma brasileira.

Adepta incondicional da aviação esportiva, Ada passou desde então a usar suas habilidades para divulgar a aviação: acrobacias aéreas e saltos de paraquedas, ajudava a atrair público para os eventos aviatórios organizados tanto nas capitais como nos recém-fundados aeroclubes do interior de São Paulo e de outros Estados. Durante a Segunda Guerra Mundial, realizou voluntariamente 213 voos de patrulhamento aéreo do litoral paulista. E em 1948, quando as autoridades decidiram dar combate aéreo à broca-do-café - praga que ameaçava as plantações do nosso principal produto de exportação na época -, ela aceitou o desafio de cumprir a tarefa que a transformou em pioneira do polvilhamento aéreo no Brasil.

Segunda Guerra Mundial[editar | editar código-fonte]

Durante a Segunda Guerra Mundial, realizou demonstrações de paraquedismo na Baía de Guanabara, um salto noturno e 213 voos voluntários de patrulhamento aéreo pelo litoral paulista voando em aeronaves de pequeno porte. Conforme o reconhecimento crescia, a imprensa paulista e nacional a apelidava de Milionária do ar, Gaivota solitária, Pássaro solitário.[6]

Reconhecimento[editar | editar código-fonte]

Discreta e persistente no preparo dos voos, Ada agia da mesma forma na vida particular. Mulher solteira e sem filhos, trabalhava para viver como funcionária pública estadual. Começou em 1940 como escriturária no Instituto Biológico, vinculado à Secretaria da Agricultura, e aposentou-se em 1980, como chefe de seção técnica da Secretaria de Esportes e Turismo. Nos anos 1950, foi redatora de aviação da Revista dos Aviadores e também da revista Velocidade.

A personalidade modesto, no entanto, não a impediu de merecer da imprensa nacional e internacional inúmeros títulos pelas proezas, tais como "Milionária do Ar", "Águia Paulista", "Rainha dos Céus do Brasil" e "Gaivota Solitária" (imprensa brasileira, anos 1950); e da revista chilena Margarita ganhou o apelido de "Condor dos Andes".[7]

Entre centenas de troféus e condecorações, foi a primeira aviadora a receber no Brasil a Comenda Nacional do Mérito Aeronáutico, no grau de Cavaleiro, e ainda as Asas da Força Aérea Brasileira e o título de Piloto Honoris Causa da FAB; também no grau de Cavaleiro, recebeu na Bolívia a Condor dos Andes; no Chile, foi condecorada com a Bernardo O’Higgins no grau de Oficial e na Colômbia com as Asas da Força Aérea Colombiana, primeira entregue no país a uma aviadora. Em 1954, recebeu da Federação Aeronáutica Internacional, sediada na França, o diploma Paul Tissandier por seus méritos na aviação.

Em 1956, Ada foi convidada a fazer parte da comissão organizadora das comemorações do Cinquentenário do primeiro voo do 14-bis. A sugestão foi a realização de um reide por todos os Estados e Territórios brasileiros para homenagear e divulgar os feitos de Santos-Dumont. Nesta viagem, ela percorreu 25.057 km em 163 horas de voo, levando consigo não só material sobre a vida e obra do Pai da Aviação como também, a pedido das autoridades eclesiásticas, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em peregrinação aérea. O roteiro não se restringiu às capitais: com seu espírito aventureiro, a aviadora o estendeu a locais perdidos do interior, sobrevoando com o minúsculo Cessna trechos quase inexplorados do Centro-Oeste, descendo em campos de pouso recém-abertos na mata e visitando várias aldeias indígenas. Foi mais uma vez pioneira ao atravessar sozinha e num pequeno avião a selva amazônica, incluindo o até hoje temeroso trecho Xingu-Cachimbo-Jacareacanga.

Mesmo com todos esses louros, Ada ainda não estava satisfeita: após ter atingido o Círculo Ártico, o aeroporto mais alto e as profundezas da Amazônia, queria chegar também ao extremo sul do continente. E só encerrou a série de grandes viagens quatro anos depois (1960), quando se tornou a primeira piloto a chegar a Ushuaia, na Terra do Fogo (Argentina), a cidade mais austral do mundo – ainda a bordo do mesmo Cessna, chamado "Brasil". E só não foi mais longe nos anos seguintes por não ter conseguido obter um avião maior e mais potente.

Como membro da comissão do Cinquentenário do 14-bis, a aviadora passou posteriormente a fazer parte da Fundação Santos-Dumont (FSD), destinada a cuidar do acervo do inventor e apoiar o desenvolvimento da aeronáutica. Como dirigente dessa entidade – da qual foi sucessivamente conselheira, secretária e presidente -, Ada recepcionava os visitantes mais ilustres do Museu da Aeronáutica da FSD (o primeiro da América do Sul), ao qual doou o seu "Brasil". Entre esses visitantes, contam-se vários astronautas norte-americanos - incluindo Neil Armstrong, que, antes de se tornar o primeiro homem a pisar na Lua, conheceu ali a aviadora e seu avião e a elogiou por suas façanhas. Ao morrer em 1986, Ada ainda era diretora do Museu que abrigava o seu inseparável "Brasil".

Homenagens[editar | editar código-fonte]

Em vida, Ada Rogato foi amplamente reconhecida e homenageada pelo talento, coragem, ousadia e pioneirismo.

Em 1984 foi lançado o filme de curta metragem Folguedos no Firmamento (direção: Regina Rheda), sobre os feitos de Ada Rogato; esse filme foi exibido durante 5 anos em cinemas de todo o Brasil. Poucos anos após a morte de Ada Rogato, o Museu da Aeronáutica foi fechado e o acervo se dispersou ao ser removido do espaço que ocupava no Parque Ibirapuera (São Paulo).

Algumas referências públicas à brava piloto estão em uma praça na cidade de São Paulo e em uma rua de Ribeirão Preto (SP) que levam seu nome.

Atualmente o "Cessna 140-A" "Brasil" encontra-se exposto ao público no Museu TAM, localizado em São Carlos-SP.

Outro registro histórico em homenagem à heroína brasileira foi prestado em 1951: ao bater o recorde de voo solo, ao percorrer os 51.064 quilômetros entre e a Terra do Fogo e o Alasca, em apenas 326 horas, foi homenageada com a cachaça a Voadora.[7]

Em outra homenagem póstuma (8 de março de 2000), os Correios do Brasil lançaram selos postais estampando as mulheres pioneiras da aviação brasileira,[8] sob o tema "Mulheres Aviadoras", um carimbo postal e um selo comemorativo dos 50 anos do primeiro sobrevoo dos Andes por Ada com seu "Brasileirinho", um avião CAP-4 de apenas 65 HP.

Em 1986 Ada fez parte da Fundação Santos Dumont assumindo os cargos de conselheira, secretária e presidente, e posteriormente assumindo o cargo de diretora do Museu da Aeronáutica da própria fundação.[9]

Ada Rogato morreu em São Paulo, vítima de câncer, em 15 de novembro de 1986, aos 76 anos; o corpo foi velado no Museu da Aeronáutica, o cortejo foi acompanhado pela Esquadrilha da Fumaça. Seu corpo foi exumado em 1993 e seus restos mortais transferidos para o ossário do Cemitério de Santana onde, tristemente, permanecem num jazigo anônimo, identificado apenas pelo nº 368 que foi gravado à mão, no cimento ainda fresco, indicando a gaveta que ocupa no Bloco E.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Ada – Mulher, pioneira, aviadora. Lucita Briza.
  • A Mulher Paulista na História/Adalzira Bittencourt, Rio de Janeiro:Livros de Portugal, 1954.
  • Asas do Brasil: Uma História que Voa pelo Mundo, de Cosme Degenar Dumont, Editora de Cultura, São Paulo, 2004.
  • Aviadoras Pioneiras, de Carlos dos Santos Pinheiro, Rio de Janeiro, 2003.
  • Voo Proibido: Os apuros de uma pioneira, 2 ed. 2000, da Cmte. Lucy Lúpia Pinel Balthazar.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Nas nuvens com Ada Rogato, por Lucita Briza, Estadão». www.estadao.com.br 
  2. Miranda José Rodrigues, Correia de Lima, Luiz Eduardo, Cristiane (2009). «Mulheres Aviadoras, o Pioneirismo de Ada Rogato e Seus Feitos Históricos na Aviação Brasileira» (PDF). Revista Eletrônica AeroDesign Magazine. Consultado em 8 de Março de 2018. 
  3. Youtube, Ada Rogato, a Primeira Mulher Piloto no Brasil - De Lá Pra Cá - 18/09/2011, Canal tvbrasil'
  4. «Adesg». www.adesg.net.br 
  5. «VooVirtual». www.voovirtual.com 
  6. «BIológico» (PDF). Biológico. Dezembro de 2012. Consultado em 8 de Março de 2018. 
  7. a b «Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra». www.adesg.net.br 
  8. «Correios, Selos». www.correios.com.br 
  9. «Museu Tam». www.museutam.com.br 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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