Fila brasileiro

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Fila brasileiro
Fila brasileiro, macho adulto
Nome original Fila brasileiro
Outros nomes Brazilian mastiff

Boca Negra

Onceiro

Cabeçudo boiadeiro das Minas Gerais

País de origem  Brasil
Características
Classificação e padrões
Federação Cinológica Internacional
Grupo 2
Seção 2 - Cães de tipo Pinscher e Schnauzer, Molossóides e Cães de Montanha, e Boieiros Suiços - Molossóides
Estalão #225 - 10 de março de 2004

Fila brasileiro é uma raça de cão de grande a gigante porte desenvolvida no Brasil e a primeira raça brasileira a ser reconhecida internacionalmente. A origem deste canino está atrelada à colonização do país, quando os europeus trouxeram para cá os seus cães de trabalho.

De vários cruzamentos entre raças do tipo molosso, surgiu um cão que herdou a grande e forte estrutura óssea dos mastiffs ingleses, a pele solta e as orelhas baixas dos bloodhounds(que é considerada por muitos hoje como falta grave e não muito funcional) e a resistência dos buldogues(raça que foi popular em sua nação de origem, chegou a ser a raça mais registrada pela confederação nacional).[1] [2] O fila brasileiro é ainda considerado um personagem anônimo da História do Brasil desde os tempos do descobrimento, quando ajudou os colonizadores na conquista do território, protegendo as comitivas dos Bandeirantes de ataques de nativos e onças ou suçuaranas; e até mesmo sendo usado pelos colonizadores para recapturar escravos fugitivos.[3]

Robusto, é descrito como animal de faro excelente, bem como de temperamento forte, que requer o pulso de donos firmes e experientes. De aparência facial agressiva, teve o seu inicial padrão modificado para mostrar um rosto "menos violento". Em contrapartida, é visto como um canino tolerante com crianças, comportado e seguro.[1] <

História[editar | editar código-fonte]

Gravura. Cães Fila brasileiro de orelhas cortadas acuando um onça.

Primeira raça brasileira a ser reconhecida internacionalmente pela FCI, em 1940 o fila brasileiro é um personagem anônimo da História do Brasil desde os tempos do descobrimento, quando ajudou os colonizadores na conquista do território brasileiro, seja protegendo as comitivas dos Bandeirantes de ataques de nativos e de onças ou suçuaranas, e até mesmo foi usado pelos colonizadores para recapturar escravos fugitivos.[3]

Historicamente, os filas sempre estiveram presentes em todas as regiões do território brasileiro, mas a rota dos tropeiros, levando mercadorias do interior do território para o litoral, influenciou entre outras coisas a maior presença desta raça em determinadas regiões, porque os tropeiros sempre tinham suas comitivas protegidas por filas, com isto sua incidência sempre foi maior nas regiões centro-oeste e sudeste, principalmente em Minas Gerais.[3] e em Mato Grosso, mas algumas gravuras do início do século XIX, apresentadas pelo príncipe Maximilian zu Wied-Neuwied, atestam que esta raça já estava presente no nordeste brasileiro desde esta época,[4] a primeira mostra vaqueiros vestidos com chapéus e roupas de couro, característicos desta região, estão perseguindo um boi e auxiliados por um fila, chamados na época de cabeçudos onceiros ou boiadeiros, na segunda gravura, o príncipe relato o fato no sul da Bahia, onde segundo ele, quatro cães de orelhas cortadas, com grande porte e formato corporal retangular, características do fila, estão acuando uma onça em cima de uma árvore.

O fila brasileiro teve seu apogeu nas décadas de 1970 e 1980, quando era uma das raças com maior número de registros. Nesta mesma época, criadores tentaram mudar o padrão oficial da raça para abrandar o temperamento agressivo que, de certa forma, era exaltado no padrão anterior. Uma escolha que hoje em dia é polêmica, alguns criadores acreditam que o fila é um cão necessariamente com ojeriza a estranhos, mas muito dócil com a família e crianças, outros também concordam que ele é muito dócil com a família e crianças, mas preferem um temperamento de guarda mas brando, onde o cão não aceitaria uma invasão territorial, mas aceitaria uma visita acompanhada de seu dono. O fato é que nesta época a palavra ojeriza foi substituída por aversão, mantendo o mesmo significado na expressão "possui aversão a estranhos" em seu padrão oficial.

O fila brasileiro é conhecido pela fidelidade e devoção extremas ao dono, características que criaram um provérbio brasileiro secular que diz, "fiel como um fila", tais características comportamentais foram apreciadas durante os séculos de desenvolvimento da raça, o que ajudou a popularizá-la.

Origem[editar | editar código-fonte]

Muito se fala sobre as raças que deram origem ao fila brasileiro, mas a intervenção do homem no aperfeiçoamento da raça dividiu igual importância com a seleção genética natural a que estes cães foram submetidos devido as árduas condições encontradas pelos primeiros filas paulista em nossa história. Eles desempenhavam as mais variadas funções junto aos colonizadores, como guarda, caça, proteção contra animais selvagens, pastoreio de bovinos, faro para localizar e capturar escravos fugitivos, e até cão de guerra, nos ataques a tribos nativas e posteriormente a quilombos.[3]

Mas o "Grande Livro do Fila Brasileiro" nos dá algumas hipóteses mais prováveis do surgimento desta raça,[3] e devido a haverem tantas versões de seu surgimento, mas nenhuma cabalmente comprovada, o padrão oficial da raça omite qualquer versão histórica para o surgimento da raça, por não haver consenso entre os criadores sobre qual versão é a verdadeira.

1ª - Mastiff - Cão de Santo Humberto (bloodhound) - Antigo Buldogue Inglês[editar | editar código-fonte]

Bloodhound (Cão de santo humberto)

A teoria mais antiga e difundida sobre sua origem, é a que reconhece que o fila brasileiro é descendente de cães trazidos ao Brasil durante todo o período de colonização portuguesa, nesta época muitos cães foram trazidos pelos colonos ao Brasil, raças de cães que eram comuns em toda a Europa ocidental no período do Brasil colônia. Quando da vinda de Dom João VI ao Brasil, muitos cães da raça mastiff, que já haviam sido trazidos ao Brasil, desta vez teriam vindo em massa junto com a classe média portuguesa da época, deste cão teria herdado o grande porte e a aptidão nata para a guarda, já do cão de Santo Humberto, lhe foi transmitido o excelente faro e do antigo buldogue inglês (raça já extinta), herdou a agressividade, a aptidão para o combate (caça) a grandes animais, o talento para o trabalho com o gado e a insensibilidade a dor acima da média canina. Os filhotes de cães que reuniam todas estas características, eram os mais procurados por capitães-do-mato, bandeirantes, tropeiros, caçadores, fazendeiros e peões e com isto a raça se popularizou e rapidamente se espalhou pelo país.

2ª - Engelsen Doggen ou Dogue de Fort Race[editar | editar código-fonte]

Engelsen Doggen

A segunda teoria mais aceita, e com mais base bibliográfica, diz que a partir de 1631, em Pernambuco, por ocasião da invasão neerlandesa ao Brasil, os neerlandeses teriam trazido cerca de trezentos cães para ajudar a proteger as novas terras conquistadas dos portugueses e para realizar incursões contra a resistência dos indígenas liderados por Felipe Camarão, e para se protegerem de onças nestas incursões. Estes cães seriam de uma raça inglesa já extinta, o engelsen doggen, também chamados de dogue de fort race, estes cães rapidamente se espalharam pelo nordeste, acompanhando as tropas neerlandesas. Posteriormente, já após a expulsão dos neerlandeses, ao longo dos anos, os descendentes dos primeiros dogues de fort race trazidos ao Brasil, teriam sido submetidos a um aprimoramento genético devido ao novo clima, alimentação, as novas atribuições recebidas no Brasil, como a caça, o pastoreio de bovinos e a perseguição a escravos, então aquela raça que chegou ao Brasil com os neerlandeses teria evoluído através da seleção genética natural, e com isto surgia uma nova raça, o fila brasileiro. Estes cães teriam posteriormente chegado até Minas Gerais através da colonização às margens do rio São Francisco, em Minas Gerais foram muito apreciados devido a sua aptidão para o trabalho com o gado, este estado da federação brasileira teve forte vocação para criação de gado leiteiro, e os filas eram usados para pastorear e proteger o rebanho de onças e ladrões de gado, devido as suas qualidades foram difundidos em Minas Gerais, e conservaram seu grande porte e musculatura graças a alimentação com leite e angu de milho, que era farta na região, e com o escoamento da produção mineira sendo feito pelos tropeiros, que levavam estes cães em suas comitivas para proteção e ajuda para conduzir o gado, a raça se espalhou pelo país.

Por descendência genética, esta teoria também explicaria a cor preta nos filas paulistas, já que sabidamente o dogue de fort race tinha entre outras, a cor preta sólida, muito contestada por alguns criadores de filas paulistas por ser inexistente nos mastiffs, cães de Santo Humberto e antigos buldogues ingleses, ascendentes do fila brasileiro segundo a versão histórica mais difundida, e inclusive também faz cair por terra a teoria que tornou décadas atrás o fila brasileiro de cor malhada como impuro, segundo seu padrão oficial, já que como podemos ver na ilustração ao lado, feita por De Sève no século XVIII, o dogue de fort race também tinha exemplares malhados, assim como os inteiramente brancos, que normalmente nasciam em ninhadas geradas por filas malhados.

terceira mastiff

3ª - Fila de Terceira[editar | editar código-fonte]

Esta teoria diz que os filas brasileiros são descendentes de seu homônimo fila de terceira ou terceirense, uma raça de buldogue trazida dos Açores pelos colonos portugueses, teriam sido trazidos em massa porque os colonos precisavam de um cão para ajudar nas lides rurais, e esta raça já era usada com sucesso no pastoreio bovino na Ilha Terceira, esta migração em massa ocasionou a extinção desta raça em Portugal, e devido a seleção genética, feita por ocasião de novo clima e atribuições diferentes que tinham em Portugal, como por exemplo a caça a onças, índios e escravos fugitivos, foi formada uma nova raça em território brasileiro, o fila brasileiro, que teria herdado além do primeiro nome de seu ancestral, também o instinto de cão boiadeiro.

4ª - Mastiff - Perdigueiro Brasileiro[editar | editar código-fonte]

Veadeiro pampeano (perdigueiro brasileiro)

Outra teoria bem menos difundida, e também relatada no livro, diz que o fila brasileiro se formou com cruzamentos ocasionais de mastiffs ingleses trazidos na época da colonização portuguesa com cães do tipo perdigueiro encontrados em todo o Brasil, mas especificamente o perdigueiro brasileiro, raça com forte instinto de caça e faro, com isto manteve o temperamento para a guarda do mastiff e ganhava a aptidão para a caça do perdigueiro brasileiro.

A mistura destas raças geraria excelentes cães de caça e com forte instinto de guarda, o que levou a popularização desta mistura de raças e do perpetuamento do sangue de seus descendentes, nascia aí o fila brasileiro.

5ª - Raças Européias - Aracambé - Guará[editar | editar código-fonte]

Chrysocyon.brachyurus.jpg
MOGLI.jpg

Outra hipótese mais remota diz que o fila brasileiro seria resultado de cruzamentos ocasionais entre as raças de cães europeias citadas anteriormente, o mastiff, o cão de Santo Humberto, o antigo buldogue inglês, o engelsen doggen, também chamado de dogue de fort race e o fila de terceira ou terceirense, que foram trazidas ao Brasil pelos colonizadores portugueses e neerlandeses, e seus descendentes teriam cruzado com canídeos encontrados no Brasil, especificamente o lobo-guará e também com outra raça canina brasileira, o cão aracambé, na época do Brasil-colônia, este cão era muito comum entre os indígenas da tribo tapuia, estes acasalamentos teriam ocorrido de maneira ocasional e com influência da região, clima, alimentação e atribuições que recebiam dos colonos, e ao longo dos séculos esta mistura de raças perdida com o tempo teria gerado o fila brasileiro.

Porém é pouco provável que o lobo-guará seja um dos ancestrais do fila brasileiro, porque apesar de comprovado que o lobo-cinzento (Canis lupus) pode gerar descendentes sadios ao cruzar com cães, existindo até algumas raças caninas originárias desta mistura, como o cão lobo checoslovaco, esta comprovação cientifica ainda não foi feita por parte do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), que apesar de ser um canídeo, sequer é uma sub-espécie do Canis lupus, é uma espécie extremamente diferente geneticamente do lobo-cinzento, ao ponto de até ser questionado se é realmente um lobo por alguns especialistas.


6ª - Cão de Castro Laboreiro - Cão de Gado Transmontano - Rafeiro do Alentejo - bully Kutta - Mastim Espanhol - Cão de Santo Humberto[editar | editar código-fonte]

Cao de castro laboreiro.jpg

Diz que o fila brasileiro descenda diretamente de seis raças caninas, o cão de gado transmontano, cão de Castro Laboreiro, rafeiro do Alentejo, Bully Kutta, cão de Santo Humberto e o mastim espanhol.

Esta hipótese é do ponto de vista histórico do Brasil, a mais plausível. Durante o Século XVI, praticamente o único fluxo de navios que chegavam ao Brasil era proveniente de Portugal, e não havia elevado intercâmbio cultural e econômico entre as nações europeias que justificasse a presença massiva de raças caninas estrangeiras em Portugal.

Partindo deste principio deduzimos que os primeiros molossos a chegar no Brasil tinham necessariamente a origem em Portugal. Os molossos portugueses Cão de Castro Laboreiro, Cão de Gado Transmontano e Rafeiro do Alentejo tem aptidões de trabalho idênticas ao fila brasileiro, especialistas em proteger rebanhos de predadores e salteadores, além de um tipo físico bastante semelhante, por isso não nos resta dúvida de que a ancestralidade mais distante do fila brasileiro é oriunda destas três raças.

Mais do que a coragem e instinto de proteção de propriedades rurais, os atuais cães de fila brasileiro herdaram destes primeiros molossos por forjados na labuta da selva algumas características físicas bem marcantes, a cor preta sólida e o tigrado escuro, tão contestados por alguns criadores é herança do cão de Castro Laboreiro. As luvas e o colar branco são herança do cão de gado transmontano e do rafeiro do Alentejo, assim como um tom de tigrado que já foi muito comum na raça em décadas passadas. E a cor branco malhado que está extinta no fila brasileiro é muito comum nestas duas raças portuguesas, o CAFIB (Clube de Aprimoramento do Fila Brasileiro) aceita em seu padrão racial a cor branco com malhas baias ou rajadas pois já houve filas puros assim no passado, já a CBKC (Confederação Brasileira de Cinofilia) não aceita tal cor.

Também herdou das raças portuguesas uma peculiar característica, a agilidade, qualidade que não é comum entre os molossos de tal porte, além de garupa mais alta que a cernelha, e dimorfismo evidente, com isto havendo grandes diferenças de tamanho entre machos e fêmeas.

Outro molosso com grande contribuição genética no fila brasileiro é a raça indo-paquistanesa sindh mastife, também conhecida como bully kutta, desde o século XVI, após descobrir a rota comercial marítima para a Índia, no retorno da viagem, os navios portugueses quase sempre passavam pela colônia do Brasil, para abastecer o navio com pau-Brasil, água potável e suprimentos que os permitisse voltar a Portugal.

Cão muito popular na Índia, o sindh mastife foi levado por marinheiros portugueses em suas viagens até o Brasil, cão muito feroz e que já foi utilizado pelo Império Persa em suas campanhas militares, era muito apreciado pelos senhores de engenho e bandeirantes brasileiros ao se embrenharem na mata para combater e capturar indígenas. pois não haviam cães molossos nas novas terras descobertas na América, do sindh mastife o fila brasileiro herdou o temperamento bravio e um fenótipo muito semelhante.

Em território brasileiro estas raças começavam a participar de um processo antigo e gradual de formação do filabrasileiro, os cães mais ferozes nas tarefas de cão de guerra nos ataques a indígenas e quilombolas e no combate às onças para proteger estes homens de vida muito rústica, eram acasalados para se obter filhotes com as mesmas qualidades, os rafeiros do Alentejo, cães de Castro Laboreiro, de gado transmontano, sindh mastife e principalmente as gerações mestiças posteriores adaptadas às árduas condições de vida dos bandeirantes nas selvas brasileiras durante o Século XVI, foram o embrião, o estágio inicial da raça Fila brasileiro.

Outra raça que também contribuiu claramente na formação do Fila brasileiro foi cão de Santo Humberto, por ter herdado deste um faro excepcional e um fenótipo extremamente semelhante, mas como esta raça belga originária das colinas Ardenas teria chegado ao Brasil ainda durante os primeiros séculos de colonização?

O cão de Santo Humberto sempre foi muito popular na região das colinas Ardenas pela sua impressionante capacidade olfativa nas caçadas, esta região é de fronteira entre três países, Bélgica, Luxemburgo e França, sendo este ultimo país um grande formador e apreciador de raças de faro, a fama de hábil caçador do Cão de Santo Humberto chegou a ultrapassar as fronteiras destes três países ainda no Século XI, e chegou a Inglaterra quando Guillaume O Conquistador, levou estes cães para o país britânico, sendo lá chamado de bloodhound, ou cão de sangue.

Famoso por sua habilidade de faro na região das Ardenas, os militares franceses utilizaram o cão de Santo Humberto em suas incursões fora da Europa, assim como hoje em dia a raça é muito utilizada por instituições policiais e de bombeiros mundo afora. A França tentou seguidamente invadir e colonizar sem êxito o território brasileiro por várias oportunidades durante o Século XVI até ao Século XIX, chegando no Rio de Janeiro em 1555 e somente sendo definitivamente derrotados em 1567. Várias esquadras francesas também aportavam com freqüência no litoral da Paraíba ao Ceará, sobretudo no Rio Grande do Norte para negociar pau-brasil com índios potiguares, e atacavam as embarcações que vinham de Portugal e navegavam por lá. Entre 1594 os franceses invadiram e colonizaram a cidade de São Luís no Maranhão, a sua mais duradoura tentativa de invasão, quando foram derrotados somente em 1615 por tropas luso-brasileiras.

Posteriormente a isto, mais alguns ataques frustrados ao território brasileiro aconteceram, como em Fernando de Noronha em 1700, no Rio de Janeiro em 1710 e 1711 (este com êxito), quando mais de cinco mil franceses atacaram a cidade, e ao Amapá em 1895, quando a França ocupou militarmente cerca de 260.000 km², devolvendo-os ao Brasil posteriormente após julgamento em corte internacional. Após todas estas tentativas de ocupação do território brasileiro pela França, é natural e único fato histórico que explica como uma raça franco-belga possa ter entrado no Brasil ainda no Século XVI e ajudado na formação do nosso Fila brasileiro.

Os filas que carregavam os genes do cão de Santo Humberto eram os melhores farejadores, e esta qualidade se tornou primordial para a perpetuação desta característica e consequentemente das demais características físicas do cão de Santo Humberto no fila brasileiro, já que os melhores farejadores eram muito apreciados por capitães-do-mato quando saíam no encalço de escravos indígenas ou africanos fugitivos, e esta atividade era primordial ao sucesso econômico dos primeiros integrantes da elite da sociedade luso-brasileira daquela época, os senhores de engenho, porque era mais barato recapturar um escravo fugitivo do que comprar outro junto aos mercadores de escravos. Com isso, lucravam mais os capitães-do-mato que possuíam filas ferozes e rústicos para encarar a selva e seus perigos, mas principalmente os que também possuíam um bom faro, habilidade principal para conseguir recapturar os escravos fugitivos. Assim os genes do cão de Santo Humberto também se perpetuaram na formação do Fila brasileiro, e hoje em dia é possível notar grande semelhança física entre as raças, especialmente em algumas características como barbela, cabeça e orelhas, sendo estas ultimas um pouco maiores no cão de Santo Humberto.

Também é importante salientar a participação da raça Mastim Espanhol no processo de formação do Fila brasileiro, ambas as raças são fisicamente muito semelhantes, sendo a cabeça, a barbela e o corpo robusto as característica mais parecidas, além de um temperamento bravio e a cor baio sendo a mais comum em ambas. Durante a época da União Ibérica, que durou de 1580 a 1640, com os portos brasileiros abertos aos navios espanhóis, assim como também abertas as fronteiras com as colônias espanholas vizinhas, os mastins espanhóis teriam chegado em massa ao Brasil, exímios protetores de rebanhos que vinham trabalhar com gado, trazidos por colonos espanhóis e que também foram levados as colônias espanholas vizinhas pelo Exército Espanhol para o combate à indígenas e separatistas. A Guerra Guaranítica, onde tropas do Exército Espanhol adentraram no sul do Brasil, é outro fato histórico que pode ter contribuído com a chegada do mastim espanhol ao território brasileiro. Os mastins espanhóis pela sua robustez, temperamento bravio e principalmente pelo sucesso no uso por tropas espanholas em suas colônias, pode ter sido amplamente utilizado quando bandeirantes e tropas do governo resolviam atacar os quilombos, contribuindo assim também com seus genes ao cão de fila brasileiro.

Já a partir do Século XVIII, o mix de genes formador do Fila brasileiro já estava por assim dizer terminado, e os tropeiros, que levavam rebanhos e mercadorias rurais do interior do território brasileiro aos grandes centros urbanos, foram os responsáveis por disseminar e popularizar a raça pelo país, já que os filas eram ferramentas indispensáveis na proteção das comitivas, e "produtos" cobiçados por fazendeiros criadores de gado, para garantir a segurança das propriedades rurais e seus rebanhos.

Características[editar | editar código-fonte]

Físicas[editar | editar código-fonte]

Rajado.

Uma de suas características físicas mais marcantes, e que chegam a identificar a raça frente ao público em geral, certamente é o seu tamanho, filas machos podem atingir até 75 centímetros na cernelha[5] (encontro entre pescoço e costas), uma das maiores raças caninas, apesar de existirem outras mais altas, também é um gigante entre os cães quando medido o comprimento da ponta do peitoral até o final do dorso, e tem uma das maiores e mais pesadas cabeças entre as raças caninas, características dos molossos, mas o que verdadeiramente reforça a impressão de grande porte, é a sua estrutura física com uma impressionante massa muscular, os machos pesam em torno de 70 kg,[6] havendo vários exemplares que ultrapassam esta faixa de peso, apenas a nível de comparação, a maioria dos exemplares da raça pit bull, com sua impressionante musculatura, não passam dos 28 kg.[7] Muitos criadores de fila brasileiro, são unânimes ao afirmar que a raça tem uma característica singular entre as raças de grande porte, atingem em galope uma velocidade insuspeita para cães de tal tamanho,[5] esta velocidade aliada ao seu porte dão ao fila brasileiro um dos mais potentes ataques entre as raças de cães, podendo derrubar um homem com um mínimo de esforço, sua velocidade, inclusive o auxilia a superar obstáculos de até dois metros de altura com certa facilidade.[6] Quando está andando, sua movimentação lembra à dos felinos,[5] movimentando os dois membros do mesmo lado do corpo ao mesmo tempo, o que lhe dá movimentos muito largos,[5] a sua movimentação é influenciada pelas suas articulações de molosso, o que lhe permite rápidas mudanças de direção.[5]

Cores[editar | editar código-fonte]

Atualmente, os filas brancos ou brancos e malhados são considerados impuros,[5] porém no passado, já houve filas brancos ou malhados considerados puros e inclusive sendo campeões de exposições caninas e usados na caça.[8] . Atualmente, brancos, malhados (branco com manchas escuras, pretos com canela (tricolores) e azuis (cinzas) são fora do padrão,[5] as cores permitidas são todas as cores sólidas ou tigrados com fundo nas cores sólidas, desde os pouco rajados ou fortemente rajados, com ou sem máscara preta, podendo ou não ter marcações brancas nas patas, peitoral e na ponta da cauda,[5] é comum marcações brancas no pescoço, quando o cão também tem marcações brancas no peitoral, com isto formando um colar, porém são indesejáveis, assim como demais marcações brancas no restante da pelagem (com exceção de peito, patas e ponta da cauda).

Na prática, os filas brasileiros são de três cores, e em todas as suas variedades, a mais comum é a cor dourada ou amarelada em todas as suas tonalidades, desde os cremes, passando pelos tons de amarelo até chegar nos castanhos ou avermelhados, como cor de barro, em vários tons; Tigrado/ rajado, esta cor pode ou não ser rajado com pouca ou muita intensidade, com raias finas ou grossas, e os rajados podem ser claros ou escuros, passando por todas as variações. E em menor escala, temos os filas de cor preta.[9] [10]

Psíquicas[editar | editar código-fonte]

Fila brasileiro e sua proprietária

O fila brasileiro possui um dos temperamentos mais paradoxos do reino canino, primeiro porque possui uma característica praticamente única entre todas as raças caninas, e que inclusive está descrita em seu padrão oficial, a aversão à estranhos,[5] na prática, esta característica impede que o animal seja enganado por um conhecido mal itencionado, já que a grande maioria dos filas brasileiros não aceita a visita de pessoas de fora da família em seus domínios, mesmo que acompanhado pelo seu dono, esta característica é única entre todas as raças reconhecidas pela Federação Cinológica Internacional, e devido a isto, em exposições de beleza, o fila brasileiro é a única raça que impede o contato físico com o juiz cinófilo, e atualmente não é mais penalizado por isto porque os juízes tem ciência que tal característica é prevista no seu padrão rácico.

Por outro lado, é proverbial a sua fidelidade ao dono e aos membros de sua família, procurando com insistência a companhia de seu dono,[5] como um gigante carente, e é muito grande a sua tolerância com as crianças da família,[5] geralmente deixando os pequenos até mexerem em sua vasilha de ração. Por ter um comportamento avesso à estranhos, se torna um cão muito fiel aos de sua convivência.

Fila brasileiro macho na guarda de propriedade urbana.

Aptidões para o trabalho[editar | editar código-fonte]

Suas habilidades para o trabalho também são marcantes, além de sua pré-disposição natural para a guarda, inclusive sem precisar de adestramento para isto,[6] o fila brasileiro, por seu porte, agressividade quando necessária, e principalmente pela sua coragem, já que não recuam diante de tiros e bombas,[8] . é ideal para tropas de choque policiais, que tem a missão de acabar com distúrbios causados por multidões enfurecidas, e devido a esta ultima característica, também é utilizado por tropas de combate das forças armadas.[11] .[12] Por descender do cão de Santo Humberto,[3] famoso cão farejador britânico, o fila brasileiro possui um faro apuradíssimo, que inclusive, em séculos passados, já foi utilizado por capitães-do-mato para recapturar escravos fugitivos.[3] Na área rural é onde tem excelente destaque, onde nos primórdios foi usado para caçar onças que ameaçavam as mulas e o gado das comitivas dos bandeirantes[3] e até hoje protege rebanhos de gado contra ataques de onças e ladrões nas áreas rurais brasileiras, inclusive também desempenhando papel de cão boiadeiro, trabalhando para reunir o gado e acompanhando as comitivas quando necessário, e inclusive devido a esta aptidão, foi chamado durante séculos de boiadeiro, entre as atividades de um cão boiadeiro, enumeram-se o pastoreio e a guarda dos rebanhos, desempenha bem as duas funções, mas sua especialidade certamente é a guarda dos rebanhos, seja no pasto, nas comitivas ou no curral, e realiza também a proteção das sedes das fazendas, enfim, sua principal característica no campo é a guarda.

Forças armadas e policiais[editar | editar código-fonte]

Kalimba01.jpg

O Exército Brasileiro e o Exército Israelense realizaram, separadamente, testes e estudos com diversas raças para escolherem o cão mais apto ao trabalho de cão de guerra (muito mais complexo do que o trabalho do cão policial). Estas organizações chegaram a conclusão de que o fila brasileiro é a melhor raça de cão para as forças armadas.

O Exército Brasileiro, através de seu reconhecido internacionalmente CIGS - Centro de Instrução de Guerra na Selva, realizou testes durante 5 anos com cães das raças doberman, pastor alemão e o próprio fila brasileiro, levando estas raças a situações extremas, próximas de um real conflito na selva. Chegaram à conclusão que o fila brasileiro é a raça mais apta ao trabalho na selva. Os estudos apontaram que o fila brasileiro teve melhor adaptabilidade às condições inóspitas da floresta amazônica e em ambiente hostil. Teve melhor desempenho na maioria das qualidades testadas, como olfato, resistência, força, coragem, silêncio, entre outras características.[11] .[12]

O Exército Israelense fez testes semelhantes em campos de treinamento em Israel, mas em um período menor e com um número muito maior de raças, e também elegeram o fila brasileiro como a melhor raça para a guerra moderna. Segundo o relatório, a característica mais marcante da raça é a coragem, pois não recuam diante do barulho das bombas e dos tiros.[13] .[8] .

No Brasil é uma das raças oficialmente utilizadas pelo Exército Brasileiro[14] , onde, além de seu uso pelo Comando Militar da Amazônia, é também usado como cão de guerra pára-quedista pela Brigada de Operações Especiais. Tem também destaque como cão farejador ou cão de tropa de choque na polícia do exército, porém, seu uso por outras forças policiais ou pelos corpos de bombeiros militares ainda é muito restrito.

No exterior, é amplamente utilizado por várias organizações policiais estadunidenses, inclusive a K9,[11] e também é muito comum o seu uso por agentes penitenciários de presídios de segurança máxima dos Estados Unidos.[12] Também é sabido de seu uso por forças de segurança do Peru, Nigéria, Israel,[11] e Chile.

Perfil clínico[editar | editar código-fonte]

Algumas doenças podem acometer esta raça devido a seu porte. São elas:

  • Displasia coxo-femural

Alteração física de caráter hereditário na articulação entre o fêmur e a bacia do cão, que causa problemas de locomoção, dor e incômodo ao animal. Afeta alguns indivíduos da maioria das raças de grande porte, observar se os pais são saudáveis é um bom meio de adquirir filhotes que não venham futuramente a ser portadores de displasia coxo-femural, já que se trata de uma doença genética.

  • Torção gástrica

Afeta alguns indivíduos da maioria das raças de grande porte, caracteriza-se pela torção do estômago, causando compressão da circulação na região abdominal. Pode levar à morte, se o cão não for operado o mais rápido possível. Dividir a ração em pelo menos duas porções diárias minimiza muito as chances de o cão ser acometido pela torção gástrica.

Estes males não chegam a ser considerados endêmicos na raça.

No mais é uma raça rústica e saudável, já que seu desenvolvimento se deu naturalmente, apenas puderam perpetuar o sangue da raça os exemplares mais fortes e aptos à auxiliar seus proprietários nas diversas tarefas rurais de que foram encarregados durante os séculos de seu desenvolvimento, com isto adquiriram genes de resistência que tornam a raça bastante saudável.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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Ver também[editar | editar código-fonte]

Outras raças brasileiras (não reconhecidas pela FCI):

Referências

  1. a b Fila paulista Dog times. Visitado em 30 de setembro de 2011.
  2. Fila brasileiro Portal São Francisco. Visitado em 30 de setembro de 2011.
  3. a b c d e f g h do Vale, Procópio & Monte, Enio; "Grande Livro do Fila Brasileiro Quatro Séculos da História do Brasil"; ISBN 852130059X; Editora Ver Curiosidades; 1981
  4. sítio eletrônico Portal São Francisco < http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/fila-brasileiro/fila-brasileiro.php>. Acessado em 6/11/2010.
  5. a b c d e f g h i j k Sergio Meira Lopes de Castro e Álvaro D’Alincourt, (2010), Confederação Brasileira de Cinofilia, padrão oficial da raça fila brasileiro. < http://ww2.cbkc.org/padroes/pdf/grupo2/filabrasileiro.pdf> Acessado em 6/11/2010.
  6. a b c (em português) Cães & Cia, Brasil:Editora Forix, 2005, mensal, Edição nº 319, ISSN 1413-3040, reportagem Fila Brasileiro e Mastiff: Com qual você fica?
  7. Sergio Meira Lopes de Castro e Domingos Josué Cruz Setta, (2004), Confederação Brasileira de Cinofilia, padrão oficial da raça american pit bull terrier. < http://ww2.cbkc.org/padroes/pdf/grupo11/americanpitbull.pdf> Acessado em 6/11/2010.
  8. a b c sítio eletrônico Portal São Francisco < http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/fila-brasileiro/fila-brasileiro-4.php/>. Acessado em 6/11/2010.
  9. (2010), sítio eletrônico Sua Pesquisa, < http://www.suapesquisa.com/cachorros/fila_brasileiro.htm> Acessado em 7/11/2010.
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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