Jorge Ben (álbum)
| Jorge Ben | ||||
|---|---|---|---|---|
| Álbum de estúdio de Jorge Ben | ||||
| Lançamento | novembro de 1969[1] | |||
| Gravação | 1969 | |||
| Estúdio(s) |
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| Gênero(s) | ||||
| Duração | 38:35 | |||
| Idioma(s) | Português e inglês (em Take it Easy my Brother Charles) | |||
| Gravadora(s) | Philips | |||
| Produção | Manoel Barenbein | |||
| Cronologia de estúdio por Jorge Ben Jor | ||||
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Jorge Ben é o sexto álbum de estúdio do cantor, compositor e guitarrista brasileiro Jorge Ben. Foi lançado em novembro de 1969 pela Philips Records. O álbum marcou sua primeira gravação por uma grande gravadora desde 1965, quando sua primeira passagem pela Philips terminou devido a diferenças criativas. Faz parte da lista dos 500 maiores discos da música brasileira, uma votação realizada pelo podcast Discoteca Básica em 2022.
Ben gravou o disco ao lado do produtor Manoel Barenbein, do grupo vocal e de percussão Trio Mocotó e de uma seção orquestral com arranjos de José Briamonte e Rogério Duprat. O repertório foi composto por Ben durante os anos anteriores, em que ele se apresentava de forma independente e desenvolvia seu estilo singular baseado no samba. Para esta gravação vibrante, ele incorporou elementos de música psicodélica e soul, enquanto suas letras bem-humoradas tratavam da vida cotidiana, de romances com mulheres, da identidade afro-brasileira e da autoconsciência. A capa icônica de Guido Alberi também refletiu influências psicodélicas, com uma ilustração pop art de Ben cercado por símbolos da cultura brasileira contemporânea.
O álbum Jorge Ben representou um retorno comercial para o artista e trouxe vários sucessos, incluindo duas de suas gravações mais famosas: “Que Pena” e “País Tropical”. Desde então, a crítica tem associado o disco aos movimentos musicais samba rock e Tropicália. Em 2008, o álbum foi lançado pela primeira vez nos Estados Unidos, pela Dusty Groove America.
Contexto
[editar | editar código]Jorge Ben iniciou sua carreira profissional de gravações pela Philips Records em 1963, quando o selo lançou seu álbum de estreia, Samba Esquema Novo, que provocou imediata comoção entre os fãs. Na tentativa de capitalizar o sucesso, a gravadora pressionou Ben a gravar rapidamente novos discos com músicas no mesmo estilo e versões de canções de outros artistas como preenchimento. O resultado foram três álbuns em apenas 18 meses — o que tensionou sua relação com a Philips, encerrada após o último desses lançamentos, Big Ben (1965).[2]
Nos anos seguintes, Ben atuou como artista independente. Seu único álbum nesse período, O Bidú: Silêncio no Brooklin (1967), foi lançado pelo pequeno selo paulistano Artistas Unidos e teve baixas vendas. Durante esse tempo, ele continuou aperfeiçoando seu estilo singular baseado no samba, gravou alguns singles e compôs canções que foram interpretadas por artistas consagrados como Os Mutantes, Wilson Simonal e Elis Regina. Esse reconhecimento chamou a atenção da Philips, agora sob a direção de André Midani (ex-Odeon). Em 1969, Ben foi recontratado, com o apoio de Gilberto Gil e Caetano Veloso, que prometeram promovê-lo sempre que possível.[2]
Gravação e Produção
[editar | editar código]O álbum Jorge Ben foi gravado nos estúdios C.B.D. (Rio de Janeiro) e Scatena (São Paulo).[3] Ben selecionou canções compostas nos dois anos anteriores e contou com o acompanhamento do Trio Mocotó,[4] grupo vocal e percussivo que ele conheceu nos clubes paulistanos do fim dos anos 1960.[2] A Philips contratou o pianista José Briamonte para arranjar a maioria das faixas, enquanto Rogério Duprat[5] assinou os arranjos de “Barbarella” e “Descobri que Eu Sou um Anjo”. Segundo a Verve Records, o disco foi produzido com efeitos sonoros de ponta para a época.[6]
Música
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A sonoridade do álbum é marcada pelo que o crítico Greg Caz descreveu como o “samba de batida firme em 4/4” — um ritmo que inspiraria o movimento underground do samba-rock e caracterizaria o trabalho de Ben por toda a década seguinte.[2]
O crítico Rodney Taylor destacou a combinação entre o acompanhamento do Trio Mocotó e os arranjos de cordas de Briamonte e Duprat, resultando em uma forma de psicodelia tropical semelhante à experimentada por Gil, Veloso e Os Mutantes. Taylor comparou “Descobri que Eu Sou um Anjo” a uma faixa perdida do álbum Forever Changes (1967), da banda Love, e observou que “Take It Easy My Brother Charles” adiciona elementos de funk.[7]
Para o crítico Thom Jurek (AllMusic), os arranjos de Briamonte e Duprat foram essenciais na fusão entre soul norte-americano e samba, enquanto Álvaro Neder (AllMusic) associou o álbum e o posterior Fôrça Bruta (1970) à estética da Tropicália.[3][8]
Letras
[editar | editar código]As letras abordam romances, o cotidiano brasileiro e o futebol — em “País Tropical”, Ben canta: “Moro num país tropical… sou Flamengo e tenho uma nega chamada Tereza”.[9]
Ben frequentemente emprega repetições, humor e jogos sonoros. Como observou Greg Caz, para ele, “não importa tanto o significado das palavras, mas o som delas — em vez de escrever 20 versos, Jorge preferia escrever dois muito bons e repeti-los dez vezes”.[2]
Algumas músicas demonstram consciência racial e afirmação da identidade afro-brasileira, como “Crioula”, que retrata uma mulher negra do mercado popular que se transforma em rainha do Carnaval — “filha de nobres africanos que, por engano geográfico, nasceu no Brasil em dia de Carnaval”.[2]
Capa e Arte
[editar | editar código]A capa, criada por Guido Alberi, é uma ilustração psicodélica mostrando Ben cercado por plantas tropicais, músicos de samba, mulheres superpoderosas e a bandeira do Brasil. O artista aparece com grilhões quebrados nos pulsos, um tucano no ombro e um violão com o escudo do Flamengo, seu time do coração.[10]
O designer Pablo Yglesias descreve a arte como um “retrato de realismo mágico”, que combina símbolos da negritude e da cultura popular brasileira. As correntes rompidas simbolizam a luta contra o racismo e pela liberdade.[10]
As notas de contracapa, escritas por Armando Pittigliani, então produtor da Philips, expressam admiração pelo artista — o mesmo que, anos antes, havia dispensado Ben do selo.[10]
Lançamento e Recepção
[editar | editar código]| Críticas profissionais | |
|---|---|
| Avaliações da crítica | |
| Fonte | Avaliação |
| AllMusic | |
| Tom Hull – on the Web | A−[12] |
O disco foi lançado em novembro de 1969 pela Philips Records, marcando o retorno comercial de Ben. Canções como “País Tropical”, “Que Pena” e “Cadê Teresa” já eram sucessos na voz de outros intérpretes antes mesmo do lançamento. O álbum surgiu em meio à efervescência da Tropicália e à ditadura militar brasileira, período de censura e repressão. Embora Ben tenha enfrentado proibições e vaias em festivais, músicas como “Charles Anjo 45” se tornaram clássicos duradouros.[2][8][10][13]
Críticos como Thom Jurek destacam que Jorge Ben consolidou sua posição como figura independente entre a Jovem Guarda e a MPB, recusando alinhar-se a modismos e mantendo o samba como base criativa. Nem todas as críticas foram favoráveis: na revista Veja, o jornalista Tárik de Souza considerou que os arranjos de Briamonte sufocavam o ritmo natural do artista, embora elogiasse as intervenções de Duprat.[6][10]
O disco foi relançado em CD nos anos 1990 e, em 2008, ganhou uma edição remasterizada nos Estados Unidos pela Dusty Groove America. Em 2018, a Verve/Universal Music Enterprises lançou a primeira versão em vinil nos EUA, celebrando o 50º aniversário do álbum.[13][14]
Faixas
[editar | editar código]Todas as músicas são de autoria de Jorge Ben:[15]
Todas as faixas escritas e compostas por Jorge Ben Jor.
| N.º | Título | Duração | |
|---|---|---|---|
| 1. | "Crioula" | 3:30 | |
| 2. | "Domingas" | 3:35 | |
| 3. | "Cadê Teresa" | 3:26 | |
| 4. | "Barbarella" | 3:19 | |
| 5. | "País Tropical" | 4:16 | |
| 6. | "Take it Easy my Brother Charles" | 2:36 | |
| 7. | "Descobri que Eu Sou um Anjo" | 4:05 | |
| 8. | "Bebete Vãobora" | 2:38 | |
| 9. | "Quem Foi que Roubou a Sopeira de Porcelana Chinesa que a Vovó Ganhou da Baronesa?" | 3:10 | |
| 10. | "Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)" | 3:05 | |
| 11. | "Charles Anjo 45" | 4:55 |
Créditos
[editar | editar código]Músicos
[editar | editar código]- Jorge Ben – violão e voz
- Trio Mocotó – percussão e vocais
- José Briamonte – arranjos (faixas: A1–A3, A5, B1, B3–B6)
- Rogério Duprat – arranjos (faixas: A4, B2)
Produção
[editar | editar código]- Manoel Barenbein – produção
- Stelio Carlini, Ary Carvalhaes, Didi, João Kibelestis, Célio Martins – engenharia de som
Arte e Design
[editar | editar código]- Guido Alberi – arte da capa
- Lincoln – layout
- Armando Pittigliani – notas de contracapa
- Johnny Salles – fotografia
Paradas musicais
[editar | editar código]| País — Parada (1970) | Posição |
|---|---|
| Brasil LPs – Rio de Janeiro (Billboard)[16] | 3 |
Referências
- ↑ ALEXANDRE, Ricardo. Nem vem que não tem: a vida e o veneno de Wilson Simonal. São Paulo: Globo, 2009. ISBN 978-85-750-4728-1 Erro de parâmetro em {{ISBN}}: soma de verificação.
- ↑ a b c d e f g Caz, Greg (15 December 2011). "Brute Force: A Look At Jorge Ben's Recorded Work". Revive. Okayplayer. Archived from the original on 24 September 2018. Retrieved 23 September 2018.
- ↑ a b Jorge Ben [Criola] - Jorge Ben | Album | AllMusic (em inglês), consultado em 12 de outubro de 2025
- ↑ Sanches, Pedro Alexandre (28 de outubro de 2022). Tropicalismo, Decadencia Bonita Do Samba. [S.l.]: Boitempo
- ↑ de Souza, Tárik (19 November 1969). "Discos". Veja (in Portuguese). p. 12.
- ↑ a b «New Releases - 10/26/18». Grimey's New & Preloved Music (em inglês). 25 de outubro de 2018. Consultado em 12 de outubro de 2025
- ↑ «December 2012 Notebook». tomhull.com. Consultado em 12 de outubro de 2025
- ↑ a b «Jorge Ben Songs, Albums, Reviews, Bio & More |...». AllMusic (em inglês). Consultado em 12 de outubro de 2025
- ↑ Kittleson, Roger (2014). The country of football: soccer and the making of modern Brazil. Col: Sport in world history. Berkeley: University of California press. ISBN 978-0520279094
- ↑ a b c d e Yglesias, Pablo Ellicott (2005). Cocinando! : fifty years of Latin album cover art. The Archive of Contemporary Music. [S.l.]: New York : Princeton Architectural Press. Consultado em 12 de outubro de 2025
- ↑ Jurek, Thom (n.d.). "Jorge Ben – Jorge Ben". AllMusic. Retrieved 2 February 2014.
- ↑ Hull, Tom (3 de maio de 2021). «Music Week». Tom Hull – on the Web. Consultado em 7 de maio de 2021
- ↑ a b Verve/UMe. «Brazilian Music Innovator Jorge Ben's First U.S. Vinyl Pressing Of His Influential Self-Titled 1969 Album Released Ahead Of 50th Anniversary». www.prnewswire.com (em inglês). Consultado em 12 de outubro de 2025
- ↑ «September, 2008 -- World Music record reviews (Slipcue E-Zine)». www.slipcue.com. Consultado em 12 de outubro de 2025
- ↑ Pittigliani, Armando (1969). Jorge Ben (LP liner notes). Jorge Ben. Philips Records. R765.100L.
- ↑ Anon. (24 de janeiro de 1970). «Hits of the World». Billboard

