Maus

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Maus
Maus.jpg
Capa da edição brasileira de Maus
País de origem Estados Unidos
Editora(s) Pantheon Books
Primeira publicação série limitada, publicada entre 1980 e 1991 na revista Raw
Género(s) Livro de memórias, autobiografia
Argumento Art Spiegelman
Desenho Art Spiegelman e Louise Fili Art Spiegelman
Personagens principais Art, Vladek, Mala, Anja, Francoise
ISBN ISBN 9788535906288

Maus[nota 1] é um graphic novel do cartunista norte-americano Art Spiegelman, serializado de 1980 a 1991. O quadrinho retrata Spiegelman entrevistando seu pai acerca das experiências deste enquanto um judeu polonês e sobrevivente do Holocausto. A obra utiliza técnicas pós-modernistas e representa judeus como ratos, alemães como gatos, e poloneses como porcos. Críticos classificaram Maus como livro de memórias, biografia, história, ficção, autobiografia e uma mistura de gêneros. Em 1992, tornou-se o primeiro graphic novel a ganhar o prêmio Pulitzer.

No presente narrativo da história, que se inicia em 1978, na cidade de Nova Iorque, Spiegelman conversa com seu pai, Vladek, sobre as experiências deste acerca do Holocausto, recolhendo material para o projeto Maus que esta preparando. No passado narrativo, Spiegelman retrata estas experiências, desde os anos que culminaram na Segunda Guerra Mundial até a liberação de seus pais dos campos de concentração nazistas. Boa parte da história gira em torno da relação difícil entre Spiegelman e seu pai, e a ausência de sua mãe, Anja, que se suicidou quando o autor tinha vinte anos. Tomado pelo pesar, Vladek destruiu os relatos escritos de Anja sobre Auschwitz. O livro usa um estilo minimalista de desenho e inova no ritmo, na estrutura e nos layouts de página.

Um quadrinho de três páginas, também chamado "Maus", feito em 1972, deu a Spiegelman a oportunidade de entrevistar seu pai sobre a vida deste durante a Segunda Guerra Mundial. As gravações das entrevistas tornaram-se o ponto de partida do graphic novel, que Spiegelman iniciou em 1978. Maus foi serializado de 1980 até 1991 em RAW, uma revista de quadrinhos de vanguarda publicada por Spiegelman e sua esposa, Françoise Mouly, que também aparece em Maus. Em 1986, uma coletânea dos primeiros seis capítulos chamou a atenção da grande mídia; em 1991, um segundo volume reuniu os capítulos restantes. Maus é um dos primeiros graphic novels a receber atenção acadêmica significativa no mundo anglófono.

Sinopse[editar | editar código-fonte]

A maior parte do livro se alterna entre duas épocas. Na narrativa moldura do presente narrativo,[1] Spiegelman entrevista seu pai, Vladek, em Rego Park, na cidade de Nova Iorque[2] em 1978–79.[3] A história que Vladek conta desenrola-se no passado narrativo, que começa no meio dos anos 1930[2] e continua até o fim do Holocausto em 1945.[4]

Em Rego Park em 1958,[3] um jovem Art Spiegelman reclama a seu pai que seus amigos deixaram-no para trás. Seu pai responde em broken english, "Amigos? Seus amigos? Se você os trancar num quarto sem comida por uma semana, aí você verá o que sao amigos!"[5][nota 2]

Já adulto, Art visita seu pai, de quem se distanciou.[6] Desde o suicídio em 1968 de Anja, mãe de Art, Vladek casou-se novamente com uma mulher chamada Mala.[7] Art pede a Vladek que relate novamente seus experiências do Holocausto.[6] Vladek conta-lhe de seu tempo na cidade polonesa de Częstochowa[8] e de como ele veio a se casar com Anja, entrar em sua família abastada e mudar-se para Sosnowiec para se tornar um fabricante de tecidos. Vladek implora a Art que não inclua isto em seu livro, e, relutantemente, Art concorda.[9] Anja sofre um colapso por conta de sua depressão pós-parto[10] depois de dar à luz seu primeiro filho, Richieu,[nota 3] e o casal vai para um sanatório na Checoslováquia durante a ocupação nazista para que ela se recupere. Depois que retornam, tensões políticas e antissemitas aumentam até que Vladek é convocado logo antes da invasão nazista. Vladek é capturado na frente de batalha e forçado a trabalhar como prisioneiro de guerra. Depois de sua soltura, ele descobre que a Alemanha anexou Sosnowiec e é deixado do outro lado da fronteira no protetorado alemão. Ele consegue esgueirar-se pela fronteira e se reúne com sua família.[12]

Durante uma das visitas de Art, ele descobre que um amigo de Mala enviou ao casal uma das revistas do movimento underground comix para a qual Art contribuiu. Mala havia tentado escondê-la, mas Vladek a encontra e a lê. Em "Prisoner on the Hell Planet",[13] Art está traumatizado pelo suicídio de sua mãe três meses depois de sua liberação do hospital psiquiátrico, e, no fim da história, retrata-se atrás das grades, dizendo: "Você me assassinou, mamãe, e me largou aqui para levar pancada!"[14][nota 2] Embora traga lembranças dolorosas, Vladek admite que lidar com a questão daquela maneira foi bom apesar de tudo.[15]

Em 1943, os nazistas mudam os judeus do Gueto de Sosnowiec para Srodula e marcham-nos de volta a Sosnowiec para trabalhar. A família se divide: Vladek e Anja enviam Richieu a Zawiercie para ficar com uma tia por segurança. À medida que cada vez mais judeus são enviados dos guetos a Auschwitz, a tia envenena a si mesma, seus filhos e Richieu para escapar da Gestapo. Em Srodula, muitos judeus constroem bunkers para se esconder dos alemães. O bunker de Vladek é descoberto e ele é colocado num "gueto dentro do gueto" rodeado de arame farpado. O restante da família de Vladek e Anja é levado embora.[12] Os judeus são retirados de Srodula, exceto por um grupo que vladek esconde em outro bunker. Quando os alemães vão embora, o grupo se divide e deixa o gueto.[16]

Em Sosnowiec, Vladek e Anja mudam-se de um esconderijo para o outro, ocasionalmente fazendo contato com outros judeus escondidos. Vladek se disfarça como alguém de etnia polonesa e procura mantimentos. O casal se organiza com contrabandistas para escapar para a Hungria, mas é um truque: a Gestapo prende-os no trem (quando a Hungria é invadida) e leva-os a Auschwitz, onde são separados até depois da guerra.[16]

Art pede para ver os diários de Anja, que Vladek lhe diz serem o relato das experiências do Holocausto dela e o único registro do que lhe aconteceu após ter sido separada de Vladek em Auschwitz, e que Vladek diz que ela queria que Art lesse. Vladek admite que queimou os diários depois do suicídio de Anja. Art se enfurece e chama Vladek de "assassino".[17]

A história avança para 1986, depois dos primeiros seis capítulos de Maus terem aparecido reunidos numa única edição. Art está perplexo pela atenção inesperada que o livro recebe[4] e se vê "totalmente bloqueado". Art fala sobre o livro com seu psiquiatra Paul Pavel, um checo sobrevivente do Holocausto.[18] Pavel sugere que, como aqueles que morreram nos campos nunca poderão contar suas histórias, "talvez seja melhor não ter histórias."[nota 2] Art responde com uma citação de Samuel Beckett: "Toda palavra é uma mancha desnecessária no silêncio e no vazio",[nota 2] mas logo em seguida percebe, "Por outro lado, ele disse isso."[19][nota 2]

Vladek fala de suas dificuldades nos campos, da fome, do abuso, de sua engenhosidade, de evitar a selektionen: o processo pelo qual prisioneiros eram selecionados para trabalhos adicionais ou execução.[20] Apesar do perigo, Anja e Vladek trocam mensagem ocasionais. À medida que a guerra avança e o front alemão recua, os prisioneiros são conduzidos de Auschwitz na Polônia ocupada para Gross-Rosen dentro do Reich, e depois para Dachau, onde apenas o sofrimento apenas aumenta e Vladek contrai tifo.[21]

A guerra termina, os sobreviventos dos campos são libertados, e Vladek e Anja se reencontram. O livro termina com Vladek se debatendo em sua cama à medida que termina sua história e dizendo a Art: "Cansei de falar, Richieu... Agora, chega de histórias."[22][nota 2] A imagem final é da lápide de Vladek e Anja:[23] Vladek morreu em 1982, antes do livro ser terminado.[24]

Personagens principais[editar | editar código-fonte]

  • Art Spiegelman[nota 4] (n. 1948)[26] é um cartunista e intelectual.[3] Art é retratado como alguém irritado, que fica constantemente se lamentando.[3] Ele lida com seus próprios traumas e com aqueles herdados por seus pais procurando ajuda psiquiátrica,[10] que continuou depois de terminado o livro.[27] Não tem um bom relacionamento com seu pai, Vladek,[28] por quem sente-se dominado.[3] A princípio, demonstra pouca simpatia pelos sofrimentos de seu pai, mas mostra mais conforme o desenrolar da narrativa.[29]
  • Vladek Spiegelman[nota 5] (1906–1982)[31] é um judeu polonês que sobreviveu ao Holocausto, depois mudou-se para os Estados Unidos no início dos anos 1950. Falando broken english,[32] é retratado como avarento, pertinaz, egocêntrico,[29] neurótico e obssessivo, ansioso e teimoso — traços que talvez tenham-no ajudado a sobreviver aos campos de concentração, mas que aborrecem bastante sua família. Ele demonstra atitudes racistas, como quando Fraçoise aceita um caronista afro-americano, que ele teme irá roubá-los.[33] Vladek mostra pouco discernimento de seus próprios comentários racistas sobre outros em comparação com seu tratamento durante o Holocausto.[24]
  • Mala Spiegelman (1917–2007)[34] é a segunda esposa de Vladek, que faz ela se sentir como se nunca pudesse viver à altura de Anja.[35] Embora ela também seja uma sobrevivente do Holocausto e fale com Art ao longo do livro, este não faz nenhuma tentativa de aprender sobre sua experiência do Holocausto.[36]
  • Anja Spiegelman[nota 6] (1912–1968) é a mãe de Art, a primeira esposa de Vladek e outra judia polonesa que sobreviveu ao Holocausto.[31] Nervosa, submissa e dependente, ela tem seu primeiro colapso nervoso depois de dar à luz seu primeiro filho.[37] Alguma vezes, falou a Art sobre o Holocausto quando ele estava crescendo, embora seu pai não aprovasse. Suicidou-se cortando os pulsos numa banheira em maio de 1968,[38] e não deixou nenhum bilhete suicida.[39]
  • Françoise Mouly (n. 1955)[26] é a esposa de Art. É francesa e converteu-se ao judaísmo[40] para agradar Vladek. Spiegelman tem dificuldades em retratá-la: fica em dúvida entre um camundongo judeu, um sapo francês ou algum outro animal. Ele usa um camundongo.[41]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Art Spiegelman nasceu em 15 de fevereiro de 1948, na Suécia, filho de Vladek and Anja Spiegelman, judeus poloneses sobreviventes do Holocausto. Sua tia envenenou Richieu, o primeiro filho do casal, para impedir que fosse capturado pelos nazistas quatro anos antes do nascimento de Spiegelman.[42] Ele e seus pais imigraram para os Estados Unidos em 1951.[43] Durante sua juventude, sua mãe falava, ocasionalmente, sobre Auschwitz, mas seu pai não queria que ele soubesse sobre o que havia se passado.[27]

Spiegelman desenvolveu um interesse em quadrinhos desde cedo e começou a desenhar profissionalmente aos 16 anos.[44] Ele passou um mês no Binghamton State Mental Hospital em 1968 depois de um colapso nervoso. Logo depois que saiu, sua mãe suicidou-se.[2] O pai de Spiegelman não estava feliz com o envolvimento de seu filho na subcultura hippie. Spiegelman disse que o fato de ter comprado um volkswagen alemão tornou irreparável a já tensa relação com seu pai.[45] Spiegelman leu fanzines sobre artistas gráficos como Frans Masereel que fizeram romances sem palavras. As discussões naqueles fanzines sobre escrever o Grande Romance Americano em quadrinhos inspiraram-no.[46]

Spiegelman tornou-se uma figura central do movimento underground comix dos anos 1970, tanto como cartunista quanto como editor.[47] Em 1972, o cartunista Justin Green produziu um quadrinho semiautobiográfico chamado Binky Brown Meets the Holy Virgin Mary, que inspirou outros cartunistas do movimento a produzir obras mais pessoais e reveladoras.[48] No mesmo ano, Green pediu a Spiegelman que contribuísse com uma tira de três páginas para a primeira edição de Funny Aminals [sic], que Green editou.[47] Spiegelman queria fazer uma tira sobre racismo e, a princípio, considerou focar-se em afro-americanos,[49] com gatos representando membros da Ku Klux Klan perseguindo camundongos afro-americanos.[50] Ao invés disso, voltou-se ao Holocausto e retratou gatos nazistas perseguindo camundongos judeus numa tira chamada "Maus". A história foi narrada a um camundongo chamado "Mickey".[47] Depois de terminá-la, Spiegelman visitou seu pai para mostrar-lhe a obra terminada, a qual baseou, em parte, numa anedota que ouvira sobre a experiência de seu pai em Auschwitz. Seu pai deu-lhe mais informações, que lhe despertaram o interesse. Spiegelman gravou uma série de entrevistas ao longo de quatro dias com seu pai, as quais forneceriam a base do graphic novel Maus.[51] Spiegelman deu prosseguimento com ampla pesquisa, lendo relatos de sobreviventos e conversando com amigos e familiares que também haviam sobrevivido. Conseguiu informações detalhadas sobre Sosnowiec de uma série de panfletos poloneses publicados depois da guerra que detalhavam o que havia acontecido aos judeus por região.[52]

Entrada de Auschwitz
Spiegelman visitou visited em 1979 como parte de sua pesquisa.

Em 1973, Spiegelman produziu uma tira para a primeira edição de Short Order Comix[53] chamada "Prisoner on the Hell Planet" sobre o suicídio de sua mãe. No mesmo ano, editou um livro pornográfico e psicodélico de citações e dedicou-o à sua mãe.[38] Spiegelman passou o resto dos anos 1970 construindo sua reputação publicando quadrinhos avant-garde curtos. Ele mudou-se de volta para Nova Iorque de São Francisco em 1975, o que admitiu para seu pai apenas em 1977, altura em que havia decidido trabalhar num "quadrinho bem longo".[15] Em 1978, iniciou outra série de entrevistas com seu pai,[45] e visitou Auschwitz em 1979.[54] Ele serializou a história numa revista chamada Raw, que iniciou em 1980 com sua esposa Mouly.[55]

Mídia dos quadrinhos[editar | editar código-fonte]

Nos anos 1940 e 1950, os quadrinhos americanos eram um grande negócio com uma variedade de gêneros,[56] mas, nos anos 1970, haviam atingido uma fase difícil.[57] Quando Maus começou a ser serializado, as duas grandes editoras de quadrinhos, Marvel e DC Comics dominavam a indústria com títulos de super-heróis em sua maior parte.[58] O movimento underground comix que havia florescido no fim dos anos 1960 e início dos anos 1970 também parecia moribundo.[59] A opinião pública sobre quadrinhos era de que se tratavam de fantasias adolescentes, inerentemente incapazes de expressões maduras artísticas ou literárias.[60] A maioria das discussões focavam-se nos quadrinhos como um gênero e não como uma mídia.[61]

Maus ganhou destaque quando o termo "graphic novel" estava começando a granjear adesão. Will Eisner popularizou o termo em 1978 com a publicação de Um Contrato com Deus. O termo foi usado, em parte, para mascarar o status cultural baixo que os quadrinhos possuíam no mundo anglófono e, em parte, porque o termo "comic book" estava sendo usado para se referir a periódicos curtos, não havendo vocabulário com o qual fosse possível se falar de quadrinhos em forma de livro.[62]

Temas[editar | editar código-fonte]

Apresentação[editar | editar código-fonte]

Spiegelman, como muitos de seus críticos, teme que a "realidade seja demais para os quadrinhos [...] tanta coisa tem de ser deixada de lado ou distorcida", admitindo que sua apresentação da história talvez não seja exata.[63] Ele toma uma abordagem pós-modernista; Maus "alimenta-se de si mesmo", contando a história de como a história foi feita. A obra examina as escolhas que Spiegelman fez ao recontar as memórias de seu pai, e as escolhas artísticas que ele teve de fazer — por exemplo, quando sua esposa francesa se converte ao judaísmo, o personagem de Spiegelman se preocupa se deve retratá-la como um sapo, um rato ou outro animal.[64]

O livro retrata seres humanos com cabeças e rabos de diferentes espécies de animais; judeus são desenhados como ratos e outros alemães e polacos como gatos e porcos,[2] entre outros. Spiegelman se aproveitou da maneira que os filmes de propaganda nazista retrataram judeus como pragas,[65] embora ele tenha sido, a princípio, surpreendido pela metáfora depois de participar de uma apresentação na qual Ken Jacobs mostrou filmes de minstrel shows ao lado de filmes animados antigos dos Estados Unidos, repletos de caricaturas raciais.[66] Spiegelman concluiu que o rato seria um símbolo para os judeus na propaganda nazista, enfatizando por uma epígrafe de uma jornal alemão dos anos 1930 que prefaceia o segundo volume: "Mickey Mouse é a ideia mais miserável já revelada [...] Emoções saudáveis dizem a todo jovem rapaz e todo jovem honrado que o verme sujo e coberto de imundície, o maior portador de bactéria no reino animal, não pode ser o tipo ideal de animal [...] Fora com a brutalização judaica do povo! Abaixo Mickey Mouse! Vista a cruz suástica!"[67]

Personagens judeus tentam se passar por polacos usando máscaras de porcos no rosto, com as cordas aparecendo na parte de trás.[68] O disfarce de Vladek foi mais convincente do que o de Anja — "dava para ver que ela era mais judia", diz Vladek. Spiegelman mostra este caráter judaico fazendo com que o rabo de Anja apareça de fora de seu disfarce.[69] Esta literalização dos estereótipos genocidas que levaram os nazistas a sua solução final pode reforçar rótulos racistas,[70] mas Spiegelman usa a ideia para criar anonimidade para seus personagens. De acordo com a historiadora de arte Andrea Liss, isto pode, paradoxalmente, permitir que leitor se identifique com os personagens como humanos, impedindo-o de observar características raciais baseadas em traços faciais, e, ao mesmo tempo, lembrá-lo da onipresença da classificação racista.[71]

Ao fazer com que pessoas de diferentes etnias se parecessem, Spiegelman esperava mostrar o absurdo de dividir pessoas desta forma. Spiegelman afirmou que "estas metáforas [...] foram feitas para se auto-destruir"[72] e "revelar a futilidade da própria ideia".[73] A professora Amy Hungerford não observou um sistema consistente para metáfora dos animais.[74] Em vez disso, ela significou os papéis dos personagens na história ao invés de suas raças — Françoise, uma gentia, é uma rata por causa de sua identificação com seu marido, que se identifica com vítimas do Holocausto. Quando perguntado qual animal usaria para os judeus israelenses, Spiegelman sugeriu o porco-espinho.[67] Quando Art visita seu psiquiatra, ambos usam máscaras de rato.[75] As ideias de Spiegelman sobre a metáfora dos animais evoluíram ao longo da feitura do livro — na publicação original do primeiro volume, seu auto-retrato mostrava uma cabeça de rato num corpo humano, mas quando o segundo volume foi lançado, seu auto-retrato havia se tornado o de um homem usando uma máscara de rato.[76] Em Maus, os personagens parecem ser ratos e gatos apenas em sua relação de predador e presa. Em todos os aspectos, exceto suas cabeças e rabos, eles agem e falam como seres humanos comuns.[76] Complicando ainda mais a metáfora dos animais, Anja é retratada, ironicamente, como tendo medo de rato, enquanto outros personagens aparecem com cães e gatos de estimação, e os nazistas, com cães de ataque.[77]

Memória[editar | editar código-fonte]

Para Marianne Hirsch, a vida de Spiegelman é "dominada por memórias que não são suas".[78] Sua obra não é de memória, mas de pós-memória — um termo cunhado por ela depois de descobrir Maus. Isto descreve a relação dos filhos de sobreviventes com seus pais. Embora estes filhos não tenham tido as experiências de seus pais, eles cresceram com as memórias deles — memórias da memória de outrem — até as histórias se tornarem tão poderosas que, para estes filhos, elas se tornam memórias autônomas. A proximidade dos filhos cria uma "conexão pessoal profunda" com a memória, embora separada dela por uma "distância geracional".[79]

Art tentou manter a história de seu pai em ordem cronológica, porque, caso contrário, ele "nunca conseguiria mantê-la organizada".[80] As memórias de Anja, sua mãe, estão conspicuamente ausentes da narrativa, dado seu suicídio e a destruição de seus diários feita por Vladek. Hirsch vê Maus, em parte, como uma tentativa de reconstruir as memórias dela. Vladek mantém viva a memória de Anja com fotos dela em sua mesa, "como um templo", de acordo com Mala.[81]

Culpa[editar | editar código-fonte]

Spiegelman exibe seu senso de culpa de diversas maneiras. Ele sofre de angústia por seu irmão morto, Richieu, que pereceu no Holocausto e que Spiegelman sente nunca conseguirá estar a altura.[82] O oitavo capítulo, feito depois da publicação e do sucesos inesperado do primeiro volume, abre com um Spiegelman perturbado pela culpa (agora em forma humana, vestindo uma máscara de rato) em cima de uma pilha de cadáveres — os cadáveres dos seis milhões de judeus sobre os quais o sucesso de Maus foi construído.[83] Seu psiquiatra lhe diz que seu pai se sente culpado por ter sobrevivido e vivido mais do que seu primeiro filho,[84] e que uma parte da culpa de Art pode se originar de ter pintado seu pai de maneira tal desfavorável.[85] Como ele próprio não viveu nos campos, é difícil para ele entender ou visualizar este "universo separado", e sente-se inadequado retratando-o.[27][86]

Racismo[editar | editar código-fonte]

Kapo armband
Kapos, supervisores de prisioneiros sob os nazistas, são retratados como poloneses antisemitas.

Spiegelman praodia a visão nazista de divisões raciais; o racismo de Vladek também é colocado em evidência quando ele se chateia com Françoise por esta aceitar um caronista negro, um "schwartser", como diz ele. Quando ela repreende-o, ele — uma vítima do antisemitismo — responde: "Não se pode comparar, os schwartsers e os judeus!"[87] Gradualmente, Spiegelman descontrói a metáfora dos animais ao longo do livro, especialmente no segundo volume, mostrando onde as divisões não podem ser desenhadas entre raças de humanos.[88]

Os alemãos são retratados com pouca diferença entre eles, mas há grande variedade entre poloneses e judeus que dominam a história.[89] Algumas vezes, judeus e conselhos judaicos são mostrados obedecendo os ocupantes; algumas enganam outros judeus para que sejam capturados, enquanto outros agem como polícia para os nazistas.[90]

Spiegelman mostra diversas instâncias em que poloneses se arriscaram para ajudar judeus, e também mostra o antisemitismo como sendo abundante entre eles. Os Kapos que operam os campos são poloneses, e Anja e Vladek são enganados por contrabandistas poloneses e entregues aos nazistas. Anja e Vladek ouvem histórias de que poloneses continuam a expulsar e até mesmo matar judeus em regresso após a guerra.[91]

Linguagem[editar | editar código-fonte]

O inglês de Vladek é o chamado broken english, ou seja, é pronunciado de modo imperfeito, em contraste com o falar fluente do terapeuta de Art, Paul Pavel, que também é um imigrante e sobrevivente do Holocausto.[92] O conhecimento da língua de Vladek auxilia-o em diversos momentos na história, como quando ele o usa para conhecer Anja. Também utiliza-o para se tornar amigo de um francês, e continua a se corresponder com ele em inglês depois da guerra. Sua recontagem do Holocausto, primeiro a soldados americanos, depois a seu filho, nunca ocorre em sua língua materna,[93] e o inglês se torna sua língua diária quando ele se muda para os Estados Unidos.[94] Sua dificuldade com sua segunda língua é revelada quando Art escreveu seu diálogo em broken English;[95] quando Vladek é encarcerado, ele diz a Art, "Todos os dias eu tomava banho e fazia ginástica para ficar forte... e rezava. Eu era muito religioso. Era tudo que podia fazer.".[96][nota 2] Posteriormente no livro, Vladek fala de Dachau, dizendo, "E aqui [...] meus problemas começaram", embora claramente seus problemas tenham começado muito antes de Dachau. Esta expressão não-idiomática foi usada como o subtítulo do segundo volume.[95]

A palavra alemã Maus é cognata da palavra inglesa mouse,[97] e também lembra o verbo alemão mauscheln, que significa "falar como um judeu"[98] e refere-se à maneira como judeus da Europa Oriental falavam alemão [99] — uma palavra que não se relaciona etimologiamente a Maus, mas a Moses.[98]

Notas

  1. Da palavra alemã Maus [maʊ̯s], com significado e pronúncia similares à palavra inglesa "mouse" /ms/.
  2. a b c d e f g Falas retiradas das edições brasileiras de Maus (1987), tradução de Ana Maria de Souza Bierrenbach, e Maus: a história de um sobrevivente II (1995), tradução de Maria Esther Martino, ambas publicadas pela Editora Brasiliense.
  3. Escrito "Rysio" em polonês. "Richieu" é um erro de ortografia de Spiegelman, pois ele ainda não havia visto o nome de seu irmão escrito.[11]
  4. Nascido Itzhak Avraham ben Zev; seu nome foi mudado para Arthur Isadore quando imigrou com seus pais para os EUA.[25]
  5. Nascido Zev Spiegelman, com o nome judeu Zev ben Abraham. Seu nome polonês era Wladislaw ("Wladislaw" e "Wladec" são ortografias fornecidas por Spiegelman; a escrita padrão polonesa deste nomes é "Władysław" e "Władek"), do qual "Wladec" é um diminutivo. "Vladek" é a versão russa deste nome, adquirido quando a área onde Vladek morava foi controlada pela Rússia. Esta ortografia foi escolhida para Maus pois foi considerada a mais fácil para falantes do inglês pronunciar corretamente. A versão alemã de seu nome era "Wilhelm" (ou "Wolf"), e ele se tornou William quando se mudou para os EUA.[30]
  6. Nascida Andzia Zylberberg, com o nome hebreu de Hannah. Seu nome se tornou Anna quando ela e Vladek chegaram aos EUA.[30]

Referências

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Livros[editar | editar código-fonte]

  • Fagan, Bryan D.; Fagan, Jody Condit (2011). «Medium or Genre?». Comic Book Collections for Libraries. [S.l.]: ABC-CLIO. p. 3. ISBN 978-1-59884-511-2 

Periódicos e revistas[editar | editar código-fonte]

Jornais[editar | editar código-fonte]

Websites[editar | editar código-fonte]

  • Tzadka, Saul (2 de fevereiro de 2012). «Maus: Revisited». Alondon. Consultado em 18 de maio de 2012 

Leitura adicional[editar | editar código-fonte]

  • Ewert, Jeanne (2004). «Art Spiegelman's Maus and the Graphic Narrative». In: Ryan, Marie-Laure. Narrative Across Media: The Languages of Storytelling. [S.l.]: University of Nebraska Press. pp. 180–193. ISBN 978-0-8032-8993-2 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]