Fonologia da língua portuguesa

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

A fonologia do português varia consideravelmente entre seus dialetos, chegando, em casos extremos, a causar dificuldades na inteligibilidade. Este artigo tem como foco as pronúncias consideradas geralmente como padrão. Como o português é uma língua pluricêntrica, isto é, possui mais de um centro de referência, e as diferenças entre o português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) podem ser consideráveis, as duas variedades são indicadas sempre que necessário.

Uma das diferenças mais perceptíveis entre o português europeu o brasileiro é sua prosódia1 . O português europeu é uma língua de ritmo acentual, com as sílabas átonas de menor duração que as tônicas. As vogais átonas sofrem redução frequente ou até mesmo cancelamento, e há uma tolerância geral a consoantes em fim de sílaba. Por sua vez, o português brasileiro tem características mistas, a meio caminho de ser uma língua de ritmo silábico, e tem menos redução de vogais átonas e também menos cancelamento, à exceção de [i ~ ɪ ~ e] e [u ~ ʊ ~ o] quando em fim de palavra ou entre os fonemas /t/, /d/ e /s/, /z/.

No português brasileiro há uma forte tendência a sílabas abertas, terminadas por vogal; só há tolerância em fim de sílaba às consoantes representadas por S e R. Nas sílabas terminadas por M e N, essas letras não são pronunciadas e só indicam a nasalização da vogal anterior; o L em fim de sílaba é pronunciado como [u̯] ou [ʊ̯], exceto no extremo Sul (onde há velarização conservadora) e em regiões de fala caipira (onde a pronúncia é /ɹ/); o R final é frequentemente não articulado; e um /i/ epentético é inserido depois de quase todas as outras consoantes que de outra forma estariam em fim de sílaba, fazendo advogado ser pronunciado [ɐdʒivo̞ˈɡadu], rock [ˈχɔki] e McDonald's [mɛ̞kiˈdõnɐ̞wdʒis]. Os encontros consonantais sempre tolerados no português brasileiro são formados por /b/, /k/, /d/, /f/, /g/, /p/, /t/, /s/ ou /z/ e /v/ seguidos de /l/ ou /ɾ/: flagrante, Israel, islamismo. /ks/ também pode ser incluído nessa categoria: fixo [ˈfi.ksu] (mas não ficção [fikˈsɐ̃w]), látex ['lateks].

Alguns dialetos brasileiros têm características fonológicas mais próximas às do português europeu. Os dialetos fluminense e florianopolitano em particular têm uma redução de vogais maior (assim como quase toda fala vernácula tem comparada à formal), e o dialeto fluminense tem uma tolerância maior a pronunciar róticos em fim de sílaba (representados por R). Enquanto isso, o português africano e muitos dialetos rurais do português europeu apresentam características comumente associadas à fala brasileira. Para maiores informações sobre as diferentes variações de sotaque, ver dialetos do português; para as mudanças sonoras ocorridas ao longo da história, ver história da língua portuguesa.

Consoantes[editar | editar código-fonte]

Sinopse[editar | editar código-fonte]

O inventário consonantal do português é bastante conservador; as africadas medievais /ts/, /dz/, /tʃ/, /dʒ/ fundiram-se com as fricativas /s/, /z/, /ʃ/, /ʒ/, respectivamente, porém não umas com as outras, e não houve mudanças significantes nos fonemas consonantais desde então. No entanto, diversos fonemas consonantais possuem alófonos especiais quando se localizam no início ou final de uma sílaba, e outros passam por mudanças alofônicas quando estão no fim ou início de uma palavra.

Fonemas consonantais do português2 3
Bilabial Labio-
dental
Dental/alveolar pós-alveolar Palatal Velar Uvular
labial 4 plano
Nasal m ɲ¹
Plosiva p b ² ² k g
Fricativa f v s³ z³ ʃ³ ʒ³ ʁ4, 5
Aproximante5 j w
Apr. lateral l6 ʎ
Tepe ɾ5
¹ Na maior parte do Brasil e de Angola, a consoante designada doravante por /ɲ/ pode ser pronunciada como uma aproximante palatal nasal [j̃] que nasaliza a vogal que a precede: [ˈnĩj̃u].6
² Em diversos dialetos brasileiros (como aqueles falados nos estados do Rio de Janeiro e Bahia), as oclusivas dentais são africadas para [tʃ] e [dʒ] antes de /i/ e /ĩ/.
³ No final das sílabas, as sibilantes /s/, /z/, /ʃ/, /ʒ/ ocorrem por distribuição complementar.[carece de fontes?] Na maior parte do Brasil, são alveolares: /s/ é utilizado antes das consoantes surdas ou no final da palavra, enquanto /z/ é utilizado antes de consoantes sonoras; ex.: isto /ˈistu/, turismo /tuˈɾizmu/.3 Na maior parte de Portugal, e no Rio de Janeiro e em alguns estados do Norte do Brasil, as sibilantes situadas no final das sílabas tornaram-se palatoalveolares, /ʃ/ antes de consoantes surdas ou no final da palavra, e /ʒ/ antes de consoantes sonoras: isto /ˈiʃtu/, turismo /tuˈɾiʒmu/.[carece de fontes?] No norte de Portugal, as consoantes /s/ e /z/ são ápico-alveolares ([s̺] e [z̺]), sendo que, na parte interior da região, contrastam com [s] e [z], representadas por C/Ç e Z.
4 A consoante designada doravante por /ʁ/ tem uma variedade de realizações, dependendo do dialeto. No Brasil, este som pode ser velar, uvular, alveolar ou glotal, e pode ser surdo a menos que esteja colocado entre consoantes sonoras,3 embora seja costumeiramente pronunciado como uma fricativa velar surda ([x]), uma fricativa glotal surda ([h]), uma fricativa uvular surda ([χ]) ou uma vibrante múltipla alveolar ([r]). Na Europa, suas mais frequentes realizações são a fricativa uvular sonora ([ʁ]), a vibrante múltipla uvular ([ʀ]) e o vibrante múltipla alveolar ([r]).7 Ver também R gutural.
5 Os dois fonemas róticos, /ʁ/ e /ɾ/, sofrem contraste apenas quando entre vogais. No início das palavras e depois de /l/, /z/, /ʒ/ e de vogais nasais apenas a primeira ocorre e nos conjuntos consonantais (ex: pr, fr, cr,...) apenas o segundo acontece, enquanto em outras situações a maioria dos dialetos usa apenas a segunda. No entanto, diversos dialetos brasileiros, entre eles o dialeto carioca, utilizam-se da segunda no final das sílabas.
6 A consoante /l/ é velarizada nos dialetos europeus. Na maioria dos dialetos brasileiros, /l/ é vocalizado para [w] no final das sílabas.3 No português brasileiro coloquial, o il átono pode receber o valor de [ju], como em fácil [ˈfasju].8

Notas[editar | editar código-fonte]

  • As consoantes nasais não ocorrem normalmente no fim das sílabas. O /n/ no fim de sílabas pode ocorrer em palavras de uso mais erudito, por alguns falantes.7 O /ɲ/ no início de palavras ocorre somente em poucos empréstimos linguísticos.9
  • No norte e centro de Portugal,as plosivas sonoras /b/, /d/ e /g/ podem sofrer lenição e se transformarem nas fricativas [β], [ð], e [ɣ] respectivamente, exceto no início de palavras, ou depois de vogais nasais.9 10
  • Nas pronúncias européias, as fricativas pós-alveolares sofrem fricção apenas no fim da sílaba.9

Pares mínimos[editar | editar código-fonte]

Fonema Exemplo Notas
/m/ mato [ˈmatu]
/p/ pato [ˈpatu]
/b/ bato [ˈbatu]
/n/ nato [ˈnatu]
/t/ ta(c)to [ˈtatu] Soletrado com um c mudo na ortografia europeia, e sem o mesmo na ortografia brasileira.
/d/ dato [ˈdatu]
/f/ faca [ˈfakɐ]
/v/ vaca [ˈvakɐ]
/s/ saca [ˈsakɐ]
/z/ zaca [ˈzakɐ]
/ɾ/ pira [ˈpiɾɐ]
/l/ galo [ˈgalu]
/ɲ/ pinha [ˈpiɲɐ]
/ʃ/ chato [ˈʃatu]
/ʒ/ ja(c)to¹ [ˈʒatu] Soletrado com um c mudo na ortografia europeia, e sem o mesmo na ortografia brasileira.
/ʎ/ galho [ˈgaʎu]
/j/ pais [ˈpajs] Pode-se formar pares entre o [j] de pais e o [i] do sobrenome Paes.
/w/ (ele) riu [ʁiw] Pode-se formar pares entre o [w] de (ele) riu e o [u] de (eu) rio.
/k/ ca(c)to [ˈkatu] ou [ˈkaktu] Soletrado com um c mudo na ortografia europeia, e com um c sonoro na ortografia brasileira.
/g/ gato [ˈgatu]
/kʷ/ quais [ˈkʷais] Pode-se formar pares entre o de /kʷ/ quais e o /ku/ de (vós) coais.
/gʷ/ guano [ˈgʷɐnu] Pode-se formar pares entre o de /gʷ/ guano e o /gu/ de goano.
/ʁ/ rato [ˈʁatu]

Vogais[editar | editar código-fonte]

Quadro das vogais portuguesas.

O português tem uma das fonologias mais ricas das línguas românicas, com vogais orais e nasais, ditongos nasais e dois ditongos nasais duplos. As vogais semifechadas /e/, /o/ e as vogais semiabertas /ɛ/, /ɔ/ são quatro fonemas separados, ao invés do espanhol, e o contraste entre elas é usado para apofonia. O português europeu também possui duas vogais centrais, uma das quais tende a ser omitida na fala como o e caduc do francês.

Como o catalão, o português usa a altura vocálica para diferenciar sílabas tônicas de átonas; as vogais /a/, /ɛ/, /e/, /ɔ/, /o/ tendem a se tornar /ɐ/, /e/, /i/, /ɨ/, /o/, /u/ quando átonas (embora /ɨ/ não ocorra na maioria dos dialetos do Brasil). Os dialetos de Portugal são caracterizados pela redução de vogais em proporção maior que os outros. Os ditongos decrescentes seguido por uma das semivogais /j/ ou /w/; ainda que exista a ocorrência de ditongos crescentes, eles podem ser interpretados como hiatos.

Classificação das vogais[editar | editar código-fonte]

Expressando no AFI (pronúncia de Portugal):

Vogais orais
/i/ /'si/ si
/e/ /'se/
/ɛ/ /'sɛ/
/ɔ/ /'pɔʃ/ pós
/o/ /'poʃ/ pôs
/u/ /ˈtu/ tu
/ɐ/ /'dɐ/ da
/a/ /'da/
/ɨ/; /'sɨ/ se
Vogais nasais
/ĩ/ /'vĩ/ vim
/ẽ/ /ˈẽtɾu/ entro
/ɐ̃/ /ˈɐ̃tɾu/ antro
/õ/ /'sõ/ som
/ũ/ /ˈmũdu/ mundo

De acordo com a sua pronúncia na palavra as vogais são classificadas em:

Nasalidade[editar | editar código-fonte]

Vogais orais: /i/, /e/, /ɛ/, /ɨ/ (não no Brasil), /ɐ/, /a/, /u/, /o/, /ɔ/.

Vogais nasais: /ĩ/, /ẽ/, /ɐ̃/, /ũ/, /õ/.

Grau de abertura[editar | editar código-fonte]

Vogais fechadas: /i/, /ɨ/, /u/

Vogais semi-fechadas: /e/, /o/

Vogais semi-abertas: /ɛ/, /ɐ/, /ɔ/

Vogais abertas: /a/

Semivogais[editar | editar código-fonte]

As semivogais na língua portuguesa são consoantes aproximantes que se juntam a uma vogal para formar uma sílaba (ex.: na palavra mau, a letra u é uma semivogal e a é uma vogal). Em português, os ditongos crescentes—isto é, aqueles em que a semivogal vem antes da vogal—surgem somente em alguns casos em que a ortografia preconiza usar "qu-" ou "gu-", os quais em nível pós-lexical acrescenta-se o som aproximante [w] após as oclusivas labiais /kʷ/ e /gʷ/, à frente da vogal seguinte; porém, também pode ocorrer foneticamente em outras circunstâncias, onde as semivogais ocorrem em variação livre com /i/ ou com /u/, como acontece por exemplo em palavras como quiabo [kiˈabu ~ ˈkjabu], suar [suˈaɾ ~ ˈswaɾ].11

Expressando no AFI (pronúncia de Portugal):

Ditongos decrescentes orais
/aj/ /'saj/ sai
/ɐj/ /'plɐjnɐ/ plaina
/ɛj/ /ɐˈnɛjʃ/ (nalguns locais do Centro de Portugal [ɐˈnɐjʃ] ) anéis
/ej/ /'sej/ (nalguns locais do Centro de Portugal [sɐj] ) sei
/ɔi/ /'mɔj/ mói
/oj/ /ˈmoitɐ/ moita
/uj/ /'fuj/ fui
/iw/ /'viw/ viu
/ew/ /'mew/ meu
/ɛw/ /'vɛw/ véu
/aw/ /'maw/ mau
/ɐw/ /'ɐw/ ao
/ow/ /'sow/ (fora do Norte de Portugal muitas vezes [so] ) sou
Ditongos decrescentes nasais
/ɐ̃j/ /'mɐ̃j/ mãe
/õj/ /'põj/ põe
/ɐ̃w/ /'mɐ̃w/ mão
/ũj/ /'mũjto/ muito

Ver também[editar | editar código-fonte]

Aniceto dos Reis Gonçalves Viana

Referências

  1. Parkinson, Stephen. "Phonology". In The Romance Languages editado por Martin Harris e Nigel Vincent. Routledge, 1988. Pp. 131–169.
  2. Cruz-Ferreira, Madalena (1995), "European Portuguese", Journal of the International Phonetic Association 25 (2): p.91
  3. a b c d Barbosa, Plínio A. & Eleonora C. Albano (2004), "Brazilian Portuguese", Journal of the International Phonetic Association 34 (2): 227-232
  4. Bisol (2005), p. 122 Citação: A proposta é que a sequencia consoante velar + glide posterior seja indicada no léxico como uma unidade monofonemática /kʷ/ e /ɡʷ/. O glide que, nete caso, situa-se no ataque não-ramificado, forma com a vogal seguinte um ditongo crescente em nível pós lexical. Ditongos crescentes somente se formam neste nível. Em resumo, a consoante velar e o glide posterior, quando seguidos de a/o, formam uma só unidade fonológica, ou seja, um segmento consonantal com articulação secundária vocálica, em outros termos, um segmento complexo.
  5. Arlo Faria. Applied Phonetics: Portuguese Text-to-Speech (em inglês). University of California, Berkeley: [s.n.]. 7 p.
  6. Thomas, Earl W. (1974), A Grammar of Spoken Brazilian Portuguese, Vanderbilt University Press, ISBN 0-8265-1197-X
  7. a b Mateus, Maria Helena & Ernesto d'Andrade (2000), The Phonology of Portuguese, Oxford University Press, ISBN 0-19-823581-X
  8. Major, Roy C. (1992), "Stress and Rhythm in Brazilian Portuguese", in Koike, Dale April & Macedo, Donaldo P, Romance Linguistics: The Portuguese Context, Westport, CT: Bergin & Garvey, ISBN 0-89789-297-6
  9. a b c Cruz-Ferreira, Madalena (1995), "European Portuguese", Journal of the International Phonetic Association 25 (2): p. 92
  10. Mateus, Maria Helena & Ernesto d'Andrade (2000), The Phonology of Portuguese, Oxford University Press, ISBN 0-19-823581-X, p. 11
  11. Bisol (2005), p. 121-122

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Leda Bisol. Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. 4ª ed. Porto Alegre - Rio Grande do Sul: EDIPUCRS, 2005. ISBN 85-7430-529-4