Trote estudantil

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O trote estudantil (ou simplesmente trote) consiste num conjunto de atividades para marcar o ingresso de estudantes no ensino superior e, em algumas exceções, no Ensino Médio, geralmente no caso dos aprovados num processo seletivo, que podem ser leves ou graves.

Costuma ocorrer nos dias da denominada calourada, que acontecem no início de um semestre ou ano letivo, em escolas, faculdades e universidades pelos estudantes mais antigos, chamados de veteranos, nos recém-chegados, conhecidos como calouros ou "bixos". O trote também costuma acontecer na escola depois da calourada, principalmente nos calouros que não compareceram a ela. Algumas instituições, visando a acabar com a tradição do trote estudantil de fato, promovem uma variação mais saudável desse, o chamado trote solidário, um modo mais útil e menos agressivo de recepção a novos alunos.

E é frequente também, mesmo depois da época de calourada, trotes fora da instituição de ensino, principalmente em casas de república, lugar onde dormem juntos os alunos que vieram de outras cidades, uma vez nestes locais a escola ou universidade não tem controle e não pode emitir ocorrências ou realizar punições.

Analogamente ao trote estudantil brasileiro, existe em Portugal uma tradição iniciática similar denominada de praxe acadêmica. Mais antiga e extensiva que sua congênere tupiniquim, a praxe portuguesa tem sido tema de grandes polêmicas nas últimas décadas, contrapondo aqueles que a reconhecem como uma rica tradição cultural de relevância histórica e natureza integradora aos que enfatizam seu caráter degradante e por vezes excludente.

Etimologia da palavra[editar | editar código-fonte]

A palavra "trote" possui correspondentes em vários idiomas, como trote (espanhol), trotto (italiano), trot (francês), trot (inglês) e trotten (alemão). Em todos estes idiomas, e também em português, o termo se refere a uma certa forma de se movimentar dos cavalos, uma andadura que se situa entre o passo (mais lento) e o galope (mais rápido). Todavia, deve ser lembrado que o trote não é uma andadura normal e habitual do cavalo, mas algo que deve ser ensinado a ele (muitas vezes à base de chicotadas e esporadas). Da mesma forma, o calouro é encarado pelo veterano como algo (mais que um animal, mas menos que um ser humano) que deve ser domesticado pelo emprego de práticas humilhantes e vexatórias; em suma, o calouro deve "aprender a trotar".

Da mesma forma, denominar o calouro de bixo (ou bixete, se for mulher), parece querer indicar "que o calouro deve ser humilhado a ponto de nem mesmo merecer que a palavra bicho seja escrita corretamente." (Zuin, 2002, p. 44).

Origens do trote[editar | editar código-fonte]

O trote estudantil não é uma exclusividade brasileira, muito menos foi inventado no Brasil. Seu histórico pode ser traçado a partir do começo das primeiras universidades, na Europa da Idade Média (Vasconcelos, 1993, p. 13). Nestas instituições, surgiu o hábito de separar veteranos e calouros, aos quais não era permitido assistirem as aulas no interior das respectivas salas, mas apenas em seus vestíbulos (de onde veio o termo "vestibulando" para designar estes novatos). Por razões profiláticas, os calouros tinham as cabeças raspadas e suas roupas muitas vezes eram queimadas.[1]

Todavia, já no século XIV, as preocupações com a higiene haviam se transformado em rituais aviltantes, com nítida conotação sadomasoquista. Isto é observado nas universidades de Bolonha, Paris e, principalmente, Heidelberg, onde os calouros, reclassificados como "feras" pelos veteranos, tinham pelos e cabelos arrancados, e eram obrigados a beber urina e a comer excrementos antes de serem declarados "domesticados".

Em Portugal, os trotes violentos (como o notório "Canelão") podem ser rastreados a partir do século XVIII na Universidade de Coimbra. Não por coincidência, estudantes da elite brasileira que por lá realizaram parte de seu processo educativo, trouxeram a "novidade" para o território nacional (Zuin, 2002, p. 31). Em decorrência disso, surgiram desavenças entre veteranos e calouros que culminaram com a morte, em 1831, de um estudante da faculdade de Direito de Olinda, Pernambuco – seria a primeira, mas lamentavelmente não a última vítima de um trote violento no Brasil.

O trote como rito de passagem[editar | editar código-fonte]

Segundo Van Gennep, criador do conceito, os ritos de passagem podem ser classificados em três grupos principais:

  • Separação (funerais etc.)
  • Agregação (casamento etc.)
  • Margem (iniciação etc.)

Conforme indica, "as fronteiras entre tais ritos não são estanques, e sim dinâmicas; um comumente, implica um outro" (Van Gennep, 1978, p. 31). Portanto, do ponto de vista da antropologia cultural, o trote se classifica como um rito de passagem de margem e permite que sejam extraídas quatro conclusões preliminares (Vasconcelos, 1993, p. 14-15):

  1. O trote é um cerimonial que está entranhado no seio da cultura acadêmica;
  2. O caráter iniciático do trote é confirmado por todos os seus participantes;
  3. O trote representa um ritual de violência e agressão contra o calouro;
  4. O trote é um rito de passagem às avessas, representando uma prática oposta aos valores humanistas da universidade.

Trotes violentos[editar | editar código-fonte]

  • Em 1980, Carlos Alberto de Souza, de 20 anos, calouro do curso de Jornalismo da Universidade de Mogi das Cruzes (SP), morreu de traumatismo cranioencefálico, resultante das agressões praticadas por estudantes veteranos.[2]
  • Em 1990, George Mattos, de 23 anos, calouro do curso de Direito da Fundação de Ensino Superior de Rio Verde (GO), morreu de uma parada cardíaca quando tentava fugir de veteranos que iam lhe aplicar um trote.[3]
  • Em 22 de fevereiro de 1999, o estudante Edison Tsung Chi Hsueh tornou-se conhecido quando foi vítima de trote com consequências fatais. Esse calouro de família taiwanesa, aprovado na Faculdade de Medicina da USP, faleceu nesta data, afogado em uma piscina.[4]
  • Em 10 de fevereiro de 2009, o calouro Bruno César Ferreira, de 21 anos ia começar o curso de veterinária da Faculdade Anhanguera, em Leme, interior de São Paulo. Além de ser obrigado a ingerir bebidas, e ter entrado em coma alcoólico, o calouro também teve de rolar em uma lona com animais mortos e fezes em decomposição. "Eles esfregaram na gente. Fizeram a gente rolar numa lona com aquilo e ingerir pinga", conta ele.[5]
  • Em 2009, o aluno Vitor Vicente de Macedo Silva, 22 anos, do Departamento de Física da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro morreu afogado numa piscina de saltos ornamentais (9 m de profundidade). Segundo se suspeita, ele teria sido forçado a entrar na piscina mesmo sem saber nadar, isso porque Vítor tinha sido admitido no alojamento há pouco tempo.
  • Em 2010, estudantes da Unicastelo, em Fernandópolis, foram obrigados a fumar, tirar as roupas íntimas, pedir dinheiro em semáforos e até beber álcool combustível[6] [7] . No mesmo período, na Escola Superior de Propaganda e Marketing, também em São Paulo, um estudante foi agredido, e teve ossos do nariz e do rosto quebrados[8] .

Represálias[editar | editar código-fonte]

Ao calouro que se recusar a participar das atividades, são endereçadas várias represálias: agressões, bullying e ser - em casos extremos dentro de certas escolas - considerado bixo eterno.

Também são considerados bixo eterno, aqueles que se destoam do grupo. Em sites de relacionamento por exemplo, trollando e atrapalhando conversa e debates importantes.

O bixo eterno é assim chamado porque jamais alcançará o status de veterano, por não ter aceitado se submeter à vontade dos veteranos. Portanto, se ele aparecer no primeiro dia de aula, mesmo já não sendo mais novato, será tratado como calouro.

Existem ainda casos de represália por parte dos calouros, que algumas vezes reagem violentamente ou ameaçam os veteranos que tentam subjugá-los. Alguns calouros, por exemplo, no primeiro dia de aula, apresentam-se em suas faculdades com roupas nas quais se encontram símbolos que poderiam impor respeito e/ou medo aos veteranos (símbolos de artes marciais, forças armadas ou policiais, gangues, etc.), de forma a convencer que aplicar o trote nele não é uma boa ideia. Obviamente, o calouro pode ter pertencido ou pertencer a um desses grupos, mas ele pode estar mentindo, o que, uma vez descoberta a mentira, pode piorar sua situação com os veteranos.

Prevenção[editar | editar código-fonte]

Os calouros, sabendo que serão vítimas do trote, tomam atitudes de forma a evitá-lo. Alguns, por exemplo, só começam a estudar depois de algumas semanas, ainda que isto lhes prejudique os estudos.

Parte das instituições de ensino baniu o trote ou o substituiu pelo trote solidário (também chamado de trote cidadão em algumas partes do Brasil), no qual o calouro doa sangue, planta árvores ou faz trabalho comunitário, conhecendo a forma de vida de alguma comunidade carente na cidade onde está a instituição.

Também é comum algumas escolas formarem salva-calouros, veteranos fiscais que se voluntariam para controlar o nível dos trotes.

Ainda assim, a melhor forma de evitar o trote é não submeter-se a ele. Se o calouro perceber que o nível do trote esta ameaçando sua saúde física e/ou mental, ele deve imediatamente, a qualquer custo, retirar-se das atividades de trote e, se assim for de acordo com sua vontade, reportar a um responsável a ocorrência de tal atividade, uma vez que hoje a maioria das instituições de ensino superior no Brasil existem departamentos para coibir atividades de trote que estejam prejudicando os calouros.

O "trote solidário"[editar | editar código-fonte]

Nos últimos anos, mortes provocadas por trotes violentos levaram a uma condenação formal deste tipo de ritual. As instituições de ensino tentaram eliminar ou amenizar sua prática, através do endosso mais ou menos tácito ao chamado "trote solidário". São assim denominadas as atividades assistencialistas, organizadas geralmente pelos centros acadêmicos, e que envolvem a coleta de alimentos não-perecíveis e roupas, doados posteriormente para creches, asilos e orfanatos, bem como campanhas de doação de sangue para hospitais e centros de saúde.

Todavia, a versão "amena" da antiga prática, que mistura cabeças raspadas, pintura corporal, "pedágios" e "aulas-trote" (em que um veterano se faz passar por um professor tirano), parece ter o objetivo implícito de perpetuar o sadomasoquismo pedagógico perante a sociedade, sociedade esta que parece muito mais preocupada com o espetáculo do que com a violência, e tolera a violência ritual praticada regularmente contra os jovens como um símbolo do sucesso daqueles que foram aprovados no vestibular.

Fim do status de calouro[editar | editar código-fonte]

Em algumas escolas em que cada etapa tem um ano de duração, a data a partir da qual o calouro deixa de ser considerado como tal costuma ser 13 de maio, referência à data na qual a Lei Áurea aboliu a escravidão no Brasil, em 1888. Geralmente são feitas festas para comemorar a libertação dos bixos, às vezes com mais trotes.

O comum é o estudante deixar de ser calouro depois de ter passado de sua primeira etapa (série, módulo, ano ou semestre). Quase sempre, se o aluno repete a primeira etapa, ele continua sendo calouro.

Para os alunos que entram de transferência (que costumam entrar depois da primeira etapa, por já tê-la feito em outra instituição), o status é ambíguo.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • MATTOSO, G. O calvário dos carecas: a história do trote estudantil. São Paulo, EMW, 1985.
  • VAN GENNEP, A. Os ritos de passagem. Petrópolis, Vozes, 1978.
  • VASCONCELOS, Paulo Denisar. A violência no escárnio do trote tradicional. Santa Maria, UFSM, 1993.
  • ZUIN, Antônio Álvaro Soares. O trote na universidade-Passagens de um rito de iniciação. Cortez, São Paulo, 2002)
  • ZUIN, Antônio Álvaro Soares. O Trote no Curso de Pedagogia e a Prazerosa Integração Sadomasoquista. Educ. Soc. [online]. Agosto 2002, vol.23, no.79, p. 243-254. Disponível na World Wide Web: Scielo. ISSN 01017330.

Referências

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]