Abdias do Nascimento

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Abdias do Nascimento
Abdias Nascimento na tribuna do Senado Federal
Nome completo Abdias do Nascimento
Nascimento 14 de março de 1914
Franca, São Paulo
Morte 24 de maio de 2011 (97 anos)
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
Nacionalidade brasileiro
Cidadania brasileira
Etnia afro-brasileiro,
Cônjuge Léa Garcia
(1956 - 1958)
Elizabeth Larkin
(1958 - 1961)
Ocupação Ativista, político, escritor
Influências
Principais trabalhos

O Genocídio do Negro Brasileiro (1978)
O Quilombismo (1980)
O Negro Revoltado (1982)
Orixás: Os Deuses vivos da África (1995)

Prémios Ordem do Mérito Cultural (2007)
Empregador Ministério da Cultura
Cargo Teatro Experimental do negro
Religião Afro-brasileira
Causa da morte doença cardiovascular, diabetes
Página oficial

Abdias do Nascimento (Franca, 14 de março de 1914Rio de Janeiro, 24 de maio de 2011[1]) foi um poeta, ator, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras.

Foi professor emérito na Universidade do Estado de Nova York, em Buffalo, NY e professor titular de 1971 a 1981, fundando a cadeira de Cultura Africana no Novo Mundo no Centro de Estudos Porto Riquenhos; atuou como conferencista visitante na Escola de Artes Dramáticas da Universidade Yale; foi professor convidado do departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade de Ife, em Ile Ife, Nigéria.

Considerado um dos maiores expoentes da cultura negra no Brasil e no mundo, fundou entidades pioneiras como o Teatro Experimental do Negro (TEN), o Museu da Arte Negra (MAN) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO). Foi um idealizador do Memorial Zumbi e do Movimento Negro Unificado (MNU) e atuou em movimentos nacionais e internacionais como a Frente Negra Brasileira, a Negritude e o Pan-Africanismo.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Foi um dos maiores defensores da defesa da cultura e igualdade para as populações afrodescendentes no Brasil, nome de grande importância para a reflexão e atividade sobre a questão do negro na sociedade brasileira. Teve uma trajetória longa e produtiva, indo desde o Movimento Integralista, passando por atividade de poeta (com a Hermandad, grupo com o qual viajou de forma boêmia pela América do Sul), até ativista do Movimento Negro, ator (criou em 1944 o Teatro Experimental do Negro) e escultor.

Sobre o movimento integralista declarou:

As lutas nacionalistas e anti-imperialistas, a oposição ao capitalismo e à burguesia, foram os temas que me atraíram para as fileiras integralistas. Etapa importante da minha vida. No integralismo foi onde pela primeira vez comecei a entender a realidade social, econômica e política do país e as implicações internacionais que o envolviam. A juventude integralista estudava muito e com seriedade. Encontrei e conheci pessoas de primeira qualidade como um San Tiago Dantas, Gerardo Mello Mourão ou Roland Corbisier; assim como um Rômulo de Almeida, Lauro Escorel, Jaime de Azevedo Rodrigues (...), o bravo embaixador brasileiro num país europeu que se demitiu da carreira após o golpe militar de 1964; ou ainda d. Hélder Câmara, Ernâni da Silva Bruno, Antônio Galloti, M. Mazei Guimarães e muitos outros. Conheci bem de perto o chefe integralista Plínio Salgado de quem em certa época fui amigo.

Anos mais tarde, sobre as cobranças da UNE quanto ao seu passado integralista, disse: "não tinha nada a declarar naquela espécie de autocrítica sob coação. Nada havia no meu passado para lamentar ou arrepender. Não me submeteria àquela chantagem."[2][3]

Gumercindo Rocha Dorea assim descreveu Abdias à Frente Integralista Brasileira, em 2010: "O nosso encontro seguinte foi na África, no decorrer do II Festival de Arte Negra, realizado na Nigéria, em 1977: integrava, então, a comitiva oficial do Brasil, chefiada por Euro Brandão, na época Secretário-Geral do MEC. Por seu lado, Abdias fazia parte da comitiva norte-americana, liderada por um líder racista, e que trazia para o encontro de Lagos o ódio alimentado contra a raça branca, ali ainda virulentamente dominante. Naquela época era totalmente impossível prever-se a eleição de um Obama... Abdias do Nascimento já não mais encontrava no Integralismo a solução para o problema angustiante da integração da raça negra na estrutura do povo brasileiro. Voltava-se, então, para a doutrina do ódio de raça contra raça, se tornando, indiscutivelmente, o seu líder. Esquecia-se, assim, de Plínio Salgado e os integralistas, 'de cuja agenda constavam a valorização do mestiço e a dignificação do negro', nas palavras de Alberto da Costa e Silva (...). Dezenas e dezenas de anos lutando por um ideal, mesmo maculado em sua etapa derradeira – a dos últimos anos – por um ódio irracional!"[4]

Após a volta do exílio (1968-1978), insere-se na vida política (foi deputado federal de 1983 a 1987, e senador da República de 1997 a 1999 assumindo a vaga após a morte de Darcy Ribeiro), além de colaborar fortemente para a criação do Movimento Negro Unificado (1978). Em 2006, em São Paulo, criou o dia 20 de Novembro como o dia oficial da consciência negra.[5]

Foi casado quatro vezes. Sua terceira esposa foi a atriz Léa Garcia, com quem teve dois filhos, e a última a norte-americana Elizabeth Larkin, com quem teve um filho.

Em 14 de setembro de 2017, teve seu nome dado a um navio da Transpetro - Petrobras Transporte.

Publicações[editar | editar código-fonte]

  • Africans in Brazil: a Pan-African perspective (1997)
  • Orixás: os deuses vivos da Africa (Orishas: the living gods of Africa in Brazil) (1995)
  • Race and ethnicity in Latin America - African culture in Brazilian art (1994)
  • Brazil, mixture or massacre? essays in the genocide of a Black people (1989)
  • Racial Democracy in Brazil, Myth or Reality?: A Dossier of Brazilian Racism (1977)
  • O Griot e as Muralhas, com Éle Semong. Rio de Janeiro, Pallas, 2006.[6]
  • O Quilombo. Edição em fac-smile do jornal dirigido por Abdias Nascimento.São Paulo, Editora 34, 2003.[7]
  • O Quilombismo,2a.ed Brasilia/ Rio de Janeiro. Centro de Estudos Afro-Orientais /Editora da Universidade Federal da Bahia EDUFBA, 2002.
  • O Brasil na Mira do Pan-Africanismo, Salvador, Centro de Estudos Afro- Orientais. Ed. EDUFBA, 2002.
  • Orixás: os Deuses Vivos da África/ Orishas: the Living Gods of Africa in Brazil. Rio de Janeiro/ Philadelphia: Intituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros/ Temple University Press, 1995.
  • A Luta Afro-Brasileira do Senado. Brasília: Senado Federal, 1991.
  • Povo Negro: A sucessão e a “Nova República”. Rio de Janeiro: Ipeafro, 1985.
  • Jornada Negro-Libertária. Rio de Janeiro: Ipeafro, 1984.
  • Axés do Sangue e da Esperança: Orikis. Rio de Janeiro: Achiamé e RioArte, 1983. (Poesia.)
  • Sitiado em Lagos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
  • O Quilombismo. Petrópolis: Vozes, 1980.
  • Sortilégio II: Mistério Negro de Zumbi Redivivo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. (Peça de teatro.)
  • Sortilege: Black Mystery, trad. Peter Lownds. Chicago: Third World Press, 1978.
  • Mixture or Massacre, trad. Elisa Larkin Nascimento. Búfalo: Afrodiaspora, 1979.
  • O Genocídio do Negro Brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
  • Racial Democracy” in Brazil: Myth or Reality, trad. Elisa Larkin Nascimento, 2ª ed. Ibadan: Sketch Publishers, 1977.
  • Racial Democracy” in Brazil: Myth or Reality, trad. Elisa Larkin Nascimento, 1ª ed. Ile-Ife: University of Ife, 1976.
  • Teatro Experimental do Negro, 1959. (Peça de teatro.)

Filmografia[editar | editar código-fonte]

  • Abdias Nascimento – memória negra (2008), de Antonio Olavo[8]
  • Abdias Nascimento (2013), de Aída Marques
  • Cinema de Preto (2005)
  • Cinco Vezes Favela (1962)
  • Terra da Perdição (1962)
  • O Homem do Sputnik (1959)

Homenagens[editar | editar código-fonte]

Homenagens póstumas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Morre no Rio Abdias Nascimento, ativista do movimento negro» 
  2. NASCIMENTO, Abdias do. Entrevista. In CAVALCANTE, Pedro Celso Uchôa e RAMOS, Jovelino (orgs). Memórias do exílio. 1964/1978. De muitos caminhos. Vol. 1, cit., loc. cit.
  3. CAVALCANTE, Pedro Celso Uchôa e RAMOS, Jovelino (orgs). Memórias do exílio em PDF
  4. Gumercindo Rocha Dorea (3 de fevereiro de 2010). «Anauê, Abdias!». Frente Integralista Brasileira. Consultado em 14 de outubro de 2017 
  5. * Joseph A. Page (1995), The Brazilians. Da Capo Press. ISBN 0-201-44191-8.
  6. Nascimento, Abdias (2006). O Griot e as Muralhas. [S.l.: s.n.] ISBN 8534703892 
  7. Abdias Nascimento (1948–1950). «O Quilombo». Teatro Experimental do Negro. Consultado em 22 de julho de 2015 
  8. http://www.ipeafro.org.br/home/br/acervo-digital/43/52/139/abdias-nascimento-memoria-negra-de-antonio-olavo ACERVO IPEAFRO
  9. Universidade de Brasília (2006). «Universidade de brasília». Resolução do CONSUNI 28. Consultado em 20 de novembro de 2014 
  10. University at Buffalo. «Our Colleagues». Obituaries (em inglês). Consultado em 20 de novembro de 2014 
  11. Senado Federal (22 de novembro de 2013). «Resolução nº 47». Consultado em 20 de novembro de 2014 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]