Genocídio em Ruanda

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Um memorial as vítimas do genocídio em Nyamata, feito com o crânio das pessoas assassinadas. As caveiras mostram marcas de violência, como buraco de tiros e aberturas causadas por facões e machados.

Genocídio em Ruanda (português brasileiro) ou no Ruanda (português europeu) foi o massacre perpetrado por extremistas hutus contra tutsis e hutus moderados[1] , em Ruanda, entre 6 de abril e 4 de julho de 1994 .

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Distinguem-se no Ruanda dois grupos étnicos: a maioria hutu e o grupo minoritário, tutsi. Desde a independência do país da Bélgica, os seus líderes foram sempre tutsis, num contexto de rivalidade étnica que se acentuou com o tempo, dada a escassez de terras e a fraca economia nacional, sustentada pela exportação de café. Em 1989, o preço mundial do café reduziu-se em 50%, e Ruanda perdeu 40% de sua renda oriunda de exportações. Nessa época, o país enfrentou sua maior crise alimentar em 50 anos, ao mesmo tempo que aumentavam os gastos militares em detrimento de investimentos em infraestrutura e serviços públicos.

Em outubro de 1990, a Frente Patriótica Ruandesa, composta por exilados tutsis expulsos do país pelos hutus com o apoio do exército, invade Ruanda pela fronteira com Uganda. Em 1993, os dois países firmam um acordo de paz - o Acordo de Arusha.

Cria-se em Ruanda um governo de transição, composto por hutus e tutsis.

Em 1994, as tropas hutus, chamadas Interahamwe, são treinadas e equipadas pelo exército ruandês, em meio a arengas e incitação à confrontação com os tutsis por parte da Radio Télévision Libre de Mille Collines (RTLM), dirigida pelas facções hutus mais extremas. Essas mensagens exaltavam as diferenças que separavam ambos os grupos étnicos e, à medida que os ânimos se exaltavam, os apelos à confrontação e à "caça aos tutsis" tornaram-se mais explícitos, sobretudo a partir do mês de abril, em que se fez circular o boato de que a minoria tutsi planejava o genocídio dos hutus.

De acordo com a jornalista britânica Linda Melvern,[2] que teve acesso a documentos oficiais, o genocídio foi planejado. No início da carnificina, a tropa ruandesa era composta por 30.000 homens (um membro por cada dez famílias) e organizados por todo o país com representantes em cada vizinhança. Alguns membros da tropa podiam adquirir fuzis de assalto AK-47 tão somente preenchendo um formulário de demanda. Outras armas, tais como granadas, nem sequer requeriam esse trâmite e foram generosamente distribuídas.

Apurou-se que o genocídio foi financiado, pelo menos parcialmente, com o dinheiro apropriado de programas internacionais de ajuda, tais como o financiados pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional como Programa de Ajuste Estrutural.[carece de fontes?] As armas vinham principalmente do governo Hutu do país, que as havia adquirido de nações ocidentais (especialmente a França) e, principalmente, de outras nações em desenvolvimento (como o Egito).[3] Estima-se que 134 milhões de dólares foram gastos na preparação do genocídio em Ruanda — uma das nações mais pobres da terra — sendo que 4,6 milhões de dólares foram gastos somente em facões, enxadas, machados, lâminas e martelos. Estima-se que tal despesa permitiu a distribuição de um novo facão a cada três varões hutus.

Segundo Melvern, o primeiro-ministro de Ruanda, Jean Kambanda, revelou[4] que o genocídio foi discutido abertamente em reuniões de gabinete, e uma ministra teria dito que ela era "pessoalmente a favor de conseguir livrar-se de todo os tutsis... sem os Tutsis todos os problemas de Ruanda desapareceriam".

Na década de 1960, seguindo o processo de descolonização do pós-Segunda Guerra, o território ruandês foi deixado pelos belgas. Em quase meio século de dominação, ódio entre as duas etnias transformara aquela região em uma bomba prestes a explodir. Cercados por uma série de problemas, a maioria hutu passou a atribuir todas as mazelas da nação à população tutsi.

Pressionados pelo revanchismo, os tutsis abandonaram o país e formaram imensos campos de refugiados em Uganda. Mesmo acuados, os tutsis e alguns hutus moderados se organizaram politicamente com o intuito de derrubar o governo do presidente Juvenal Habyarimana e retornar ao país. Com o passar do tempo, esta mobilização deu origem à Frente Patriótica Ruandense (FPR), liderada por Paul Kagame.

Na década de 1990, vários incidentes demarcavam a clara insustentabilidade da relação entre tutsis e hutus. No ano de 1993, um acordo de paz entre o governo e os membros do FPR não teve forças para resolver o conflito. O ponto alto dessa tensão ocorreu no dia 6 de abril de 1994, quando um atentado derrubou o avião que transportava o presidente Habyarimana. Imediatamente, a ação foi atribuída aos tutsis ligados ao FPR.

Na cidade de Kigali, capital da Ruanda, membros da guarda presidencial organizaram as primeiras perseguições contra os tutsis e hutus moderados que formavam o grupo de oposição política no país.

O genocídio[editar | editar código-fonte]

Evolução demográfica de Ruanda. Repara-se a notável descida na primeira metade dos anos 90 provocada pelo genocídio.

Em abril de 1994, o presidente ruandês Juvénal Habyarimana (um hutu) foi morto em um atentado contra o seu avião em que viajava. Logo no dia seguinte, o genocídio começou. As milícias hutus avançaram contra vilarejos e cidades por todo o país, matando tudo que viam pela frente. Postos de controle foram estabelecidos nas ruas. Pessoas identificadas como membros da minoria tutsi eram sumariamente executados.[5]

O massacre sistemático no país contra os tutsis causou um deslocamento maciço da população para os campos de refugiados situados nas áreas de fronteira, em especial com o Zaire (hoje República Democrática do Congo). Em agosto de 1995, tropas do Zaire tentaram forçar o retorno desses refugiados para Ruanda. Catorze mil pessoas foram então devolvidas a Ruanda, enquanto outras 150.000 refugiaram-se nas montanhas.[6]

Mais de 500 000 pessoas foram massacradas entre 7 de abril e 15 de julho de 1994 (algumas fontes dizem até 1 milhão de pessoas teriam sido mortas). Quase todas as mulheres foram estupradas. Muitos dos 5 000 meninos nascidos dessas violações foram assassinados.

O genocídio só terminou quando a Frente Patriótica Ruandesa derrotou o governo e se instalou definitivamente no poder. Até os dias atuais, o massacre deixa um profundo legado em Ruanda. O país segue enfrentando problemas étnicos e religiosos, ao mesmo tempo que sofre com dificuldades econômicas e corrupção, gerando extrema pobreza entre a população.[5]

Muitos hutus ajudaram os tutsis a escapar das perseguições. Um caso notório foi o do gerente do Hotel Mille Collines, em Kigali, que foi responsável pela salvação de 1 268 tutsis e hutus, abrigando-os no hotel. Paul Rusesabagina ficou mundialmente conhecido ao ser retratado no filme Hotel Ruanda. Rusesabagina, hoje residente na Bélgica, afirma que, se não forem tomadas posturas duras contra o tribalismo em Ruanda, o genocídio poderá voltar a ocorrer, agora pelas mãos dos tutsis, "governantes" do país desde o fim da matança.

O Tribunal Penal Internacional para Ruanda[editar | editar código-fonte]

Buchenwald-bei-Weimar-am-24-April-1945.jpg

Corpos de prisioneiros do campo de extermínio de
Buchenwald, após o fim da Segunda Guerra Mundial

Principais genocídios
 •De armênios no Império Otomano (1915)
Estimativa de mortos: 1,5 milhão
 •De assírios no Império Otomano (1915)
Estimativa de mortos: 500 a 750 mil
 •De ucranianos na União Soviética (1932-1933)
Estimativa de mortos: 2,6 a 10 milhões
 •De judeus na Alemanha nazista (1939-1945)
Estimativa de mortos: 6 milhões
 •De minorias no Camboja (1975-1979)
Estimativa de mortos: 2 milhões
(25% da população à época)
 •De tutsis em Ruanda (1994)
Estimativa de mortos: 800 mil
 •De minorias no Sudão (2003-atual)
Estimativa de mortos: 400 mil

Em 8 de novembro de 1994, através da resolução 955 do Conselho de Segurança da ONU, foi criado o Tribunal Penal Internacional para Ruanda (TPIR) para julgar os principais responsáveis pelo genocídio.

A Corte Penal Internacional é competente para julgar somente os crimes cometidos após a sua criação, em 1º de julho de 2002. Não é portanto competente para julgar os crimes cometidos em Ruanda, durante o genocídio.

O primeiro-ministro do governo interino ruandês, Jean Kambanda, foi julgado culpado e condenado por genocídio pelo TPIR. 75% dos membros do governo interino foram presos. Vários ministros desse governo foram considerados culpados de participação no genocídio ou estão em fase de julgamento. Dois outros foram liberados.[7] . Em 2011, alguns antigos chefes militares foram considerados culpados de genocídio.[8] .

Calcula-se que 800 mil pessoas tenham sido mortas no genocídio de Ruanda.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Rwanda Genocide: Who Killed The Hutu?
  2. The west did intervene in Rwanda, on the wrong side. France was intimately involved with the extremist Hutu regime, por Linda Melvern. The Guardian, 5 de abril de 2004.
  3. Melvern, Linda. A people betrayed: the role of the West in Rwanda's genocide. 8, illustrated, reprint ed. London; New York, N.Y.: Zed Books, 2000. ISBN 978-1-85649-831-9
  4. Ex-Rwandan PM reveals genocide planning, por Mark Doyle. 26 de março de 2004.
  5. a b Prunier, Gérard. The Rwanda Crisis: History of a Genocide. 2nd ed. Kampala: Fountain Publishers Limited, 1999. ISBN 978-9970-02-089-8
  6. Rittner, Carol. 'In Steven Leonard Jacobs, ed., Confronting Genocide: Judaism, Christianity, Islam (pp. 291–305)'. Lanham, MD: Lexington Books, 2009. ISBN 978-0-7391-3588-4
  7. « Un second ministre acquitté, un nouveau procès ouvert », Agência Hirondelle, 22 de setembro de 2006.
  8. Quatre ex-responsables militaires déclarés coupables de génocide.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]