Musicoterapia

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Musicoterapia é a utilização da música num contexto clinico, educacional e social com o objetivo de ajudar os utentes a tratar ou prevenir problemas de saúde mental. É um processo efetuado por um profissional qualificado, um(a) musicoterapeuta, que através de elementos constituintes da música (ritmo, melodia e harmonia) facilita e promove comunicação, relacionamento, aprendizado, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos relevantes. Através da música, atende às necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas do paciente, baseando-se em evidencias científicas. A musicoterapia busca desenvolver potenciais e/ou restaurar funções do indivíduo para que ele ou ela alcance uma melhor qualidade de vida através da prevenção, reabilitação ou tratamento de doenças.[1]

A musicoterapia é internacionalmente reconhecida como uma atividade clínica e regulamentada no âmbito das profissões da saúde. A investigação, prática clínica, educação e formação clínica estão definidas por standards de entidades profissionais de acordo com contextos culturais, sociais e políticos. Atualmente existe um sistema de certificação com emissão de licença profissional para musicoterapeutas no Reino Unido, na Noruega, na Austria e nos Estados Unidos da América.

Principais Contextos de Intervenção[editar | editar código-fonte]

Os musicoterapeutas trabalham com uma grande quantidade de pacientes. Entre estes, estão incluídas pessoas com dificuldades motoras, autistas, pacientes com deficiência mental, paralisia cerebral, dificuldades emocionais, pacientes psiquiátricos, gestantes e idosos. O trabalho musicoterápico pode ser desenvolvido dentro de equipas de saúde multidisciplinares, em conjunto com médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e educadores que ajuda no tratamento na musicoterapia. Também pode ser um processo autônomo realizado em consultório. Recentemente, uma das maiores aplicações de sucesso reconhecido da musicoterapia tem sido o tratamento da dor crônica e estresse pós-traumático.

Particular[editar | editar código-fonte]

Indicado aos pacientes que requerem uma intervenção individualizada e que não se inserem em contextos institucionais. Estas intervenções são normalmente realizadas em consultórios musicoterapêuticos. Como exemplo, beneficiam deste contexto especialmente pacientes vítimas de patologias da depressão e de perturbações da relação e da comunicação (por exemplo perturbações do espectro do autismo).

O desenvolvimento pessoal através da música pode realizar-se neste contexto individual e particular.

Hospitalar[editar | editar código-fonte]

Intervenções realizadas em hospitais, maternidades, centros de saúde, clínicas, como complemento à reabilitação física. Os pacientes deste contexto procuram o musicoterapeuta para gestão da dor, reabilitação da motricidade, cuidados paliativos e apoio emocional.

Há intervenções que se dedicam especificamente à gravidez e ao parto (à pré-natalidade e à perinatalidade). As técnicas de musicoterapia também se têm revelado eficazes com bebés prematuros.

Psiquiátrico[editar | editar código-fonte]

Contexto para pacientes com psicose, perturbação bipolar e perturbações graves da personalidade.

Geriátrico[editar | editar código-fonte]

Este contexto dedica-se a melhorar a qualidade de vida e bem-estar de idosos, trabalhando frequentemente com pacientes vítimas de doença de alzheimer e demência.

Educacional[editar | editar código-fonte]

Contexto frequentemente escolar, com crianças e adolescentes com necessidades educativas especiais. Beneficiam deste contexto especialmente os pacientes com perturbações emocionais e do comportamento. Este tipo de intervenção requer frequentemente a reabilitação psicossocial dos pacientes.

Comunitário[editar | editar código-fonte]

Estas intervenções atuam especialmente na reabilitação psicossocial, tendo como exemplo pacientes vítimas de dependências, presidiários e refugiados.

Também os grupos terapêuticos de desenvolvimento pessoal através da música realizam-se com frequência no contexto comunitário, incidindo sobre o bem-estar e a prevenção.

História[editar | editar código-fonte]

O uso da música como método terapêutico vem desde o início da história humana. Os Papiros de Lahun contém o primeiro registo escrito sobre a utilização terapêutica da música até hoje encontrado[2]. Outros registros a esse respeito podem ser encontrados na obra de filósofos gregos pré-socráticos.

No século IX da Idade de Ouro Islâmica, a música tinha utilização terapêutica. O cientista, psiquiatra e musicólogo Al-Farabi faz referência ao efeito terapêutico da música no seu tratado Significados do Intelecto.[3]

Sistematização da Musicoterapia[editar | editar código-fonte]

A sistematização dos métodos utilizados começou após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com pesquisas realizadas nos Estados Unidos. O primeiro curso universitário de Musicoterapia foi criado em 1944 na Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos.

Por volta dos anos 50 e 60 aparecem os modelos pioneiros da musicoterapia. Como Nordoff-Robbins, que surge da parceria entre Paul Nordoff e Clive Robbins que inicialmente estabeleceram um programa com música em unidades de cuidado nos departamentos de crianças autistas e psiquiatria infantil, no Reino Unido e posteriormente nos Estados Unidos. O seu sucesso com crianças autistas na Universidade da Pensilvânia concedeu-lhes a investigação de 5 anos:“Music Therapy Project for Psychotic Children Under Seven at the Day Care Unit”, com publicação, estágios e tratamentos.[4]

Em 1985 a World Federation of Music Therapy (WFMT) foi formalmente estabelecida em Génova, Itália. Foi fundada por Rolando Benenzon (Argentina), Giovannia Mutti (Italia), Jacques Jost (França) Barbara Hesser (EUA), Amelia Oldfield (Reino Unido), Ruth Bright (Austrália), Heinrich Otto Moll (Alemanha), Rafael Colon (Porto Rico), Clementina Nastari (Brasil), and Tadeusz Natanson (Polónia), para promover globalmente a profissão[5].

Processo[editar | editar código-fonte]

O processo da musicoterapia pode se desenvolver de acordo com vários métodos. Alguns são receptivos, quando o musicoterapeuta toca música para o paciente. Este tipo de sessão normalmente se limita a pacientes com grandes dificuldades motoras ou em apenas uma parte do tratamento, com objetivos específicos. Na maior parte dos casos a musicoterapia é ativa, ou seja, o próprio paciente toca os instrumentos musicais, canta, dança ou realiza outras atividades junto com o terapeuta. A forma como o musicoterapeuta interage com os pacientes depende dos objetivos do trabalho e dos métodos que ele utiliza. Em alguns casos, as sessões são gravadas e o terapeuta realiza improvisações ou composições sobre os temas apresentados pelo paciente.

Alguns musicoterapeutas procuram interpretar musicalmente a música produzida durante a sessão. Outros preferem métodos que utilizem apenas a improvisação sem a necessidade de interpretação. Os objetivos da produção durante uma sessão de musicoterapia são não-musicais, por isso não é necessário que o paciente possua nenhum treinamento musical para que possa participar deste tratamento. O musicoterapeuta, por outro lado, devido às habilidades necessárias à condução do processo terapêutico, precisa ter proficiência em diversos instrumentos musicais. Os mais usados são a guitarra clássica (violão), o piano (ou outros instrumentos com teclado) e instrumentos de percussão.

Musicoterapeuta[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Musicoterapeuta

O profissional responsável por conduzir o processo musicoterápico é chamado musicoterapeuta. A formação desse profissional é feita em cursos de graduação em musicoterapia ou como especialização para profissionais da área de música ou saúde (músicos, professores de música, médicos ou psicólogos). Em alguns países, a musicoterapia também pode ser parte de uma formação em arteterapia, que envolve, além da música, técnicas de artes plásticas e dança.

A formação do musicoterapeuta inclui teoria musical, canto, percussão, prática em ao menos um instrumento harmônico (piano ou violão) e instrumentos melódicos (principalmente flauta doce).

Também faz parte, da formação do musicoterapeuta, o conhecimento de métodos de educação musical (como o Método Orff ou o Método Kodály), noções de expressão artística, expressão corporal, dança, técnicas grupais, assim como psicologia, filosofia, anatomia e fisiologia humana e neurologia.

O dia do musicoterapeuta é comemorado no Brasil em 15 de setembro. Na Europa, celebra-se a 15 de Novembro o Dia Europeu da Musicoterapia[6].

Estilos musicais e Contextos culturais[editar | editar código-fonte]

A intervenção terapêutica pode vir associada a outras técnicas como relaxamento progressivo, treinamento autógeno, reiki, ioga ou acupuntura. Apesar de haver um subentendido consenso sobre os benefícios da música clássica ou a música psicodélica eletrônica de sons contínuos ou no caso de acupuntura e ioga indiana associada à meditação assim como a música da China, é correto saber que o efeito da música sobre o paciente depende de sua história de convívio com os diversos estilos musicais por um processo de condicionamento estético e/ou vivência por ventura associadas.

Por outro lado, os musicoterapeutas, na sua formação, estudam os efeitos dos ritmos repetidos, a associação de ritmos ao transe e êxtase místico e/ou o seu efeito sobre as emoções humanas, conhecimento este relativamente bem conhecido por exemplo por produtores da música de filmes (música de suspense, ação, sensualidade etc.) e peças teatrais, incluindo a ópera.

África[editar | editar código-fonte]

O primeiro programa de musicoterapia africano abriu em 1999, em Pretória na África do Sul. A investigação revelou que na Tanzânia os pacientes podem receber cuidados paliativos para doenças que ameaçam a vida logo após o diagnóstico. Isto contrasta com o que acontece em muitos países ocidentais, onde se reservam os cuidados paliativos para pacientes com doenças incuráveis.

A música também é vista de uma forma particular em África. Na maioria das culturas do mundo a música é tradicionalmente vista como entretenimento, enquanto que em muitas culturas africanas a música é utilizada para recontar histórias, celebrar eventos da vida ou enviar mensagens.

Fones de ouvido podem ser utilizados na musicoterapia

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Rolando Benenzon, Manual de musicoterapia, Paidós Ibérica, Barcelona, 1985.
  • Marcello Sorce Keller, "Some Ethnomusicological Considerations about Magic and the Therapeutic Uses of Music", International Journal of Music Education, 8/2(1986), 13- 16.
  • Léon Bence y Max Méreaux, Guía muy práctica de musicoterapia, Editorial Gedisa, Barcelona, 1988.
  • Leão, Eliseth R.; Silva, Maria J.P. Música e dor crônica músculoesquelética: o potencial evocativo de imagens mentais. Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.12 no.2 Ribeirão Preto Mar./Apr. 2004 disponível em pdf
  • Hilliard, Russell E. Music Therapy in Hospice and Palliative Care: a Review of the Empirical Data eCAM 2005;2(2)173–178 (em inglês)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  1. World Federation of Music Therapy
  2. Tang, Hsin-Yi. «The Use of Music Intervention in Healthcare Research: A Narrative Review of the Literature». Journal of Nursing Research. doi:10.1097/JNR.0b013e3181efe1b1 
  3. Haque, Amber. «Psychology from Islamic Perspective: Contributions of Early Muslim Scholars and Challenges to Contemporary Muslim Psychologists» (PDF). Journal of Religion and Health. Consultado em 7 de janeiro de 2013 
  4. «Nordoff Robbins - NYU Steinhardt». steinhardt.nyu.edu (em inglês). Consultado em 19 de fevereiro de 2017 
  5. «About WFMT». World Federation of Music Therapy (em inglês) 
  6. Heerden, Cunera van (26 de agosto de 2014). «What». Music Therapy Day (em inglês)