Homossexualidade na Idade Média

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A homossexualidade na Idade Média, é uma matéria de complexo estudo, embora os académicos e os estudiosos do "mesmo sexo" eram comuns nas culturas árabe medieval, como comprovado nas poesias deixadas sobre o amor do mesmo sexo.

De acordo com John Boswell, autor de Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade,[1] houve comunidades monásticas cristãs de pessoas do mesmo sexo e de outras ordens religiosas, em que a homossexualidade prosperou. De acordo com Chauncey et al. (1989), o livro "ofereceu uma interpretação revolucionária da tradição ocidental, afirmando que a Igreja Católica Romana não havia condenado os gays ao longo de sua história, e, pelo menos até o século XII, não tinha evidenciada nenhuma preocupação especial sobre a homossexualidade ou o amor celebrado entre homens."

Boswell foi também o autor de Same-Sex Unions in Pre-Modern Europe (New York: Villard, 1994) no qual ele argumenta que a liturgia adelphopoiesis evidência de que a atitude da igreja cristã em relação à homossexualidade tem mudado ao longo do tempo, e os cristãos da altura, na verdade aceitavam as relações homossexuais[2].

Alguns críticos, nomeadamente RW Southern, refutam os achados de Boswell e o rigor académico. O seu trabalho atraiu grande controvérsia, pois foi visto por muitos como apenas uma tentativa de Boswell justificar a sua homossexualidade e a fé católica romana. Por exemplo, aponta RW Southern, que o homossexualismo tinha sido condenado extensivamente por líderes religiosos e estudiosos medievais bem antes do século XII, apontando para os livros de punições que eram comuns na sociedade medieval, muitos dos quais incluem a homossexualidade como um dos pecados graves.[3]

A história de relações homossexuais entre mulheres na Idade Média é extremamente difícil de estudar, mas não há nenhuma dúvida da sua existência. Alguma legislação contra as relações lésbicas podem ser invocados para o período, principalmente envolvendo o uso de "instrumentos", por outras palavras, dildos.[4]

História[editar | editar código-fonte]

Durante a Idade Média a vontade de Deus era o argumento para todas as acções, inclusive em situações cruéis. A ascensão do Cristianismo em Roma reverteu os valores da época, caçou hereges e perseguiu os diferentes. O Papa passou a ter um poder divino sobre a terra, dividindo com os imperadores o governo das nações. O conhecimento ficou restrito aos nobres e aos clérigos.

A religião de Roma prosseguiu. Diversos são os relatos sobre casos de homossexualidade dentro das religiões e Papas homossexuais fizeram parte da história da Igreja. Em 1123, foi declarada a nulidade de casamentos de padres.[5]

Inquisição[editar | editar código-fonte]

O papa Gregório instituiu o direito ao Tribunal do Santo Ofício, em 1231, e ordenou o combate às mazelas difundidas em toda a Europa. Os homossexuais foram tão perseguidos que, somente no Brasil, já no século XVII, foram registadas 4.419 denúncias de sodomia, dos quais, 30 foram enviados à Metrópole e condenados à fogueira. Muitos fidalgos portugueses fugiam para a então colónia em busca de sossego da Inquisição.

A sodomia era considerada a pior das heresias. Para homossexuais, a idade justificava a pena. Após confissões obtidas na base da tortura, o indivíduo abaixo de 15 anos era recluso por três meses. Acima dessa idade, deveria ir preso e posteriormente pagar multa. Os adultos deveriam pagar multas, caso contrário tinham os seus genitais amarrados e deveriam andar nus pela cidade, serem açoitados e depois expulsos. Caso fossem maiores de 33 anos, o acusado seria julgado, sem direito a defesa e, caso condenado, morto em fogueira e seus bens confiscados. Apesar de todo os esforços, nesse mesmo período existem relatos de pelo menos dois papas homossexuais: Papa Paulo II e Papa Alexandre VI.[5]

Península Ibérica ( al-Andalus)[editar | editar código-fonte]

A homossexualidade não existia na Idade Média Ibérica. Os cristãos condenavam qualquer prática sexual não-procriativa, sendo que o acto não-procriativo, quando os agentes eram um homem e uma mulher, muitas vezes recebia penas mais severas que entre dois homens (a sodomia)[6]. Não havia, portanto, uma identidade homossexual. Quando dois homens mantinham um relacionamento íntimo não sexual, eram, pelo contrário, vistos como dotados de honra e valores.

História[editar | editar código-fonte]

Na região conhecida como al-Andalus, governada por muçulmanos, os não cristãos que praticavam a sodomia abertamente, tendo relacionamentos estáveis e intercurso sexual com parceiros do mesmo sexo, eram a elite intelectual e política da época. Abderramão III, Aláqueme II, Hisham II, e al-Mutamid mantinham haréns masculinos. As memórias de Badis, o ultimo rei Zirid de Granada, faz inúmeras referências à contratação de prostitutos, que além de cobrarem valores exorbitantes pelos seus serviços, mantinham como clientela a mais alta classe da região.[7] A despeito das inúmeras críticas dos cristãos, a sodomia nunca foi claramente condenada entre árabes e judeus medievais. No último século de dominação islâmica na Espanha, a sodomia era inclusive vista como uma prática de resistência ao cristianismo que se impunha cruelmente, destruindo escolas, bibliotecas, sinagogas e mesquitas da região. A Idade do Ouro do ocultismo também aconteceu em Al-Andalus, na Idade Média Ibérica. Os místicos, principalmente judeus e muçulmanos, estudavam, desenvolviam e ensinavam a Cabala e a Alquimia. A Ordem dos Templários teve uma presença significativa nessa região, onde são encontradas a maioria dos capítulos da Ordem. Principalmente entre os místicos muçulmanos e judeus o relacionamento entre dois homens era bastante comum e visto com naturalidade. Os cristãos referiam-se a esses místicos como escandalosos e depois de inúmeras acusações, terminaram por decretar a pena de morte aos sodomitas. Alguns grupos se mantiveram ocultos em confrarias e irmandades secretas, consta inclusive a presença de cristãos nesses grupos, que realizavam uma espécie de culto à Virgem Maria[8] e podem ter relações com a Ordem dos Templários[9].

O casal mais famoso desse período foi Juan II e o seu amante Álvaro de Luna. O assassinato de Álvaro de Luna pelos cristãos se tornou no século XVII um evento bastante representativo da repressão à sodomia. Granada era vista como um lugar frequentado predominantemente por intelectuais e artistas abertamente sodomitas. Os cristãos acusavam os judeus de terem introduzido a sodomia na Espanha. [10]A relação entre os judeus sefaraditas de Granada e a sodomia ainda é claramente vista em letras de canções tradicionais da época.[11] Federico García Lorca, nascido em Granada e tido como o maior poeta da Espanha e um dos maiores escritores do mundo, homossexual assumido que foi assassinado pelos franquistas na Guerra Civil Espanhola[12][13]. , fez inúmeras referências à Granada sodomita nos seus escritos. Por se tratar de uma história contada pela minoria sobrevivente ao massacre provocado pela cristandade ibérica, os estudos sobre a homossexualidade nesse período ainda são insuficientes para determinar com mais clareza a vida quotidiana em Al-Andalus.

O lesbianismo era comum, sobretudo nos haréns, embora se tratasse de relações mantidas discretamente por serem passíveis de utilização em intriga política.[14] Algumas mulheres privilegiadas do Al-Andaluz tinham acesso à educação; existem antologias modernas de poesia escrita por mulheres,[15][16] em que o amor entre mulheres aparece tratado com naturalidade.[17]

A homossexualidade passa a ser categorizada e referida como anomalia a partir do século XIX, por influência do pensamento cristão na formação de cientistas e académicos da época. Até mesmo os pensadores muçulmanos e judeus posteriores acabam sofrendo influência ideológica do cristianismo, passando a condenar veementemente a homossexualidade, sem saber que muitos místicos e estudiosos que sistematizaram seus rituais e textos sagrados eram abertamente homossexuais.

Poesia homo erótica[editar | editar código-fonte]

Por entre o esplendor medieval da cultura judaica descobriu-se, graças aos estudos de Jefim Schirmann e Norman Roth, que o homoerotismo e a homossexualidade tiveram grande importância na sociedade judaica da época. De facto, na cultura cristã e entre os séculos XIII e XVII, associava-se o judaísmo à perversão sexual e à homossexualidade, sobre o que ficou testemunho na poesia satírica da época.[18]

Os autores da poesia homoerótica hispanojudaica, que declaram o seu amor tanto a rapazes como a homens adultos, chegavam a ser importantes líderes das suas comunidades ou rabis, como é o caso de Ibn Gabirol, Samuel ha-Naguid, Moisés Ibn Ezra e Judah ha-Levi.[18]

Referências

  1. New Haven: Yale University Press (1980)
  2. John Boswell page; "People with a History: An Online Guide to Lesbian, Gay, Bisexual and Trans* History " Fordham University; 1997. Retrieved January 16, 2010.
  3. Mathew Kuefler (2006). The Boswell Thesis: Essays on Christianity, Social Tolerance, and Homosexuality. University of Chicago Press. ISBN 9780226457413 
  4. Singlewomen in the European Past. University Pennsylvania Press. 1999. pp. 10–11, 128  line feed character character in |publisher= at position 11 (ajuda)
  5. a b «A homossexualidade na História - Da antiguidadade ao século XIX». Revista Lado A. Consultado em 8 de agosto de 2011 
  6. KATZ, J.N. A invenção da heterossexualidade. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.
  7. Ibn Said al-Maghribi, The Banners of the Champions, trad. James Bellamy e Patricia Steiner (Madison: Hispanic Seminaryof MedievalStudies, 1988)
  8. Encyclopedia of Medieval Iberia, ed. MichaelGerli (New York: Routledge, 2003), 398–399.
  9. Gay Warriors, by Burg, B. R., et al.; New York: New York University Press, 2002. ISBN 0-8147-9886-1.
  10. “‘My Beloved is Like a Gazelle’: Imagery of the Beloved Boy in Religious Hebrew Poetry,” Hebrew Annual Review, 8 (1984), 143-65.
  11. “The Ephebe in Medieval Hebrew Poetry,” Sefarad, 15 (1955), 55-68; Norman Roth
  12. Portal Poesía
  13. Federico García Lorca, 70 aniversario de su muerte, Universia.
  14. "Homosexuality. A history", Colin Spencer, 1996, Londres: Fourth Estate, id = 1-85702-447-8
  15. Teresa Garulo, "Diwan de las poetisas de al-Andalus", 1986, Madrid, Hiperión
  16. Mahmud Subḥ, "Poetisas arábigo-andaluzas", segunda edição, 1994, Granada, Diputación Provincial de Granada
  17. Daniel Eisenberg, 1999, Homosexuality in Spanish history and culture data de acesso: 30 de Abril de 2007 (em inglés
  18. a b Daniel Eisenberg, 2004, Efebos y homosexualidad en el medievo ibérico acedida em 30 de Abril de 2007