Dácia

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Na geografia da Antiguidade, especialmente em fontes romanas, Dácia era o nome dado à região habitada pelos dácios (ou getas, como eram conhecidos pelos antigos gregos), um ramo dos trácios que vivia a norte dos Bálcãs.

A Dácia tinha como suas fronteiras meridionais o rio Danúbio - Istro (Istros), nas fontes gregas) - ou, em sua maior extensão, o Monte Hemo (em latim: Haemus Mons), atual cordilheira dos Bálcãs. A Mésia (Dobrogea), uma área a sul do Danúbio, era o centro da região onde os getas viviam e interagiam com os antigos gregos. A leste, tinha como fronteiras naturais o Ponto Euxino (Mar Negro) e o rio Danastro (Danastris, atualmente Dniester), citado nas fontes gregas como Tiras (Tyras). Diversos povoados dácios foram registrados, no entanto, entre os rios Dniester e Hípanis (Hypanis, atualmente rio Bug), e o Tísia (Tisza), a oeste.

Por vezes, a Dácia encompassou áreas entre o Tisza e o Danúbio Médio. A cadeia de montanhas dos Cárpatos localizava-se bem no meio da Dácia. Correspondia aos países atuais da Romênia e Moldávia, bem como partes menores da Bulgária, Sérvia, Hungria e Ucrânia.

Os dácios (ou getas) eram tribos trácias setentrionais.[1] As tribos dácias tiveram tanto relações pacíficas quanto belicosas com outras tribos vizinhas, como os celtas, antigos germânicos, sármatas e citas, porém foram mais influenciados pelos gregos e romanos. Estes acabaram por conquistá-los, e assimilá-los, linguística e culturalmente.

Um reino dácio de dimensões variadas existiu entre 82 a.C. até a conquista romana, em 106 d.C. A capital da Dácia, Sarmisegetuza, localizada na Romênia atual, foi destruída pelos romanos, porém seu nome foi acrescentado ao da nova cidade (Ulpia Traiana Sarmizegetusa), construída por eles para servir como capital da província romana da Dácia.

Nomenclatura[editar | editar código-fonte]

Antiguidade[editar | editar código-fonte]

Os dácios, situados a norte do baixo Danúbio, na região dos Cárpatos e da Transilvânia, são o primeiro povo a ser mencionado por nome na história da Romênia. Aparecem pela primeira vez nos escritos dos gregos antigos, em Heródoto[2] e Tucídides.[3] [4]

Posteriormente, os dácios foram mencionados em documentos dos romanos,[5] e também sob o nome de getas. Estrabão, em sua Geografia,[6] fala sobre a divisão entre os dácios e getas, definindo estes como aqueles que se encontravam próximos ao Ponto, a leste, e os dácios, que se encontravam na direção oposta, próximos à Germânia e às nascentes do Istro. Na opinião de Estrabão, o nome original dos dácios era "daoi", que o historiador romeno Mircea Eliade, em seu livro De Zalmoxis à Genghis Khan, explicou como um possível cognato do frígio "Daos", nome do deus-lobo. Esta teoria é reforçada pelo fato de que o estandarte dácio, o chamado Draco Dácio, tinha uma cabeça de lobo. O célebre mapa romano Tabula Peutingeriana lista-os como Dagae e Gaete.

Cultura[editar | editar código-fonte]

Reino dácio, durante o reinado de Burebista, 82 a.C.

Os dácios obtiveram um grau considerável de civilização na época em que pela primeira vez se tornaram do conhecimento dos romanos.

Religião[editar | editar código-fonte]

De acordo com o relato da história de Zalmoxis (ou Zamolxis) no livro 4 da História de Heródoto, os getas (falantes da mesma língua dos dácios - Estrabão) acreditavam na imortalidade da alma e consideravam a morte uma mera mudança de país. Seu supremo sacerdote possuía uma posição eminente como representante da divindade suprema, Zamolxis. O sacerdote principal era também o principal conselheiro do rei. O godo Jordanes em sua Getica (A origem e feitos dos godos) fala de Dicineus (Deceneus), o maior sacerdote de Buruista (Burebista).

Além de Zamolxis, os dácios acreditavam em outras divindades, tais como Gebeleizis e Bendis.

Sociedade[editar | editar código-fonte]

Os dácios dividiam-se em duas classes: a aristocracia (tarabostes) e as pessoas comuns (comati).

Apenas a aristocracia tinha o direito de cobrir suas cabeças e usar um chapéu de feltro (por isso pileati, seu nome em latim). Eles formavam uma classe privilegiada, e supõe-se que eram os predecessores dos boyars romenos.

A segunda classe, que abrangia os soldados rasos do exército, os camponeses e artesãos, pode ter sido chamada de capillati (em latim). Sua aparência e vestimentas podem ser vistas na Coluna de Trajano.

Os dácios desenvolveram o Murus Dacicus, característico de seus complexos de cidades fortificadas, como sua capital Sarmisegetusa na atual Hunedoara (Romênia). O grau de desenvolvimento urbano dos dácios pode ser visto na Coluna de Trajano e no relato de como Sarmisegetusa foi derrotada pelos romanos. Os romanos identificaram e destruíram os canais de água da capital dácia, somente assim sendo capazes de acabar com o longo cerco de Sarmisegetusa.

Cronistas gregos e romanos registraram a derrota e captura de Lisímaco no século III a.C. pelos getas (dácios) governados por Dromihete, sua estratégia militar e a libertação de Lisímaco após um debate na assembléia dos getas.

As cidades dos dácios eram conhecidas como Dava, Deva, Deba ou Daba : Buri Dava, Marco Dava, Petro Dava, Saca Dava, Suci Dava, Pelen Dava, Pulpu Deva, Rusi Dava, Cumu Deva, Clepi Dava, Cumi Dava, Per Buri Dava, Doci Dava, Argi Dava, Ita Deba, Desu Daba, Dausa Dava, Saga Dava, etc.

Atividades[editar | editar código-fonte]

As principais atividades dos dácios eram agricultura, apicultura, vinicultura, criação de gado e trabalho em metal. A província romana da Dácia é representada no sestércio (moeda) romano como uma mulher sentada em uma rocha segurando uma águia, com uma criança pequena no seu joelho segurando grãos e uma criança pequena sentada a sua frente segurando uvas.

Eles também trabalhavam nas minas de ouro e prata da Transilvânia. Mantinham também um considerável mercado externo, como é visto pelas várias moedas estrangeiras encontradas no país. Veja o Tesouro de Decebalus

Língua[editar | editar código-fonte]

Artigo principal: Língua dácia

As características da língua dácia ainda são discutidas, devido a evidências arqueológicas insuficientes.

História[editar | editar código-fonte]

Entidades políticas[editar | editar código-fonte]

Dácia clássica e arredores, do Classical Atlas to Illustrate Ancient Geography de Alexander G. Findlay, New York, 1849.

No início do século II a.C., sob o governo de Rubobostes, um rei dácio da atual Transilvânia, o poder dos dácios na Planície Panônia, a região entre os Cárpatos, os Alpes Dináricos e os Bálcãs, aumentou com a derrota dos Celtas que anteriormente detinham o poder na região.

Existia um reino da Dácia, pelo menos, desde o início da primeira metade do século II a.C. sob o governo do rei Oroles. Conflitos com os bastarnas e os romanos (112 a.C.-109 a.C., 74 a.C.), contra os quais eles auxiliaram os escordiscos e os dardânios, enfraqueceram grandemente os recursos dos dácios.

Sob a regência de Burebista (Boerebista), um contemporâneo de Júlio César, que reorganizou completamente o exército e elevou o padrão de moral do povo, os limites do reino foram estendidos ao seu máximo. Os bastarnas e os bois foram conquistados, e mesmo as cidades gregas de Olbia e Apolônia no Mar Negro (Pontus Euxinus) reconheceram a autoridade de Burebista.

De fato, os dácios pareciam tão formidáveis que César considerou a possibilidade de enviar uma expedição contra eles; fato que apenas sua morte impediu. Por volta da mesma época, Burebista foi assassinado, e o reino foi dividido em quatro (ou cinco) partes sob o comando de governantes separados. Um desses governantes chamava-se Cotiso, com cuja filha diz-se que Augusto desejava casar e com ele Augusto noivou sua própria filha de cinco anos de idade, Júlia. Ele é bem conhecido pelo verso de Horácio (Occidit Daci Cotisonis agmen, Odes, III. 8. 18).

Os dácios são freqüentemente mencionados no reinado de Augusto, que de acordo com ele foram compelidos a reconhecer a supremacia romana. Contudo, de modo algum eles foram subjugados, e em épocas posteriores, para manterem sua independência, eles aproveitaram cada oportunidade de atravessar o congelado Danúbio durante o inverno para devastar as cidades romanas na província de Mésia.

A conquista romana[editar | editar código-fonte]

Dácia
REmpire-Dacia.png
Localização da província (em destaque) no Império Romano.
Anexada em: ~106 d.C.
Imperador romano:
Capital:
Fronteiras (províncias):
Correspondência actual: Roménia e Moldávia

De 85 a 89 d.C., os dácios entraram em guerra duas vezes com os romanos, no reinado de Duras ou Diurpaneu e no do grande Decébalo.

Após dois graves reveses, os romanos, sob o comando de Tétio Juliano, obtiveram uma notável vantagem, mas foram obrigados a entrar em acordo de paz devido à derrota de Domiciano pelos marcomanos. Decébalo devolveu as armas que havia obtido e alguns dos prisioneiros. No entanto, os dácios foram de fato deixados independentes, como é visto pelo fato de que Domiciano concordou em adquirir imunidade pelo pagamento de um tributo anual.

Para pôr um fim a esse desonroso arranjo, ou talvez para restaurar as finanças do Império Romano com a captura do famoso Tesouro de Decébalo, Trajano resolveu conquistar a Dácia, ganhando assim controle sobre as minas de ouro dácias da Transilvânia. O resultado de sua primeira campanha (101-102) foi o cerco da capital dácia Sarmizegetusa e a ocupação de parte do país. A segunda campanha (105-106) obteve o suicídio de Decébalo e a conquista do território que formaria a província romana Dácia Trajana. A história da guerra é apresentada por Dião Cássio, mas o melhor comentário sobre a mesma é a famosa Coluna de Trajano em Roma.

O governo romano[editar | editar código-fonte]

A província romana da Dácia era limitada pela Transilvânia e Oltênia. Ela ficava sob o comando de um governador da classe pretoriana, e a Legio XIII Gemina, com numerosos auxiliares, tinha seus quartéis fixos na província. Devido a uma diminuição da população do território conquistado, causada pelas recentes guerras dácias e a conseqüente fuga de muitos dácios para o norte dos Cárpatos, colonos foram trazidos do exterior para cultivar a terra e trabalhar nas minas ao lado da população dácia que pode ser vista na Coluna de Trajano submetendo-se a Trajano durante as Guerras Dácias. Os romanos construíram fortes como uma proteção contra os ataques dos roxolanos, buros, alanos, cárpios e dácios livres, e construíram três grandes estradas militares para ligar as principais cidades. Uma quarta estrada, chamada de Trajana, atravessava os Cárpatos e entrava na Transilvânia pelo passo de Roteturm (Turnu Rosu).

As principais cidades da província eram Colônia Úlpia Trajana Sarmizegetusa (atual Sarmizegetusa, condado de Hunedoara, Romênia), Apulum (atual Alba-Iulia, condado de Alba), Napoca (atual Cluj-Napoca, distrito de Cluj) e Potaissa (atual Turda, condado de Cluj). Os dácios adotaram a religião e a língua dos conquistadores - a língua romena moderna sendo uma língua românica.

Em 129, Adriano dividiu a Dácia em Dácia Superior e Dácia Inferior, a primeira abrangendo a Transilvânia e a segunda a Pequena Valáquia ou Oltênia. Marco Aurélio a redividiu em três (tres Daciae): Porolissensis, segundo a principal cidade Porolisso (próxima de Moigrad, condado de Salaj), Apulensis segundo Apulum e Malvensis segundo Malva (local desconhecido). As tres Daciae formavam uma única sociedade enquanto possuíam uma capital em comum, Ulpia Traiana Sarmizegetusa, e uma assembléia comum, que discutia as questões provinciais, formulava reclamações e ajustava a freqüência da cobrança de impostos. No entanto, em outras questões elas eram províncias praticamente independentes, cada uma administrada por um procurador ordinário subordinado ao governador de classe consular.

Após as Guerras Dácias, os dácios foram recrutados para o exército romano, e foram empregados na construção e guarda da Muralha de Adriano na Britânia, ou em outros lugares no Império Romano. Várias Cohors Primae Dacorum (primeira coorte dos dácios) e Alae (Ala) Dacorum que lutavam nas fileiras da legião ficavam situadas em Deva (Chester), Vindolanda (Stanegate) e Camboglana (Birdoswald), na Britânia. A Coluna Antonina de Marco Aurélio e o Arco de Galério retratam as coortes dácias e seus característicos gorros frígios e estandarte draco partiano. A palavra portuguesa adaga vem da palavra do latim vulgar daca, uma faca dácia.

A retirada romana[editar | editar código-fonte]

O domínio romano sobre o país ainda era precário. De fato diz-se que Adriano, ciente da dificuldade de mantê-lo, considerou o abandono do país e deteve-se apenas por consideração pela segurança dos numerosos colonizadores romanos.

No governo de Galiano (256), os godos atravessaram os Cárpatos e expulsaram os romanos da Dácia, com a exceção de alguns locais fortificados entre o (rio) Timis e o Danúbio. Nenhum detalhe do evento foi registrado, e o principal argumento em apoio à afirmação em Festo (historiador) de que "no governo do imperador Galeno a Dácia foi perdida" é o súbito término de inscrições e moedas romanas no país após 256.

Aureliano (270-275) retirou todas as tropas e fixou a fronteira romana no Danúbio. Uma nova Dácia Aureliana foi reorganizada ao sul do rio Danúbio, com sua capital em Sérdica (atualmente a capital búlgara Sófia).

História pós-romana[editar | editar código-fonte]

A questão de "o que aconteceu com a população após a retirada de Aureliano" está em discussão. As duas principais teorias sobre a população romanizada são:

  1. ela continuou a viver no mesmo local e assimilou os dácios não romanizados, a teoria sustentada pela maioria dos historiadores romenos.
  2. ela acompanhou as tropas em sua retirada, para retornar somente após a Era de Migração, a teoria sustentada pela maioria dos historiadores húngaros.

Essa questão científica possui implicações políticas: se o povo partiu com as tropas, então as tribos magiares conquistaram a Transilvânia de governantes locais não daco-romanos (Gelu, Glad e Menumorut - veja Gesta Hungarorum), enquanto que, se o povo permaneceu, os romenos possuem uma continuidade na área disputada que remete aos dácios e os getas e aos seus conquistadores romanos. (Para mais informações sobre essa discussão, ver: Origem dos romenos.)

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Dacian, North Thracian Language
  2. Histórias, livro IV, XCIII: "É esse povo o mais bravo e o mais justo entre os trácios."
  3. História da Guerra do Peloponeso, livro II: "os getas e os povos daquela região são não somente vizinhos dos citas, mas também se armam como estes, sendo todos arqueiros montados."]
  4. J. P. Mallory, Douglas Q. Adams. Encyclopedia of Indo-European culture. [S.l.]: London and Chicago: Fitzroy-Dearborn. ISBN 1-884964-98-2 Página visitada em 20-6-2009.
  5. Júlio César, De Bello Gallico, livro VI, 25,1: "A largura desta selva Hercinia, [... seguindo o curso do Danúbio, estende-se até às fronteiras dos daces e anartes."]
  6. Livro VII 3,12

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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