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Catarina II da Rússia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 Nota: Não confundir com Catarina I da Rússia (a esposa de Pedro, o Grande).
Catarina II
A Grande
Imperatriz e Autocrata de Todas as Rússias
Retrato por Vigilius Eriksen, c. 1762-1764
Imperatriz da Rússia
Reinado9 de julho de 1762
a 17 de novembro de 1796
Coroação12 de setembro de 1762
Antecessor(a)Pedro III
Sucessor(a)Paulo I
Imperatriz Consorte da Rússia
Reinado25 de dezembro de 1761
a 9 de julho de 1762
PredecessoraMarta Helena Skavronska
SucessoraSofia Doroteia de Württemberg
Dados pessoais
Nascimento2 de maio de 1729
Estetino, Pomerânia, Prússia
Morte17 de novembro de 1796 (67 anos)
Palácio de Inverno, São Petersburgo, Rússia
Sepultado em5 de dezembro de 1796
Catedral de Pedro e Paulo,
São Petersburgo, Rússia
Nome completo
Sophia Friederike Auguste (Nome de batismo em alemão)
Catarina Alexeievna (Nome cristão-ortodoxo)
MaridoPedro III da Rússia
Descendência
Paulo I da Rússia
CasaAscânia (nascimento)
Holsácia-Gottorp-Romanov (casamento)
PaiCristiano Augusto, Príncipe de Anhalt-Zerbst
MãeJoana Isabel de Holsácia-Gottorp
ReligiãoOrtodoxa Russa
(anteriormente Luteranismo)
AssinaturaAssinatura de Catarina II

Catarina II (Estetino, 2 de maio de 1729São Petersburgo, 17 de novembro de 1796), também conhecida como Catarina, a Grande, foi Imperatriz da Rússia de 1762 a 1796. Uma princesa alemã por nascimento, chegou ao poder após um golpe de estado contra seu próprio marido, Pedro III. Seu longo reinado marcou a era de ouro do Iluminismo na Rússia, com a fundação de cidades, universidades e teatros, além do incentivo à imigração europeia e da consolidação do país como uma das grandes potências da Europa.

Nascida princesa Sofia Frederica Augusta de Anhalt-Zerbst, casou-se, em 1745, com o herdeiro do trono russo, Carlos Pedro Ulrico de Holsácia-Gottorp, futuro czar Pedro III da Rússia. Em 1762, após um golpe de Estado que depôs o marido, assumiu o trono como imperatriz reinante. Durante seu governo, o Império Russo expandiu significativamente seu território, incorporando áreas da atual Ucrânia, participando das Partilhas da Polônia e conquistando territórios do Império Otomano.

Admiradora de Pedro, o Grande, Catarina continuou a modernizar a Rússia de acordo com os ideais do absolutismo esclarecido. No início do reinado, promoveu reformas administrativas, educacionais e culturais. Contudo, suas políticas levaram a um aumento no número de servos, resultando em descontentamento popular e na eclosão de numerosas revoltas, violentamente reprimidas. Após a Revolução Francesa, abandonou parte de sua postura reformista, intensificou a censura e perseguiu movimentos considerados subversivos.

Catarina ficou conhecida por seus numerosos amantes, em sua maioria homens mais jovens, muitos dos quais alcançaram influência política graças à proximidade com a imperatriz. O mais célebre deles foi Gregório Potemkin.

Seu reinado de 34 anos, 4 meses e 8 dias, foi o terceiro mais longo da história da Rússia, sendo superado apenas pelos de Ivã IV e do próprio Pedro, o Grande.[1] Catarina também foi a última mulher a governar a Rússia.[1]

Início de vida

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Catarina, quando princesa Sofia de Anhalt-Zerbst. Obra de Anna Rosina de Gasc, 1742.

Sofia Frederica Augusta de Anhalt-Zerbst nasceu às duas horas da madrugada de 2 de maio de 1729, como filha do príncipe Cristiano Augusto de Anhalt-Zerbst e da princesa Joana Isabel de Holsácia-Gottorp.[2] Seu pai era membro de um ramo secundário da Casa de Ascânia e servia como governador da fortaleza de Estetino, na Pomerânia Prussiana.[3] Sua mãe pertencia à Casa de Holsácia-Gottorp, dinastia que reinava na Suécia.[4] De posição social superior à da família do marido, Joana Isabel casou-se com Cristiano Augusto em uma união arranjada, posteriormente descrita como infeliz em razão da diferença de idade e das divergências de temperamento entre os cônjuges.[3]

Sofia cresceu em Estetino. Segundo suas Memórias, sua mãe demonstrava preferência pelo filho mais novo, Guilherme Cristiano, que apresentava problemas de saúde, mantendo uma relação distante com a filha.[5] Joana Isabel também lhe impunha uma disciplina rigorosa, desencorajando demonstrações de orgulho e exigindo estrita observância da etiqueta aristocrática.[6]

Como era costume entre as famílias principescas alemãs do século XVIII, Sofia foi educada por governantas e tutores particulares.[6] Recebeu instrução em francês, música, dança, equitação, religião e etiqueta.[6] Sua principal governanta, Elizabeth Cardel, apelidada de Babet, exerceu influência significativa em sua educação e formação moral.[6] Sofia destacou-se pela curiosidade intelectual. Nas aulas de religião, questionava frequentemente seus professores sobre temas teológicos, entrando em conflito com seu tutor, Herr Wagner, que defendia a aceitação dos ensinamentos religiosos pela fé.[7] Mais tarde, Sofia atribuiu essas experiências ao desenvolvimento de sua preferência por argumentos fundamentados na razão em vez da coerção.[7]

Acompanhando a mãe em visitas às cortes germânicas, Sofia começou a ser apresentada como possível candidata a casamentos dinásticos.[8] Em 1739, conheceu seu primo em segundo grau, o duque Carlos Pedro Ulrico de Holsácia-Gottorp, então sob a tutela de seu tio materno, Adolfo Frederico, príncipe-bispo de Lübeck e futuro rei da Suécia.[9] O duque Carlos Pedro Ulrico tornar-se-ia posteriormente o imperador Pedro III da Rússia e marido de Sofia.

Vida na Rússia

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Viagem à Rússia, conversão e casamento

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Catarina, quando princesa Sofia de Anhalt-Zerbst, ostentando a faixa e a insígnia da Ordem Russa de Santa Catarina. O retrato, realizado por Antoine Pesne, foi enviado para a Rússia como presente à imperatriz Isabel.[10]

Em 1741, a ascensão da imperatriz Isabel da Rússia ao trono fortaleceu os vínculos entre a corte russa e a Casa de Holsácia-Gottorp, à qual pertencia a mãe de Sofia, Joana Isabel.[11] Isabel havia sido noiva de Carlos Augusto de Holsácia-Gottorp, irmão mais velho de Joana Isabel, falecido em São Petersburgo antes da celebração do casamento, e mantinha estreitas relações com a família.[12] Após uma troca de correspondências e presentes entre Joana Isabel e a imperatriz, Sofia foi considerada uma possível noiva para o herdeiro do trono russo, o duque Carlos Pedro Ulrico de Holsácia-Gottorp.[12][13]

No início de 1744, Sofia e sua mãe viajaram para a Rússia a convite da imperatriz.[13] Em Moscou, reencontraram Carlos Pedro Ulrico, que Sofia conhecera cinco anos antes na Alemanha, e foram recebidas por Isabel.[14] Pouco depois de sua chegada, Sofia iniciou o estudo da língua russa e da doutrina da Igreja Ortodoxa Russa.[14] Sua instrução religiosa foi confiada ao bispo Simon Todorski, enquanto o ensino do idioma ficou a cargo de professores designados pela corte.[14] Diferentemente de Pedro, Sofia dedicou-se intensamente ao aprendizado da língua e da religião.[14] Durante esse período, Sofia contraiu pneumonia após expor-se ao frio enquanto estudava russo durante a noite.[15] A doença provocou preocupação na corte, mas sua recuperação contribuiu para aumentar sua popularidade entre os russos, que passaram a associar sua dedicação ao desejo de integrar-se ao país.[15]

Catarina e Pedro, quando herdeiros do trono russo. Obra de Georg Christoph Grooth, c. 1745.

Com o consentimento de seu pai, Sofia renunciou ao luteranismo e foi recebida na Igreja Ortodoxa Russa em 28 de junho de 1744, ocasião em que adotou o nome de Catarina Alexeievna.[16] No dia seguinte, foi oficialmente noiva de Carlos Pedro Ulrico, recebendo o título de grã-duquesa e o tratamento de Alteza Imperial.[17]

Após o noivado, Catarina passou a ocupar posição de destaque na corte russa e recebeu uma residência própria, uma pequena corte e uma dotação pessoal concedidas pela imperatriz.[17] Parte dos recursos foi enviada por Catarina ao pai para auxiliar nas despesas da família e no tratamento médico de seu irmão mais novo.[17]

Por decisão de Isabel, o casamento foi celebrado em 21 de agosto de 1745, após sucessivos adiamentos motivados pelos preparativos da cerimônia.[18] Realizado na Catedral de Nossa Senhora de Cazã, em São Petersburgo, o casamento foi seguido por extensas festividades na corte.[18] Segundo as Memórias de Catarina, a união não foi consumada durante os primeiros nove anos do matrimônio, em razão da imaturidade e do desinteresse de Pedro pela vida conjugal.[19]

Grã-duquesa

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Grã-duquesa Catarina Alexeevna da Rússia em seu primeiro ano de casamento. Obra de Louis Caravaque, 1745.

Em diversos aspectos, o casamento dos herdeiros do trono mostrou-se malsucedido. O comportamento de Pedro passou a ser considerado difícil e incompatível com a vida na corte, causando desconforto entre os residentes do palácio. Ele costumava anunciar exercícios militares matinais para os criados, que posteriormente se reuniam com Catarina em seus aposentos para cantar e dançar até altas horas da noite.[20]

A situação agravou-se depois que Pedro teve uma amante. Catarina também começou a se aproximar de homens influentes da corte. Nesse período, ela logo se tornou popular entre vários grupos políticos poderosos que se opunham ao marido. Infeliz com o casamento, passou a se dedicar bastante à leitura, principalmente de livros em francês.[21] Ela menosprezava o marido por sua devoção à leitura, por um lado, de "livros de orações luteranos e, por outro, da história e do julgamento de alguns ladrões de estrada que haviam sido enforcados ou executados na roda".[22]

Foi nessa fase que Catarina teve contato com autores do Iluminismo francês, incluindo Voltaire, o que ampliou seu interesse intelectual. Ao aprender a língua russa, aprofundou-se ainda mais na literatura do país que adotaria como sua nova pátria. Anos depois, a leitura dos Anais, de Tácito, teria sido particularmente marcante, sendo descrita por ela como uma "revolução" intelectual, ao introduzi-la a uma visão pragmática da política baseada em relações de poder e interesses, em contraste com ideais abstratos. Esse contato a levou a desenvolver uma percepção mais crítica sobre as motivações humanas, buscando compreender "motivos ocultos e interessados".[23]

Catarina com seu marido Pedro e seu filho Paulo, cuja paternidade, por vezes, foi contestada e atribuída a Sergei Saltykov, um amante de sua mãe.[24] Obra de Anna Rosina de Gasc, 1756.

Segundo relatos de Alexandr Herzen, baseado nas Memórias de Catarina, ela teria iniciado seu primeiro relacionamento extraconjugal com Sergei Saltykov enquanto residia em Oranienbaum, período em que o casamento com Pedro ainda não havia sido consumado, conforme a própria Catarina afirmaria posteriormente.[25][24] Há registros de uma conspiração em 1749 envolvendo Pedro e Catarina para garantir sua sucessão ao trono, o que teria contribuído para a desconfiança da imperatriz Isabel em relação ao casal. Nesse contexto, Catarina teria sido autorizada a manter relações com amantes apenas após o nascimento de seu filho Paulo I, em 1754, considerado um herdeiro legítimo,[26] apesar de ter sua paternidade, por vezes, contestada.[24]

Ao longo dos anos seguintes, Catarina manteve relações com diversas figuras da nobreza, entre elas Estanislau Augusto Poniatowski, Gregório Orlov, Alexandre Vassilchikov, Gregório Potemkin, entre outros.[27]

Em 1759, Catarina engravidou novamente, dando à luz uma filha chamada Ana, que faleceu ainda na infância, com cerca de 14 meses de vida. Devido a vários rumores sobre a promiscuidade de Catarina, Pedro foi levado a acreditar que não era o pai biológico da criança, e sabe-se que ele teria exclamado: "Vá para o diabo!" quando Catarina rejeitou furiosamente sua acusação. Nesse período, Catarina teria se afastado da vida pública da corte, permanecendo mais recolhida em seus aposentos.[28]

Em suas Memórias, Catarina também refletiu sobre seu estado mental antes de ascender ao trono: "Eu costumava dizer a mim mesma que a felicidade e a infelicidade dependem de nós mesmos. Se você se sente infeliz, eleve-se acima da infelicidade e aja de modo que sua felicidade seja independente de todas as eventualidades."[29]

Morte da imperatriz Isabel e deposição do marido

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Grã-duquesa Catarina. Obra de Vigilius Eriksen, c. 1762.

No final de 1761, o agravamento da saúde da imperatriz Isabel tornou iminente a sucessão ao trono.[30] Catarina via a ascensão de Pedro como inevitável, mas sua própria posição permanecia incerta, sobretudo após a perda de importantes aliados políticos.[30] Diante desse cenário, passou a considerar diferentes possibilidades para o novo reinado, incluindo, ainda que remotamente, a de assumir o poder.[30]

Em 5 de janeiro de 1765 (25 de dezembro de 1761 no calendário juliano), Isabel sofreu um grave derrame e morreu poucos dias depois, sem alterar a ordem sucessória.[31] Pedro foi proclamado imperador como Pedro III, enquanto Catarina assumiu formalmente a posição de imperatriz consorte.[31] A mudança de governo, porém, não fortaleceu a posição de Catarina, que continuou politicamente isolada enquanto o imperador privilegiava sua amante, Isabel Vorontsova, e manifestava a intenção de afastá-la da corte.[30][32]

Entretanto, o reinado de Pedro III durou apenas seis meses e foi marcado por decisões que ampliaram sua impopularidade: admirador de Frederico, o Grande, retirou a Rússia da Guerra dos Sete Anos, aproximou-se da Prússia e iniciou reformas militares inspiradas no modelo prussiano.[33] Também entrou em conflito com a Igreja Ortodoxa e preparou uma campanha contra a Dinamarca em defesa dos interesses da Holsácia, medidas que provocaram crescente oposição entre militares, membros da nobreza e setores da administração imperial.[34]

Catarina em uma varanda do Palácio de Inverno em 28 de junho de 1762, dia do golpe que destronou seu marido.

Enquanto isso, Catarina manteve uma postura pública de prudência, evitando associar-se abertamente às conspirações contra o marido. Paralelamente, formou-se uma articulação política e militar liderada por Nikita Panin, os irmãos Gregório e Alexei Orlov, Kiril Razumovski e oficiais da Guarda Imperial, que passou a organizar a deposição de Pedro III. A prisão de um dos conspiradores, em 27 de junho de 1762, antecipou a execução do plano.[35]

Na madrugada de 28 de junho, Alexei Orlov conduziu Catarina de Peterhof a São Petersburgo, onde ela recebeu o apoio dos regimentos da Guarda Imperial, do Senado e do Santo Sínodo.[36] Na Catedral de Nossa Senhora de Cazã, foi proclamada "Imperatriz e Autocrata de Todas as Rússias" com o título de Catarina II, enquanto Paulo foi reconhecido como herdeiro do trono.[37]

Grã-duquesa Catarina trajando luto pelo marido. Atribuído a Vigilius Eriksen, 1762.

Ao tomar conhecimento da revolta, Pedro III tentou reorganizar suas forças, mas encontrou sucessivas deserções.[38] Ao chegar à Fortaleza de Kronstadt, ouviu do comandante a frase: "Não temos mais imperador; agora temos a imperatriz Catarina."[39] Isolado politicamente e sem apoio militar suficiente, assinou a abdicação poucos dias depois, encerrando seu breve reinado e permitindo a ascensão de Catarina II ao trono.[40]

Após abdicar, o ex-imperador Pedro III foi levado sob custódia para o Palácio de Ropsha.[41] Em 17 de julho de 1762, oito dias depois de sua deposição, morreu em circunstâncias controversas:[42] a versão oficial atribuiu a morte a uma crise de hemorroidas agravada por um ataque apoplético, mas, desde então, diferentes relatos apontam que o ex-imperador teria sido morto por integrantes do grupo responsável pelo golpe, entre eles Alexei Orlov.[42] A participação direta de Catarina II na morte de Pedro III permanece objeto de debate historiográfico, sem comprovação documental conclusiva.[42]

Imperatriz soberana

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Coroação

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Catarina II em traje de coroação, ostentando sua nova Grande Coroa Imperial. Obra de Stefano Torelli, c. 1763-1766.

Catarina foi coroada na Catedral da Dormição, em Moscou, em 22 de setembro de 1762.[43] Sua coroação assinalou a criação de um dos mais importantes tesouros da dinastia Romanov: a Grande Coroa Imperial da Rússia, concebida pelo joalheiro suíço-francês da corte, Jérémie Pauzié. Inspirada na tradição artística bizantina, a coroa foi confeccionada com duas semiesferas, uma de ouro e outra de prata, que simbolizam os antigos Impérios Romano do Oriente e do Ocidente. Ambas são separadas por uma guirlanda de folhas e unidas por um aro inferior.[44]

A joia é ornamentada com 75 pérolas e 4.936 diamantes de origem indiana, dispostos em motivos de folhas de louro e carvalho, símbolos tradicionais de poder e força. No topo, destaca-se um espinélio vermelho de 398,62 quilates, encimado por uma cruz de diamantes. Produzida em apenas dois meses, a coroa pesa aproximadamente 2,3 quilogramas.[44] Desde 1762, a Grande Coroa Imperial foi utilizada nas cerimônias de coroação de todos os imperadores da dinastia Romanov, permanecendo como a principal insígnia da monarquia russa até sua abolição, em 1917. Atualmente, integra o acervo do Palácio do Arsenal do Kremlin, em Moscou, onde permanece em exposição.[45]

Sobre a coroação de Catarina, o embaixador britânico na Rússia, o Conde de Buckinghamshire, observou: "Uma mulher de estatura mediana, seus lustrosos cabelos de cor castanha se avolumando sob a coroa de joias. Era linda, e os olhos azuis se destacavam pelo brilho. A cabeça bem posta sobre um pedaço longo causava uma impressão de orgulho, poder e vontade."[43]

Política externa

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Catarina II. Obra de Fyodor Rokotov, 1763.

Durante seu reinado, Catarina expandiu as fronteiras do Império Russo em aproximadamente 520 mil quilômetros quadrados (200 mil milhas quadradas), incorporando os territórios da Nova Rússia, da Crimeia, do Cáucaso do Norte, da Ucrânia da margem direita, da Bielorrússia, da Lituânia e da Curlândia, principalmente às custas de duas grandes potências: o Império Otomano e a Comunidade Polaco-Lituana.[46]

O ministro das Relações Exteriores de Catarina, Nikita Panin, que ocupou o cargo entre 1763 e 1781, exerceu considerável influência durante os primeiros anos de seu reinado. Estadista habilidoso, Panin dedicou grandes esforços e milhões de rublos à criação de um "Acordo do Norte" entre a Rússia, a Prússia, a Polônia e a Suécia, com o objetivo de contrabalançar o poder da aliança entre a Casa de Bourbon e a Casa de Habsburgo. Quando se tornou evidente que seu projeto não teria êxito, Panin perdeu o prestígio junto à imperatriz e foi substituído por Ivan Osterman, que permaneceu no cargo de 1781 a 1797.[47]

Em 1766, Catarina firmou um tratado comercial com a Grã-Bretanha, embora tenha evitado estabelecer uma aliança militar plena. Apesar de reconhecer as vantagens de manter relações amistosas com os britânicos, a imperatriz via com preocupação o crescente poder da Grã-Bretanha após sua vitória na Guerra dos Sete Anos, receando que esse fortalecimento comprometesse o equilíbrio de poder europeu.[48]

Guerras Russo-Turcas

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Durante o reinado de Catarina, o Império Russo expandiu significativamente suas fronteiras em direção ao sul, culminando, por exemplo, na anexação do Canato da Crimeia.

A política externa de Catarina II consolidou a expansão do Império Russo em direção ao sul, transformando-o em uma das principais potências militares da Europa. Após a Guerra Russo-Turca de 1768–1774, a Rússia impôs sucessivas derrotas ao Império Otomano, destacando-se as vitórias nas batalhas de Chesma e de Kagul. O conflito enfraqueceu significativamente os otomanos e ampliou a influência russa na região do Mar Negro.[49][50]

O Tratado de Küçük-Kainarji, assinado em 1774, representou um marco dessa expansão. Pelo acordo, a Rússia recebeu os territórios de Azov, Kerch, Yenikale e Kinburn, além de uma faixa do litoral entre os rios Bugue e Dniepre. O tratado também garantiu liberdade de navegação e comércio no Mar de Azov, reconheceu a Rússia como protetora dos cristãos ortodoxos no Império Otomano e colocou o Canato da Crimeia sob proteção russa.[51]

Estátua de Catarina II, situada no alto do monumento aos fundadores de Odessa, na Ucrânia.

Em 1770, o Conselho de Estado russo passou a defender a independência formal da Crimeia como etapa intermediária para sua incorporação ao império. Catarina apoiou a ascensão de Şahin Giray ao trono do Canato, mas a instabilidade política da região levou a imperatriz a anexar oficialmente a Crimeia em 1783. Quatro anos depois, Catarina realizou uma visita triunfal à península, episódio que contribuiu para o agravamento das tensões com o Império Otomano.[51]

A Guerra Russo-Turca de 1787–1792 confirmou a supremacia militar russa. Durante o conflito, as forças imperiais conquistaram Khadjibey, local onde, por decreto de Catarina, seria fundada a cidade de Odessa, em 1794. Encerrada pelo Tratado de Jassy, em 1792, a guerra assegurou à Rússia o controle definitivo da Crimeia e dos territórios situados entre os rios Bugue e Dniepre, consolidando sua presença no norte do Mar Negro e sua posição como potência dominante na Europa Oriental.[52]

Partilhas da Polônia

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Catarina II. Obra de Fyodor Rokotov, 1770.

A política de Catarina II em relação à Comunidade Polaco-Lituana foi marcada por crescente intervenção russa nos assuntos internos do país. Em 1764, a imperatriz apoiou a ascensão de seu antigo amante, Estanislau Augusto Poniatowski, ao trono polonês. Embora a ideia inicial das partições da Polônia tenha sido defendida pelo rei Frederico II da Prússia, Catarina desempenhou papel decisivo na sua execução durante a década de 1790.

Em 1768, Catarina declarou-se protetora dos direitos políticos dos dissidentes religiosos e dos camponeses da Comunidade Polaco-Lituana. Essa intervenção provocou uma reação nacionalista conhecida como Confederação de Bar (1768–1772), uma revolta contra a influência russa, apoiada pela França e pelo Império Otomano. Após a derrota dos rebeldes e de seus aliados estrangeiros, Catarina estabeleceu na Comunidade um sistema político subordinado ao Império Russo, governado por meio de um Conselho Permanente supervisionado pelos embaixadores e representantes russos.

A Queda da Polônia: Tadeusz Rejtan (no chão, à direita) tentou, em setembro de 1773, impedir a legalização da Primeira Partilha da Polônia, bloqueando a saída dos membros do Sejm do recinto. Obra de Jan Matejko, 1866.

Na Primeira Partição da Polônia, em 1772, a Rússia incorporou extensos territórios orientais da Comunidade Polaco-Lituana, incluindo a Livônia polonesa e áreas da atual Bielorrússia, como as regiões de Vitebsk, Polotsk e Mstislau. Apesar da perda da Galícia para a Monarquia de Habsburgo, Catarina considerou o acordo uma importante vitória diplomática para a Rússia.

Em 1792, durante a Guerra em Defesa da Constituição, forças polonesas favoráveis às reformas constitucionais enfrentaram a Confederação Targowica, formada por nobres conservadores apoiados pela Rússia. Após a derrota dos defensores da Constituição de 3 de maio, a Prússia e a Rússia decidiram revogar as reformas polonesas e realizar uma nova divisão territorial. Em 1793, a Segunda Partilha da Polônia foi aprovada pelo Sejm de Grodno, sob a presença de tropas russas, permitindo que Rússia e Prússia incorporassem novas áreas da Comunidade.

As Partilhas da Polônia realizadas pela Rússia, Prússia e Áustria em 1772, 1793 e 1795.

O avanço da influência estrangeira provocou forte reação interna, culminando na Insurreição de Kościuszko, em 1794, liderada por Tadeusz Kościuszko. Apesar de obter vitórias iniciais, o movimento foi derrotado pelas forças russas, superiores em número e organização militar. Diante da instabilidade crescente, Rússia, Prússia e Áustria decidiram eliminar definitivamente a independência da Comunidade Polaco-Lituana. Em 24 de outubro de 1795, foi assinado o tratado que estabeleceu a Terceira Partilha da Polônia, dividindo os territórios restantes entre as três potências. A Rússia recebeu a maior parcela territorial, incorporando cerca de 120 mil quilômetros quadrados e aproximadamente 1,2 milhão de habitantes. Com a conclusão das partições, a Comunidade Polaco-Lituana deixou de existir como Estado independente.

Guerra Russo-Persa

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Catarina II. Obra de Johann Baptist von Lampi, o Velho, 1790.

Nas últimas décadas do século XVIII, as disputas sucessórias pelo trono da Pérsia enfraqueceram o poder da dinastia governante e criaram uma oportunidade para a expansão da influência russa no Cáucaso. Em 1783, o Reino da Geórgia tornou-se um protetorado da Rússia por meio do Tratado de Georgievsk, assinado pelo rei Heráclio II. Pelo acordo, Catarina II comprometeu-se a defender a Geórgia contra novas invasões persas. Poucos anos depois, os governantes do Shamkhalato de Tarki também aceitaram a proteção russa. Em 1795, o Agha Mohammad Khan invadiu a Geórgia, derrotou as forças locais e restabeleceu o domínio persa sobre a região, expulsando as guarnições russas recentemente instaladas. Em resposta, Catarina ordenou uma campanha militar contra a Pérsia em 1796, com o objetivo de restaurar a influência russa no Cáucaso e enfraquecer o governo do xá.[53][54]

O comando da expedição foi confiado ao Conde Zubov. As tropas russas partiram de Kizliar em abril de 1796 e conquistaram rapidamente a estratégica Fortaleza de Derbente. Nos meses seguintes, avançaram sobre grande parte do atual Azerbaijão, ocupando cidades importantes como Bacu, Shamakhi e Ganja. Em novembro daquele ano, o exército encontrava-se às margens dos rios Aras e Cura, preparado para prosseguir em direção ao interior da Pérsia.[55]

A campanha foi interrompida pela morte de Catarina II, em novembro de 1796. Seu sucessor, Paulo I, ordenou a retirada imediata das tropas russas, encerrando a expedição antes que seus objetivos fossem plenamente alcançados.[56]

Relações com a Europa Ocidental

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Caricatura de 1791, de James Gillray, retratando Catarina II enfraquecida e recuando diante do primeiro-ministro britânico William Pitt, o Jovem, representado como Petrúquio de Dom Quixote e montado em um cavalo que simboliza Jorge III. Atrás de Pitt estão o rei da Prússia e uma figura que representa a Holanda, caracterizada como Sancho Pança. Selim III, sultão do Império Otomano, ajoelha-se para beijar a cauda do cavalo, enquanto uma figura esquelética que representa a antiga ordem da França e Áustria amparam Catarina, impedindo sua queda.

Catarina II buscou projetar a imagem da Rússia como uma potência influente na diplomacia europeia e de si própria como uma soberana esclarecida. Em vez de concentrar seus esforços na expansão da influência russa na Alemanha, procurou fortalecer o prestígio internacional do império por meio da mediação de conflitos entre as grandes potências. Em 1778–1779, atuou como mediadora na Guerra da Sucessão da Baviera, travada entre a Prússia e a Áustria. Em 1780, Catarina promoveu a criação da Liga da Neutralidade Armada, uma aliança destinada a proteger a navegação dos países neutros contra as inspeções realizadas pela Marinha Real Britânica durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos. Entre 1788 e 1790, a Rússia enfrentou a Suécia na Guerra Russo-Sueca. O conflito foi iniciado pelo rei Gustavo III, que pretendia aproveitar o envolvimento russo na guerra contra o Império Otomano para obter vantagens militares e ameaçar São Petersburgo. Entretanto, a resistência da frota russa no Mar Báltico impediu o avanço sueco. A Dinamarca também entrou na guerra ao lado da Rússia, ampliando a pressão sobre a Suécia. Apesar da derrota russa na Batalha de Svensksund, em 1790, o conflito terminou com a assinatura do Tratado de Värälä, que restabeleceu o status territorial anterior à guerra. Pelo acordo, ambos os países devolveram os territórios conquistados durante o conflito, e a Rússia comprometeu-se a não interferir nos assuntos internos da Suécia, assegurando um período de paz entre as duas monarquias.[57]

Relações com a China

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Aldeia Chinesa, em Tsarskoye Selo, construída em estilo chinoiserie para a imperatriz Catarina II.

As relações entre o Império Russo e a China Qing permaneceram marcadas por tensões durante o reinado de Catarina II. O imperador Qianlong seguia uma política expansionista na Ásia Central e considerava a Rússia uma possível rival, o que contribuiu para o enfraquecimento das relações diplomáticas entre Pequim e São Petersburgo.[58] Em 1762, Qianlong anulou unilateralmente o Tratado de Kiakhta, firmado em 1727, que regulamentava o comércio de caravanas entre os dois impérios.[59] Outro ponto de atrito foi a chegada ao território russo de numerosos refugiados mongóis dzungares, que fugiam das campanhas militares da dinastia Qing contra seu povo.[60]

O conflito entre os Qing e os dzungares, que resultou na destruição de grande parte da população dzungar, levou muitos sobreviventes a buscar proteção no Império Russo. Catarina via o imperador Qianlong como um governante arrogante e um vizinho difícil, embora desejasse preservar a influência russa na Ásia e ampliar as relações comerciais internacionais com, por exemplo, a Índia.[60] Em uma carta escrita em 1790 ao Barão de Grimm, em francês, a imperatriz referiu-se ao imperador chinês como "meu vizinho chinês de pequenos olhos".[58]

Relações com o Japão

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Delegação russa portando um decreto imperial de Catarina II encontra-se com autoridades japonesas em Hokkaido, em 1779. Durante o reinado da imperatriz, a Rússia iniciou suas primeiras tentativas de estabelecer relações comerciais com o Japão.

No Extremo Oriente, os russos intensificaram sua atuação na exploração de peles na Península de Camecháteca e nas Ilhas Curilas. Essa atividade estimulou o interesse do Império Russo em estabelecer relações comerciais com o Japão (então Xogunato Tokugawa), localizado ao sul, com o objetivo de obter suprimentos e alimentos. Em 1783, uma tempestade levou o capitão japonês Daikokuya Kōdayū a naufragar nas Ilhas Aleutas, então sob domínio russo. As autoridades locais auxiliaram o grupo de sobreviventes, e o governo russo decidiu utilizar Kōdayū como intermediário para uma possível aproximação comercial com o Japão. Em 28 de junho de 1791, Catarina II concedeu uma audiência ao capitão em Tsarskoye Selo. Posteriormente, em 1792, o governo russo enviou uma missão comercial ao Japão liderada por Adam Laxman. A expedição foi recebida pelo xogunato, mas as negociações não resultaram na abertura de relações comerciais formais entre os dois países.[61]

Economia e finanças

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Efígie de Catarina em moeda de 1 rublo (1764).
Dados coloridos com fundo quadriculado
Monograma de Catarina e o Brasão Imperial da Rússia em moeda de 5 kopeks (1791).

Durante o reinado de Catarina II, o desenvolvimento econômico da Rússia permaneceu abaixo dos padrões da Europa Ocidental. Segundo o historiador François Crouzet, o país não possuía um campesinato livre, uma classe média significativa nem um ambiente jurídico favorável à iniciativa privada. Apesar disso, houve algum crescimento industrial, especialmente na produção têxtil na região de Moscou e nas siderúrgicas dos montes Urais, que empregavam majoritariamente servos vinculados às fábricas.[62]

Catarina implantou um amplo sistema de regulamentação das atividades comerciais, mas a medida restringiu o empreendedorismo e não favoreceu o desenvolvimento econômico.[63] Em contrapartida, incentivou a imigração dos alemães do Volga, cuja atuação contribuiu para a modernização da agricultura por meio da introdução de inovações no cultivo de trigo e tabaco, na moagem de farinha, na criação de ovinos e em pequenas manufaturas.[64]

Em 1768, foi criado o Banco Russo de Assignações, responsável pela emissão do primeiro papel-moeda estatal russo, colocado em circulação no ano seguinte. A medida buscava suprir a escassez de prata causada pelos elevados gastos militares, permitindo que as notas circulassem paralelamente ao rublo de prata até 1849.[65] Catarina também promoveu reformas na administração financeira com base nas recomendações do príncipe Alexandre Viazemski. A legislação de 7 de novembro de 1775 definiu responsabilidades administrativas por função, centralizou a arrecadação estatal e possibilitou a elaboração da primeira versão de um orçamento público do governo russo até 1781.[65]

Saúde pública

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Catarina II. Obra de Vladimir Borovikovsky

A saúde pública foi uma das prioridades do governo de Catarina II. Inspirada por ideias do cameralismo alemão e da fisiocracia francesa, além de experiências russas anteriores, ela fundou, em 1764, o fundou o Orfanato e Maternidade de Moscou. No ano anterior, inaugurou o Hospital Pavlovskaya. Seu governo também passou a coletar e publicar estatísticas vitais e determinou a modernização dos serviços médicos do exército.[66]

Catarina submeteu-se à inoculação contra a varíola, realizada pelo médico inglês Thomas Dimsdale, e posteriormente ordenou a imunização de seu filho Paulo, buscando incentivar a adoção da prática em todo o Império Russo. Segundo a imperatriz, seu objetivo era reduzir a mortalidade causada pela doença por meio do exemplo pessoal.[66] Até 1800, cerca de 2 milhões de inoculações (aproximadamente 6% da população do Império Russo) haviam sido realizadas. Historiadores consideram essa campanha um sucesso e uma das contribuições mais significativas do reinado de Catarina II.[67]

Servidão

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Gravura de um servo russo na Sibéria sendo punido com um chicote (1761).

Durante o reinado de Catarina II, a maior parte dos servos estava vinculada às propriedades da nobreza rural, herdando essa condição por nascimento. Embora possuíssem direitos bastante limitados, alguns conseguiam acumular recursos suficientes para comprar sua liberdade, favorecidos também pela aplicação irregular das leis no Império Russo.[68]

Catarina introduziu mudanças limitadas na administração da servidão. Os servos passaram a poder apresentar queixas contra seus senhores por vias legais, mas perderam o direito de recorrer diretamente à imperatriz. A medida conferiu-lhes reconhecimento burocrático e, em alguns casos, permitiu obter a liberdade quando a posse era considerada ilegal, embora a aplicação dessas normas variasse conforme a autoridade local.[69][70]

Apesar dessas reformas, os proprietários mantiveram amplos poderes sobre os servos, inclusive o de enviá-los para trabalhos forçados na Sibéria. A legislação, porém, não permitia que os senhores os matassem, pois sua vida era considerada propriedade do Estado.[71]

Catarina também adotou medidas para restringir a expansão da servidão. Entre elas, o manifesto de 17 de março de 1775 proibiu que pessoas anteriormente libertadas voltassem à condição de servos.[72]

Além do trabalho agrícola, alguns servos eram enviados para aprender ofícios, receber educação ou trabalhar em atividades remuneradas, prática que se tornou mais frequente durante o reinado de Catarina em razão da criação de novas escolas.[73]

Artes e cultura

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Catarina II em frente a um espelho. Obra de Vigilius Eriksen, 1762.
O Museu Hermitage, em São Petersburgo.

Catarina II foi uma importante mecenas das artes, da literatura e da educação. Sua coleção particular de pinturas, esculturas, livros, desenhos e objetos deu origem ao Museu Hermitage, para o qual mandou construir um edifício em 1770. Em 1790, o acervo já reunia cerca de 38 mil livros, 10 mil gemas e 10 mil desenhos.[74][75]

A imperatriz também promoveu a arquitetura e o paisagismo. Em 1770, ordenou a criação do primeiro jardim paisagístico inglês em Tsarskoye Selo e demonstrou preferência pelo estilo inglês em detrimento dos jardins formais franceses. Seu interesse pela arte chinesa levou à construção do Palácio Chinês, em Oranienbaum (1762–1766), e da Aldeia Chinesa em Tsarskoye Selo, projetados no estilo chinoiserie.[76][77]

Catarina procurou atrair intelectuais e cientistas para a Rússia e manteve contato com pensadores iluministas como Voltaire, Diderot e D'Alembert. Também convidou cientistas como Euler, Pallas e Lexell para atuar no Império Russo.[78][79]

Influenciada pelas ideias do Iluminismo, em 1766 Catarina convocou a Comissão Legislativa para elaborar uma reforma das leis do império, orientada pelo Nakaz ("Instrução"), inspirado nas obras de Montesquieu e Beccaria. Apesar dos extensos debates, a comissão não produziu uma nova legislação geral.[80][81]

Posteriormente, Catarina promulgou reformas administrativas e legais. O Estatuto para a Administração das Províncias (1775) reorganizou o império em novas províncias e distritos e ampliou a administração local. Em 1785, a Carta à Nobreza fortaleceu os privilégios da aristocracia, enquanto a Carta das Cidades regulamentou a organização das populações urbanas. Também foram promulgados o Código de Navegação Comercial e Comércio de Sal (1781), a Ordenança da Polícia (1782) e o Estatuto da Educação Nacional (1786).[82]

Durante seu reinado, desenvolveu-se o chamado Iluminismo Russo. Escritores como Derzhavin, Fonvizin e Bogdanovich contribuíram para a renovação da literatura russa. Em 1790, Catarina ordenou a apreensão e a destruição da obra Viagem de São Petersburgo a Moscou, de Alexander Radishchev, considerando-a influenciada pelas ideias da Revolução Francesa; o autor foi exilado para a Sibéria.[83][84]

Em 1773, durante seu governo, foi fundada a Academia Estatal de Coreografia de Moscou, origem da atual Escola de Balé Bolshoi.[85]

Educação

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O Instituto Smolny.

A educação ocupou lugar central no projeto reformista de Catarina II, que defendia a modernização da sociedade russa por meio da difusão dos ideais iluministas e da formação de cidadãos instruídos e moralmente disciplinados.[86][87] Para implementar esse programa, contou com a colaboração de Ivan Betskoy, seu principal conselheiro para assuntos educacionais, responsável pela elaboração de propostas inspiradas em modelos pedagógicos da Europa Ocidental.[86]

Em 1764, fundou o Instituto Smolny, um internato feminino reservado às filhas da alta nobreza que foi primeira instituição estatal de ensino feminino da Rússia. No mesmo período, criou o Orfanato de Moscou, concebido como um espaço de educação e formação moral de crianças abandonadas, embora a instituição tenha enfrentado elevadas taxas de mortalidade.[86][88]

As reformas educacionais culminaram na criação da Comissão das Escolas Nacionais e, em 1786, na promulgação do Estatuto Nacional da Educação, que instituiu uma rede de escolas primárias e secundárias gratuitas nas capitais provinciais, abertas às camadas livres da população (com exceção dos servos), além de estabelecer currículos, métodos de ensino e diretrizes para a formação de professores.[86] Embora a implementação tenha sido desigual e limitada pelos recursos disponíveis, as medidas representaram um dos mais importantes esforços de reorganização da educação pública na Rússia do século XVIII.[86]

Visões religiosas

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Catarina em traje nacional russo. Atribuído a Obra de Stefano Torelli, 1780.

A política religiosa de Catarina II foi marcada pela combinação entre tolerância limitada e maior controle do Estado sobre as instituições religiosas. Logo no início de seu reinado, promoveu a secularização das propriedades da Igreja Ortodoxa Russa, incorporando suas terras ao patrimônio estatal e reduzindo a autonomia econômica do clero.[1][89]Embora mantivesse a Ortodoxia como religião predominante do Império, restringiu a influência política da Igreja e subordinou sua administração ao governo. Contudo, após a Revolução Francesa, não permitia que dissidentes edificassem capelas e acabou com o desacordo religioso.[1] Politicamente, Catarina explorou o cristianismo na sua política anti-Império Otomano, promovendo o acolhimento e a proteção de cristãos que se encontrassem sob as ordens do governo otomano.[90]

Catarina como Legisladora do Templo da Deusa Justiça. Obra de Dmitry Levitzky, c. 1780.

Em relação às demais confissões, após o Édito de Tolerância de 1773, os muçulmanos passaram a ter maior liberdade para construir mesquitas e praticar sua religião, ao mesmo tempo em que o Estado criou a Assembleia Espiritual Muçulmana de Oremburgo para supervisionar o clero islâmico.[91] Em relação aos católicos romanos, especialmente após as partilhas da Polônia, a imperatriz limitou a influência do Papado sobre as dioceses localizadas em território russo, submetendo sua administração ao controle imperial.[1]

A incorporação de amplas populações judaicas após a Primeira Partilha da Polônia levou Catarina a estabelecer uma legislação específica para os judeus, restringindo sua circulação e residência, impondo tributações diferenciadas e definindo um estatuto jurídico próprio para esse grupo.[92] De fato, Catarina tentou manter os judeus afastados de certas esferas econômicas, mesmo sob o pretexto de igualdade; em 1785, Catarina declarou os judeus oficialmente estrangeiros, com direitos de estrangeiros,[93] e, em 1790, proibiu os cidadãos judeus de pertencerem à classe média de Moscou.[94]

Um Passo Imperial! Caricatura de 1791 retratando diversos monarcas europeus e o sultão otomano observando por baixo das saias da imperatriz enquanto ela aponta para Constantinopla. A imagem associa sua ambição expansionista à sua vida íntima, utilizando insinuações sexuais para ridicularizá-la.

Ao longo de sua vida, Catarina II manteve romances com importantes membros da nobreza e da elite política europeia, alguns dos quais tiveram repercussões tanto na esfera pessoal quanto na política imperial.[95]

Seu primeiro relacionamento de maior notoriedade foi com Estanislau Augusto Poniatowski, diplomata polonês com quem se envolveu entre 1755 e 1758, ainda durante o casamento com Pedro III.[96] Parte da historiografia atribui a Poniatowski a paternidade da grã-duquesa Ana Petrovna (1757–1759), embora a criança tenha sido oficialmente reconhecida como filha de Pedro III.[96] Com o apoio de Catarina, Poniatowski foi eleito rei da Polônia em 1764, fortalecendo a influência russa sobre a Comunidade Polaco-Lituana.[97]

Após esse relacionamento, Catarina envolveu-se com Gregório Orlov, oficial da Guarda Imperial e um dos principais articuladores do golpe de Estado que a levou ao trono em 1762.[98] Dessa relação nasceu Alexei Grigorievich Bobrinsky (1762–1813), cuja paternidade foi amplamente reconhecida.[99] Orlov recebeu o título de conde, propriedades e grande prestígio na corte, mas o relacionamento terminou alguns anos depois.[98]

Seu vínculo mais duradouro e politicamente significativo foi com Gregório Potemkin, iniciado por volta de 1774. Além de companheiro da imperatriz, Potemkin tornou-se seu principal conselheiro e um dos maiores estadistas do período, desempenhando papel decisivo na expansão territorial russa, especialmente na anexação da Crimeia e na colonização do sul do Império.[100] Alguns autores sugerem que Catarina e Potemkin teriam contraído um casamento secreto, embora não existam provas conclusivas.[101] Também há especulações sobre a existência de uma filha, Elizaveta Grigorievna Temkina, tradicionalmente atribuída ao casal, hipótese que permanece objeto de debate entre os historiadores.[101]

O último de seus amantes, Platon Zubov, era 40 anos mais jovem que ela. Sua independência sexual deu origem a muitas lendas sobre ela.[102]

Vida posterior e morte

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Catarina, idosa, com um dos seus galgos ingleses no parque de Tsarskoye Selo. Obra de Vladimir Borovikovsky, 1794.

Apesar de a vida e o reinado de Catarina II terem sido marcados por importantes realizações, seus últimos meses foram acompanhados por acontecimentos que frustraram alguns de seus planos. Em setembro de 1796, seu primo, o rei Gustavo IV Adolfo da Suécia, visitou a corte russa em meio às negociações para um casamento com sua neta, Alexandra Pavlovna. O noivado seria anunciado durante um baile na corte imperial, em 11 de setembro. No entanto, Gustavo Adolfo recusou-se a prosseguir com o compromisso ao saber que Alexandra não pretendia converter-se ao luteranismo, retornando posteriormente a Estocolmo. O episódio desagradou profundamente a imperatriz e coincidiu com o agravamento de seu estado de saúde. Ainda assim, Catarina recuperou-se temporariamente e passou a considerar a possibilidade de alterar a sucessão ao trono, transferindo a Coroa diretamente para seu neto Alexandre Pavlovich e excluindo seu filho Paulo da linha sucessória. O plano, contudo, não foi oficializado antes de sua morte.

Na manhã de 16 de novembro de 1796, Catarina levantou-se e seguiu sua rotina habitual, tomando o café da manhã e dirigindo-se ao escritório para trabalhar. Pouco depois, ao ser questionada por sua criada, Maria Perekusikhina, sobre como havia dormido, respondeu que já não descansava bem havia muito tempo.[103] Por volta das nove horas da manhã, a imperatriz dirigiu-se ao seu aposento e sofreu um desmaio. Diante de sua demora, o criado Zakhar Zotov entrou no cômodo e a encontrou caída no chão. Catarina apresentava o rosto arroxeado, pulso fraco e respiração irregular.[103] Os criados a levaram para seus aposentos e, aproximadamente quarenta e cinco minutos depois, o médico da corte, o escocês John Rogerson, examinou-a e concluiu que ela havia sofrido um acidente vascular cerebral (AVC).[103][104] Apesar dos esforços médicos, a imperatriz permaneceu em coma e faleceu na noite seguinte, por volta das 21h45.[104] A autópsia realizada posteriormente confirmou o AVC como causa da morte.[105]

Após sua morte, surgiram diversos rumores sobre suas circunstâncias, sendo o mais conhecido o de que teria morrido em decorrência de um ato de bestialidade com um cavalo. Sem qualquer fundamento, essa narrativa foi difundida por publicações satíricas britânicas e francesas e retomava estereótipos anti-russos dos séculos XVII e XVIII, utilizados para retratar a Rússia como uma sociedade bárbara e atrasada.[106]

Entre os documentos deixados por Catarina encontrava-se um testamento, sem data, localizado por seu secretário, Alexander Vasilievich Khrapovitsky, no qual a imperatriz deixou instruções específicas para o seu funeral: "Deitem o meu corpo vestido de branco, com uma coroa dourada na cabeça na qual deve estar inscrito o meu nome cristão. O luto deve durar seis meses, nada mais, quanto menos tempo, melhor".[107] Após o falecimento de Catarina II, em 17 de novembro de 1796, seu corpo permaneceu em vigília na corte enquanto eram realizados os ritos religiosos e os preparativos para a sucessão. Em 19 de novembro, foi trasladado para a câmara ardente no Palácio de Inverno, onde permaneceu exposto para as homenagens da corte. O sepultamento solene ocorreu em 5 de dezembro de 1796, na Catedral de Pedro e Paulo, tradicional local de sepultamento dos soberanos da dinastia Romanov.[108]

Na cultura

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Em 2016, o perfil de Catarina, a Grande foi incluído na primeira edição do livro Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes: Cem fábulas sobre mulheres extraordinárias, como uma das cem mulheres mais influentes.[109]

Descendência

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Retrato Nome Nascimento Morte Notas
Aborto espontâneo 20 de dezembro de 1752 Gravidez perdida atribuída a Sergei Saltykov.[110]
Aborto espontâneo 30 de junho de 1753 Esta segunda gravidez perdida também foi atribuída a Saltykov.[110]
Paulo Petrovich 1 de outubro de 1754 23 de março de 1801 Imperador e Autocrata de Todas as Rússias de 1796 a 1801; paternidade, por vezes, também atribuída a Saltykov.[24]

Casou-se com Guilhermina Luísa de Hesse-Darmstadt, sem descendência.

Casou-se com Sofia Doroteia de Württemberg, com descendência.

Ana Petrovna 9 de dezembro de 1757 8 de março de 1759 Grã-duquesa da Rússia. Possivelmente filha de Catarina e Estanislau Augusto Poniatowski. Morreu na infância.[96]
Aleksey Grigorievich Bobrinsky 11 de abril de 1762 20 de junho de 1813 Conde Bobrinsky. Filho ilegítimo de Catarina e Gregório Orlov. Casou-se com a baronesa Anna Dorothea von Ungern-Sternberg, com descendência.[99]
Elizabeth Grigorieva Temkina 13 de julho de 1775 25 de maio de 1854 Suposta filha ilegítima de Catarina e Gregório Potemkin. Casou-se com o segundo-major Ivan Khristoforovich Kalageorgi, com descendência.[101]

Ancestrais

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Referências

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Bibliografia

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Catarina II da Rússia
Casa de Ascânia
2 de maio de 1729 – 6 de novembro de 1796
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Imperatriz da Rússia
9 de julho de 1762 – 6 de novembro de 1796
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Imperatriz Consorte da Rússia
5 de janeiro de 1762 – 9 de julho de 1762
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Sofia Doroteia de Württemberg