Revolução verde

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Nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a produção agrícola mundial aumentou significativamente devido à vulgarização do uso de diversas tecnologias como os pesticidas, herbicidas e fertilizantes, assim como novas variedades de plantas de elevado rendimento. Na foto, um avião despeja agrotóxicos sobre uma plantação na Califórnia.

A expressão Revolução Verde refere-se à invenção e disseminação de novas sementes e práticas agrícolas que permitiram um vasto aumento na produção agrícola a partir da década de 1950 nos Estados Unidos e na Europa e, nas décadas seguintes, em outros países.[1] É um amplo programa idealizado para aumentar a produção agrícola no mundo por meio do uso intensivo de insumos industriais, mecanização e redução do custo de manejo.

O modelo se baseia na intensiva utilização de sementes geneticamente alteradas (particularmente sementes híbridas), insumos industriais (fertilizantes e agrotóxicos), mecanização, produção em massa de produtos homogêneos e diminuição do custo de manejo. Também é creditado, à Revolução Verde, o uso extensivo de tecnologia no plantio, na irrigação e na colheita, assim como no gerenciamento de produção.

Esse ciclo de inovações se iniciou com os avanços tecnológicos do pós-guerra, embora a expressão "Revolução Verde" só tenha surgido na década de 1970. Desde essa época, pesquisadores de países industrializados prometem, através de um conjunto de técnicas, aumentar estrondosamente as produtividades agrícolas e resolver o problema da fome nos países em desenvolvimento. Mas, contraditoriamente, além de não resolver o problema da fome, aumentou a concentração fundiária e a dependência de sementes modificadas; alterou significativamente a cultura dos pequenos proprietários; promoveu a devastação de florestas; contaminou o solo e as águas; e gerou problemas de saúde para agricultores e consumidores.

A introdução destas técnicas em países menos desenvolvidos provocou um aumento brutal na produção agrícola de países não industrializados. Países como o Brasil e a Índia foram alguns dos principais beneficiados na produção. No Brasil, passou-se a desenvolver tecnologia própria, tanto em instituições privadas quanto em agências governamentais (como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e universidades. A partir da década de 1990, a disseminação destas tecnologias em todo o território nacional permitiu que o Brasil vivesse um surto de desenvolvimento agrícola, com o aumento da fronteira agrícola e a disseminação de culturas em que o país é atualmente recordista mundial de produtividade (como a soja, o milho e o algodão, entre outros), atingindo recordes de exportação.

História[editar | editar código-fonte]

O mentor da revolução verde foi o cientista norte-americano Norman Borlaug (1914-2009). Na década de 30, Borlaug começou a pesquisar variedades do trigo resistentes a pragas e doenças. Os estudos de Borlaug atraíram a atenção do governo mexicano que o chamaram para coordenar, em 1944, o Programa de Produção Cooperativa de Trigo do México. Os trabalhos foram desenvolvidos em parceria com a Fundação Rockefeller com o intuito de se fazer estudos sobre a fragilidade da agricultura mexicana. A partir daí, cientistas criaram novas variedades de milho e trigo de alta produtividade, que fizeram o México aumentar de forma vertiginosa sua produção. Essas sementes foram, em seguida, introduzidas e cultivadas em outros países, também com ótimos resultados.

Na época, a empresa adotou como slogan o fim da fome no mundo. O programa aplicado na agricultura mexicana resultou em plantas com maior desempenho no campo e que fizeram o país, antes importador, autossuficiente na produção de trigo.

No período de 1950 a 1960, outros países passaram a adotar o conceito de maior produtividade no campo. Os governos do Brasil, Índia, Paquistão e Filipinas estão entre os que adotaram o método de Borlaug. Em 1968, o presidente da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional William Gaud classificou as novas técnicas do campo como "revolução verde". De fato, os conceitos de Borlaug o levaram ao Prêmio Nobel da Paz em 1970, por suas contribuições para redução da fome mundial.

Os países desenvolvidos também aplicaram o sistema agrícola criado por Borlaug e reduziram a dependência da importação de alimentos. Um dos exemplos está nos Estados Unidos, que passaram a exportar trigo a partir de 1960.

"O impacto social da revolução verde, na medida em que ajudou a erradicar a fome no mundo, fez com que Norman Ernest Borlaug, considerado o pai do movimento, ganhasse o Prêmio Nobel da Paz em 1970", diz o engenheiro agrônomo Fábio Faleiros, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).[2]

O conceito foi aplicado a outros produtos e a busca pela maior produtividade passou a balizar a qualidade no campo. O desenvolvimento de técnicas para irrigar o solo melhorou o desempenho agrícola, antes refém do regime de chuvas. A irrigação também contribuiu para otimizar o uso de fertilizantes, fungicidas e pesticidas.

A melhoria na relação de produtividade beneficiou diretamente países pobres, como a Índia, que passou a exportar arroz.

Revolução Verde no Brasil[editar | editar código-fonte]

O perfil da agricultura brasileira mudou completamente após a adoção das práticas características da revolução verde. A introdução dos novos conceitos ocorreu durante o regime militar e foi um dos pilares do chamado "milagre econômico".

A partir da produção em larga escala, o País passou à condição de exportador de alimentos. Entre os produtos de elevado desempenho estão a soja e o milho.

Com a matriz agrícola voltada para as vendas externas, o Brasil instituiu agências de fomento e pesquisa. Entre as agências abertas nesse período está a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), fundada em 1973.

Pontos positivos e negativos[editar | editar código-fonte]

A eficiência no campo, avanço na produção e a pesquisa de alimentos são apontadas como as principais vantagens do conceito da revolução verde.

Já as desvantagens merecem críticas de historiadores, ambientalistas e pesquisadores. Entre as principais consequências estão:

  • Esgotamento do solo
  • Erosão
  • Alteração do ecossistema para a implantação da lavoura
  • Desmatamento

Priorização à estrutura latifundiária, prejudicando a produção familiar e fomentando o êxodo rural.[3]

Revolução insustentável[editar | editar código-fonte]

Se na época da introdução do programa o desafio era ter maior produtividade, hoje em dia o objetivo principal é ter uma agricultura com menor impacto ambiental e mais sustentável.

A Revolução Verde trouxe inúmeros problemas para o meio ambiente. Com o desmatamento para cultivo, veio também o surgimento de pragas e utilização de agrotóxicos, fungicidas, entre outros produtos. Desta forma, houve uma alteração e contaminação em todo o ecossistema – solos, rios, animais, vegetais.

Além disso, o programa “expulsou” os pequenos produtores da sua lavoura, contribuindo para o aumento do êxodo rural e, consequentemente, para o aumento da população em periferias de grandes capitais.[4]

Utilização de maquinário e insumos agrícolas[editar | editar código-fonte]

De fato, houve um aumento considerável na produção de alimentos. No entanto, o problema da fome no mundo não foi solucionado, pois a produção dos alimentos nos países em desenvolvimento é destinada, principalmente, a países ricos industrializados, como Estados Unidos, Japão e Países da União Europeia.

O processo de modernização no campo alterou a estrutura agrária. Pequenos produtores que não conseguiram se adaptar às novas técnicas de produção, não atingiram produtividade suficiente para se manter na atividade, consequentemente, muitos se endividaram devido a empréstimos bancários solicitados para a mecanização das atividades agrícolas, tendo como única forma de pagamento da dívida a venda da propriedade para outros produtores.

A Revolução Verde proporcionou tecnologias que atingem maior eficiência na produção agrícola, entretanto, vários problemas sociais não foram solucionados, como é o caso da fome mundial, além da expulsão do pequeno produtor de sua propriedade.[5]

Da revolução verde à agrobiotecnologia[editar | editar código-fonte]

Ruptura ou continuidade de paradigmas?[editar | editar código-fonte]

A Revolução Verde pode ser caracterizada como um paradigma tecnológico derivado da evolução dos conhecimentos da química e da biologia, que definiram uma trajetória tecnológica baseada no uso intensivo de insumos químicos (fertilizantes e pesticidas). A partir da década de 1970, esse modelo passou a apresentar sinais de esgotamento cristalizados na identificação dos problemas ambientais ocasionados pelo uso intensivo de agrotóxicos e nos próprios limites de crescimento da indústria de insumos químicos. O desenvolvimento da biotecnologia possibilitou o surgimento de técnicas capazes de superar as barreiras genéticas existentes nas técnicas de melhoramento tradicional. Se por um lado essa mudança significou a possibilidade de superação dos limites alcançados pelo modelo tecnológico da Revolução Verde, ela representou, por outro lado, a oportunidade de diversificação de atividades das empresas do ramo químico. A questão que se coloca é se essa oportunidade tecnológica está sendo explorada para a construção de um novo modelo tecnológico baseado na redução do uso de insumos químicos, ou se está representando uma continuidade da trajetória do paradigma anterior, a partir de uma estratégia de valorização de ativos das empresas do ramo químico.[6]

ONU adere à agroecologia em detrimento à "revolução verde"[editar | editar código-fonte]

Para alimentar o mundo e, ao mesmo tempo, salvar o planeta em tempos de aquecimento global, pela primeira vez, a ONU declara abertamente sua intenção em incentivar métodos agroecológicos, em simpósio realizado em abril de 2018.

“O sistema de produção alimentar baseado nos sistemas agrícolas utilizando muitos inputs e recursos teve um preço alto para o meio ambiente. O resultado foi que os solos, as florestas, a água, a qualidade do ar e a biodiversidade continuam a se degradar, enquanto o aumento da produção a qualquer preço não erradicou a fome”, alega José Graziano Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)."[7]

Referências

  1. A Modernização da Agricultura no Brasil e os Novos Usos do Território. Disponível em http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/geouerj/article/view/2456/1730.
  2. «Yuri Vasconcelos, Planeta Sustentável, disponível em» 
  3. «O que foi a Revolução Verde?». Toda Matéria 
  4. «A Revolução Verde no Brasil e no mundo - Pensamento Verde». Pensamento Verde. 15 de maio de 2013 
  5. de Cerqueira e Francisco, Wagner. «Revolução Verde». Equipe Brasil Escola 
  6. Albergoni, Leide; Pelaez, Victor (6 de agosto de 2007). «Da Revolução Verde à agrobiotecnologia: ruptura ou continuidade de paradigmas?». Revista de Economia. 33 (1). ISSN 2316-9397. doi:10.5380/re.v33i1.8546 
  7. «ONU deixa 'revolução verde' para trás e adere à agroecologia - Notícias - UOL Economia». UOL Economia 
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