Agrotóxico

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Agrotóxicos, defensivos agrícolas, pesticidas, praguicidas, desinfectantes, biocidas, agroquímicos, produtos fitofarmacêuticos ou produtos fitossanitários[1] são designações genéricas para os vários produtos químicos usados ​​na agricultura. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define pesticide ou plaguicida como toda substância capaz de controlar uma praga que possa oferecer risco ou incômodo às populações e ao meio ambiente. Podem, ainda, ser definidos como substâncias ou misturas de substâncias destinadas a impedir a ação ou matar diretamente insetos (inseticidas), ácaros (acaricidas), moluscos (moluscicidas), roedores (rodenticidas), fungos (fungicidas), ervas daninhas (herbicidas), bactérias (antibióticos e bactericidas) e outras formas de vida animal ou vegetal prejudiciais à saúde pública e à agricultura.

A aplicação de agrotóxicos pode se dar durante a produção, armazenamento, transporte, distribuição e transformação de produtos agrícolas e seus derivados. Entre os agrotóxicos, também se incluem os desfolhantes, dessecantes e as substâncias reguladoras do crescimento vegetal ou fitorreguladores.[2]

A produção, o armazenamento e o uso de agrotóxicos podem representar significativos riscos ambientais e à saúde humana. A legislação sobre agrotóxicos define os procedimentos obrigatórios para fabricação, compra e uso de agrotóxicos. No Brasil e em diversos países do mundo, cada vez mais agricultores vêm produzindo alimentos sem uso de agrotóxicos, através da produção agroecológica e da orgânica.

Problemas causados pelos agrotóxicos[editar | editar código-fonte]

Locust from the plague in Palestine, 1915.jpg
Tipos de pesticidas

Acaricidas
Bactericidas
Fungicidas
Herbicidas
Inseticidas
Moluscicidas
Nematicidas
Rodenticidas

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou os efeitos tóxicos dessas substâncias em classe I (extremamente perigosos) até a classe IV (muito pouco perigosos). A maioria dos agrotóxicos de Classe I é proibida ou estritamente controlada não só no mundo industrializado mas também no Brasil, Argentina e outras potências agrícolas, embora possam não o ser em países emergentes, onde os agrotóxicos de classe I estão, muitas vezes, livremente disponíveis.

Os agrotóxicos podem provocar três tipos de intoxicação: aguda, subaguda e crônica. Na aguda, os sintomas surgem rapidamente. Na intoxicação subaguda, os sintomas aparecem aos poucos: dor de cabeça, dor de estômago e sonolência. Já a intoxicação crônica pode surgir meses ou anos após a exposição e pode levar a paralisias e doenças como o câncer.

Num passado recente, houve um extensivo uso de agrotóxicos persistentes, os organoclorados. Um organoclorado como o BHC pode resistir na natureza e no organismo humano por muitos anos, tendo se tornado um dos piores poluentes da história. Quando os malefícios e sua persistência foram divulgados, seu uso já estava difundido. Chegou-se ao ponto em que médicos prescreviam o uso de DDT, outro organoclorado perigoso, para o controle de verminoses e piolhos. Um resquício cultural desses tempos está no termo "dedetizar", que usamos quando nos referimos a expurgar baratas, moscas e outras pragas domésticas que ameaçam nossa saúde. "Dedetizar" se refere ao tempo em que as casas eram pulverizadas com DDT sem que se soubesse do seu risco.

Convém lembrar que muitos dos mesmos princípios ativos usados como agroquímicos, e mesmo agrotóxicos, são também usados como medicamentos humanos diferindo apenas na concentração e forma de apresentação. Milhões de vidas têm sido salvas de verminoses, doenças fúngicas e várias outras por medicamentos que usam exatamente as mesmas moléculas usadas de outra forma para o controle de pragas e doenças agrícolas, pecuárias e também de animais de estimação.

Plantação de soja na Argentina: os agrotóxicos são um dos meios técnicos (junto com a mecanização) que possibilitaram a Revolução Verde.

Os agrotóxicos de longa persistência que foram usados no passado atualmente estão banidos, pois, além de serem compostos de alta toxicidade aos seres humanos, também persistem por vários anos nos ecossistemas, causando sérios desequilíbrios. Não é mais possível encontrá-los no mercado, e sua posse, transporte e uso são crimes previstos em lei com punição de multa, cadeia e destruição das lavouras onde tenham sido usados.

Os agrotóxicos podem representar graves consequências para nossa saúde e para o meio ambiente. O mecanismo mais comum de funcionamento dos agroquímicos e agrotóxicos é a inibição da enzima aceticolinesterase, o que leva a um excesso do neurotransmissor acetilcolina, produzindo um colapso sináptico generalizado e a morte do inseto por asfixia. Como esse mecanismo de ação implica riscos humanos e animais, além de matar insetos benéficos e desejáveis, grandes verbas têm sido empregadas no desenvolvimento de novas moléculas com alta seletividade quanto às pragas-alvo. São substâncias atóxicas aos mamíferos e à maioria dos insetos, mas letais para a praga específica a que se destinam. Um exemplo são os inseticidas fisiológicos inibidores da síntese de quitina. Eles atuam somente sobre as lagartas nas plantas pulverizadas, inibindo a ecdise (troca de exoesqueleto), sem afetar nenhum outro inseto, nem mesmo os adultos dessas pragas, nem outras pragas que estejam atacando a mesma lavoura ou insetos que habitem as matas próximas.

Os organofosforados e carbamatos são os inseticidas mais utilizados atualmente. São absorvidos pelas vias oral, respiratória e dérmica. Seu efeito é a alteração do funcionamento dos músculos, cérebro e glândulas.

As piretrinas são inseticidas naturais ou artificiais. São instáveis à luz e, por isso, não se prestam à agricultura. São usados em ambientes domésticos na forma de spray, espirais ou em tabletes que se dissolvem ao aquecimento. São substâncias alergizantes e desencadeiam crises de asma e bronquites em crianças.

O herbicida Paraquat oferece grande risco se mal utilizado. É um herbicida que mata a parte aérea de todos os tipos de plantas, não afetando seu sistema radicular. Porém é um íon altamente instável, que se decompõe rapidamente sem deixar resíduos. Na ausência de procedimentos regulamentares, contaminações com a substância causam lesões nos rins. Resíduos se concentram nos pulmões, causando fibrose irreversível.

Os principais clorofenóis são o "2,4-D" e o "4,5-T", que são cancerígenos. O agente laranja, usado na Guerra do Vietnã, é uma mistura do "2,4-D" e do "2,4,5-T".

Casos de intoxicação por agrotóxico[editar | editar código-fonte]

Em maio de 2013, uma aeronave agrícola da empresa Aerotex pulverizou agrotóxico sobre a Escola Municipal de São José do Pontal, localizada na região rural do município de Rio Verde, em Goiás. Como resultado, houve diversos casos de intoxicação aguda de trabalhadores (diretor, professores e demais servidores) e alunos de 9 a 16 anos. Nesse episódio, a pulverização teria sido feita sobre a lavoura de milho localizada a poucos metros da escola, não obedecendo aos limites mínimos de distância recomendados.

Logo após a pulverização em Rio Verde, os alunos e funcionários manifestaram sintomas como coceiras, enjoos, distúrbios respiratórios, dentre outros. Semanas depois do episódio, os sintomas persistiam, assim como a incompetência do Estado para tratar os atingidos. Houve, ainda, tentativas de diferentes partes em ocultar o caso.[3]

Em 2006, quando os fazendeiros dessecavam soja transgênica para a colheita com paraquat em pulverizações aéreas no entorno da cidade de Lucas do Rio Verde, uma nuvem tóxica pairou sobre a cidade e dessecou milhares de plantas ornamentais. 180 canteiros de plantas medicinais da cidade foram destruídos, além de plantas em 65 chácaras de hortaliças do entorno da cidade. A chuva de venenos desencadeou surto de intoxicações agudas em crianças e idosos.[4] Posteriormente, estudo da Universidade Federal de Mato Grosso constatou a presença de agrotóxicos na chuva, na água dos poços, na urina de professores e, o mais grave, no leite materno.[5] ..

O Tamarron matou 16 pessoas em um ano na Costa Rica.

Milhares de jovens, às vezes com menos de 18 anos, são quimicamente castrados pelo DDCT (Bromocloropropano), que deixou de ser fabricado nos Estados Unidos em 1970.

Na União Europeia, uma pessoa só pode comprar fosforados após um curso de 60 horas e depois de receber carteira de autorização para usar o agrotóxico no município. Embora ainda não obrigatórios no Brasil, tais cursos são frequentes no meio rural e contam com grande procura, e se pode comprar os produtos com um documento assinado por um agrônomo responsável.

Boa parte das fábricas de agrotóxicos atualmente estão em países do Terceiro mundo, notadamente República Popular da China e Índia, embora a indústria química europeia continue contribuindo com grande parcela do suprimento brasileiro.

O uso negligente de agrotóxicos tem causado diversas vítimas fatais, além de abortos, fetos com malformação, suicídios, câncer, dermatoses e outras doenças. Segundo a Organização Mundial da Saúde, há 20 000 óbitos por ano em consequência da manipulação, inalação e consumo indireto de pesticidas nos países em desenvolvimento, como o Brasil. Já foram registrados casos de transmissão de leucemia para o feto por mulheres que estiveram em contato com agrotóxicos durante a gravidez. Dado que essas substâncias são de fácil acesso, a ingestão de agrotóxicos é, também, o método de suicídio mais comum em todo o mundo, respondendo por um terço de todos os suicídios, sobretudo na Ásia, África, América Central e América do Sul. Os casos fatais são numerosos, particularmente em áreas rurais.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o uso intenso de agrotóxicos levou à degradação dos recursos naturais - solo, água, flora e fauna -, irreversível em alguns casos, levando a desequilíbrios biológicos e ecológicos. Além de agredir o ambiente, a saúde também pode ser afetada pelo excesso dessas substâncias.

Mercado de Agrotóxicos[editar | editar código-fonte]

Em 2008, o Brasil se tornou o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, segundo o Sindicato Nacional de Empresas de Aviação Agrícola. Seis empresas dominam o mercado de agrotóxicos no Brasil: Monsanto, Syngenta, BASF, Bayer CropScience, Dow AgroSciences e DuPont. Coincidentemente, as seis possuem patentes de sementes transgênicas autorizadas no Brasil. A modificação, em grande parte, torna as plantas de soja, milho e algodão resistentes aos agrotóxicos, permitindo, assim, aplicações mais intensas de veneno para inibir mais o crescimento de outras plantas concorrentes.

Em 2012, foram comercializadas 823 226 toneladas de agrotóxicos no Brasil, num crescimento de 162,32 por cento em relação ao ano 2000. Este volume representou um faturamento de 9,71 bilhões de dólares estadunidenses.[6]

Considerando um estudo da Fundação Oswaldo Cruz que relaciona um gasto de 1,26 dólar estadunidense no Sistema Único de Saúde (SUS) para cada dólar estadunidense gasto com agrotóxicos, em 2012 o uso de agrotóxicos impactou o SUS em 12,2 bilhões de dólares estadunidenses.

Os estados brasileiros campeões de uso de agrotóxicos são: Mato Grosso, São Paulo, Paraná, Goiás, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Os cultivos que mais utilizam de forma absoluta agrotóxicos são: soja, milho, algodão e café.

Literatura sobre os agrotóxicos[editar | editar código-fonte]

A primeira obra de grande impacto a denunciar o problema do DDT, em específico, e dos agrotóxicos, em geral, foi o livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson.

No Brasil, um dos primeiros trabalhos a denunciar os agrotóxicos trazidos pela Revolução Verde foi o livro A Agricultura Ecológica e a Máfia dos Agrotóxicos no Brasil (1993), dos autores Sebastião Pinheiro, Nasser Yousseff Nasr e Dioclecio Luz.

Mais recentemente, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) lançou o "Dossiê ABRASCO: Impactos dos Agrotóxicos na Saúde" (2015). O Dossiê foi lançando em 3 volumes, em 2012, e foi expandido e atualizado em 2015.

Filmografia sobre os agrotóxicos[editar | editar código-fonte]

  • O Veneno Está na Mesa, documentário de Silvio Tendler (2011)
  • O Veneno Está na Mesa 2, a continuação do primeiro, também dirigido por Silvio Tendler (2014)
  • Nuvens de Veneno, dirigido por Beto Novaes (2013)
  • Agrotóxicos, uma agricultura da morte, AS-PTA (2011).
  • Pontal do Buriti - Brincando na Chuva de Venenos, Dagmar Talma (2013).

Alternativas aos Agrotóxicos[editar | editar código-fonte]

Atualmente, existem tecnologias de produção de alimentos consolidadas capazes de responder à demanda pela produção de alimentos sem a utilização de agrotóxicos, transgênicos ou fertilizantes químicos. Existem diversas denominações para estas tecnologias, mas a tendência é que sejam agrupadas sob o termo agroecologia.

Na agroecologia, utilizam-se os policultivos como forma de manter a biodiversidade, de forma que insetos, plantas, bactérias e fungos convivam em harmonia, sem se reproduzirem de forma descontrolada. Na agricultura agroecológica, as "pragas" da agricultura convencional são tratadas como "desequilíbrios".

A fertilização do solo é feita a partir de adubos orgânicos, de restos de alimentos ou fezes de animais. Além disso, a correta utilização do solo com combinações de culturas evita o desgaste e mantém o equilíbrio dos nutrientes.

A agroecologia coloca-se em oposição ao agronegócio: enquanto este utiliza agrotóxicos, transgênicos e fertilizantes para produzir monocultivos de exportação, a agroecologia se preocupa em produzir alimentos saudáveis para camponeses e consumidores.

No Brasil[editar | editar código-fonte]

De acordo com a Lei Federal nº 7.802/1989, "agrotóxicos são os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento dos produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa dos seres vivos considerados nocivos."[7]

Existem cerca de 15 000 formulações para 400 agrotóxicos diferentes, sendo que cerca de 8 000 encontram-se licenciados no Brasil, que é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos apontou problemas de contaminação em vários produtos agrícolas, como o pimentão, o morango e o pepino, que lideraram o ranking dos alimentos com o maior número de amostras contaminadas, em 2010. Nessas amostras, a Anvisa detectou a presença de resíduos de agrotóxicos acima do permitido e o uso de agrotóxicos não autorizados para essas culturas.[8]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. José M. G. Calado, Prof. Auxiliar da Universidade de Évora Instituto de Ciências Agrárias Mediterrânicas, Departamento de Fitotecnia. Utilização e aplicação de produtos fitofarmacêuticos.
  2. Producto Fitosanitario en la Breve Enciclopedia del Ambiente, que cita como fuente la Guía de productos fitosanitarios para la República Argentina. 1993. Cámara de Sanidad Agropecuaria y Fertilizantes, República Argentina. pg. 1167
  3. Larissa Carvalho de Oliveira (2014). Intoxicados e Silenciados: contra o que se luta?. Visitado em 04/04/2015.
  4. Machado, 2008
  5. Wanderlei Antonio Pignati; Jorge M. H. Machado; James F. Cabral (2007). Acidente rural ampliado: o caso das "chuvas" de agrotóxicos sobre a cidade de Lucas do Rio Verde - MT Ciência e Saúde Coletiva. Visitado em 04/04/2015.
  6. Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Dados sobre mercado e consumo de agrotóxicos Brasil. Visitado em 04/04/2015.
  7. LEI FEDERAL n.7 802acervoeditoradombosco
  8. Ranking da Anvisa aponta alimentos contaminados por agrotóxicos, por Marco Aurélio Weissheimer. Carta Maior, 7 de dezembro de 2011.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]