Kampuchea Democrático

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Democratic Kampuchea official name.svg
Kampuchea Democrático
Flag of the Khmer Republic.svg
1975 – 1979 Flag of the People's Republic of Kampuchea.svg
Flag Brasão
Bandeira Brasão
Hino nacional
ដប់ប្រាំពីរមេសាមហាជោគជ័យ
"Glorioso dezessete de abril"


Localização de Kampuchea Democrático
Continente Ásia
Região Sudeste Asiático
Capital Phnom Penh
Língua oficial Khmer
Governo República socialista
Secretário-geral do Partido Comunista Pol Pot
Período histórico Guerra Fria
 • 17 de abril de 1975 Queda de Phnom Penh
 • 5 de janeiro de 1976 Promulgação da constituição
 • 7 de janeiro de 1979 Dissolução
População
 • 1975 est. 7 890 000[1] 
Moeda Nenhuma1
1O uso da moeda foi abolido

Kampuchea Democrático,[2][3][4][5] também referido como Kampuchea Democrático (khmer:Democratic Kampuchea official name.svg, transl. Kâmpŭchéa Prâcheathippadey ) foi um Estado que existiu no Sudeste Asiático, onde hoje se localiza o Camboja, entre os anos de 1975 e 1979. Foi fundado pelas forças do Khmer Vermelho, quando as mesmas derrubaram o regime da República Khmer, regido pelo general Lon Nol. Os comunistas se referiam ao governo anterior como Angkar Loeu ("organização superior"),[6] e os membros da liderança do Partido Comunista do Kampuchea (PCK) referiam-se a si mesmos como Angkar Pavedat, durante esse período.[7]

O período de quatro anos, viu a morte de cerca de 2 milhões de cambojanos através do resultado combinado de execuções políticas, fome e trabalho forçado.[8][9] Devido ao grande número, as mortes durante o regime do Khmer Vermelho são frequentemente considerado um genocídio, e conhecido como o Holocausto cambojano ou Genocídio cambojano.

Pol Pot era o líder do Khmer Vermelho; em 1979 o território do Camboja (então conhecido pelo nome de Kampuchea Democrático) foi invadido por tropas do exército da República Socialista do Vietnã, e foi instalada a República Popular do Kampuchea, como estado substituto ao Kampuchea Democrático. O governo dirigido por Heng Samrin tornou-se aliado do governo vietnamita e da URSS, similar àquele instalado em Laos em dezembro de 1975. As forças do Khmer Vermelho - que haviam promovido um banho de sangue quando dominavam todo o país - se reagruparam na região da fronteira com a Tailândia, mantendo as mesmas estruturas políticas aplicadas no Kampuchea Democrático nas regiões que ainda controlavam. Sua sobrevivência deveu-se ao apoio da China e à ajuda financeira e militar (fornecimento de armas) dos Estados Unidos, razão pela qual a maioria dos países do Ocidente continuaram a reconhecê-lo como o governo legítimo do Camboja.

Em junho de 1982, foi formado o Governo de Coalizão do Kampuchea Democrático.[10]

História[editar | editar código-fonte]

Em 1970, o general Lon Nol e a Assembléia Nacional depuseram o rei Norodom Sihanouk, então chefe de estado. Sihanouk, opondo-se ao novo governo, formou uma aliança com o Khmer Vermelho contra o governo recém-estabelecido pelo general Lon Nol. Ao mesmo tempo, aconteciam bombardeios ilegais na região leste do Camboja, onde algumas tropas do Viet Cong (Frente Nacional para a Libertação do Vietname) se escondiam. Os bombardeios foram autorizados pelo presidente Richard Nixon e coordenados pelo seu conselheiro pessoal, Henry Kissinger. Tais bombardeios eram ilegais, pois os Estados Unidos não haviam declarado guerra oficialmente ao Camboja. Mais de 539,129 toneladas de bombas foram jogadas sobre o Camboja, mais que o triplo do total de bombas jogadas sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial. Apesar dos bombardeios, o Khmer Vermelho, que contava com amplo apoio popular no campo, conseguiu tomar a capital Phnom Penh em 17 de abril de 1975. O rei Norodom Sihanouk permaneceu como uma figura poderosa no governo até 1976.

Após a queda de Phnom Penh, o Khmer Vermelho imediatamente evacuou a capital. As estradas nas adjacências da cidade estavam lotadas de homens, mulheres e crianças oriundos da capital e de outras cidades, evacuadas à força pelo Khmer Vermelho. Phnom Penh – cuja população era de aproximadamente 3 milhões de pessoas, incluindo refugiados dos bombardeios – foi totalmente esvaziada praticamente do dia para a noite. Evacuações como essa ocorreram também em Battambang, Kampong Cham, Siem Reap, Kampong Thom e outras regiões.

O Khmer Vermelho justificou as evacuações alegando que não era possível transportar comida suficiente para alimentar uma população urbana de mais de dois milhões de pessoas, desta forma, as pessoas, então teriam que ser levadas até a comida. O Khmer Vermelho estava determinado a transformar o país em uma nação agrária na qual a corrupção e o "parasitismo" da vida urbana fossem completamente erradicados.

O Khmer Vermelho afirmava que seu objetivo era construir uma sociedade mais igualitária. Entretanto, algumas pessoas eram "mais iguais" do que outras. Membros do partido comunista, líderes de facções camponesas locais que de alguma maneira cooperaram com o Partido, membros das Forças Armadas do Khmer Vermelho e oficiais da Angkar tinham um padrão de vida mais elevado que o resto da população.

Dado à rigidez de sua ideologia revolucionária, é um tanto surpreendente o fato de que os membros do mais alto escalão do Khmer Vermelho mostrassem uma inclinação para o nepotismo que superava até mesmo a elite da era monárquica. Laços familiares eram importantes, tanto por motivos culturais quanto pela desconfiança em relação aos desconhecidos, especialmente comunistas pró-Vietnã. A ganância era, também, uma das razões do nepotismo. Diferentes ministérios, como por exemplo, o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério da Indústria e Exportação eram controlados e explorados pelas poderosas famílias de membros do Khmer Rouge. A administração das corporações diplomáticas era uma atividade especialmente lucrativa no governo pseudo-socialista feudalista do Khmer Vermelho.

Imediatamente após sua vitória no mês de abril, houve incidentes desagradáveis entre o Khmer Vermelho e o governo do Vietnã em maio de 1975. No mês seguinte, Pol Pot e Ieng Sary visitaram Hanói e propuseram um tratado de aliança entre as duas nações. O tratado teve uma recepção fria por parte dos líderes vietnamitas.

Frente a uma crescente tensão com membros do Khmer Vermelho e a antipatia vietnamita pelas políticas radicais do governo do Kampuchea Democrático, a liderança vietnamita decidiu por apoiar os movimentos de resistência contra o Khmer Vermelho, o que resultou no surgimento de muitos focos de resistência na área da fronteira leste. A paranóia de guerra alcançou níveis dramáticos. Em maio de 1978, ouviu-se anunciar na Rádio Phnom Penh que se cada soldado cambojano matasse pelo menos 30 vietnamitas, apenas 2 milhões de soldados seriam necessários para exterminar toda a população vietnamita, que na época era de 50 milhões de pessoas. Aparentemente a liderança do Khmer Vermelho, em Phnom Penh tinha grandes ambições territoriais, o que incluía a retomada da região do Delta do Rio Mekong, que eles consideravam um território khmer.

Massacres de vietnamitas étnicos por tropas do Khmer Vermelho se intensificaram na área da fronteira leste após o levante de Maio. Em novembro, Vorn Vet liderou um golpe de estado frustrado contra Pol Pot. Haviam, então dezenas de milhares de cambojanos e vietnamitas exilados em território vietnamita. Em 3 de dezembro de 1978 a Rádio Hanói anunciou a formação da Frente Unida Nacional para Salvação do Kampuchea (FUNCSN ou KNUFNS, como é conhecida internacionalmente). A FUNCSN era um grupo heterogêneo formado por exilados cambojanos comunistas e não-comunistas e partilhavam da antipatia ao regime de Pol Pot e uma quase total dependência do apoio vietnamita. A FUNCSN defendia a legitimidade de uma futura invasão vietnamita no Kampuchea Democrático e pelo estabelecimento, por conseguinte, de um regime satélite no Camboja.

No meio tempo, com o passar do ano de 1978, o ritmo do genocídio e das incursões violentas na área leste ultrapassaram todos os limites e o governo de Hanói sentiu que era chegada a hora de agir e, em 22 de dezembro de 1978 o exército vietnamita lançou sua ofensiva com o objetivo de derrubar o governo de Pol Pot e por um fim ao genocídio no Kampuchea Democrático. Uma força de ataque composta de 120.000 tropas, consistindo de unidades de infantaria combinados a cavalaria blindada com forte apoio da artilharia marchou em direção ao oeste vinda das regiões camponesas das províncias no Sudeste cambojano. Após 17 dias de ofensiva, Phnom Penh foi capturada em 7 de janeiro de 1979. A nova administração recebeu amplo apoio político e militar do Vietnã, bem como da URSS. Durante a década de 1980, as principais preocupações do regime vigente eram a reconstrução do país, restauração da economia local e o combate à resistência do Khmer Rouge tantos por meios políticos quanto militares.

Política e violência[editar | editar código-fonte]

Após assumir o poder no Camboja em 1975, o Khmer Vermelho, determinado a criar uma nova sociedade começando por destruir todos os aspectos da antiga, põem-se progressivamente à execução de um programa que consiste em fazer deslocar as pessoas das zonas urbanas a cooperativas agrícolas para educá-los, eliminando a ideia de propriedade privada, o desenvolvimento de uma economia e a medicina auto-sustentáveis, suprimindo o dinheiro e as refeições familiares.

O regime comunista do Khmer Vermelho também começou a executar sistematicamente quem tinha relações com o governo anterior. As populações urbanas, como os intelectuais, deveriam por sua vez, serem reeducados e juntarem ao novo regime. As relações com o Vietnam se deterioram e cerca de 10.000 vietnamitas que permaneceram no país depois de maio de 1975 serão eliminados principalmente, devido à sua antiga posição econômica e devido ao aumento da penetração das tropas vietnamitas em território cambojano que aumentam desconfiança dos líderes no que diz respeito às ambições estratégicas e econômicas do seu vizinho.

Os centros de tortura e execução como Tuol Sleng, também chamado de S-21, são criados. O S-21 era um antigo liceu transformado em prisão onde foram encarceradas quase 20.000 pessoas. Nele haverá apenas sete sobreviventes resgatados por seus talentos, como a escultura ou a pintura. Após a sua chegada em 1978, o Vietnã descobre que as últimas pessoas presentes em Tuol Sleng foram executadas pelo Khmer Vermelho antes de fugirem.

O número exato de vítimas do regime dos Khmeres Vermelhos pelo Ocidente ainda está em discussão, mas seria em torno de 1,5 milhões de pessoas.[11]

Relações exteriores[editar | editar código-fonte]

Pol Pot e Khieu Samphan recebem o presidente romeno Nicolae Ceaușescu, em visita oficial ao Campucheia Democrático junto de sua esposa Elena em março de 1978.

Embora o discurso dos líderes do país defendesse a autarquia e a independência nacional completa, o país não se fechou totalmente para o mundo exterior: várias embaixadas foram preservadas ou reabertas em Phnom Penh e o Campucheia Democrático continuou nescessitando de ajuda extrangeira, principalmente da chinesa.[12] A maioria dos países com os quais as relações diplomáticas foram mantidas eram Estados comunistas que denotavam a posição do Campucheia de independência em relação à União Soviética ou as suas ligações estreitas com Pequim.[13] Somente Albânia, Birmânia, República Popular da China, Coreia do Norte, Cuba, Egito, Laos, Vietnã, Romênia e Iugoslávia possuíam embaixada em Phnom Penh.[14]

A partir do final de 1977, quando o conflito com o Vietnã já mostrava-se inevitável, o Campucheia busca apoio no exterior. Ne Win, homem-forte do regime birmanês, é o primeiro chefe de Estado a efetuar uma visita oficial ao país, realizada entre 26 e 29 de novembro de 1977. Já nos dias 28 a 30 de março de 1978, foi a vez do presidente romeno Nicolae Ceaușescu e de sua esposa Elena Ceauşescu. No mesmo ano, várias organizações maoístas, representantes de associações de amizade e jornalistas ocidentais cuja simpatia pelo regime era notória foram convidados a conhecerem o Campucheia.[15]

O Campucheia também tentou aproximar-se do Japão a fim de estabelecer relações diplomáticas, mas o projeto não obteve êxito, apesar do anúncio oficial da parte cambojana.[13]

República Popular da China[editar | editar código-fonte]

Conforme as relações do Campucheia com o Vietnã foram deteriorando-se, as relações com a República Popular da China foram estreitando-se. Porém, no decurso de 1976, a ajuda chinesa foi praticamente inexistente, em reflexo à turbulência política interna que se seguiu às mortes de Mao Tsé-Tung e de Zhou Enlai. No entanto, a interrupção seria de curta duração e já em jullho de 1977, Pol Pot visitou secretamente a China, onde encontrou-se com os novos dirigentes da República Popular. Khieu Samphan visita Pequim em agosto do mesmo ano e firma um acordo comum, por meio do qual o governo chinês comunicava oficialmente um auxílio de até US$ 20 milhões. O apoio político da China contribuiu para a marginalixação do Camboja, mesmo entre os Estados comunistas; mesmo os chineses, após a queda do radical Grupo dos Quatro, apresentaram sinais de incômodo com as medidas revolucionárias fundamentalistas aplicadas pelo aliado Khmer Vermelho.[16]

Coreia do Norte[editar | editar código-fonte]

As relações com a Coreia do Norte deviam-se muito aos laços de amizade tecidos a partir de meados da década de 1960 entre Norodom Sihanouk e Kim Il-sung, numa época em que a República Democrática Popular da Coreia era reconhecida por uma minoria de países. Após a deposição de Sihanouk em 1970, o ditador norte-coreano deu à este apoio incondicional et lui avait même fait construire un palais proche de sa capitale. Na sequência da queda da República Khmer e do retorno de Sihanouk ao posto de chefe de Estado, a Coreia socialista tornou-se o segundo parceiro mais importante do país, na sequência da China. Conselheiros foram enviados ao Camboja para supervisionarem a construção da barragem de Baphuon, na província de Prey Veng, e a oficina de concerto de tratores Tœuk Thla, em Phnom Penh.[17]

Iugoslávia[editar | editar código-fonte]

As relações entre o regime titoísta e os dirigentes do Campucheia Democrático datam desde antes da tomada do poder por estes. Em primeiro lugar, porque Pol Pot, durante seus estudos em Paris no início da década de 1950, aproveitou suas férias de verão para se juntar às brigadas de trabalho em Zagreb e retornou seduzido por este tipo de mobilização coletiva. A segunda parte desta relação, assim como a com outros "países-irmãos", deriva de laços do Movimento dos Países Não Alinhados, do qual fizeram parte Norodom Sihanouk e Josip Broz Tito. Em 1970, após a deposição de Sihanouk, Belgrado reconheceu o Governo Real da União Nacional do Campucheia (GRUNK), formado por aquele e no qual o Khmer Vermelho adquiriu papel de destaque. Cinco anos mais tarde, quando o GRUNK tomou o poder, a Iugoslávia forneceu ajuda finaceira para reconstruir um país devastado pela guerra civil.[18] As relações estendem-se até 1978, quando um grupo de jornalistas iugoslavos visita o Camboja de 3 a 18 de março e reporta várias realidades da vida cotidiana da população, retratando fatos que excursionaram na imprensa ocidental e que provocaram a cólera dos dirigentes do Angkar.[19]

Cuba[editar | editar código-fonte]

Após o golpe de 1970, Cuba foi um dos primeiros países do mundo a conderar o novo regime pró-americano liderado por Lon Nol e a apoiar o GRUNK. Este posicionamento rendeu-lhe cinco anos mais tarde o privilégio de seu o único país pró-soviético a ter uma embaixada em Phnom Penh. No entanto, com o distanciamento diplomático entre o Campucheia e o Vietnã, o mesmo ocorre com o regime de Fidel Castro.[20]

No fim de 1977, quando o conflito na Indochina já mostrava-se como inevitável, a embaixada cubana é fechada. Após o retorno, os funcionários da embaixada relataram suas condições de isolamento: seu único contato com o exterior era através do Ministério das Relações Exteriores em Havana e qualquer saída para as ruas (que estavam praticamente desertas), mesmo a em frente da embaixada, estava sujeita à autorização prévia.[21]

Tailândia[editar | editar código-fonte]

Apesar dos acordos comerciais entre os dois países, o Campucheia Democrático mantém a tensão na fronteira com a Tailândia e reinvindica os territórios siameses povoados por khmers. O regime do Angkar apoiou os gerrilheiros do Partido Comunista da Tailândia, e os grupos de comunistas tailandeses do nordeste adotaram para a sua organização a denominação, para uso interno, de Angkar Siem ("Angkar Tailandês"). Ao mesmo tempo, a Tailândia endureceu a sua atitude para com os refugiados cambojanos que cruzavam a fronteira, e alguns destes foram mortos por tropas tailandesas.[22]

Economia[editar | editar código-fonte]

Zonas administrativas do Campucheia Democrático (1975-78).

A política econômica do regime baseava-se nas teses defendidas após a independência por Khieu Samphan e Hu Nim em Paris e em Phnom Penh. Todavia, nenhuma destas teses defendia a abolição da moeda e dos mercados que seriam decretadas logo após a queda de Phnom Penh. Alem disso, os dois teóricos insistiram na necessidade de incentivar a população a forjar por si mesma as reformas propostas, ao invés de tentar as impor pela força.[23][24]

O programa que o partido pôs em prática foi descrito no verão 1976 como “plano quadrienal do Partido para a construção do socialismo em todas as frentes”. O setor terciário, considerado uma atividade parasita é restrito ao mínimo, ao mesmo tempo em que o foco estava na autossuficiência, especialmente de arroz. A divisa era អោយតែមានស្រូវគឹមានអ្វីៗទាំងអស់ (“quem possui arroz possui tudo”). O plano previa fornecer em 1977 mais de 300 kg anuais de arroz per capita e produzir excedente para exportação, que iria fornecer capital para financiar o desenvolvimento da indústria. O modo pelo qual pretendia-se atingir tal abundância pode ser resumido pelo slogan ស្រូវធើ្វឱ្យបាន១ហិកតា៣តោន! (“Nós devemos produzir, para um hectare, três toneladas!”). Para os alto dirigentes, quaisquer resultados abaixo desta meta não deviam-se senão à malevolência dos inimigos da revolução inflitrados no seio da população ou entre os dirigentes partidários locais. Estes últimos, para salvarem-se, não tinham outra escolha senão a de perseguirem a todo custo as cifras estabelecidas de produção excedente, mesmo que isso significasse limitar a quantidade destinada a alimentar a população.[25]

O látex também constituía uma importante fonte de exportação, principalmente para a China (500.000 toneladas entre 1977 e 1978) e a Coreia do Norte (9.000 toneladas) e, em menor medida, para o Japão e a Singapura.[26] No início da década de 1970, 74% do território cambojano era coberto por florestas; a indústria madeireira, no entanto, constituía a terceira maior pauta de exportação, depois do arroz e do látex. Além da Tailândia, que beneficiou-se da proximidade, os dois principais mercados eram o nipônico e o chinês. No segundo semestre de 1975, em volume estimado de 2100 m3 de toras foi entregue pela Kampuchea Shipping Company de Kampong Som no terminal portuário de Hutchinson Whampoa em Hong Kong, de onde partiu para a China comunista.[27]

O plano de 1976 também previa o desenvolvimento do turismo, mesmo que ele fosse restrito aos templos de Angkor e às "grandes realizações" do regime, certamente incluíndo algumas comunas populares semelhantes às da zona especial criada antes de 1975 nas províncias de Kandal e Kampong Speu e que receberam visitantes estrangeiros simpatizantes aos khmers vermelhos. Esse projeto teve um início no verão de 1976. Para tal, a prisão regional de Siem Reap foi fechada e a cidade limpa. O governo campucheano chegou a firmar um acordo com a Tailândia que previa abrir uma linha aérea ligando o Aeroporto Internacional de Don Mueang, em Bangkok, ao Aeroporto Internacional de Siem Reap. O projeto foi interrompido com a invasão vietnamita e a consequente queda do regime.[28]

Educação[editar | editar código-fonte]

O regime via com maus olhos o ensino cambojano tradicional, acusando-o de ter contribuído por meio de seus ensinamentos para a perpretação da sociedade que os revolucionários consideravam decadente e que buscaram erradicar. As escolas foram fechadas e transformadas em armazéns, prisões, chiqueiros ou simplesmente abandonadas. O simples fato de ter sido um professor ou ter algum nível mais elevado de instrução formal eram vistos como motivos para perseguição política e mesmo execução.[29] Ironicamente, grande parte dos altos dirigetes do Khmer Vermelho, em especial Pol Pot, tiveram acesso à uma esmêra instrução formal, tendo estudado em importantes universidades francesas graças à bolsas de estudo patrocinadas pelo próprio governo cambojano.[14]

O plano quadrienal de 1976 previa o estabelecimento, uma vez completamente apagados todos os vestígios da sociedade velha, de um novo sistema educacional, que seria aplicado de forma dessigual, e cuja efetivação seria deixada a critérios dos quadros partidários locais.[30] Ele previa um currículo restrito, concentrando-se na leitura, na escrita, noções básicas da aritmética e nos trabalhos manuais. O ensino teórico era proibido.[31] Os professores eram escolhidos entre os estratos mais pobres da população, servindo de critério a sua lealdade ao regime e não a sua qualificação para a docência. Assim, não eram incomuns classes com alunos que previamente instruídos durante a República Khmer e que eram mais cultos que os seus professores.[32]

Em complemento à esta instrução básica, o regime buscou promover a formação profissional. Esta deveria ocorreu no decorrer de nove anos, e seria intercalada por trabalhos agrícolas. Para esta função, várias das antigas instituições de ensino anteriormente fechadas foram reabertas, e nelas foram acomodados principalmente indivíduos do povo khmer loue, minoria étnica do norte do país que destacou-se por seu apoio ao regime comunista. Por fim, nos últimos meses de 1976, o Instituto Técnico Superior de Amizade Khmer-Soviética (atual Instituto de Tecnologia do Camboja) reabe as portas para receber principalmente as crianças dos comandantes.[33]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Kiernan, Ben (1996). The Pol Pot Regime. New Haven: Yale University Press. p. 458 
  2. Resolução do Parlamento Europeu sobre o Camboja - Parlamento Europeu, ata de 3 de julho de 2003.
  3. «Aviso de Diário da República 47/84 SÉRIE I de sexta-feira, 24 de fevereiro de 1984 - junho armazenamento armas bacteriológicas». pt.legislacao.org. Consultado em 27 de setembro de 2009 
  4. 1970: Mao Tse-tung intervém no Camboja - Deutsche Welle, 24 de outubro de 2009.
  5. Camboja inicia processo legal para julgar os Khmers Vermelhos - UOL Últimas notícias, 3 de julho de 2006.
  6. «Cambodia Since April 1975». Centro de Estudos do Sudeste Asiático, Universidade do Norte do Illinois. Consultado em 26 de novembro de 2007 
  7. «A History of Democratic Kampuchea (1975-1979)». monument-books.com. Consultado em 26 de novembro de 2007. Arquivado do original em 18 de outubro de 2007 
  8. Khmer Rouge leader admits crimes
  9. Noam Chomsky on Cambodia under Pol Pot
  10. «COALITION GOVERNMENT OF DEMOCRATIC KAMPUCHEA». countrystudies.us. Consultado em 16 de novembro de 2007 
  11. (em inglês) Ben Kiernan, The Pol Pot Regime: Race, Power, and Genocide in Cambodia under the Khmer Rouge, 1975-79, New Haven: Yale University Press, 1996, pp. 456-460.
  12. Locard 2013, pp. 181-182.
  13. a b Kiernan 1998, pp. 151-171.
  14. a b Kane 2007.
  15. Locard 2013, pp. 182-183.
  16. Bui-Xuân, Quang (2000). La troisième guerre d'Indochine, 1975-1999: sécurité et géopolitique en Asie du Sud-Est. Paris: l'Harmattan. p. 138 
  17. Locard 2013, pp. 187-188.
  18. Kane 2007, pp. 404-406.
  19. Locard 2013, p. 183.
  20. Kane 2007, p. 113.
  21. Cambacérès, Jean-Marie (2013). Norodom Sihanouk, le roi insubmersible. Paris: Le Cherche midi. p. 237. ISBN 9782749131443 
  22. Kiernan 1998, pp. 435-437.
  23. Locard 2013, p. 41.
  24. Shawcross, William (1979). Une tragédie sans importance: Kissinger, Nixon et l'anéantissement du Cambodge. Paris: F. Adel. p. 242-245. ISBN 9782715802186 
  25. Locard 2013, pp. 140-152.
  26. Kane 2007, p. 99.
  27. Kane 2007, p. 54.
  28. Locard 2013, p. 160-161.
  29. Chandler, Kiernan & Boua 1988, pp. 36-40.
  30. Locard 2013, p. 161.
  31. Chandler, Kiernan & Boua 1988, p. 159.
  32. Chandler, Kiernan & Boua 1988, p. 164.
  33. Chandler, Kiernan & Boua 1988, pp. 164-165.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Chandler, David; Kiernan, Ben; Boua, Chanthou (1988). Pol Pot plans the future: confidential leadership documents from Democratic Kampuchea, 1976-1977. New Haven: Yale Center for International and Area Studies. 346 páginas 
  • Kane, Solomon (2007). Dictionnaire des Khmers rouges. Bangkok: Institut de recherche sur l'Asie du Sud-Est contemporaine. 460 páginas. ISBN 9782916063270 
  • Kiernan, Ben (1998). Le génocide au Cambodge, 1975-1979: race, idéologie et pouvoir. Paris: Gallimard. 730 páginas. ISBN 9782070747016 
  • Locard, Henri (2013). Pourquoi les Khmers rouges. Paris: Vendémiaire. 352 páginas. ISBN 9782363580528 
  • Ross, Russell R (1990). Cambodia: A Country Study. Washington, DC: GPO for the Library of Congress. 362 páginas