É praticado pelos jejes, cabiés, minas, fons e (com um nome diferente) os povos iorubás do sudeste do Gana, Togo meridional e central, Benin meridional e central, e sudoeste da Nigéria. A palavra vodún (pronunciado vodṹ - ou seja, com um u nasal em um tom alto) é o termo gbe (jeje-fon) para a palavra "espírito".[5]
Cerca de 60% da população do Benim, aproximadamente 4,5 milhões de pessoas, praticam vodum. Além disso, muitos dos 15% da população beninense que se denominam "cristãos" praticam, na verdade, uma religião sincretizada, semelhante ao vodu haitiano ou ao candomblébrasileiro. Muitos deles são descendentes de escravos libertos brasileiros que se fixaram na costa perto de Uidá. Em Togo, cerca de metade da população indígena pratica religiões, das quais o vodum é, de longe, a mais seguida, com cerca de 2,5 milhões de seguidores. Pode haver outros milhões de vodunces entre os jejes de Gana: 13% da população de 20 milhões são jejes e 38% dos ganenses pratica religiões tradicionais. Cerca de 14 milhões dos nigerianos pratica religiões tradicionais, principalmente o vodum.[5]
É importante notar que a palavra vodu é a mais comum, conhecida e usada na cultura popular americana, embora seja vista como ofensiva pelas comunidades praticantes da Diáspora africana. As soletrações diferentes deste termo podem ser explicadas como segue:
A palavra vodu é usada para descrever a tradição creole de New Orleans; vodou é usado para descrever a tradição vodu haitiana.
O vodu da Luisiana, também conhecido como vodu de Nova Orleães, é uma religião da diáspora africana, uma forma de espiritualidade que foi desenvolvida falando-se a língua francesa e o Creole pela população Afro-americana do estado de Luisiana, nos Estados Unidos.
Vodu ou Vodun é uma religião afro-americana que se originou entre os séculos XVI e XVII a partir da combinação do catolicismo com as religiões tradicionais africanas dos escravos trazidos da África para a América.
Mawu é o ser supremo dos povos jejes e fons, que criou a terra e os seres vivos e engendrou os voduns, divindades que a ("Mawu" é do gênero feminino) secundariam no comando do universo. Ela é associada a Lissá, que é masculino, e também corresponsável pela criação, e os voduns são filhos e descendentes de ambos. A divindade dupla Mawu-Lissá é intitulada Dadá Sebô (Grande Pai Espírito Vital).[9]
Os voduns na África são agrupados em "famílias" chefiadas por um vodum principal, ora representando um elemento ou fenômeno da natureza, ora da cultura. Existem, basicamente, 4 famílias principais:
Os Jivodum, ou "voduns do alto", chefiados por Sô (forma basilar de Quevioço).[9]
Os Aivodum, que são os voduns da terra, chefiados por Sapatá.[9]
Os Tôvodum, que são voduns próprios de uma determinada localidade (variados).[9]
Os Henuvodum, que são voduns cultuados por certos clãs que se consideram seus descendentes (variados).[9]
No Brasil, os voduns são cultuados nos terreiros de candomblé, sobretudo nos da nação jeje, onde ainda se conserva alguma lembrança da divisão por famílias.[10]
Aizã - Senhora guardiã do portal entre os dois mundos (espiritual e material).
Elebá - Elebató, Dono das ruas, dinheiro, mercados e da fala é também muito comum sua presença nas entradas dos templos para a proteção dele.
Gú - Senhor de Húntójí, o ferreiro e agricultor, dono e criador de todas as armas. Caçador e guerreiro.
Atólú - Vodum guerreiro, guardião do palácio do rei de Savalú, Toxwyó da cidade de Savé.
Agé - Agé gbénú, vodum caçador e guardião das matas, Isaýin, Igbò e Agémà seriam de sua família e junto aos Zàngbétó são os donos de toda a folha e a cura através dela.
Loco - Divindade que reside dentro de uma árvore, o primogênito dentre os voduns e junto a agé são responsável no Candomblé brasileiro por observar e manter os preceitos e e segredos do culto ao Vódùn. temos em sua família: Lòkò-hokò, Lòkò Kpásè e Atindánlokò.
Bessém - Divindade serpente, sincretizada em Daomé com Dã
Sapatá - Vódùn da Varíola, possui muitos títulos, tem relação com as doenças, enfermos e a cura. Tem grande enfase no culto do candomblé Její Savalú, seria seus titulos Azònsú, Azònwaní, Ayíonò, Azòn, Jéxòsú e em sua família encontramos: Ohólú, Avímaádjí ou Azòn djí, Azilé, Kpálálá e Yieowá.
Sobô - Vódùn do raio, que junto a sua família está relacionado a muitos fenômenos da natureza como a Chuva, Tempestades, furacões tufões, fogo e etc. e dentro de sua família encontramos muitos outros voduns pertencentes ao panteão de voduns das aguas, então temos: Quevioço, Badé, Càngò, Akloòmblé, Adèèn, Averequete e etc.
Hú - Vodun chefe do panteão dos voduns das aguas, nela temos outro voduns como: Tòkpádún, Tògbòsí, Agbè, Nayiè Watá.
Nánà - Senhora da Vida e da morte, Vodun muito respeitada dentro do candomblé e com grande importância para os Savalú.
Kenesí - Equivalente ao culto das Iamis do iorubá, culto pouco conhecido no Brasil
Kututó - Equivalente ao culto de Babá Egum do iorubá, culto pouco conhecido no brasil e não feito em casas de candomblé.
É muito comum também, perceber a participação dos voduns em outras famílias e saber que existem muitos outros voduns que o culto não chegou até o brasil ou que o culto foi agrupado a outra divindade.
Os voduns da Casa das Minas, templo de tambor de mina do Maranhão, de quem se conhecem os nomes de aproximadamente sessenta, agrupam-se em três famílias principais e duas que são hóspedes da casa, a saber: a família de Davice, também chamada de família real, a que pertence o vodum dono da casa, Toi Zomadônu e outros, que como ele são relacionados com a família real do Daomé, como: Toi Dadarrô, Toi Doçú-Bogueçagajá, Toi Bedigá, Nochê Sepazin, Toi Daco-Donu, Toi Nagono Toçá, Toi Nagono Tocé e Toi Jagoroboçú; a família de Quevioço (dos voduns chamados nagôs), como Toi Badé Neném Quevioço (Xangô), Nochê Sobô Babadi (Iansã), Toi Loco (Irocô), Toi Lissá (Oxalá), Toi Averequete, Nochê Abê (Iemanjá) e outros; a família de Dambirá (que cura a peste e outras doenças), chefiada por Toi Acóssi Sapatá Odã e que incluí entre outros Toi Azíle, Toi Agonçozonce Dambirá, Toi Polibojí, Toi Lepon, Toi Alôgüé, Nochê Ieuá, Nochê Bôçalabê e Toi Boçucó.[11][12]
Existem ainda os voduns Toi Ajaúto de Aladánu e Toi Avrejó que formam a família de Aladanu, hóspede de Quevioçô, e os voduns agrupados na família de Savaluno, hóspede de Davice, como Toi Agongono e Toi Jotin. Cada família ocupa uma parte específica da casa e tem cânticos, comportamentos e atividades próprias. O título de Toi significa que o vodum é masculino e o título de Nochê significa que o vodum é feminino.[11][12]
Voduns não usam roupas luxuosas, não gostam de roupas de festa e, geralmente, preferem a boa e velha roupa de ração. As danças são cadenciadas em um ritmo mais denso e pesado. Os voduns estão sempre de olhos abertos e, salvo algumas exceções, conversam (usando preferencialmente um dialeto próprio) e dão conselhos a quem os procura.[11][12][13]
A iniciação ao culto dos voduns é complexa principalmente no começo da sistematização e organização do candomblé que a tornava muito longa e bem duradoura com fundamentos internos e externos e muitos ritos que enriqueciam mais ainda o povo její e o diferenciava de outras culturas como o processo do Glá, Dengwe, Mixaô, aprendizagem do Húngbè, Núbyatô e etc.[11][12][13]
Bonecos vodus do Museu New OrleansGàniyákú - "A senhora da saia longa" ou a mais velha entre os jejís, por isso geralmente esse titulo e ocupado pela representante da casa matriz de cada vertente Její seja ela Maxí ou Savalú.
Húngbónò - Hùngbónà - aquele ou aquela que possui os conhecimentos sobre o culto ao vódùn, titulo dado ao sacerdote assim que toma a frente de uma casa.
Dònné - Dònté e o primeiro titulo ao qual o recém sacerdote passa a ser chamado.
Méjító - é um titulo oriundo do Kpó-Dáágbá (casa de grande referência její do Rio de Janeiro), titulo sacerdotal assumido por mulheres.
Vódùnnò - Vódúnnà - titulo daquele ou aquela que é o zelador do templo de um determinado Vódùn.
A estética vodum não se orienta pelos mesmos parâmetros de beleza associados às tradições artísticas ocidentais. Nos contextos religiosos voduns, a noção de belo está relacionada à experiência ritual e à vivência dos praticantes, enquanto a produção artística está vinculada principalmente à funcionalidade e à eficácia simbólica e religiosa dos objetos, que são concebidos para atender às demandas espirituais dos fiéis.[14]
A arte vodun caracteriza-se pelo uso recorrente de montagens (assemblage), resultando em objetos compostos por múltiplos materiais. Embora os povos do antigo Reino do Daomé dominassem técnicas de entalhe em peças únicas, optaram frequentemente por construções compósitas. Segundo Suzanne Preston Blier, essa característica pode ser compreendida a partir da história política e social do Daomé, marcada pela incorporação de diferentes povos, culturas e sistemas de conhecimento. A formação do panteão vodun e de seus padrões estéticos esteve associada a processos de integração cultural, incluindo alianças matrimoniais com mulheres provenientes de outros grupos sociais, o que contribuiu para a constante renovação simbólica e artística do reino.[14]
A noção de inacabamento constitui um elemento recorrente na estética vodun. De acordo com Dana Rush, o sistema religioso vodun e suas expressões artísticas estão associados a processos de transformação, abertura e adaptação contínua. A permanência do vodun depende de sua capacidade de manter relevância e eficácia no cotidiano de seus praticantes, o que implica a possibilidade de modificação constante dos objetos e práticas rituais. Nesse contexto, a estética vodun pode ser compreendida a partir de conceitos como o efêmero, o incompleto e o inacabado[15].
Das Museum der Völker in Schwaz präsentiert auf 1000 m2 fünf große Themenbereiche afrikanischer und asiatischer Kunst und Kultur.
Os objetos da arte vodun são concebidos como elementos em permanente interação com a comunidade religiosa. Seus significados são construídos e atualizados por meio do uso ritual, do contato físico e das práticas cotidianas dos fiéis. A retirada desses objetos de seus contextos rituais pode resultar em uma leitura que os reduz a artefatos isolados, dissociados de suas funções simbólicas. Em contraste com práticas museológicas ocidentais, nas quais a contemplação visual é predominante, a relação com a arte vodun envolve múltiplas dimensões sensoriais, incluindo visão, audição, tato, movimento e outras formas de percepção. Henry John Drewal descreve essa relação como uma abordagem sensorial, na qual o acúmulo de pátina ritual nos objetos reflete seu uso contínuo em cerimônias que incluem oferendas, manipulação física e outros atos de devoção.[16]
A opacidade interpretativa é outro aspecto associado à estética vodun. A impossibilidade de compreender plenamente todos os significados presentes nos objetos e práticas religiosas é considerada parte constitutiva desse sistema simbólico. Em contextos coloniais, essa opacidade funcionou como uma forma de proteção cultural, uma vez que a compreensão total das práticas religiosas frequentemente esteve associada a processos de dominação e subjugação. Assim, a presença de significados não imediatamente acessíveis integra a lógica estética e religiosa do vodun.[14]
O vodu haitiano, chamado de Sèvis Gine ("serviço africano") no Haiti, tem também fortes elementos dos povos Ibos, congos da África Central e dos Iorubás da Nigéria, embora muitos povos diferentes ou "nações" da África tenham representação na liturgia do Sèvis Gine, assim como os índiostainos, os povos originais da ilha que ficou inicialmente conhecida como Hispaniola. [17]
Essas formas do vodu se baseiam no sincretismo religioso com o catolicismo, que foi a forma como os africanos escravizados encontraram para resistir ao processo de escravização e manter em parte sua cultura.[19][21] Essa mistura deu origem à prática de associar os espíritos do Vodu (Loas) a santos católicos, como Danbalá sendo associado ao santo católico São Patrício. Mesmo com o sincretismo a prática do Vodu foi muito perseguida nos séculos XIX e XX, e no período de 1835 a 1987 o governo do Haiti proibiu a prática do Vodu por pressão da Igreja Católica. A proibição foi retirada em 2003, com o reconhecimento do Vodu como religião. Após o reconhecimento oficial, o sincretismo continua a ser um elemento fundamental da prática Vodu no Haiti.[22][23]
O Vodu no Haiti é descentralizado, e a estrutura social e ritual se articula em torno do templo, conhecido como Hounfor (ounfò). O centro físico de qualquer cerimônia é o Potomitan, o pilar sagrado no pátio (péristil) que funciona como o eixo do mundo, canalizando a descida dos espíritos (Lwa) do plano invisível. Os líderes espirituais são os iniciados, chamados de Oungan (sacerdote) ou Manbo ou mambo (sacerdotisa) , cuja autoridade é estabelecida por conhecimento e rituais como o Kanzo (iniciação). Estes líderes orientam a comunidade, auxiliados pelos Hounsi (servidores), e atuam como curandeiros e conselheiros. Além do templo, o Vodu está intrinsecamente ligado ao Lakou (família estendida) e à honra dos ancestrais (Lwa Guin), garantindo que a prática religiosa seja o alicerce da vida social, moral e curativa no Haiti.[24]
Embora o Vodu derive do Vodun da África Ocidental, especialmente da região do antigo Daomé (atual Benim), seu desenvolvimento no Haiti, no contexto da escravidão em Saint-Domingue, resultou em práticas e rituais próprios do continente americano. Uma das principais distinções é a formação da chamada Nação Lwa Petwo (Petro). Enquanto o rito Rada está associado a divindades de origem africana, o rito Petwo é considerado uma formulação surgida no Caribe. Os lwa do rito Petwo são descritos como entidades ligadas a contextos históricos de violência, conflito e resistência, associados à experiência da escravidão. Essa categoria de entidades passou a integrar o sistema religioso Vodu como parte de suas transformações no Novo Mundo necessárias para a luta pela emancipação, sendo um panteão moldado pela experiência histórica haitiana.[24]
O Vodu haitiano tem sua gênese nas tradições religiosas da África Ocidental, especificamente do Golfo do Benim, trazidas por populações escravizadas.[17] Esse fluxo forçado ocorreu no contexto da colonização francesa de Saint-Domingue, região estigmatizada como o "inferno dos africanos escravizados" devido à brutalidade singular de seu sistema escravagista.[20] Embora a população cativa fosse multiétnica, as culturas fons e iorubás (atuais Togo, Benim e Nigéria) constituíram o alicerce teológico do Vodu.[18] Essa herança fundamenta divindades como Legba, Damballah, Ezili, Ogou e Xangô. O rito Rada, vertente central da religião, remonta à cidade de Arada, no antigo Reino do Daomé, cuja influência também perpassa a língua, com o crioulo haitiano incorporando elementos do idioma fongbè.[25]
A oralidade em crioulo haitiano foi o mecanismo vital para a transmissão dessa herança, permitindo a preservação e o fortalecimento da vivência coletiva dos rituais e a manutenção de uma estrutura hierárquica rigorosa. Mesmo diante das sistemáticas perseguições da Igreja Católica, a tradição manteve viva a memória da resistência, preservando um universo simbólico que reconecta os praticantes à África ancestral e a reinsere no cotidiano através da experiência espiritual.[19]
O vodu haitiano é uma religião que funde elementos de matrizes africanas, do catolicismo e de tradições indígenas do Caribe.[26][27] Nesse sistema, os lwa atuam como entidades espirituais intermediárias que interagem com os humanos, mediando as relações entre o mundo material e o espiritual.[26] Tais práticas e rituais transcendem a dimensão puramente espiritual, fomentando a uniãocomunitária, o fortalecimento dos vínculos sociais e a preservação de tradições.[28][29][30]
As cerimônias ocorrem nos hounfò, espaços sagrados liderados por sacerdotes denominados houngans ou mambos.[26] Durante os rituais, os lwa manifestam-se através de gestos, cores, cânticos e danças.[31] As oferendas são frequentes e, em contextos específicos, podem envolver o sacrifício de animais.[26] Desenhos simbólicos conhecidos como vévés são traçados no solo dos espaços rituais para sinalizar a presença dos espíritos e orientar os atos cerimoniais.[31]
A música e a dança ocupam papel central na liturgia. O uso de tambores, cânticos em crioulo e a expressão corporal estabelecem o ritmo das cerimônias e conduzem ao transe ritual, momento em que se acredita que o lwa se manifesta nos participantes para transmitir mensagens ou promover curas.[27]
No cotidiano, as celebrações articulam espiritualidade, vida social e cultura, servindo como espaços de transmissão de saberes e memórias. Os pedidos e agradecimentos dirigidos aos lwa reforçam as alianças comunitárias e conectam as experiências do passado às práticas do presente.[27]
A Independência do Haiti de 1804 foi iniciada em um sacrifício vodu em Bois-Caiman no dia 14 de agosto de 1791. A insurreição vitoriosa dos negros escravizados haitianos é profundamente ligada ao vodu, que foi descaracterizado e diminuído pelos franceses na tentativa de descredibilizar a crença.[27][28]. O debate sobre o início da Independência Haitiana discute a importância do sacrifício vodu para o processo independente. A rebelião já estaria organizada e pronta para agir, havendo ou não o ritual.[27] O vodu trazido da África para o Haiti, misturado com a cultura local, foi uma forma de refúgio e resistência à opressão imposta pela escravidão. A religião foi um dos principais elementos responsáveis por unir a massa de escravizados na insurreição.[27]
Apesar da importância do vodu para a revolução, a elite haitiana no contexto pós-independência renegou sua relação com o vodu para se aproximar do ideal de civilização estabelecido pela eliteocidental. Além disso, o Haiti enfrentava um isolamento em relação ao resto do mundo imposto como uma forma de retaliação à sua independência, sendo assim, renegar o vodu era uma forma de obter uma mínima aceitação do exterior.[27] Com o desenrolar da independência e nos séculos seguintes, o vodu permaneceu como a religião das massas camponesas negras, mesmo com o posicionamento contrário da Igreja Católica e da aristocracia do país. O vodu é visto por ativistas pan-americanos como a expressão da alma haitiana, e foi motor nacionalista na invasão americana de 1915.[25]
Em 1915, após anos de instabilidade política no Haiti, os Estados Unidos invadiram e iniciaram uma ocupação militar que duraria quase 20 anos. A ocupação visava, segundo Washington, estabilizar o país, mas na prática envolveu controle político, repressão violenta e exploração econômica, especialmente através da reorganização do trabalhorural. Entre as repercussões mais relevantes desse período está o fortalecimento da resistência camponesa, especialmente dos grupos conhecidos como cacos. No centro de suas práticas sociopolíticas, o vodu, religião de matriz africana profundamente enraizada na vida rural haitiana, desempenhou papel fundamental como sistema de coesão comunitária, mobilização simbólica e articulação política.[29][30]
Antes de ser compreendido unicamente como um sistema religioso, o vodu exerceu uma função política relevante nas sociedades africanas. Na África Ocidental (principalmente entre os povos fon,ewe e iorubás), por exemplo, o vodu era responsável por estruturar as relações sociais e legitimar as autoridades políticas. No Benim (antigo Daomé), o vodu era uma instituição central mesmo após a colonização. Segundo a historiadora da arte Suzanne Blier[31], os reis do grandioso Daomé dependiam dos cultos vodus para controle territorial e militar.[5]
Além disso, o papel exercido pela religião vodu nas sociedades africanas significaram a resistência frente ao racismo e ao colonialismo. Praticantes e sacerdotes usavam a religião como instrumento de preservação cultural e mediação política. O historiador Patrick Bellegarde-Smith, em obras como Haitian Vodou: Spirit, Myth, and Reality (2006)[32], demonstra que o vodu teve papel central nas cerimônias religiosas, criou redes de organização e comunicação entre os escravizados e, além disso, fortaleceu a espiritualidade e a insurreição política e militar; segundo ele, as entidades espirituais funcionavam como símbolos de libertação e justiça. Assim, o vodu permaneceu como base cultural de resistência às elites pós-independência, ao catolicismo imposto e ao imperialismo francês.[5]
O Vodu Haitiano desempenhou um papel decisivo na Revolução Haitiana (1791–1804). A religião funcionou como a principal forma de resistência e coesão que unificou os escravos africanos na luta pela liberdade civil e religiosa e pela criação da Primeira República Negra do mundo. O Vodu atuava como uma contestação da ordem estabelecida pelo sistema escravagista e uma resposta direta à exploração imposta pelos colonizadores e ao poder imperialista, social e cultural.[33]
Leonard Parkinson, Líder Maroon, Jamaica, 1796. Gravura de Abraham Raimbach. Legenda na gravura: "Leonard Parkinson; um Capitão de Maroons, / tirado da Vida. Publicado em 24 de outubro de 1796 por J. Stockdale Piccadilly."
O Marronage constituiu uma das primeiras formas de resistência dos haitianos contra o sistema escravagista. Consistia na fuga para regiões de difícil acesso, onde se formavam comunidades autônomas semelhantes aos quilombos brasileiros. Nesses refúgios, os africanos escravizados reconstituíam laços de solidariedade étnica e recriavam práticas religiosas como o Vodu. O Marronage buscava não apenas a liberdade física, mas também a libertação espiritual, oferecendo um espaço de reconstrução da dignidade coletiva. Dessa forma, tornou-se um núcleo fundamental de resistência, onde a espiritualidade ancestral servia de base para a coesão social e a preparação das lutas que culminariam na Revolução Haitiana.[33]
Além disso, o Vodu esteve diretamente ligado aos atos que desencadearam a revolução. Um de seus representantes mais emblemáticos foi François Mackandal, escravo fugitivo que, em 1757, utilizou o Vodu para firmar um pacto espiritual de confiança entre seus seguidores.[33] Mackandal incutiu a ideia de que somente através desse pacto seria possível alcançar a liberdade e romper definitivamente com a condição de escravo. Sua liderança transformou a religião em um código ético de resistência. Até hoje, é venerado no Haiti como um sacerdote (também conhecido como hungã), símbolo da luta contra a escravidão e da busca pela emancipação espiritual e política.[33]
Em 1791, ocorreu a célebre Cerimônia do Bois-Caïman, considerada o marco inicial da Revolução Haitiana. O ritual foi conduzido por Dutty Boukman, sacerdote do Vodu, e representou a participação definitiva dos escravizados na luta pela independência. Realizado na noite de 14 de agosto de 1791, o culto envolveu o sacrifício de um porco preto, cujo sangue foi partilhado como símbolo de invulnerabilidade e união espiritual. Nessa ocasião, foi selado um pacto de sangue pelo qual os escravos se comprometeram a exterminar os colonizadores e fundar uma comunidade autônoma.[33] Esse evento transformou o Vodu no motor espiritual e político da revolta.
Após a independência em 1804, o Vodu permaneceu crucial na formação cultural e espiritual do povo haitiano. Contudo, a religião continuou sendo alvo de perseguição. O sistema político, ainda marcado por estruturas ideológicasherdadas do colonialismo, buscava deslegitimar a prática, colocando-a em posição de inferioridade diante do catolicismo. Essa tentativa de marginalização integrava um projeto de "civilização" que associava o cristianismo ao progresso e relegava o Vodu ao estigma da superstição. Apesar disso, o Vodu resistiu como expressão da identidade popular , reafirmando sua importância na vida cotidiana e na memória coletiva do país.[33]
Referências
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