Averroísmo

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Averroes, retratado numa pintura do artista italiano Andrea di Bonaiuto. Florença, século XIV.

Averroísmo é um termo que pode se referir a dois movimentos que percorreram a escolástica do fim do século XIII: (a) a agitação suscitada pelas interpretações de Aristóteles feitas pelo filósofo islâmico Averroes e por suas ideias de reconciliação entre o aristotelismo e a fé islâmica; e (b) a tentativa de aplicar essas ideias nas tradições intelectuais latino-cristãs e judaicas, tal como manifesta em Siger de Brabante, Boécio de Dácia e Moisés Maimônides. O termo foi originalmente cunhado por Ernst Renan.

Definição[editar | editar código-fonte]

O averroísmo, com as prováveis exceções de Siger e Dante Alighieri[1] jamais foi um movimento intelectual que se reconhecesse como uma escola ou tradição. É, na verdade, uma categoria historiográfica elaborada primeiramente por Renan em Averroès et l'averroïsme, e aplicada pelos historiadores posteriores aos usos significativos de doutrinas de Averroes e de suas exegeses da obra de Aristóteles por pensadores judeus e cristãos tal como chegaram através das tradições latina e hebraica. "Averroísta", portanto, pode descrever um leque de posições, que abarca inclusive os estudiosos interessados na influência de Averrois na condição de fenômeno histórico.

Principais ideias[editar | editar código-fonte]

As principais ideias da concepção filosófica original do averroísmo — encontradas nos comentários a Aristóteles feitos por Averroes — são:

  • Há uma única verdade, mas há (pelo menos) dois caminhos para alcançá-la: através da filosofia e através da religião;
  • O mundo é eterno;
  • A alma está dividida em duas partes: uma individual e outra divina;
  • A alma individual não é eterna;
  • Todos os seres humanos, num nível básico, partilham de um único e mesmo intelecto (uma forma de "monopsiquismo")[2]
  • Ressurreição dos mortos.

Averroísmo cristão[editar | editar código-fonte]

A concepção averroísta foi alvo de duas condenações pela Igreja Católica, em 1270 e 1277, promovidas pelo bispo Etienne Tempier. Tempier especificou 219 teses averroísta inaceitáveis. Já se apontou[3] que as principais acusações de Tempier são quase idênticas às que Al-Ghazali formulou contra os filósofos em geral na sua obra A Incoerência dos Filósofos (e que Averroes, por sua vez, tentou demonstrar serem injustificadas em sua A Incoerência da Incoerência).

A fim de resolver o problema, Siger tentou defender a existência de uma "dupla verdade": uma verdade factual ou "dura", que se alcança através da ciência e da filosofia, e uma verdade "religiosa", a que se chega pela religião. Essa ideia era diferente da que Averroes propôs; a ideia desse último era a de que havia apenas uma verdade alcançada por dois meios diferentes — jamais que houvesse duas verdades. Acreditava, entretanto, que as Escrituras usavam às vezes uma linguagem metafórica; mas aqueles que não tivessem o treinamento filosófico indispensável para apreciar o verdadeiro significado das passagens em questão estavam obrigados a acreditar no significado literal.

A concepção filosófica tardia do averroísmo consistiu na ideia de que os mundos filosófico e religioso eram entidades separadas. Entretanto, o exame acurado das 219 teses condenadas por Tempier revelam que nem todas elas tinham origem em Averroes. "Aristotelismo radical" e "Aristotelismo heterodoxo" foram os termos utilizados por um tempo para designar o movimento filosófico iniciado Siger e Boécio, e diferenciá-lo do averroísmo; atualmente, a maioria dos estudiosos simplesmente chamam todos de averroísmo.

Tomás de Aquino atacou especificamente a doutrina do monopsiquismo e do panpsiquismo em seu livro De unitate intellectus contra Averroistas. Nesse contexto, o termo "averroísmo" é usado corretamente.

Embora condenadas em 1277, muitas das teses averroísta sobreviveram até o século XVI e foram incorporadas às filosofias de Giordano Bruno, Pico della Mirandola e Cesare Cremonini. Essas teses tratam da superioridade dos filósofos em relação às pessoas comuns e da relação entre o intelecto e a dignidade humana.

Averroísmo judaico[editar | editar código-fonte]

Baruch Spinoza também foi notavelmente influenciado pelo averroísmo: seu panteísmo deriva do monopsiquismo averroísta, e sua crença no status superior dos filósofos e suas tendências ao secularismo são herdeiras do averroísmo. É provável que o averroísmo spinozista tenha influenciado o conservadorismo e o reconstrucionismo judaico.[4]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Cantor, Paul A., "The Uncanonical Dante: The Divine Comedy and Islamic Philosophy", Philosophy and Literature, 20.1 (1996), pp. 138-153.
  2. Hasse, Dag Nikolaus, "Influence of Arabic and Islamic Philosophy on the Latin West", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2008 Edition), Edward N. Zalta (ed.)
  3. Alain de Libera, "Pour Averroès", introdução de L'Islam et la Raison: anthologie de textes juridiques, théologiques et polémiques. Paris: Flammarion, 2000. ISBN 9782080711328.
  4. Schwartz, Christopher, "The Eternal Conversation", Christopher Schwartz's Weblog, 20/01/2011.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]