Nominalismo

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O nominalismo é a doutrina que não admite a existência do universal nem no mundo das coisas, nem no pensamento.[1] Surgiu na sua forma mais radical no século XI por intermédio de Roscelino de Compiègne. Esse atribuía universalidade aos nomes, daí a origem do termo.[2]

Surgimento e desenvolvimento[editar | editar código-fonte]

Surge como uma possível solução à questão: o universal (conceito, idéia ou essência comum a todas as coisas que indicamos pelo mesmo nome) é algo de real ou não será antes um ato simples de nossa mente expresso por um nome? Os conceitos são realidade (res) ou palavras (vocês)?

Três soluções fundamentais desse problema são: o realismo, o conceitualismo e o nominalismo.

  • Para o nominalismo o universal é um puro nome, um flatus vocis (pura emissão fonética).
  • Para o realismo os universais existem objetivamente, seja na forma de realidades em si, transcendentes em relação aos particulares (como em Platão, universais ante rem), ou como imanentes encontrados nas coisas individuais (como para Aristóteles, universidade in re).
  • Para o conceitualismo, os universais são apenas conteúdos de nossa mente, inteligíveis ou conceitos, representações do intelecto que as deriva das coisas (universalia post rem) e dessas guarda alguma semelhança.

A questão dos universais, inicialmente lógico-gramatical, estendeu-se para os problemas teológicos e metafísicos, atingindo o conjunto de dogmas da igreja cristã. Por exemplo, João Roscelino (falecido em 1120), mestre de Abelardo, com seu conceitualismo coloca em dúvida o dogma trinitário de Deus: a única substância divina não passa de um nome, as três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) são três substâncias diversas, indicadas por um nome comum. Assim surgiu a heresia do triteísmo, condenada em 1092 pelo Concílio de Reims, no qual muitos temiam pelas verdades da fé.

Abelardo foi um dos principais promotores da lógica até o século XIII. Sua obra "Dialética" libertava a lógica da metafísica dando-lhe autonomia.

Nominalismo de semelhança[editar | editar código-fonte]

Os metafísicos dizem coisas diferentes sobre a relação entre um particular e um universal. Para um realista, um particular é uma instância de um gênero universal, enquanto para um nominalista, não há tal gênero universal. Mas, então, qual o fundamento da aplicação de um mesmo predicado (o qual denota um universal) a vários particulares? Esse é um problema para os nominalistas, e uma maneira de respondê-lo é o nominalismo de semelhança.

Segundo o nominalismo de semelhança, o fundamento da aplicação de um mesmo predicado a diferentes particulares está no fato de que há alguma semelhança entre os mesmos. Para os nominalistas de semelhança, a semelhança não é um fruto da pertença dos particulares a um mesmo universal como instâncias do mesmo, mas sim o fundamento último da atribuição do mesmo predicado a diferentes particulares que sejam semelhantes. Assim, por exemplo, os particulares que colocamos sob o predicado "tomate" não são instâncias do universal "tomatidade", são apenas particulares que são semelhantes entre si, e o mesmo podemos dizer das coisas que são verdes, pesadas, douradas etc.[3]

Dentre os principais nominalistas de semelhança estão os filósofos David Hume, H. H. Price,[4] e Rudolf Carnap,[5] Ludwig Wittgenstein, com sua proposta de ver as instâncias de um predicado como tendo em comum uma "semelhança de família", também pode ser visto como o defensor de uma variedade de nominalismo de semelhança.[6] Dentre os filósofos da nova geração, Gonzalo Rodriguez-Pereira é um dos principais defensores do nominalismo de semelhança.[7]

Leituras sugeridas[editar | editar código-fonte]

  1. Guilherme de Ockham, Somme de logique, 1323.
  2. Beth Е. W., L'existence en mathématiques, P. — Louvain, 1956;
  3. Carré М., Realists and nominalists, Oxf., 1961;
  4. Sciacca, M. F.: O problema da educação. Livro, Vol. I (da antiguidade a Kant). 1961.
  5. Philosophy of mathematics, Oxf., 1964.
  6. François Picavet, Roscelin, philosophe et théologien, d'après la légende et d'après l'histoire, Paris, 1896.
  7. Carnap, Rudolf, Aufbau: A Estrutura Lógica do Mundo.
  8. Price, H. H., Thinking and Reality.
  9. Rodriguez-Pereira, Gonzalo, Resemblance Nominalism: A Solution to the Problem of Universals, Oxford University Press, 2002, ISBN 0-19-924377-8 (visualização online).

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Josef Santeler, no Verbete: Nominalismo, Dicionário de Filosofia, Editora Herder, SP, 1969, pág. 296
  2. Josef Santeler,, no Verbete: Nominalismo, Dicionário de Filosofia, Editora Herder, SP, 1969, pág. 296
  3. Segundo o artigo "Resemblance Nominalism". Em Nicholas Bunnin e Jiyuan Yu (eds.), The Blackwell Dictionary of Western Philosophy, Blackwell Reference Online, 2004, eISBN 978-1-4051-0679-5.
  4. No livro Thinking and Experience.
  5. No livro Aufbau: A Estrutura Lógica do Mundo.
  6. Segundo o artigo "Resemblance Nominalism", citado acima.
  7. Principalmente no seu livro Resemblance Nominalism: A Solution to the Problem of Universals, Oxford University Press, 2002, ISBN 0-19-924377-8 (visualização online).