Santuário do Bom Jesus de Matosinhos

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Pix.gif Santuário do Bom Jesus de Matosinhos *
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Património Mundial da UNESCO

Sanctuary of Bom Jesus do Congonhas.jpg
Vista da Basílica e adro com escadaria e estátuas.
País  Brasil
Tipo Cultural
Critérios i, iv
Referência 334
Região** Brasil
Coordenadas 20º 29' 59" S 43º 51' 28" W
Histórico de inscrição
Inscrição 1985  (9ª sessão)
* Nome como inscrito na lista do Património Mundial.
** Região, segundo a classificação pela UNESCO.

O Santuário de Bom Jesus de Matosinhos é um conjunto arquitetônico e paisagístico formado por uma basílica, um adro com esculturas de Doze Profetas feitas por Aleijadinho e seis capelas com cenas da Paixão de Cristo. O santuário está localizado no morro do Maranhão, no município brasileiro de Congonhas, estado de Minas Gerais.

O conjunto foi construído em várias etapas, nos séculos XVIII e XIX,[1] [2] por vários mestres, artesãos e pintores, como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e Manuel da Costa Ataíde.[1]

Tombado pelo SPHAN, atual IPHAN, em 1939, como patrimônio histórico nacional, foi considerado Patrimônio Mundial da Unesco em 1985.

A fundação do santuário é atribuída ao português Feliciano Mendes[3] que, tendo adoecido gravemente, prometeu construir um templo a Bom Jesus de Matosinhos, como o que havia em Braga, sua terra natal, caso alcançasse a cura.[4]

A primeira igreja do novo Matosinhos de Minas Gerais foi construída em 1773, com a construção, anos após, entre 1780 e 1793 da Via Crúcis do sopé do morro até o santuário. Em 26 de julho de 1957, o Papa Pio XII, reconhecendo a importância histórica, artística e religiosa do conjunto, elevou a igreja principal à dignidade de Basílica Menor. A via-sacra é composta por uma série de capelas de planta quadrada, paredes caiadas e teto de quatro águas que abrigam cenas da Paixão de Cristo representadas mediante conjuntos esculturais esculpidos em cedro brasileiro e policromias, seguindo a estética sentimental e rebuscada do rococó.

O sacro caminho desenrola-se em ziguezague, subindo por uma ladeira simbólica na qual organizavam-se procissões de penitência para expiar as culpas da sociedade opulenta do final do século XVIII neste importante centro minerário do Novo Mundo.[5]

Detalhe da frente da Basílica.

Descrição[editar | editar código-fonte]

  • A Via Crucis, nas capelas

Desde 1796 o Aleijadinho encarregara-se de fazer 66 estátuas de tamanho natural do Bom Jesus, em cedro, para a Via Crucis das seis capelinhas votivas, trabalho findo em 1799. Mas a construção das capelas demorou: a primeira ficou pronta apenas em 1808. As figuras se inspiram no conjunto do Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal. A pintura das estátuas foi encarregada a Francisco Xavier Carneiro e Manuel da Costa Ataíde, o grande pintor mineiro do século XVIII.

As cenas da Via Crucis são feitas em cedro: no sopé da rampa, a A última ceia tem imagens inteiramente esculpidas pelo Aleijadinho, pintadas por Ataíde. O Cristo, de beleza serena, é semelhante aos profetas, com rosto estreito, ossos salientes, cabelo abundante, barba em sulcos apertados, mas a roupa adere mais ao corpo.

Cristo no Horto.

Jesus no Horto ou no Jardim das Oliveiras mostra uma figura formosa, o belo Cristo ajoelhado, de olhos orientais e persuasivos, o Anjo da Paixão (como seu companheiro da abside da igreja de São Francisco) pertence à tradição portuguesa, de olhos muito abertos, modo de estar cravado no solo, para criar o efeito que flutua no ar, cobre o fundo da cena com imensas asas abertas; o panejamento é característico do Aleijadinho, anguloso como lata amassada; há três apóstolos adormecidos, Tiago, Pedro e João. Trata-se de uma autêntica obra prima - apenas estes dois passos foram inteiramente feitos pelo Aleijadinho.

A prisão do Cristo tem oito figuras, Cristo, Pedro, Malco, servo do Sumo Pontifice de Jerusalém, Judas e quatro soldados. É um notável estudo da expressão dos personagens: violência encarnada por Pedro que se opõe: a ira do pescador de homens contra a mansidão do Cristo, que cura a ferida do soldado, voltando a prender no lugar a orelha cortada por Pedro.

A flagelação e coroação de espinhos mostra dois grupos numa capelinhas, os centuriões caricaturais, guardando lembrança da Idade Média, contraste com o Cristo apolíneo. Raro exemplo de nu na escultura do século XVIII. Os dois Cristos são do mestre Aleijadinho. Notáveis os braços, veias salientes e marcadas, no rosto o abandono, vigor especial ao sofrimento na estrutura fisico de atleta. Rostos sempre delgados, deixando adivinhar os ossos sob a pele.

Na coroação de Espinhos as pernas de Jesus novamente expostas, pateticamente, coroado de espinhos, de nobreza assombrosa, o irrisório cetro oferecido pelos soldados.

Jesus carregando a Cruz às costas - tropeça, observado pelas Santas Mulheres ou filhas de Jerusalém, uma com rosto que parece o Anjo da Paixão. Trajes recordando as figuras de presépios de barro dos fins do século XVIII. Maravilhosa figura do Cristo, expressão horrorizada do rosto, dedos tensos, pernas sangrentas, rosto do soldado ao fundo é a caricatura do rosto do Cristo, sempre na tradição portuguesa. Feitos pelo Aleijadinho o Cristo e a mulher que enxuga as lágrimas com o lenço.

A crucifixão mostra a grande vítima em holocausto. Faltaria o brio das outras? As figuras separadamente sim, o conjunto não. Nas cabeças do Cristo, o Aleijadinho é sempre um escultor do século XVIII: cabelos simplesmente divididos, lábios delicados, entreabertos, superfície terna da carne, são todos de sua mão - embora discípulos devam ter esculpido outras figuras.

  • Os Profetas

Diz-se que esculturas e arquitetura estão tão ligadas que deve ter sida reconstruída a área dos Profetas em Congonhas segundo seu plano, num fluido desenho barroco setecentista, muros ligeiramente arqueados, ângulos arredondados, escadaria ao centro. Na parede central desta, uma espécie de escudo de pedra-sabão, com inscrição latina com os fatos essenciais da história da igreja, inclusive as datas de construção da capela-mor — 175861, placa em estilo português com flores nos rebordos, volutas, formas amendoadas, largo painel convexo com talha em alto relevo — recorda o mobiliário contemporâneo. Também a brancura luminosa da igreja, sua escadaria, capelas votivas, recordam os santuários no Norte de Portugal. Mas atores serão brasileiros: os Profetas, introduzidos na arte da Idade Média para dar mais vida ao drama litúrgico, chamados a testemunhar na Paixão e no Natal contra os juízes do Cristo — daí sua eloquência. Proporções pouco convencionais, maiores que o tamanho natural, têm trajes patriarcais segundo a tradição portuguesa e seus rostos mostram variadas emoções.

Abrindo a cena, de cada lado, Jeremias (figura curta, cabeça forte, nariz aquilino, lábios apertados, olhos intensos, homem preocupado com a denúncia do pecado, fanático: «Choro o desastre da Judeia e a ruína de Jerusalém e rogo ao meu povo que volte ao Senhor», está inscrito no pergaminho. É sacerdote no templo como o pai, mas o formalismo religioso não pode salvar Israel; sua missão o escolhe, o profeta da urgência. O Reino do Norte não mais existe e o Reino do Sul está ameaçado, os exércitos de Babilônia vão invadir Jerusalém: na perda do templo e do homem se perde o império material. Necessidade de se separar de suas paixões e afeições para estar livre ao encontro de Deus. O templo é caverna de ladrões, expressão retomada por Jesus. Traidor que prega a renúncia… Suas orações mostram não mais Javé na boca do profeta, mas a boca do profeta falando a Deus no santuário interior. Não há mais Terra Prometida. Vê a chegada de um Messias de Justiça, a Nova Aliança. Suas profecias se tornam insuportáveis, seus companheiros na fuga para o Egito o matam).

Isaías e Jeremias estão de frente, sustentando suas inscrições como pilares fundamentais (Isaías, o primeiro entre os profetas maiores, o vidente que anuncia a chegada de Cristo, ocupa plano de precedência com Jeremias, mãos eloquentes, manto cobrindo a cabeça, seu barrete, como capucho monástico que suaviza o rosto e o perfil; mas sua idealização ou abstração mística, real a barba emaranhada e os sulcos da testa: «Depois que os serafins celebraram o Senhor, um deles trouxe a meus lábios uma brasa ardente com uma tenaz.» É a memória cósmica; entrevê a destruição de Babilônia. Aparentado à família real, castas superiores do Reino de Judá. Começa sua missão no dia da morte por lepra do Rei Osias, antes da invasão pelos exércitos assírios; visão da destruição do grande templo de Jerusalém; impõe respeito por sua casta, sua conduta não escandaliza, mas surpreende e provoca interrogações. Os exércitos inimigos são o braço vingador de Javé, é necessário purificação brutal. O que promete é o Apocalipse. Anuncia o futuro Messias, Rei de Justiça; a Virgem grávida de Emanuel; mas o Rei Acaz não o ouve e alia-se ao rei da Assíria, sua estratégia protege o povo — Isaías se despede e caminha nu por Jerusalém — o teatro subversivo. O templo é o interior do coração, Deus ali está como uma aurora. A redenção de Deus no Homem, o restabelecimento da Antiga Aliança não mais gravada na pedra mas no coração. Prevê o cataclismo por fogo. Foi martirizado sob o Rei Manassés, serrado em dois.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas e referências

  1. a b CARRAZZONI, 1987, p. 197.
  2. UNESCO, 2002, pp. 172-173.
  3. CARRAZZONI, 1987, p. 197, cita o nome do português como Felício Mendes.
  4. UNESCO, 2002, p. 172.
  5. BARBERO, 2001, p. 82.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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