Associação para a Defesa dos Interesses de Macau
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A Associação para a Defesa dos Interesses de Macau (ADIM) é uma associação política de matriz portuguesa e de cariz conservador e localista fundada em 1974 por um grupo de macaenses, entre os quais estavam Henrique de Senna Fernandes,[1][2] Delfino José Rodrigues Ribeiro[3] e Carlos Augusto Corrêa Paes d’Assumpção, que se tornou no líder desta associação.[4][5] A ADIM manteve uma relação de estreita colaboração política com o Centro Democrático Social (CDS) português, cuja ideologia se assemelhava à do ADIM.[6][7][8]
História
[editar | editar código]Objectivos
[editar | editar código]Ao contrário do seu rival e opositor mais liberal, o Centro Democrático de Macau (CDM), o principal objectivo da ADIM não era a democratização da sociedade de Macau, mas sim evitar a aplicação em Macau do rápido processo de descolonização já iniciado nas colónias africanas portuguesas. A ADIM defendia a curto prazo a manutenção do statu quo de Macau como território português. Com a formação da ADIM, acentuou-se também a pressão local na transformação das estruturas coloniais que ainda vigoravam em Macau.[5]
Actos eleitorais
[editar | editar código]A ADIM participou nas eleições realizadas em 1975 para a Assembleia Constituinte de Portugal e conseguiu obter 1622 votos (0,03%), derrotando a CDM e conseguindo eleger 1 deputado, Diamantino de Oliveira Ferreira, pelo círculo eleitoral de Macau.[6]
O co-fundador e líder da ADIM, Carlos d'Assumpção, participou activamente na elaboração do novo Estatuto Orgânico de Macau (EOM)[4] e conduziu a ADIM à vitória nas primeiras eleições legislativas livres de Macau, em 1976. Nestas eleições, onde estava em causa a escolha de 6 deputados por sufrágio directo e 6 por sufrágio indirecto (para um total de 17 deputados), a ADIM conseguiu vencer com cerca de 55 por cento dos votos (1497 votos num total de 2846 eleitores votantes) e eleger 4 deputados (Carlos Augusto Corrêa Paes d’Assumpção, Diamantino de Oliveira Ferreira, Susana Chou e José da Conceição Noronha) pela via do sufrágio directo. Logo, Carlos d’Assumpção foi eleito presidente da Assembleia Legislativa de Macau (AL), cargo que ele exerceu até à data da sua morte (1992).[9][6][4][10][11][12]
Nas eleições legislativas de 1980, a ADIM venceu com 1433 votos (59,3%), conseguindo eleger 4 deputados (Carlos Augusto Corrêa Paes d’Assumpção, Joaquim Morais Alves, Anabela Fátima Xavier Sales Ritchie e Diamantino Oliveira Ferreira) por sufrágio directo. Delfino José Rodrigues Ribeiro, um dos seus sócio-fundadores, foi eleito deputado por sufrágio indirecto, em lista única, pelo sector dos interesses de ordem moral.[13]
Em 1984, Carlos d'Assumpção protagonizou um conflito invulgar em Macau com o Governador Vasco Almeida e Costa, o que resultou na dissolução da Assembleia Legislativa (AL) em 1984. Foram convocadas neste ano novas eleições legislativas, as primeiras em que houve um predomínio do eleitorado chinês no sufrágio directo, fruto das reformas e incentivos fiscais ao recenseamento eleitoral decretados pelo Governador Almeida e Costa, dias antes da dissolução da AL. Carlos d'Assumpção, com a ajuda de Pequim, liderou uma lista composta por vários elementos importantes da comunidade chinesa, oriundos das associações dos moradores (os Kai Fong) e da Associação Geral dos Operários de Macau (AGOM), que eram duas forças tradicionais chinesas pró-Pequim importantes.[14][15][16] A sua lista, a Lista B: União Eleitoral (em chinês: 聯合提名委員會), composta também por elementos portugueses e macaenses vindos da ADIM, venceu com 16003 votos (58,87%), conseguindo eleger 4 deputados (Carlos Augusto Corrêa Paes d’Assumpção, Manuel de Mesquita Borges, Lau Cheok Vá e Leonel Alberto Alves) por sufrágio directo.[17]
Nas eleições legislativas de 1988, a Lista B (União Eleitoral), liderada mais uma vez por Carlos d'Assumpção, conseguiu 6298 votos (31,41%) e 3 deputados (Carlos d'Assumpção, Lao Kuoung Po e Leonel Alberto Alves) por sufrágio directo.[18]
Com a morte de Carlos d'Assumpção (em 1992)[19] e principalmente devido à adopção de um novo método de conversão de votos em mandatos para a AL, que tornava praticamente impossível a uma lista obter uma maioria absoluta de deputados por sufrágio directo, os dois grandes pilares da União Eleitoral, que eram as associações de moradores (Kai Fong) e a Associação Geral dos Operários de Macau, passaram a ter listas separadas e concorrentes entre si. Estas duas listas distintas conseguiram repartir o eleitorado da anterior União Eleitoral de Carlos d'Assumpção, conseguindo eleger dois deputados cada nas eleições legislativas de 1992.[14][20] Nestas eleições, uma lista chamada União Eleitoral, encabeçada por Miguel de Senna Fernandes (filho de Henrique de Senna Fernandes),[21] conseguiu apenas 948 votos (3,44%), não conseguindo eleger nenhum deputado por sufrágio directo.[22]
Órgãos de informação
[editar | editar código]Em Março de 1975, a ADIM lançou a revista "Confluência", na qual participaram muitos portugueses e macaenses, entre os quais se destacava o advogado e escritor Henrique de Senna Fernandes, que escrevia principalmente sobre cinema.[23] Este órgão de informação serviu para contrariar a influência da revista "Democracia em Marcha", que veiculava as ideias do Centro Democrático de Macau (CDM) desde Novembro de 1974.[24]
Mais tarde, em Outubro de 1982, a ADIM lançou o "Jornal de Macau", em oposição ao "Tribuna de Macau", que apareceu no mesmo mês e que pertencia a Jorge Neto Valente, um dos co-fundadores do CDM. Porém, com a evolução do panorama político de Macau e com a aproximação da data da transferência de soberania, o histórico conflito entre a ADIM e o CDM tornou-se num assunto do passado. Por isso, o "Jornal de Macau" e o "Tribuna de Macau" acabaram por fundir-se no dia 1 de Novembro de 1998, cujo resultado foi o actual Jornal Tribuna de Macau.[25][24]
Actualidade
[editar | editar código]Actualmente, a ADIM não mantém actividades em Portugal, já que Macau não é mais um território sob administração portuguesa desde 1999. Em forte declínio e com o aparecimento de novos movimentos cívico-políticos de matriz chinesa que gozam de popularidade em Macau, a ADIM actualmente não elege deputados para a Assembleia Legislativa de Macau.
A sua sede localiza-se na Estrada D. João Paulino, na Freguesia de S. Lourenço.
Referências
- ↑ Henrique de Senna Fernandes: o homem, a obra e o legado, Revista Macau, n. 95, Novembro de 2023
- ↑ Associação para a Defesa dos Interesses de Macau, in Comissão Nacional de Eleições (Portugal).
- ↑ About Delfino Jose Rodrigues Ribeiro, no site ribeirofamily.com
- ↑ a b c Celina Veiga de Oliveira, organizadora da exposição e da fotobiografia “Um homem de valor”, Hoje Macau, 28 de Abril de 2009
- ↑ a b Repercussões do 25 de Abril de 1974 em Macau, Tempos d'Oriente
- ↑ a b c Deputados eleitos directamente, uma conquista de Abril em Macau, Jornal Tribuna de Macau, 25 de Abril de 2008
- ↑ Faltou a China a palavra dada?, Ponto Final, 27 de Maio de 2009
- ↑ Carlos d’Assumpção (1929-1992), Hoje Macau, 7 de Maio de 2009
- ↑ Evolução eleitoral em Macau até 2001
- ↑ A primeira legislatura da Assembleia de Macau, Jornal Tribuna de Macau, 21 de Setembro de 2009
- ↑ Far East and Australasia 2003, pág. 361
- ↑ Boletim Oficial. n.° 29, 17/7/76, pág. 1009
- ↑ Suplemento do Boletim Oficial, n. 40 de 8/10/80
- ↑ a b Equilíbrios de um sistema sui generis, Revista Macau, Dezembro de 2005.
- ↑ Crónica de um homem de valor, Ponto Final, 28 de Abril de 2009
- ↑ Carlos d’Assumpção (1929-1992), Hoje Macau, 7 de Maio de 2009
- ↑ Suplemento I do Boletim Oficial, n. 35 de 25/8/84
- ↑ Suplemento I do Boletim Oficial, n. 42 de 18/10/88
- ↑ «歐安利:我以為我可以做些事». AllAboutMacau Media. 2 de setembro de 2017. Consultado em 24 de outubro de 2025
- ↑ “2+2” para uma Assembleia de 33, Revista Macau, Agosto de 2013.
- ↑ Miguel de Senna Fernandes: A defesa de uma identidade, de uma comunidade e de um dialecto, Ponto Final, 19 de Dezembro de 2019.
- ↑ Suplemento do Boletim Oficial, n. 39 de 30/09/1992
- ↑ Crónicas e regressos, Ponto Final, 29 de Novembro de 2010
- ↑ a b Clara Gomes, Freedom of the Portuguese Press in Macau during the transition period (1987-99), Dezembro de 2000
- ↑ Jornal Tribuna de Macau – 29 anos, no site Crónicas Macaenses. 1 de Novembro de 2011