Nação transcontinental

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

Uma nação transcontinental é um Estado nacional que pertence a mais de um continente. As definições usadas podem variar de acordo com o critério utilizado (se puramente geográfico, político, econômico ou cultural). O melhor exemplo é provavelmente a Rússia, cujo centro histórico e econômico, bem como a maioria de sua população (75%) estão na Europa, mas cujo território é majoritariamente asiático.

Segundo critérios mais estritos, uma nação transcontinental é um estado cujo território contíguo se estende por mais do que um continente, ou, no caso de ser um estado insular, o arquipélago está normalmente dividido por mais do que um continente, mas as partes do território não contíguas não devem ser consideradas (por exemplo, partes integrantes distantes, possessões ultramarinas, dependências, colónias e casos semelhantes, como os casos da Guiana Francesa, Havai, Socotorá, Ceuta e Melilla, Gibraltar ou Guam.

A Europa e a Ásia[editar | editar código-fonte]

Verde: Europa; magenta/cinza: Ásia; A/B/C - outras definições.

As fronteiras da Europa são tanto geográficas quanto político-sociais. Muitos geólogos e geógrafos convergem ao dizer que a Europa e a Ásia compartilham muitas características geográficas, ao ponto de muitas vezes serem tratadas como um único continente, a Eurásia. A Europa, todavia, é uma entidade geográfica distinta, sendo uma espécie de enorme península da Ásia.

A fronteira oriental da Europa é controversa desde a Antiguidade. No mundo contemporâneo, é consenso considerar que a Europa termina no Mar Egeu, no Mar Negro e nos Montes Urais, contudo as duas linhas divisórias entre estes três limites não são exatas. O limite dos Montes Urais ao Mar Negro, por exemplo, foi traçado de formas distintas por diferentes autoridades ao longo do tempo.

Várias autoridades no campo da Geografia (como a National Geographic Society) sustentam que a fronteira Europa-Ásia segue a bacia hidrográfica dos Montes Urais, desde o Mar de Kara na Rússia até a nascente do Rio Ural, e daí acompanhando este curso de água até o Mar Cáspio, a bacia hidrográfica do Cáucaso e o Mar Negro.

Nesta definição, a Europa inclui todos os Montes Urais e o Grande Cáucaso, enquanto o Pequeno Cáucaso está localizado inteiramente na Ásia. A Rússia e o Cazaquistão têm partes europeias (ao oeste) e asiáticas (ao leste). A cidade turca de Istambul situa-se tanto na Europa como na Ásia, sendo, portanto, uma cidade transcontinental. A capital da Geórgia, Tbilisi, localiza-se exatamente na fronteira dos dois continentes seguindo esta definição, enquanto que a cidade de Rustavi (a sudeste) e a capital do Azerbaijão, Baku, estão ambas na Europa. Usando esta mesma definição, as repúblicas georgianas da Ossétia do Sul e Abecásia situam-se inteiramente na Europa, mas o exclave azeri de Nakhichevan está totalmente na Ásia.

  • A linha A no seguinte mapa segue os picos dos Urais e depois o rio Ural (algumas fontes não-geográficas preferem estabelecer que a fronteira do Cazaquistão como limite entre os dois continentes, embora apenas um acidente geográfico possa ser considerado uma fronteira entre dois continentes e nunca um limite artificial, como a fronteira política de um país).
  • A linha B passa através da depressão de Kuma-Manych; isto excluiria da Europa não somente o Cáucaso, mas também regiões tradicionalmente europeias da Rússia como Krasnodar, que é seu porto no Mar Negro
  • A linha C segue a bacia hidrográfica do Cáucaso

Dada a cultura e orientação política do Cazaquistão, este país raramente é tido como europeu, apesar da considerável porção de seu território na Europa (maior que toda a área de Portugal, Inglaterra ou Grécia). Três nações do Cáucaso, todavia, têm grande ligação político-social com a Europa, como Geórgia, Azerbaijão e Armênia. Esta última, é parte do Conselho da Europa desde 2001.

Países na Ásia e na Europa[editar | editar código-fonte]

Fronteiras da Europa de acordo com a UE (critério de Copenhague)
verde: Europa
azul claro: extensão na Ásia de um país com territórios na Europa
azul escuro: geograficamente na Ásia, mas considerado Europa por razões culturais e históricas
  • Azerbaijão - de acordo com a maioria das definições - que consideram as montanhas do Cáucaso como a fronteira entre Europa e Ásia - este país tem uma pequena porção de seu território no extremo leste do continente europeu.
  • Cazaquistão - tem uma relativamente pequena porção de seu território na Europa, formada pela área a oeste do rio Ural. Embora pequena face à área total do país, a sua porção europeia é maior que o território combinado de Portugal, Inglaterra e Áustria.
  • Rússia - a parte do território russo a oeste da cadeia montanhosa dos Urais e do rio Ural é considerada parte da Europa. A Rússia é o território mais extenso da Europa e da Ásia.
  • Turquia - tem uma porção relativamente pequena de seu território na Europa, mais precisamente na região da Trácia, fazendo fronteira com a Grécia e a Bulgária. A maior parte de seu território está na Ásia, na região da Anatólia. Istambul divide-se pelos dois continentes na parte sul do Bósforo.
  • Armênia e Chipre são geograficamente asiáticos, mas são considerados parte da Europa por razões culturais e históricas.
  • Geórgia - de acordo com a maioria das definições - que consideram as montanhas do Cáucaso como a fronteira entre Europa e Ásia - este país tem uma pequena porção de seu território no extremo leste do continente europeu.

Estatísticas[editar | editar código-fonte]

Estado Área total
km²
Área na Ásia
km²
Área na Ásia
% do total
Área na Europa
km²
Área na Europa
% do total
 Geórgia 69.700 20.460 29,35 49.240 70,65
 Azerbaijão 86.600 46.870 54,12 39.730 45,88
 Rússia 17.075.200 13.115.200 76,81 3.960.000 23,19
Cazaquistão 2.717.300 2.346.927 86,37 370.373 13,63
 Turquia 780.580 756.768 96,95 23.812 3,05
 Arménia 29.800 29.800 100 0 0
 Chipre 9.250 9.250 100 0 0

Os países estão ordenados de acordo com a proporção do seu território localizado na Europa.

Fonte: World Gazetteer, Statistics of administrative units, towns and cities [2]

Estado População total População na Ásia População na Ásia
% do total
População na Europa População na Europa
% do total
 Rússia 143.780.000 37.742.857 26,25 106.037.143 73,75
 Geórgia 4.479.180 2.032.004 45,37 2.447.176 54,63
 Azerbaijão 8.327.618 4.129.127 49,58 4.198.491 50,42
 Turquia 68.900.000 57.855.068 83,97 11.044.932 ¹ 16,03 ¹
Cazaquistão 14.757.767 13.472.593 91,29 1.285.174 8,71
 Arménia 3.326.448 3.326.448 100 0 0
 Chipre 775.927 775.927 100 0 0

1 Inclui os distritos da cidade de Istambul que se situam na Ásia.

Os países estão ordenados de acordo com a sua proporção de população em território europeu.

Fonte: World Gazetteer, Statistics of administrative units, towns and cities [3]

África[editar | editar código-fonte]

O Mar Mediterrâneo

As fronteiras geográficas naturais da África são o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho. A fronteira este é dada pelo golfo de Suez ou pelo golfo de Aqaba. Em termos puramente geográficos, a fronteira da África poderia ser traçada ao longo da falha que corresponde ao vale do rio Jordão, o que até tornaria Israel um país africano. Todavia, a linha mais comum é a do istmo do Suez ao longo do Canal do Suez. Isto torna a península do Sinai geograficamente asiática, e o Egipto uma nação transcontinental. Mesmo assim, o Egipto é geralmente incluído como pertencente a África, visto que a maioria do seu território e da sua população em África estão.

As cidades autónomas espanholas de Melilla e Ceuta são dois enclaves fronteiriços no extremo norte de Marrocos, localizados na África, tornando a Espanha uma nação transcontinental - mais ainda se se consideradar as Ilhas Canárias.

O caso de Portugal[editar | editar código-fonte]

Portugal Continental[editar | editar código-fonte]

Portugal Continental é a região mais ocidental da Península Ibérica e, por conseguinte da Europa. Em termos geográficos, administrativos, políticos e culturais, Portugal é um país europeu, em toda a sua extensão, excluindo apenas as regiões autónomas dos Açores e da Madeira que já se situam em parte na América e África. Porém, no que toca à posição do território quanto às placas tectónicas, pode dizer-se que o litoral norte de Portugal Continental já se encontra um pouco sobre a placa da América do Norte, enquanto que o interior, norte e sul, é tectonicamente europeu. Em relação ao litoral sul, como é o caso de Lisboa, Baixo Alentejo e Algarve, pode dizer-se que se encontram na placa tectónica da África, sendo estas localidades tectonicamente africanas.

Em suma, Portugal Continental está numa zona de confluência de três placas continentais: Europa, África e América do Norte. Se, este critério fosse o principal para aferir a transcontinentalidade, Portugal Continental seria uma nação tricontinental.

Regiões autónomas dos Açores e da Madeira[editar | editar código-fonte]

São estas regiões que acentuam na hipótese de transcontinentalidade, visto estarem desconectadas do Continente através do mar. São duas regiões insulares que acentuam em duas placas tectónicas diferentes, nenhuma a da Europa. A região dos Açores está claramente sobre a placa norte-americana, estando este arquipélago integrado no mesmo sistema geológico ao qual pertence a ilha de Bermuda, ilha esta, a cerca de 3100 km a oeste da Ilha das Flores, a ilha mais ocidental dos Açores e, a cerca de 1600 km a leste da costa leste dos Estados Unidos da América.

A região da Madeira está claramente no continente africano,, apresentando paisagens e clima típicos das regiões do Norte de África. A cidade do Funchal está a apenas 700 km da cidade marroquina de Essaouria, no extremo oeste do mesmo país. De Lisboa, o Funchal dista cerca de 1000 km.

Em suma, Portugal, em termos administrativos é um país totalmente europeu, mas que em termos físicos se pode considerar já transcontinental.


As Américas[editar | editar código-fonte]

A fronteira entre a América do Norte e a América do Sul é definida de modo distinto, mas geralmente é colocada ao longo do Istmo do Panamá. Uma linha de demarcação habitual é a que segue os limites de bacias hidrográficas nas Montanhas Darien ao longo da fronteira Colômbia-Panamá, onde o istmo encontra o continente sul-americano. Outros seguem a corrente que defende que a divisória é feita pelo Canal do Panamá, e deste modo, o Panamá teria território em ambos os continentes americanos. Geopoliticamente (i.e., não estritamente de um ponto de vista geofísico), o Panamá é habitualmente incluído na lista de países da América Central, incluída na América do Norte. Também (menos comum) pode ser colocada a fronteira entre as Américas como coincidindo na fronteira Costa Rica-Panamá, além de outras hipóteses ao longo do Istmo Panamiano.

Também deve ser destacado que os departamentos de ultramar da França (Guadalupe, Guiana Francesa e Martinica) têm o mesmo estatuto que os departamentos metropolitanos (europeus), fazendo da França uma nação tecnicamente transcontinental.

Ásia e Oceania[editar | editar código-fonte]

Verde - Oceania; rosa/cinza - Ásia; M - linha da Melanésia

A Indonésia é um grande arquipélago multicultural e transcontinental pertencendo à Ásia e à Oceania. A fronteira geológica (e zoológica) segue a linha de Wallace. Alternativamente pode dividir-se segundo a definição de Melanésia – de acordo com a cultura, língua, história, etc. – colocando mais território na Ásia (linha M no mapa). A Indonésia é hoje mais habitualmente referida como estado do Sudeste Asiático, e daí simplesmente asiática. Timor-Leste é por vezes colocado na Oceania (porque fica a leste da linha da Melanésia), mas as Nações Unidas colocam-no no bloco do "Sudeste Asiático".[1]

A Oceania não é sempre vista como um continente; todavia, a Austrália é às vezes considerada continental. Assim, a admissão do Hawaii nos Estados Unidos em 1959 não tornou este país uma nação transcontinental.

Outros critérios podem aplicar-se para tomar os seguintes estados como tendo território na Oceania:

Lista das nações geograficamente transcontinentais[editar | editar código-fonte]

Ásia e África[editar | editar código-fonte]

Ásia e Oceania[editar | editar código-fonte]

Referências

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]