Dialeto mineiro

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Dialeto mineiro

Mineirês

Falado(a) em:  Minas Gerais
Região: Grande parte do estado de Minas Gerais
Total de falantes: 10,4 milhões de pessoas
Posição: Não se encontra entre os 100 primeiros
Família: Indo-europeia
 Língua portuguesa
  Português brasileiro
   Dialeto mineiro
Estatuto oficial
Língua oficial de: sem reconhecimento oficial
Regulado por: sem regulamentação oficial
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: ---
Mapa do estado de Minas Gerais com as linhas de divisa de dialetos (isoglossas) segundo o trabalho Esboço de um Atlas Linguístico de Minas Gerais (EALMG), realizado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em 1977. O dialeto mineiro corresponde às zonas central (incluindo Belo Horizonte e cidades históricas), leste e sudeste. O restante do estado não fala o dialeto mineiro: as zonas sul e oeste, próximas de São Paulo e Goiás, falam o dialeto caipira; e a zona norte do estado, próxima à Bahia e ao Distrito Federal, fala o dialeto baiano.

O mineiro ou montanhês é o dialeto do português brasileiro falado na região central do estado de Minas Gerais.

Estudo linguístico[editar | editar código-fonte]

O primeiro estudo linguístico voltado especificamente para o estado de Minas Gerais foi o Esboço de um Atlas Linguístico de Minas Gerais (EALMG), realizado pela UFJF em 1977.[1][2]

Demografia[editar | editar código-fonte]

O dialeto mineiro ocupa uma área que corresponde aproximadamente às adjacências do Quadrilátero Ferrífero, incluindo-se a fala da capital, Belo Horizonte, e das cidades históricas (Ouro Preto, Mariana, Sabará, Diamantina, Tiradentes, São João del-Rei etc.). É um dos dialetos mais facilmente distinguíveis do português brasileiro.

Distribuição geográfica[editar | editar código-fonte]

Segundo a classificação geográfica mais moderna do IBGE (em que há uma hierarquia de regiões intermediárias, regiões imediatas e municípios), adotada em 2017 e que substituiu a classificação adotada em 1989 (hierarquia de mesorregiões, microrregiões e municípios), e conforme o EALMG,[3][4] as regiões que falam o dialeto mineiro correspondem aproximadamente às quatro seguintes regiões geográficas intermediárias do estado mineiro.

Região geográfica intermediária de Belo Horizonte (centro de MG)[editar | editar código-fonte]

Composta pelas regiões geográficas imediatas de Belo Horizonte, Sete Lagoas, Santa Bárbara-Ouro Preto, Curvelo e Itabira.[5]

Os municípios mais populosos desta região geográfica intermediária são: Belo Horizonte, Contagem, Betim, Ribeirão das Neves, Sete Lagoas, Santa Luzia, Ibirité, Sabará, Vespasiano, Itabira, Nova Lima, Curvelo, Ouro Preto, Esmeraldas, Lagoa Santa, Pedro Leopoldo, Mariana e Itabirito.

Ver também: Lista de municípios de Minas Gerais por população

Região geográfica intermediária de Barbacena (centro-sul de MG)[editar | editar código-fonte]

Composta pelas regiões geográficas imediatas de Barbacena, Conselheiro Lafaiete e São João del-Rei.[5]

Algumas exceções são mencionadas pelo EALMG: na região imediata de São João del-Rei, na adjacência da região geográfica intermediária de Varginha, os municípios de Nazareno, São Tiago, São Vicente de Minas e Madre de Deus de Minas falam o dialeto caipira.[carece de fontes?]

Os municípios mais populosos desta região geográfica intermediária são: Barbacena, Conselheiro Lafaiete, São João del-Rei e Congonhas.[5]

Região geográfica intermediária de Juiz de Fora (sudeste de MG)[editar | editar código-fonte]

Composta pelas regiões geográficas imediatas de Juiz de Fora, Manhuaçu, Ubá, Muriaé, Cataguases, Ponte Nova, Viçosa, Carangola, São João Nepomuceno-Bicas e Além Paraíba.[5]

Algumas exceções são mencionadas pelo EALMG: na região imediata de Juiz de Fora, na adjacência da região geográfica intermediária de Pouso Alegre, os municípios de Passa Vinte, Liberdade, Arantina, Andrelândia, Santa Bárbara do Monte Verde, Bocaina de Minas e Santa Rita de Jacutinga falam o dialeto caipira.[carece de fontes?]

Os municípios mais populosos desta região geográfica intermediária são: Juiz de Fora, Ubá, Muriaé, Manhuaçu, Viçosa, Cataguases, Ponte Nova e Leopoldina.[5]

Região geográfica intermediária de Ipatinga (leste de MG)[editar | editar código-fonte]

Composta pelas regiões geográficas imediatas de Ipatinga, Caratinga e João Monlevade.[5]

Os municípios mais populosos desta região geográfica intermediária são: Ipatinga, Coronel Fabriciano, Caratinga, Timóteo e João Monlevade.[5]

Municípios em outras regiões geográficas intermediárias[editar | editar código-fonte]

Além das regiões acima, o EALMG aponta municípios falantes do dialeto mineiro em outras regiões geográficas intermediárias do estado: Itaguara e Pompéu, na região geográfica intermediária de Divinópolis (dominada pelo dialeto caipira); Diamantina, na região geográfica intermediária de Teófilo Otoni (dominada pelo dialeto baiano), e Conselheiro Pena e Guanhães, na região geográfica intermediária de Governador Valadares (dominada pelo dialeto baiano).[carece de fontes?]

Total de falantes[editar | editar código-fonte]

A população total das quatro regiões geográficas intermediárias onde o dialeto mineiro é predominante é de 10,4 milhões de habitantes, o equivalente a 48,6% da população mineira (21,4 milhões de habitantes).[carece de fontes?]

Outros 33,0% da população mineira falam o dialeto caipira e os 18,4% restantes, o dialeto baiano.[carece de fontes?]

História[editar | editar código-fonte]

A característica do dialeto mineiro apareceu durante o século XIX, após a decadência da mineração de ouro, que era transportado por um conjunto de estradas chamado Estrada Real. O estado sofreu influência de lusitanos vindos do Minho, bem como do dialeto do Rio de Janeiro no sudeste, enquanto o sul e a região do Triângulo Mineiro passaram a falar uma mescla entre o dialeto caipira (com o "R" retroflexo) e o dialeto mineiro. A região central de Minas Gerais, contudo, desenvolveu um dialeto próprio, que é o conhecido como dialeto mineiro ou montanhês.

Traços fonéticos[editar | editar código-fonte]

Localização do estado de Minas Gerais no Brasil.

O dialeto mineiro deve ser diferenciado de outros dois dialetos falados no estado mas surgidos em outras unidades da federação: o dialeto caipira, que cobre áreas do interior de São Paulo, interior do Paraná[6][7], sul, sudoeste e Triângulo de Minas Gerais, sul de Goiás, e leste de Mato Grosso do Sul; e o dialeto baiano, que cobre o norte de Minas Gerais e a maior parte do estado da Bahia.[8][9]

Fonologia[editar | editar código-fonte]

Apresenta as seguintes particularidades fonéticas:

  • Ritmo fortemente acentual (as sílabas tônicas são mais longas que as átonas)[10]
  • Apócope das vogais curtas: parte é pronunciado partch ['pahtʃ] (com o "T" levemente sibilado).
  • Assimilação de vogais consecutivas: o urubu passa a ser u'rubu [u ɾu'bu].
  • Permutação de "E" em "I" e de "O" em "U" quando são vogais curtas: Domingo passa a ser Dumíngu [du'mĩgu].
  • Aférese do "e" em palavras iniciadas por "es": esporte torna-se sportch ['spɔhtʃ].
  • Alguns hiatos passam a ser vogais longas: fio converte-se em fíi.
  • Perda do /u/ final. -inho converte-se em -im (exemplo: pinho = pim).

Usa-se, no montanhês, a palatalização, ou bilabização de /d/ e /t/ para [dʒ] e [tʃ] (ou [dᶾ] e [tᶴ]), respectivamente, antes do fonema /i/. A palavra "Belo Horizonte", por exemplo, é pronunciada [bɛloɾiˈzõtʃi].

A letra "R" no início de palavras, no final das sílabas (exceto quando seguidas por vogal) e no dígrafo "rr" é pronunciada como a transição glotal surda /h/ usada no Norte e Nordeste do país, diferenciando-se do "R carioca" /x/ por ser pronunciado de forma bem mais suave (/h/ em vez de /ʁ/ ou /x/). Distingue-se ainda do sotaque carioca por causa do "s" em final de sílabas realizado como /s/, em vez do /ʃ/ típico no Rio.

As regiões do triângulo e do sul do estado mineiro falam um dialeto que mescla os dialetos mineiro e caipira, utilizando "R" retroflexo e mantendo ritmo típico do montanhês.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Cardoso, Suzana Alice; Mota, Jacyra Andrade (18 de dezembro de 2012). «Projeto Atlas Linguístico do Brasil: antecedentes e estágio atual». ALFA: Revista de Linguística (3). ISSN 1981-5794. Consultado em 13 de junho de 2022 
  2. Aguilera, Vanderci de Andrade; Silva, Hélen Cristina da (13 de junho de 2017). «Não chovem mais flores no Paraná, em Minas Gerais e em São Paulo: um tabu linguístico em extinção». Revista da ABRALIN. ISSN 0102-7158. Consultado em 17 de junho de 2022 
  3. Mendes, Gláucia (23 de outubro de 2018). «Diversidade da fala mineira é tema de pesquisa na UFLA» 
  4. «Pseudolinguista: Mapa dos sotaques em Minas Gerais». Pseudolinguista. Consultado em 13 de junho de 2022 
  5. a b c d e f g «Divisões Regionais do Brasil | IBGE». www.ibge.gov.br. Consultado em 4 de julho de 2022 
  6. Cristino, Tathiane; Busse, Sanimar (19 de dezembro de 2019). «O FALAR CAIPIRA NÃO É UM PROBREMA – UM ESTUDO DO ROTACISMO E DO RETROFLEXO NO FALAR CASCAVELENSE». Revista Primeira Escrita (6): 33–46. ISSN 2359-0335. Consultado em 27 de junho de 2022 
  7. Pontes, Ismael (1992). «A vocalização do /r/ pós-vocálico oriundo de /l/ no dialeto caipira». Consultado em 27 de junho de 2022 
  8. Ribeiro, José H (1999). Música Caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: 34. ISBN 85-7326-157-9 
  9. Paes, Maria Helena Soares (11 de novembro de 2014). «A variável (R) em coda silábica medial no Bairro Várzea, em Lagoa Santa/MG». Consultado em 13 de junho de 2022 
  10. «Tipologia rítmica de dialetos do português brasileiro» (PDF). Consultado em 23 de abril de 2012. Arquivado do original (PDF) em 21 de agosto de 2014