Jerónimo de Azevedo

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Jerónimo de Azevedo
Retrato de Jerónimo de Azevedo. In Ásia portuguesa de Manuel de Faria e Sousa. Parte III. Lisboa 1675
Vice-rei da Índia Flag of Portugal (1521).svg
Período 16121617
Antecessor Rui Lourenço de Távora
Sucessor João Coutinho, 5.º Conde de Redondo
Governador de Ceilão Flag of Portugal (1521).svg
Período 1594 - 1612
Antecessor Pedro Lopes de Sousa
Sucessor Francisco de Meneses
Dados pessoais
Nascimento 1560 (?)
Morte 1625 (65 anos)
Lisboa, Castelo de São Jorge
Progenitores Mãe: Violante Pereira
Pai: Manuel de Azevedo, senhor das honras de Barbosa e Ataíde
Serviço militar
Conflitos Invasão do reino de Kandy (1603)

Jerónimo de Azevedo (c. 1560 (?) — Lisboa, 1625) foi um fidalgo português, governador de Ceilão e vice-rei da Índia portuguesa.

Juventude e partida para a Índia[editar | editar código-fonte]

Era filho de D. Manuel de Azevedo, senhor das honras de Barbosa e de Ataíde e abade comendatário de São João de Alpendurada[1]; e neto paterno de D. João de Azevedo, Bispo do Porto. Era assim meio-irmão, por parte de seu pai, do Beato Inácio de Azevedo[2].

Sendo filho mais novo não pôde herdar os bens paternos, nomeadamente o senhorio das honras e os morgadios das quintas de Barbosa e Ataíde, cada uma delas com uma renda que D. Manuel de Azevedo em seu testamento[1] avaliou em 100 mil reais anuais, quantia apreciável na época. O herdeiro presuntivo da fazenda paterna seria o irmão mais velho, o futuro Beato Inácio de Azevedo, que porém renunciou aos seus direitos ao ingressar nos Jesuítas em 1548; seu pai nomeou assim herdeiro um outro dos seus filhos, D. Francisco de Azevedo e Ataíde. Sem herança que lhe garantisse meios de subsistência, Jerónimo de Azevedo seguiu o exemplo de muitos filhos segundos de famílias nobres, partindo ainda muito jovem para o Estado da Índia, onde fez toda a sua carreira.

Foi recebido na corte, como pajem (moço fidalgo) do rei D. Sebastião, em 25 de março de 1577[3] (o que era reservado a fidalgos muito jovens, indicando que terá nascido cerca de 1560 e não perto de 1540, como por vezes se refere). Tudo indica que já tinha então a perspectiva de rapidamente seguir para o Oriente - e pouco tempo depois embarcou para o Estado da Índia[3].

Governo de Ceilão[editar | editar código-fonte]

Azevedo foi capitão-mor da costa do Malabar durante aproximadamente 15 anos[4], antes de ser nomeado capitão-geral da conquista do Ceilão no final do ano de 1594, um cargo que iria ocupar por cerca de 18 anos (desde o Natal de 1594 até novembro de 1612), um período de duração excepcionalmente longa para um mandato em cargo dirigente na Ásia portuguesa dessa época[3]. A sua nomeação assinalou um importante ponto de viragem,[5] em sentido expansionista, da presença portuguesa no território do atual Sri Lanka.

Anos antes, em 1580, o Rei de Kotte, Dharmapala, convertido ao cristianismo, tinha deixado todo o seu Reino como legado ao Rei de Portugal. Mas a decisão provocou forte resistência nos habitantes deste reino de maioria budista, assim como no vizinho reino budista de Kandy. Os portugueses tiveram assim que subjugar pela força o reino de Kotte.

Campanhas militares em Kotte[editar | editar código-fonte]

Azevedo chegou a Colombo com um reforço de tropas no dia 24 de dezembro de 1594, menos de três meses depois de seu antecessor, Pedro Lopes de Sousa, primeiro capitão-geral de Ceilão, ter sido morto na batalha de Danture (no dia 9 de outubro de 1594). Nessa batalha, o exército português fora aniquilado pelas forças do reino de Kandy e isso causara também um colapso da autoridade portuguesa em Kotte, pelo que Azevedo, ao desembarcar, encontrou uma situação de rebelião geral, alastrando até o termo da cidade de Colombo. Começou por fazer - logo no dia 1 de janeiro de 1595 - uma parada militar das forças armadas à sua disposição, com o rei Dharmapala (a fonte de legitimidade para o domínio português em Kotte) a seu lado, na qual reuniu perto de 900 soldados portugueses e 2.000 soldados Lascarins (auxiliares locais da tropa portuguesa)[6]. Ao analisar a situação, decidiu que teria que começar por pacificar as planícies de Kotte antes de poder pensar em retaliar contra o reino montanhoso de Kandy. Iniciou assim uma série de prolongadas, complexas e sangrentas campanhas militares para esmagar as revoltas em Kotte, que iriam concentrar a sua atenção até serem concluídas com êxito no ano de 1602. A propósito destas campanhas, o rei de Portugal, em carta dirigida ao vice-rei em Goa no final de 1601, disse que não iria esquecer os muitos serviços que Azevedo havia entretanto prestado à coroa[3].

Convenção de Malvana e abertura de Ceilão aos jesuítas[editar | editar código-fonte]

Além do lado militar, porém, o governo de D. Jerónimo de Azevedo em Kotte foi também marcado por importantes iniciativas políticas, especialmente com a sua decisão de convocar a chamada Convenção de Malvana (1598), que reuniu os representantes de todos os distritos de Kotte depois da morte do rei Dharmapala, ocorrida em 1597. Após 2 dias de deliberações, Azevedo aceitou que os habitantes nativos de Kotte manteriam suas leis e costumes[7] (ou seja, não teriam que seguir as Ordenações Filipinas, o código legislativo promulgado por Filipe I de Portugal em 1595, que ficou em vigor na metrópole portuguesa até 1867) enquanto estes, pelo seu lado, juraram fidelidade ao rei de Portugal.

Outro aspecto a que Azevedo deu muita atenção foi o da atividade missionária, em que figurou entre os principais responsáveis pela abertura aos jesuítas da parte de Ceilão sob domínio português - que desde 1554 estava reservada em exclusivo aos franciscanos, por decisão da Coroa tomada nesse ano e depois reafirmada em 1593[3].

Em janeiro de 1597 (ou seja, cerca de 2 anos após o início do governo de D. Jerónimo em Ceilão) o bispo de Cochim, D. André de Santa Maria, escreveu ao rei de Portugal[3], sugerindo ser necessário alargar a atividade missionária em Ceilão aos jesuítas, pois os recursos disponibilizados pelos franciscanos seriam insuficientes para esse efeito. Na sequência, ainda em 1597, a coroa portuguesa recebeu propostas específicas - provavelmente tendo como base as ideias do bispo de Cochim, apoiadas pelo capitão-geral, que era irmão do mártir jesuíta Inácio de Azevedo - sobre a forma de dividir a atividade missionária na ilha entre as duas ordens. A partir dessas propostas, a posição da coroa mudou e em abril de 1602 chegaram a Colombo os primeiros quatro jesuítas, legitimados por patente emitida pelo vice-rei Aires de Saldanha, em 27 de fevereiro de 1602[3].

Campanhas militares contra o reino de Kandy[editar | editar código-fonte]

Azevedo teve mais dificuldade nas suas tentativas para subjugar Kandy. Invadiu o reino em 1603, mas após sucessos iniciais foi forçado a efetuar uma retirada ao ocorrer uma rebelião geral dos Lascarins, tropas indígenas de Ceilão que habitualmente lutavam ao lado das forças portuguesas. Em contraste com o seu predecessor no governo de Ceilão, Pedro Lopes de Sousa, morto numa anterior tentativa de invasão do reino de Kandy (em 1594), Azevedo conseguiu contudo evitar a aniquilação das forças portuguesas, mostrando grande capacidade militar e limitando a relativamente poucas as baixas portuguesas[3]. Este movimento de recuo das tropas sob as ordens de Azevedo ficou conhecido como a famosa retirada[6].

Depois deste revés, D. Jerónimo decidiu mudar de estratégia, descartando o plano de seus antecessores em Ceilão de tentar subjugar Kandy através de uma grande e decisiva ofensiva militar e adotando em vez disso uma abordagem baseada na guerra econômica. Duas vezes em cada ano os portugueses passaram a efetuar curtas mas violentas incursões, invadindo em profundidade o território de Kandy para destruir lavouras e saquear aldeias, matando todo o gado. Isso enfraqueceu enormemente Kandy do ponto de vista humano e econômico - nas palavras de um cronista português da época, o jesuíta Fernão de Queiroz[8], o reino de Kandy "nunca no nosso tempo recuperou a sua antiga opulência e tamanho". Esta estratégia visando a asfixia do reino de Kandy não produziu todos os efeitos esperados por Azevedo, sobretudo porque os portugueses instalados em praças como São Tomé de Meliapor, apoiados pelo rei hindu de Jaffna, não aceitaram abandonar o comércio altamente lucrativo que mantinham com Kandy[7].

Mapa político de Ceilão no início do séc. XVII. D. Jerónimo de Azevedo invadiu o reino de Kandy em 1603, mas teve que recuar depois de uma revolta das tropas indígenas - os Lascarins - que auxiliavam os portugueses.

Quando finalmente partiu de Colombo para Goa, em 1612, Azevedo deixou instruções claras para o seu sucessor, insistindo que a sua inovadora estratégia militar deveria continuar sendo seguida até que Kandy aceitasse um estatuto de vassalagem perante o reino de Portugal[6]. Já em Goa, como vice-rei, Azevedo repetiu várias vezes essas mesmas instruções para o capitão-general instalado em Colombo.

Vice-rei da Índia portuguesa[editar | editar código-fonte]

Azevedo foi nomeado 39.º Governador e 20.º Vice-Rei da Índia ainda em 1611, tendo rumado para Goa em 1612. Segundo o historiador A. R. Disney o período de novo expansionismo português na Ásia do Sul e Sudeste atingiu o seu ápice precisamente por volta do ano em que D. Jerónimo de Azevedo tomou posse do governo em Goa[9]. Entretanto, esse auge não durou muito tempo e já estava em retração quando D. Jerónimo deixou a Índia, em 1617.

Durante o seu governo houve ainda várias demonstrações desse ativismo: por exemplo, em 1615 Azevedo apoiou uma expedição a Pegu que tentou, sem o conseguir no final, capturar o tesouro imperial em Mrauk-U. E em 1616, Azevedo comandou uma grande frota de navios portugueses que tentou, sem sucesso, expulsar de Surat os navios da Companhia Inglesa das Índias Orientais que, sob o comando de Nicholas Downton, lá faziam comércio em detrimento do monopólio português[10].

Durante o seu governo em Goa, Azevedo foi também confrontado pelo desafio resultante da expansão holandesa em áreas onde a coroa portuguesa tinha exercido o seu monopólio comercial. A resposta que deu não foi apenas no domínio militar, procurando defender as praças militares e em geral as posições portuguesas ameaçadas pelo avanço holandês no oceano Índico. Ordenou também diversas missões de exploração geográfica, nomeadamente duas expedições a Madagáscar[11] (então chamada ilha de São Lourenço), uma região onde as frotas holandesas estavam cada vez mais ativas. Essas explorações, de que participaram padres jesuítas, produziram novos mapas e roteiros da região e compilaram cuidadosamente observações científicas, numa demonstração de que o espírito dos descobrimentos continuava presente no império português no primeiro quartel do século XVII[12].

Quando regressou à corte, em 1617, Azevedo teve seus bens confiscados, por várias acusações, incluindo a de enriquecimento ilícito. Um fator que provavelmente contribuiu para a sua perda de favor na corte filipina foi a obstrução que fez[13], quando vice-rei em Goa, á missão do castelhano García de Silva y Figueroa, que Filipe III de Espanha (FiIipe II de Portugal) nomeara como seu embaixador junto ao da Pérsia. Figueiroa partiu de Lisboa em abril de 1614, rumo a uma escala em Goa, onde teve diferendos com Azevedo, pelo que ficou retido e até mesmo por um tempo detido antes de conseguir prosseguir a sua viagem até à Pérsia.

D. Jerónimo de Azevedo faleceu em 9 de março de 1625 em Lisboa, no Castelo de S. Jorge, antes de ver terminado o seu julgamento[2]. Foi sepultado na Igreja de São Roque[14], então pertencente aos Jesuítas e sua principal Igreja em Portugal.

Mapa de 1635 mostrando à esquerda o Forte de São Jerónimo, em Damão. D. Jerónimo de Azevedo, então vice-rei da Índia portuguesa, mandou construir o Forte no ano de 1615.

Balanço e legado dos seus governos[editar | editar código-fonte]

Azevedo viveu numa época do Império português no Oriente posterior à do seu apogeu e já relativamente debilitado pela chegada de potências europeias rivais a águas asiáticas. Quando a coroa portuguesa decidiu - em 1594 - empreender a conquista da totalidade da ilha de Ceilão estava ciente de que, dada a escassez de recursos humanos e financeiros disponíveis, teria que fazê-lo usando sobretudo meios políticos mas sem poder prescindir de campanhas militares. As qualidades marciais dos governadores eram assim fundamentais e é esse o aspecto capaz de explicar o longo mandato de Azevedo em Colombo e a sua promoção, com a nomeação para vice-rei em Goa, em 1611.

Ele tentou se demitir do cargo de capitão-geral de Ceilão em 1597[3] e foi também submetido a inquérito ("devassa") conduzido pelo arcebispo de Goa, por alegada apropriação indevida de recursos, em fevereiro de 1603. Porém, logo em 15 de março do mesmo ano, o rei escreveu ao arcebispo solicitando o adiamento do inquérito, pois entretanto recebera do bispo de Cochim informações favoráveis sobre as campanhas militares de Azevedo na ilha. Claramente, o rei não desejava que os bons resultados militares de governador fossem postos em causa, e no final concedeu a D. Jerónimo uma tença de 100 mil reais e uma comenda na Ordem de Cristo[3].

Entretanto, Azevedo foi mais do que um chefe militar, como se pode observar pelas iniciativas nas áreas política (Convenção de Malvana) e missionária (abertura aos jesuítas) que tomou em Ceilão ou no apoio às atividades de exploração geográfica e recolha de dados científicos durante o seu mandato em Goa. No balanço final, é provável que, mais do que as acusações de malversações (aliás comuns a muitos governadores e vice-reis que o antecederam) tenham sido sobretudo as suas atitudes politicamente arriscadas contra um enviado pessoal do rei de Espanha e Portugal a ditar a queda em desgraça na corte e a prisão em Lisboa.

O Forte de São Jerónimo, em Damão (Nani Daman) teve a sua construção iniciada durante o seu governo na Índia e recebeu esse nome em sua homenagem.

D. Jerónimo de Azevedo foi também responsável pela reconstrução do Palácio do Hidalcão (Adilshahi) em Goa.

Precedido por
Rui Lourenço de Távora
Vice-Rei da Índia Portuguesa
16121617
Sucedido por
João Coutinho, 5.º Conde de Redondo

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b Cardoso, Augusto-Pedro Lopes (julho de 2013). «Dom Manuel de Azevedo, Pai do Beato Inácio de Azevedo, sj». Brotéria Cristianismo e Cultura: 41 - 51. Consultado em 13 de julho de 2019 
  2. a b Costa, S. J., Manuel G. da (1946). Inácio de Azevedo, o Homem e o Mártir da Civilização do Brasil. Braga: Livraria Cruz. pp. 28–29. Consultado em 16 de julho de 2019 
  3. a b c d e f g h i j Abeyasinghe, Tikiri (1966). Portuguese Rule in Ceylon, 1594 - 1612. Colombo, Sri Lanka: Lake House Investments Ltd. Publishers. p. 18 (n. 38), 18 (n. 38), 26, 193, 196, 197, 48, 224, 225 
  4. Borges, Graça Almeida (2015). «e-Dicionário da Terra e do Território no Império Português - artigo "Jerónimo de Azevedo"». Consultado em 14 de agosto de 2019 
  5. Subrahmanyam, Sanjay (1993). The Portuguese Empire in Asia 1500-1700. London and New York: Longman. p. 131. ISBN 0582050685 
  6. a b c Perera, C. Gaston (2007). Kandy Fights the Portuguese (A Military History of Kandyan Resistance). Sri Lanka: Vijith Yapa Publications. p. 201, 205-233, 240. ISBN 9789551266776 
  7. a b Thomaz, Luís Filipe (2018). L'Expansion Portugaise dans le Monde. Paris: Chandeigne. p. 182. ISBN 9782367321752 
  8. Queiroz, Fernão de (1687). Conquista Temporal e Espiritual de Ceylão (PDF). Lisboa: (Manuscrito). pp. Capítulos XX–XXIX. Consultado em 17 de julho de 2019 
  9. Disney, A. R. (2009). A History of Portugal and the Portuguese Empire: From Beginnings to 1807 (Volume 2). Cambridge: Cambridge University Press. p. 167. ISBN 978-0521738224 
  10. Danvers, Frederick Charles (1894). The Portuguese in India: Being a History of the Rise and Decline of Their Eastern Empire: Volume 2. Londres: W. H. Allen & Co. p. 198 
  11. Leitão, Humberto (1970). Os dois descobrimentos da Ilha de São Lourenço mandados fazer pelo Vice-Rei D. Jerónimo de Azevedo nos anos de 1613 a 1616. Lisboa: Centro de Estudos Históricos Ultramarinos. pp. passim 
  12. Newitt, Malyn (2005). A History of Portuguese Overseas Expansion 1400-1668. New York: Routledge. p. 209. ISBN 978-0415239790 
  13. Cardoso, Augusto-Pedro Lopes (2018). «Um abade viajante do séc. XVI. Dom Manuel de Azevedo, senhor da honra de Barbosa». Armas e Troféus - separata - IX Série - Tomo 20: 37 (448), nota 227. Consultado em 3 de setembro de 2019 
  14. «Igreja e Museu de São Roque - Descrição Complementar - Capela do Presépio». SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, Forte de Sacavém. Consultado em 13 de julho de 2019