Jerónimo de Azevedo

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D. Jerónimo de Azevedo
Retrato de D. Jerónimo de Azevedo. In Ásia portuguesa de Manuel de Faria e Sousa. Parte III. Lisboa 1675
Vice-rei da Índia Flag of Portugal (1521).svg
Período 16121617
Antecessor Rui Lourenço de Távora
Sucessor João Coutinho, 5.º Conde de Redondo
Dados pessoais
Nascimento 1540
Morte 1625 (85 anos)
Lisboa, Castelo de São Jorge
Progenitores Mãe: Violante Pereira
Pai: D. Manuel de Azevedo, senhor das honras de Barbosa e Ataíde
Serviço militar
Conflitos Invasão do reino de Kandy (1603)

Dom Jerónimo de Azevedo (cerca de 1540Lisboa, 1625) foi um fidalgo português, governador de Ceilão e vice-rei da Índia portuguesa.

Juventude e partida para a Índia[editar | editar código-fonte]

Era filho de D. Manuel de Azevedo[1], comendador de São João de Alpendurada e senhor das honras de Barbosa e de Ataíde; e neto paterno de D. João de Azevedo, Bispo do Porto. Era assim meio-irmão, por parte de seu pai, do Beato Inácio de Azevedo[2].

Sendo filho mais novo não pôde herdar os bens paternos, nomeadamente o senhorio das honras e os morgadios das quintas de Barbosa e Ataíde, cada uma delas com uma renda que D. Manuel de Azevedo em seu testamento[1] avaliou em 100 mil reais anuais, quantia apreciável na época. O herdeiro presuntivo da fazenda paterna seria o irmão mais velho, o futuro Beato Inácio de Azevedo, que porém renunciou aos seus direitos ao ingressar nos Jesuítas em 1548; seu pai nomeou assim herdeiro um outro dos seus filhos, D. Francisco de Azevedo e Ataíde. Sem herança que lhe garantisse meios de subsistência, Jerónimo de Azevedo seguiu o exemplo de muitos filhos segundos de famílias nobres, partindo ainda muito jovem para o Estado da Índia, onde fez toda a sua carreira.

Governo de Ceilão[editar | editar código-fonte]

A sua nomeação para governador de Ceilão em 1594 assinalou um importante ponto de viragem,[3] em sentido expansionista, da presença portuguesa no território do atual Sri Lanka. Anos antes, em 1580, o Rei de Kotte, Dharmapala, convertido ao cristianismo, tinha deixado todo o seu Reino como legado ao Rei de Portugal. Mas a decisão provocou forte resistência nos habitantes deste reino de maioria budista, assim como no vizinho reino budista de Kandy. Os portugueses tiveram assim que subjugar pela força o reino de Kotte, num processo que foi completado por D. Jerónimo de Azevedo no período do seu governo com sede em Colombo, que durou até 1612. Os portugueses impuseram entretanto em Kotte uma estrutura administrativa liderada por um capitão-general.

Uma importante iniciativa de D. Jerónimo de Azevedo foi convocar a chamada Convenção de Malvana (1598), que reuniu os representantes de todos os distritos de Kotte depois da morte do rei Dharmapala, ocorrida em 1597. Após 2 dias de deliberações, Azevedo aceitou que os habitantes nativos de Kotte manteriam suas leis e costumes[4] (ou seja, não teriam que seguir as Ordenações Filipinas, o código legislativo promulgado por Filipe I de Portugal em 1595, que ficou em vigor na metrópole portuguesa até 1867) enquanto estes, pelo seu lado, juraram fidelidade ao rei de Portugal.

Azevedo teve mais dificuldade nas suas tentativas para subjugar Kandy. Invadiu o reino em 1603, mas após sucessos iniciais foi forçado a efetuar uma retirada ao ocorrer uma rebelião geral dos Lascarins, tropas indígenas de Ceilão que habitualmente lutavam ao lado das forças portuguesas. Em contraste com o seu predecessor no governo de Ceilão, Pedro Lopes de Sousa, morto numa anterior tentativa de invasão do reino de Kandy (em 1594), Azevedo conseguiu contudo evitar a aniquilação total das forças portuguesas. Este movimento de recuo das tropas sob as ordens de Azevedo ficou conhecido como a famosa retirada[5].

Depois deste revés, D. Jerónimo decidiu mudar de estratégia, descartando o plano de seus antecessores em Ceilão de tentar subjugar Kandy através de uma grande e decisiva ofensiva militar e adotando em vez disso uma abordagem baseada na guerra econômica. Duas vezes em cada ano os portugueses passaram a efetuar curtas mas violentas incursões, invadindo em profundidade o território de Kandy para destruir lavouras e saquear aldeias, matando todo o gado. Isso enfraqueceu enormemente Kandy do ponto de vista humano e econômico - nas palavras de um cronista português da época, o jesuíta Fernão de Queiroz[6], o reino de Kandy "nunca no nosso tempo recuperou a sua antiga opulência e tamanho". Esta estratégia visando a asfixia do reino de Kandy não produziu todos os efeitos esperados por Azevedo, sobretudo porque os portugueses instalados em praças como São Tomé de Meliapor, apoiados pelo rei hindu de Jaffna, não aceitaram abandonar o comércio altamente lucrativo que mantinham com Kandy[4].

Mapa político de Ceilão no início do séc. XVII. D. Jerónimo de Azevedo invadiu o reino de Kandy em 1603, mas teve que recuar depois de uma revolta das tropas indígenas - os Lascarins - que auxiliavam os portugueses.

Quando finalmente partiu de Colombo para Goa, em 1612, Azevedo deixou instruções claras para o seu sucessor, insistindo que a sua inovadora estratégia militar deveria continuar sendo seguida até que Kandy aceitasse um estatuto de vassalagem perante o reino de Portugal[5]. Já em Goa, como vice-rei, Azevedo repetiu várias vezes essas mesmas instruções para o capitão-general instalado em Colombo.

Vice-rei da Índia portuguesa[editar | editar código-fonte]

Azevedo foi nomeado 39.º Governador e 20.º Vice-Rei da Índia ainda em 1611, tendo rumado para Goa em 1612. Segundo o historiador A. R. Disney o período de novo expansionismo português na Ásia do Sul e Sudeste atingiu o seu ápice precisamente por volta do ano em que D. Jerónimo de Azevedo tomou posse do governo em Goa[7]. Entretanto, esse auge não durou muito tempo e já estava em retração quando D. Jerónimo deixou a Índia, em 1617. Durante o seu governo, entretanto, houve várias demonstrações desse ativismo: por exemplo, em 1615 Azevedo apoiou uma expedição a Pegu que tentou, sem o conseguir no final, capturar o tesouro imperial em Mrauk-U. E em 1616, Azevedo comandou uma grande frota de navios portugueses que tentou, sem sucesso, expulsar de Surat os navios da Companhia Inglesa das Índias Orientais que, sob o comando de Nicholas Downton, lá faziam comércio em detrimento do monopólio português[8].

Durante o seu governo em Goa, Azevedo foi também confrontado pelo desafio resultante da expansão holandesa em áreas onde a coroa portuguesa tinha exercido o seu monopólio comercial. A resposta que deu não foi apenas no domínio militar, procurando defender as praças militares e em geral as posições portuguesas ameaçadas pelo avanço holandês no oceano Índico. Ordenou também diversas missões de exploração geográfica, nomeadamente duas expedições a Madagáscar[9] (então chamada ilha de São Lourenço), uma região onde as frotas holandesas estavam cada vez mais ativas. Essas explorações, de que participaram padres jesuítas, produziram novos mapas e roteiros da região e compilaram cuidadosamente observações científicas, numa demonstração de que o espírito dos descobrimentos continuava presente no império português no primeiro quartel do século XVII[10].

Quando regressou à corte, em 1617, D. Jerónimo de Azevedo teve seus bens confiscados, por suspeita de enriquecimento ilícito. Faleceu em 9 de março de 1625 em Lisboa, no Castelo de S. Jorge, antes de ver terminado o seu julgamento[2]. Foi sepultado na Igreja de São Roque[11], então pertencente aos Jesuítas.

Mapa de 1635 mostrando à esquerda o Forte de São Jerónimo, em Damão. D. Jerónimo de Azevedo, então vice-rei da Índia portuguesa, mandou construir o Forte no ano de 1615.

Balanço e legado dos seus governos[editar | editar código-fonte]

O Forte de São Jerónimo, em Damão (Nani Daman) teve a sua construção iniciada durante o seu governo na Índia e recebeu esse nome em sua homenagem.

D. Jerónimo de Azevedo foi também responsável pela reconstrução do Palácio do Hidalcão (Adilshahi) em Goa.

Precedido por
Rui Lourenço de Távora
Vice-Rei da Índia Portuguesa
16121617
Sucedido por
João Coutinho, 5.º Conde de Redondo

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b Cardoso, Augusto-Pedro Lopes (julho de 2013). «Dom Manuel de Azevedo, Pai do Beato Inácio de Azevedo, sj». Brotéria Cristianismo e Cultura: 41 - 51. Consultado em 13 de julho de 2019 
  2. a b Costa, S. J., Manuel G. da (1946). Inácio de Azevedo, o Homem e o Mártir da Civilização do Brasil. Braga: Livraria Cruz. pp. 28–29. Consultado em 16 de julho de 2019 
  3. Subrahmanyam, Sanjay (1993). The Portuguese Empire in Asia 1500-1700. London and New York: Longman. p. 131. ISBN 0582050685 
  4. a b Thomaz, Luís Filipe (2018). L'Expansion Portugaise dans le Monde. Paris: Chandeigne. p. 182. ISBN 9782367321752 
  5. a b Perera, C. Gaston (2007). Kandy Fights the Portuguese (A Military History of Kandyan Resistance). Sri Lanka: Vijith Yapa Publications. p. 201-233, 240. ISBN 9789551266776 
  6. Queiroz, Fernão de (1687). Conquista Temporal e Espiritual de Ceylão (PDF). Lisboa: (Manuscrito). pp. Capítulos XX–XXIX. Consultado em 17 de julho de 2019 
  7. Disney, A. R. (2009). A History of Portugal and the Portuguese Empire: From Beginnings to 1807 (Volume 2). Cambridge: Cambridge University Press. p. 167. ISBN 978-0521738224 
  8. Danvers, Frederick Charles (1894). The Portuguese in India: Being a History of the Rise and Decline of Their Eastern Empire: Volume 2. Londres: W. H. Allen & Co. p. 198 
  9. Leitão, Humberto (1970). Os dois descobrimentos da Ilha de São Lourenço mandados fazer pelo Vice-Rei D. Jerónimo de Azevedo nos anos de 1613 a 1616. Lisboa: Centro de Estudos Históricos Ultramarinos. pp. passim 
  10. Newitt, Malyn (2005). A History of Portuguese Overseas Expansion 1400-1668. New York: Routledge. p. 209. ISBN 978-0415239790 
  11. «Igreja e Museu de São Roque - Descrição Complementar - Capela do Presépio». SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, Forte de Sacavém. Consultado em 13 de julho de 2019