António Lobo Antunes

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António Lobo Antunes
António Lobo Antunes
Nascimento 1 de Setembro de 1942 (71 anos)
Lisboa
Nacionalidade Portugal Portuguesa
Ocupação Escritor
Principais trabalhos Memória de Elefante, Os Cus de Judas, As Naus, Manual dos Inquisidores, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, Sôbolos Rios Que Vão, etc.

António Lobo Antunes GC SE[1] (Lisboa, 1 de Setembro de 1942) é um escritor e psiquiatra português.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Proveniente de uma família da alta burguesia, foi criado em Lisboa, e licenciou-se em Medicina, optando pela especialidade de Psiquiatria. Entre 1970 e 1973 viveu em Angola, onde participou, como tenente médico do Exército, na Guerra do Ultramar. Posteriormente exerceu a profissão no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, até 1985.

Em 1979 publicou os primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, que obtiveram grande êxito e muito boa receptividade da critica, seguindo-se, em 1980, Conhecimento do Inferno. Estes primeiros livros são marcadamente biográficos, e estão muito ligados ao contexto da guerra colonial; transformaram-no imediatamente num dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos, no âmbito nacional e internacional.

Em termos temáticos, a sua obra prossegue com a tetralogia constituída por A Explicação dos Pássaros, Fado Alexandrino, Auto dos Danados e As Naus, onde o passado de Portugal, dos Descobrimentos ao processo revolucionário de Abril de 1974, é revisitado numa perspectiva de exposição disfórica de tiques, taras e impotências de um povo que terão sido, ao longo dos séculos, ocultados em nome de uma versão heróica e epopeica da história. Segue-se a esta série a trilogia Tratado das Paixões da Alma, A Ordem Natural das Coisas e A Morte de Carlos Gardel — o chamado «ciclo de Benfica» –, revisitação de geografias da infância e adolescência do escritor (o bairro de Benfica, em Lisboa). Lugares nunca pacíficos, marcados pela perda e morte dos mitos e afectos do passado e pelos desencontros, incompatibilidades e divórcios nas relações do presente, numa espécie de deserto cercado de gente que se estende à volta das personagens. A separação da mulher terá passado a constituir definitivamente o nexo central da sua obra, numa clara demonstração da incapacidade de resolver este trauma.

António Lobo Antunes começou por utilizar o material psíquico que tinha marcado toda uma geração: os enredos das crises conjugais, as contradições revolucionárias de uma burguesia empolgada ou agredida pelo 25 de Abril, os traumas profundos da guerra do ultramar e o regresso dos portugueses do ultramar à pátria primitiva. Isto permitiu-lhe, de imediato, obter adesão junto de uma certa facção de leitores, que, no entanto, não foi acompanhado pelo lado da crítica. A pouca adesão a um estilo excessivo que rapidamente foi classificado de «gongórico» e o tipo de público, contribuíram para alguns desentendimentos persistentes que se atenuaram com a repercussão internacional (em particular em França) que a obra de António Lobo Antunes obteve, mas que não desapareceram.

Em 1995 organizou com José Saramago um encontro de escritores luso-brasileiros na Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento (FLAD).

António Lobo Antunes tornou-se um dos escritores portugueses mais lidos, vendidos e traduzidos em todo o mundo. Pouco a pouco, a sua escrita concentrou-se numa temática concreta, adensou-se sem grande eficácia narrativa, ganhou em espessura e perdeu em novidade, compensando isto com recurso ao confronto e ao choque. De um modo impiedoso e obstinado, o autor trata a sua visão distorcida sobre o Portugal do século XX.

A sua obra prosseguiu numa contínua renovação linguística, tendo os seus romances seguintes (Exortação aos Crocodilos, Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, Que Farei Quando Tudo Arde?, Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo), bem recebidos pela crítica, marcando definitivamente a ficção portuguesa dos últimos anos.

Em 2005 foi distinguido com um dos mais importantes prémios literários do mundo: o Prémio Jerusalém. Em 2007 foi distinguido com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário de língua portuguesa. Em 2008 foram-lhe atribuídas, pelo Ministério da Cultura francês, as insígnias de Comendador da Ordem das Artes e das Letras francesas.

Temáticas[editar | editar código-fonte]

Muitos dos livros de António Lobo Antunes referem ou reportam-se a todo o processo de passagem do fim do Estado Novo até à implantação da Democracia. O fim da Guerra Colonial, o suposto fim de um mundo burguês marcado por valores tradicionais. Os problemas de mudança social rápida no 25 de Abril de '74 e, consequentemente, a instabilidade política e social vivida em Portugal. Esse processo de passagem é espelhado nas relações familiares. Regra geral aparecem nos romances deste autor famílias disfuncionais em que o indivíduo está a perder os seus referentes, em que a comunicação é ou nula ou superficial entre os seus membros. Regra geral os anti-heróis dos seus romances são pessoas que exercem profissões liberais oriundos de «boas famílias», reflectindo a própria disfuncionalidade familiar do autor.

Estilo[editar | editar código-fonte]

Densidade

Lobo Antunes tem uma escrita densa. O leitor tem algum esforço de leitura porque, por exemplo, não é raro haver mudanças de narrador e assim o leitor tem tendência a «perder o fio à meada». No entanto apesar de não ser um autor que opte por uma escrita fácil (ou facilitista) Lobo Antunes constitui um fenómeno de vendas e é muito lido internacionalmente, especialmente na Europa Continental.

Mudança de narrador

Na esteira de James Joyce e The Sound and the Fury de Faulkner, o narrador é por vezes trocado, como se o ponto de vista saltasse de personagem em personagem.

Obsessividade

Os livros de Lobo Antunes são muito obsessivos e labirínticos dando um tom geral de claustrofobia e paranóia às suas obras. Esta obsessividade gira completamente em torno da sua relação com a mulher, mesmo que tal não seja directamente referido. As suas obras apresentam ainda uma diversidade linguística assinalável.

Sintagmas nominais complexos

Ocorre muitas vezes numa descrição ou pensamento do que está a acontecer a um personagem aparecerem sobrepostos tanto o que está "realmente" a acontecer como uma realidade imaginária. Outros processos típicos são sintagmas nominais complexos como por exemplo "cachoeira dos pulmões". Aqui os substantivos (S1 de S2) não funcionam da maneira habitual em que S2 atribui propriedades sobre S1 ("copo de água"; água está a especificar o conteúdo do copo) mas funcionando este sintagma como uma metáfora ou como uma comparação. (assim esta imagem seria descrita num português mais habitual como "os pulmões fazendo barulho como uma cachoeira"). Em As Naus, um velho cego tem "olhos lisos de estátua"; em Manual dos Inquisidores, uma luneta é descrita como sendo "um tubo de inventar planetas".

Simultaneidade

Tipicamente ocorrem várias descrições simultâneas, tanto físicas como de pensamentos. É habitual uma realidade do passado estar misturada com uma realidade do presente. No meio de um diálogo serem inseridos diálogos imaginários ou do tempo passado.

Obra[editar | editar código-fonte]

De sua autoria, edições "ne varietur" de acordo com a vontade do autor:
Sobre o autor e obra

Prémios literários[editar | editar código-fonte]

  • Prémio Franco-Português, 1987 ("Cus de Judas") (Prémio instituído pela embaixada de França em Lisboa, no valor de duzentos mil escudos e atribuído a obras traduzidas para a língua francesa nos últimos cinco anos.)
  • Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, 1985 ("Auto dos Danados")
  • Prémio Melhor Livro Estrangeiro publicado em França, 1997 ("Manual dos Inquisidores ")
  • Prémio Tradução Portugal/Frankfurt, 1997 ("Manual dos Inquisidores")
  • France-Culture ("A Morte de Carlos Gardel")
  • Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, 2000
  • Prémio União Latina, 2003
  • Prémio Ovídio da União dos Escritores Romenos, 2003
  • Prémio Fernando Namora, 2004
  • Prémio Jerusalém, 2005
  • Prémio Camões, 2007[2]
  • Prémio José Donoso, 2008, atribuído pela Universidade de Talca, Chile
  • Prémio Juan Rulfo, 2008[3]
  • Prémio Clube Literário do Porto 2008

Brasil[editar | editar código-fonte]

No Brasil, a Editora Objetiva adquiriu os direitos de publicação, em versão original, de toda a obra do escritor português. A editora já publicou no país os seguintes títulos: Boa tarde às coisas aqui em baixo, Memória de elefante, Conhecimento do inferno, Os cus de Judas, Eu hei-de amar uma pedra, Explicação dos pássaros, O Meu nome é Legião, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar, O Arquipélago da insónia e As Naus.

Segundo o autor, durante entrevista à revista Entre livros, nº 32, páginas 14 a 19, o Brasil começou muito tarde a publicar seu trabalho por "razões pessoais": "Os cus de Judas saiu primeiro por uma editora que era de um amigo meu, a Marco Zero, e depois por longos anos não foi publicado." O autor não tinha pressa em ser publicado no Brasil e conclui: "Não sei, certa impressão de que meus livros seriam muito criticados… e eu venho do Brasil." O avô de Lobo Antunes, também António, era de Belém, onde o escritor começou a ler os clássicos brasileiros José de Alencar, Aluísio Azevedo, Machado de Assis, Monteiro Lobato.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Wikiquote
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Precedido por
José Luandino Vieira
Prémio Camões
2007
Sucedido por
João Ubaldo Ribeiro