Serra de Atapuerca

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Pix.gif Sitio arqueológico de Atapuerca *
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Património Mundial da UNESCO

Dolina-Pano-3.jpg
Escavação em Atapuerca
País  Espanha
Tipo Cultural
Critérios iii, v
Referência 989
Região** Europa e América do Norte
Coordenadas 42° 21' N 3° 31' 10" O
Histórico de inscrição
Inscrição 2000  (24ª sessão)
* Nome como inscrito na lista do Património Mundial.
** Região, segundo a classificação pela UNESCO.

A serra de Atapuerca é um pequeno conjunto montanhoso situado ao norte de Ibeas de Juarros, na província de Burgos, em Castela e Leão, Espanha), que se estende de noroeste a sudeste, entre os sistemas montanhosos da Cordilheira Cantábrica e do Sistema Ibérico. Foi declarado "espaço de interesse natural", bem de interesse cultural e Património da Humanidade como consequência dos excecionais achados arqueológicos e paleontológicos que se situam em seu interior, entre os quais se destacam os testemunhos fósseis de pelo menos quatro espécies distintas de hominídeos: Homo sp. da Sima del Elefante, Homo antecessor, Homo heidelbergensis e Homo sapiens.

Situação geográfica[editar | editar código-fonte]

A serra é limitada a sul pelo rio Arlanzón, a norte pelo rio Vena e a leste pela serra da Demanda, um contraforte do Sistema Ibérico. faz parte do chamado corredor da Bureba, uma importante passagem histórica entre o vale do Ebro e a bacia do Douro.

Do ponto de vista orográfico é uma formação modesta, com altitude máxima de 1 079 m no Cume de São Vicente. É formada por calcários do Cretáceo cobertas por massas florestais importantes de azinheira (Quercus ilex) e carvalho-português (Quercus faginea) e sobretudo arbustos de Genista scorpius, alecrim (Rosmarinus officinalis), alfazema (Lavandula spica), tomilho (Thymus vulgaris) e salva (Salvia).

O passo da Bureba foi desde sempre usado como rota em direçãi ao interior da península Ibérica a partir da Europa. O passo liga as vertentes mediterrânica (o vale do Ebro) com a vertente atlântica (vale do Douro), que por sua vez se situa na rota que, proveniente dos passos dos Pirenéus, se dirige para ocidente (Galiza e Portugal) e para sul (a meseta castelhana, Andaluzia, Estremadura, sul de Portugal e África. Uma das principais estradas romanas passava por Atapuerca, da mesma forma que o Caminho de Santiago na Idade Média, a estrada nacional N-I em finais do século XIX (hoje a Autovía del Norte) e atualmente a autoestrada AP-1.

Essa rota que passa pela serra de Atapuerca não foi usada só pelo ser humano, em qualquer das suas espécies; a fauna e a flora também a usaram nas suas expansões. Isto deu lugar a uma importante presença de fauna e flora diversificada e à ocupação humana contínua desde há mais de 800 000 anos, para o que contribui também a fertilidades das terras e a abundância de recursos naturais.

Geologia[editar | editar código-fonte]

A serra é composta por uma pequena colina — correspondente a um anticlinal tombado (vergência nordeste e direção ibérica nor-noroeste—sul-sudeste) — formada por calcários, areias e arenitos de origem marinha pertencentes ao Cretáceo Superior (entre 80 e 100 milhões dea nos) cobertas pelos materiais trazidos pelo rio Arlanzón, que formaram numerosos terraços aluviais no Quaternário. A parte mais elevada da colina é totalmente plana, uma característica que indica que sofreu uma forte erosão desde há vários milhõesde anos.

E redor da serra, e sobre esse anticlinal, existem materiais de origem continental mais modernos, correspondentes ao Terciário (entre 25 e 5 milhões de anos). Os seus componentes são conglomerados de calcário e argilas vermelhas do Oligoceno, debaixo de uma sequência de margas, argilas, gipsitas e aglomerados calcários e margosos, próprios do antigo ambiente lacustre da bacia do Douro.

Durante o final do Plioceno e início do Pleistoceno começa a formar-se o vale fluvial do Arlanzón, que ao abrir o seu leito através da serra criou 15 niveis de terraços quarternários muito assimétricos. A subida das águas do rio e a estrutura calcária deram lugar a um complexo cárstico com numerosas covas, muitas delas abertas ao exterior devido a diversas causas (demoronamentos, cortes, etc.). Por essas aberturas foram-se depositando ao longo dos anos terra, poeira, pólens, restos de animais, excrementos, etc., a ponto de algumas das entradas terem ficado tapadas, preservando o interior intacto até que surgiram novas aberturas. Isto permitiu a conservação de restos e fósseis de hominídeos em numerosas covas debaixo dos bosques de Atapuerca, protegendo-os das mudanças bruscas de temperatura e humidade.

História[editar | editar código-fonte]

Primeiras descobertas; século XIX[editar | editar código-fonte]

As primeiras explorações sistemáticas do sistema cárstico de Cueva Mayor (Caverna Maior) remontam a meados do século XIX, apesar da caverna já ser conhecida e visitada desde muito tempo antes. Em 1863 Felipe Ariño solicita a concessão em propriedade da caverna. Cinco anos depois, em 1868, foi publicada uma descrição detalhada da gruta, da autoria de Pedro Sampayo e Mariano Zuaznavar, na qual é descrito pela primeira vez o que atualmente é conhecido como Sima de los Huesos (abismo dos ossos). Há outra referência deste local em 1890, num pedido para a obtenção de uma autorização de exploração mineira de outras zonas de Cueva Mayor. Em paralelo com estas primeiras investigações têm lugar várias várias espoliações e destruições do interior.

Em finais do século XIX, uma época em que a Espanha entrava na Revolução Industrial, construiu-se uma linha de caminho de ferro mineiro entre a serra da Demanda e Burgos (mais exatamente, até à linha Burgos–Bilbau). Nesses anos, as siderurgias bascas requeriam uma grande quantidade de ferro e carvão, mais do que as explorações de Leão e das Astúrias conseguiam então produzir e a serra da Demanda tinha potenciais minas de ferro e hulha. No entanto, não havia nenhum tipo de transporte que pudesse levar o minério extraído para os altos-fornos de fundição situados na Biscaia. Para resolver esse problema, em 1896 foi outorgada uma autorização para construir aquela linha férrea de via estreita à "The Sierra Company Limited", a empresa recém-criada por Richard Preece Williams. Esta empresa encarregou-se do trajeto entre Monterrubio de la Demanda e Villafría, bem como do investimento em várias minas situadas em localidades como Pineda de la Sierra, Riocavado de la Sierra, Barbadillo de Herreros, Monterrubio de la Demanda ou Valle de Valdelaguna. A obra ferroviária, na qual participaram 1 500 operários, compreendia um total de 65 km de via e foi terminada em 1901.

Inicialmente o projeto não previa a passagem pela serra de Atapuerca, mas por uma razão desconhecida, isso acabou por acontecer, tendo sido escavado um desfiladeiro artificial no lado sudoeste da serra, com 500 metros de extensão e uma profundidade que chega aos 20 metros. Este trecho acrescentou um quilómetro aos planos iniciais e possivelmente poderá dever-se a a uma intenção de aproveitamento comercial do calcário da serra, que era usado como material de construção desde a Idade Média. O desfiladeiro atravessou numerosas cavernas atulhadas com sedimentos do Pleistoceno, com ossos e indústria lítica, em que ninguém reparou, expondo-as à luz e mostrando claramente a sua estratificação.

O compromisso com a empresa foi que o seu caráter não seria exclusivamente mineiro; como condição para receber a subvenção da Deputação, a The Sierra Company Limited teve que comprometer-se a transportar passageiros e mercadorias e para esse fim a empresa adquiru quatro locomotivas a vapor e diverso material circulante. No entantom a linha nunca chgeou a consolidar-se economicamente, devido aos elevados preços impostos pela Ferrocarriles del Norte. A linha deixou de funcionar cerca de 1910 e em 1917 a sociedade Basco-Castelhana, herdeira da The Sierra Company Limited, faliu e desapareceu definitivamente. Ainda hoje se conservam pontes, taludes, túneis e estações daquela ferrovia. Em 1950 o desfiladeiro foi usado como pedreira, o que afetou negativamente os jazigos, destruindo parte deles.

Primeiras campanhas[editar | editar código-fonte]

Em 1964 o professor Francisco Jordá Cerdá deu início às primeiras campanhas de escavações que pararam pouco tempo depois. Oito anos mais tarde um grupo de espeleólogos descobriu a chamada Galeria do Sílex, que contém restos de rituais funerários e de pinturas da Idade do Bronze. Em 1973 o professor J.M. Apellániz inicia as escavações do Portalón de Cueva Mayor, as quais tiveram onze campanhas.

Estudo atual[editar | editar código-fonte]

Em 1976 o engenheiro de minas Trinidad de Torres Pérez-Hidalgo (conhecido como Trino), que então realizava a sua tese de doutoramento em ossos fósseis, leva a ao antropólogo Emiliano Aguirre Enríquez vários restos humanos encontrados numa das escavações de Atapuerca: a Sima de los Huesos. Em 1980 foram iniciadas as escavações na Galeria do Sílex, que duraram mais de uma década. Em 1984 começaram as escavações sistemáticas na Sima de los Huesos.

Em 1990 Emiliano Aguirre reformou-se e a direção dos trabalhos passa para uma equipa formada por Juan Luis Arsuaga, José María Bermúdez de Castro e Eudald Carbonell Roura. Desde então foram encontrados instrumentos líticos do "Modo técnico 1" (Paleolítico inferior arcaico), os mais primitivos, na base da "Grande Dolina", datados de ca. 900 000 anos. Em 1992 foram encontrados vários crânios na Sima de los Huesos, entre eles famoso crânio número 5, batizado com o nome de Miguelón em honra de Miguel Indurain, o que confere relevância internacional e científica ao sítio arqueológico, tornando-o imprescindível nos estudos da evolução humana.

Os anos de 1994 e 1995 proporcionaram um rico registo de ferramentas de Modo 1 junto a restos humanos, todos eles com mais de 800 000 anos, o que confirma uma presença humana muito antiga na Europa. No ano seguinte ficou provado, mediante o estudo de marcas nos ossos, que se praticava canibalismo ritual; esta é a referência a a canibalismo mais antiga da Europa. Nesse período foi também iniciada a escavação na Sima del Elefante.

O ano de 1997 foi de grande importância para o sítio, pois foi comprovada a descoberta de uma nova espécie humana, o Homo antecessor. As investigações recebem vários prémios de prestígio, entre os quais o Prémio Príncipe das Astúrias e o de Ciências Sociais da Junta de Castela e Leão.

Em 1998 foi provado que os restos encontrados na Sima de los Huesos, atribuídos ao Homo heidelbergensis, pertencem a seres humanos, que além de terem capacidade de abstração e de simbologia se deparavam com os problemas místicos inerentes ao ser humano. Isso foi confirmado pelo achado de uma ferramenta biface (modo 2), a chamada "Excalibur", que não foi utilizada e que foi fabricada num material muito apreciado, depositada como homenagem a algum membro do grupo ali enterrado.

Em 1999 começaram as escavações na gruta "o miradouro" e no ano seguinte o sítio foi inscrito na lista do Património Mundial. Na Sima do Elefante foram encontrados restos de utensílios líticos datados de há um milhão de anos. É identificada uma nova espécie de roedor, o Microtus (Allophaiomys) lavocati e são retomadas as escavações no Portalón de Cueva Mayor. Na Grande Dolina foi identificada uma nova espécie de urso das cavernas, o Ursus dolinensis, cujos restos foram encontrados no nível TD4.

Escavações[editar | editar código-fonte]

Na segunda metade do século XIX foram feitos alguns achados que indicavam a riqueza arqueológica da zona, mas só no último quartel do século XX foram realizados estudos aprofundados e sistemáticos que revelaram que o conjunto de jazigos pré-historicos é um dos mais importantes da Europa e um dos mais relevantes do mundo, onde se fizeram achados que mudaram a história registada da humanidade. A cronologia dos restos vão desde o Pleistoceno Inferior (há mais de um milhão de anos) até ao Holoceno (época atual, iniciada há 11 500 anos, e fornecem dados sobre a fauna, flora e clima.

Os jazigos são excecionais pela abundância de registos fósseis, bom estado de conservação e importância científica. Os utensílios líticos encontrados abarcam todas as etapas tecnológicas, desde as formas mais primitivas do entalhe da pedra até às da Idade do Bronze.

No que toca à fauna, foi encontrada uma nova espécie de urso das cavernas, batizado como Ursus dolinensis. Os achados mais importantes são os de restos humanos; encontram-se em vários jazigos, o que não é habitual. Entre eles encontraram-se restos do antepassado humano mais antigo da Europa, o Homo antecessor, a última espécie comum entre os Homem-de-neandertal, o Homo sapiens e o pré-neandartal Homo heidelbergensis.

Seguidamente são apresentados os jazigos mais relevantes e que proporcionaram mais informação para entender a pré-história. Entre eles destacam-se os que se situam na Trinchera del Ferrocarril ("trincheira do caminho-de-ferro"; como a Sima del Elefante, Galería e Gran Dolina) e os pertencentes ao sistema cárstico da Cueva Mayor/Cueva del Silo (como Portalón, Galería del Sílex e Sima de los Huesos). À parte encontra-se a Cueva del Mirador, uma caverna situada no extremo sudeste da serra, aparentemente sem relação com o sistema cárstico mencionado anteriormente. Foram localizados mais de 50 jazigos exteriores (como o Vale das Orquídeas e Hundidero, tendo este último começado a ser escavado recentemente) e na região que inclui a serra e os seus arredores há um numerosos monumentos megalíticos (dólmens), o que comprova que o complexo de Atapuerca é muito extenso, não se limitando à trincheira do caminho-de-ferro e as suas vizinhanças.

Trinchera del Ferrocarril[editar | editar código-fonte]

O jazigo da Sima del Elefante, também conhecida como Trinchera Elefante (TE), situa-se na Trinchera del Ferrocarril, sendo o primeiro jazigo que se encontra quando se entra pela entrada sul da trincheira. No contexto do complexo cárstico da Cueva Mayor/Cueva del Silo, encontra-se no final da Galería Baja, desconhecendo-se ainda a relação sedimentológica entre aqueles locais. Deve constituir uma galeria cárstica com mais de 15 metros de altura e 18 metros de largura máxima. É uma caverna colmatada por sedimentos, que se descobriu quando foi construída a trincheira em finais do século XIX, que deixaram a descoberto afloramentos de sedimentos em ambas as paredes. É sobre a parede oriental destes afloramentos que decorrem as investigações. O nome deve-se à aparição, em 2001, de fósseis que foram inicialmente atribuídos a elefantes, embora investigações posteriores tenham demonstrado que afinal pertencem a rinocerontes. No entanto, em campanhas posteriores descobriu-se um astrágalo que pertencia a um elefante, confirmando-se a presença deste animais nos seus depósitos fossilíferos.

O jazigo da trincheira foi o que começou a ser escavado mais tarde de forma sistemática. Os 21 metros de sedimentos abracam todo o período de ocupação humana da serra correspondente ao Pleistoceno. Os seus níveis inferiores são os mais antigos de toda a serra — estão próximos do subcron paleomagnético Jaramillo, — e situam-se 3,5 metros abaixo do nível atual da trincheira, com idade superior a um milhão de anos (Pleistoceno Inferior). Nestes níveis foram encontrados estos de fauna acompanhados de instrumentos líticos, que demonstram a presença de hominídeos numa época anterior aquela em que viveu o Homo antecessor da Gran Dolina (há cerca de 780 000. Além disso, em alguns restos ósseos de animais foram encontradas marcas de corte produzidas pelo contacto de instrumentos líticos com o osso enquanto este era descarnado, pelo que se podem inferir certos aspetos da alimentação daqueles hominídeos. Por outro lado, nos níveis superiores apareceram instrumentos líticos de tipo musteriense ou modo 3, associados a neandartais, junto a fósseis de cavalos e veados.

Em março de 2008 foram divulgados novos restos de Homo encontrados neste jazigo — uma mandíbula de um indivíduo de aproximadamente 20 anos e 32 ferramentas de sílex do tipo olduvaiense (modo 1), — que foram datados em 1,2 milhões de anos, sendo portanto muito mais antigos do que os restos originais de Gran Dolina, o que faz recuar consideravelmente a data da presença de hominídeos na Europa. Os restos, que inicialmente foram identificados como sendo de Homo antecessor, foram depois classificados como "Homo sp." (do género Homo, mas sem especificar a espécie) e provavelmente pertencem a uma nova espécie ainda por definir. A mandíbula apresenta características que a aproximam das dos espécimes de Homo mais antigas de África e de Dmanisi (Geórgia), mas com traços que as diferenciam.

Notas[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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