Francisco Alves

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Francisco Alves
Informação geral
Nome completo Francisco de Morais Alves
Também conhecido(a) como Chico Alves
Chico Viola
Nascimento 19 de agosto de 1898
Origem Rio de Janeiro
País  Brasil
Data de morte 27 de setembro de 1952 (54 anos)
Local de morte Pindamonhangaba
Nacionalidade  brasileiro
Gênero(s) samba e samba-exaltação, maxixe, marchinha
Cônjuge Perpétua Guerra Tutóia (1920)
Célia Zenatti (1921—1952)
Instrumento(s) violão
Extensão vocal tenor,barítono
Período em atividade 1918-1952
Gravadora(s) Popular, Odeon, Parlophon, RCA Victor, Columbia, Continental
Afiliação(ões) dupla com Mário Reis
trio com Noel Rosa e Ismael Silva
Influência(s) Vicente Celestino
Influenciado(s) Carlos Galhardo
Orlando Silva
Francisco Alves signature.png

Francisco de Morais Alves, mais conhecido por Francisco Alves, Chico Alves ou Chico Viola (Rio de Janeiro, 19 de agosto de 1898Pindamonhangaba, 27 de setembro de 1952), foi um dos mais populares cantores do Brasil na primeira metade do século XX, e considerado por muitos o maior do país.[1]

A qualidade de seu trabalho lhe rendeu, pelo radialista César Ladeira, a alcunha de "Rei da Voz".[2] Foi, ainda, peça decisiva para a construção de vários gêneros populares da música.[3]

De origem humilde, deixou uma vasta produção de mais de quinhentos discos;[nota 1] sua morte trágica causou imensa comoção no país, num sentimento que um de seus biógrafos, David Nasser (que também era amigo e compositor de algumas músicas por ele interpretadas), escreveu: "Tu, só tu, madeira fria, sentirás toda agonia do silêncio do cantor".[2] A despeito disso, muitos no meio artístico o consideravam bruto, de poucos amigos e vários desafetos.[4]

Foi dele a primeira gravação de disco elétrico feita no Brasil.[5] Representava para o país, quando de sua morte, o que o cantor Maurice Chevalier era para a França: um "caso raro" — como então registrou o Jornal do Brasil.[6]

Primeiros anos e início da carreira[editar | editar código-fonte]

Seu pai, José Alves, era um imigrante português que se radicara no centro do Rio, então a capital do país; ali, na rua do Acre, ele abriu um bar e foi nesta rua que nasceu o cantor, um dos cinco filhos que teve; e nesta rua ele passou sua infância.[7] Seus irmãos eram Ângela, Lina, Carolina e José e a mãe Isabel Morais Alves.[8]

Da irmã mais velha Ângela ganhou seu primeiro instrumento, uma guitarra.[7] Ainda menino a família se mudou para a rua Evaristo da Veiga e, face às dificuldades, ele trabalhou como engraxate e, aproveitando-se da proximidade com um batalhão da polícia, passou a acompanhar os ensaios de sua banda de música;[7] quando ficou maior, conseguiu o primeiro emprego (1916) na fábrica de chapéus Mangueira,[nota 2][9][2][9]; depois de pouco tempo foi para a Júlio Lima.[7] Sua irmã Lina, por sua vez, entrara para o meio artístico e viria a se tornar atriz como vedete no teatro de revista e depois nas radionovelas, adotando o nome de Nair Alves.[8][nota 3]

Em 1918 começou a cantar profissionalmente; seu primeiro lugar de apresentações foi o Pavilhão do Méier onde foi contratado após um teste,[1] feito pelo pai de Mário Lago, o maestro Antônio Lago.[8] Dali cantou no Circo Spinelli e fez parte de uma companhia artística que logo se dissolveu, com a chegada na cidade da pandemia de gripe espanhola,[1] que veio a matar seu irmão Juca (José) em 1918 e o pai no ano seguinte;[8] no mesmo ano ele começou a trabalhar como chofer de táxi.[7] Revela admiração pelo cantor Vicente Celestino que via em apresentações no Teatro São José, em cujo estilo se inspirou.[2]

Com a morte do pai e do irmão, e o casamento das irmãs, morou sozinho com a mãe.[7] Em 1919, o grupo voltou a se organizar em Niterói e Alves, mais uma vez, passou a integrar a companhia.[1] Neste período conheceu o já famoso compositor Sinhô que então lhe apresentou ao filho de Chiquinha Gonzaga, que estava instalando uma fábrica de discos e, já em 1919, ele gravou pelo novo selo, chamando-se Popular este seu primeiro disco.[1]

Este trabalho trazia Sinhô como ritmista e levava algumas de suas sobrinhas para o coro; as duas composições do disco eram de autoria dele: a marchinha "O Pé de Anjo" e o samba "Fala, Meu Louro"; gravou, também de Sinhô o samba "Alivia Esses Olhos", em seguida.[1] Sinhô, que fora responsável pelo lançamento de muitos artistas, foi quem ensinou a Alves as técnicas vocais.[5]

Tornou-se um frequentador das zonas boêmias cariocas da Lapa e de Vila Isabel, onde conhece muitos artistas, dentre os quais Pixinguinha; foi na Lapa que em 1920 ele conheceu, num cabaré, Perpétua Guerra Tutoia, com quem tem um breve casamento, a contragosto da família.[7] A união com a garota que tinha o apelido de Ceci aconteceu, segundo ele, num momento de loucura, e durou cerca de uma semana.[8]

O casamento errado[editar | editar código-fonte]

Chico conhecera Ceci — pseudônimo adotado na vida de meretrício — num prostíbulo de baixa categoria da rua Joaquim Silva e viu-se prontamente apaixonado pela mulher que ele mesmo descreveu como sendo "bonita, atraente, a boca muito pintada, os olhos maliciosos e o vestido colado ao corpo" que "davam-lhe a indescritível cor local."[11]

Imediatamente quis tirar a moça daquela vida e ambiente "de pecado"; para tanto pediu-lhe em casamento e esta aceitou; mas nem seus amigos — que encheram-lhe de advertências — nem a família concordaram com tal união: da mãe Isabel ouviu que este lhe seria "o maior desgosto" de sua vida; a irmã Ângela lembrou-lhe do pai, que jamais aprovaria aquele ato; nada demoveu Alves da decisão e, no dia 24 de maio de 1920, em celebração apenas civil, casou-se com a prostituta sem a presença nem de amigos nem de familiares.[11]

Após alguns dias a esposa, contudo, lhe confessou que não abandonara a profissão, que continuava a se prostituir pois o fazia não pelo dinheiro apenas, mas porque gostava da vida alegre e agitada dos bordéis; ante o choque da revelação — ele mais tarde diria ao amigo David Nasser não entender como alguém gostasse daquela vida — o relacionamento terminou menos de um mês após ter começado; Perpétua (ou Ceci) desapareceu de sua vida por trinta anos — quando retornou de forma surpreendente.[11]

O fracasso no relacionamento não foi o mesmo na carreira: ingressou na companhia de Batista de Oliveira, em Niterói, e conheceu um novo amor.[11]

Anos 1920 — cantor, ainda taxista, começo do sucesso[editar | editar código-fonte]

Nair Alves (Colombina), o irmão Chico (Almofadinha) e Marieta Field na revista "Sonho de Ópio", 1923.

Em 1921, o empresário José Segreto convidou-o para interpretar no Teatro São José, nas peças de teatro de revista de sua produção, nada menos que os sucessos de seu ídolo Vicente Celestino.[1] No Teatro São José fez parte da companhia de revistas do ator Alfredo Silva, onde ficou pouco tempo como corista, sendo promovido a ator secundário e, logo, protagonista da peça cômica que popularizou a canção homônima “A Malandrinha”.[9] No mesmo ano conheceu e se casou com a atriz Célia Zenatti, com quem viveria por vinte e oito anos.[2] Apesar de já atuar profissionalmente como artista, não abandonou a atividade de taxista.[7]

Mudando de gravadora lançou em 1924, pela Odeon, gravações de samba e marchas, mas não alcançou bom resultado.[1]

Almirante contava que, a partir de 1928, Alves lançou suplementos pela Parlophon, paralelos aos discos pela Odeon; enquanto nesta usava o nome real, naquela usava o apelido de Chico Viola; isto gerou confusão mesmo em pessoas do ramo artístico, que debatiam qual dos dois cantores seria o melhor: uns diziam ser Francisco, outros o Chico — discutindo sobre a mesma voz e o mesmo cantor.[12]

Em 1930 começou a gravar em dupla com Mário Reis (então recém-formado em direito e trabalhando no Banco do Brasil) e isto representou, segundo o historiador Ronaldo Conde Aguiar, "um marco na história da música popular brasileira" a formação do dueto; a parceria representou um enorme sucesso e durante dois anos gravaram juntos vinte e quatro músicas (ou doze discos).[11]

Em 1930 ele grava para o carnaval a marcha "Dá Nela", que foi um sucesso tão grande que mereceu da Casa Edison, dona da gravadora Parlophon, o seu maior prêmio; no meio deste ano ocorreu o assassinato do então governador da Paraíba, João Pessoa, que desencadeou o movimento revolucionário que levaria ao poder pela primeira vez a Getúlio Vargas; no calor dos fatos, Alves grava o "Hino a João Pessoa".[13] Quando os acontecimentos políticos se agravam, contudo, ele viaja em excursão para Buenos Aires, contratado pela empresa de teatro de revista de Jardel Jércolis.[13]

Década de 1930 — o grande sucesso[editar | editar código-fonte]

Em 1931 deu uma demonstração de falta de educação e sensibilidade, que a muitos revoltava: estavam vários amigos ao lado do jovem pianista Nilton Bastos, prestes a morrer da tuberculose que o vitimou, e Alves teria entrado no quarto a cantar: "Quando eu morrer, não quero nem choro nem vela..." — fato narrado por Mário Reis.[4]

Em 1932 integrou, junto a Carmen Miranda, Gastão Formenti, Mozart Bicalho, Patrício Teixeira e Elisa Coelho o cast exclusivo da Rádio Mayrink Veiga.[14]

Em 1935 teve por empregada doméstica a futura cantora Carmem Costa, na época com apenas quinze anos de idade, a quem ajudou em seu começo de carreira.[15][nota 4]

Nesta década, Carlos Galhardo começou a carreira imitando sua voz e, só depois, foi se libertando para ter o próprio estilo.[17]

Em 1939 Alves faz a primeira gravação da antológica Aquarela do Brasil, de Ary Barroso que, com arranjos do pianista Radamés Gnattali, ocupa os dois lados do disco em que foi gravada.[3]

Em 1940, ele participou em números musicais no filme Laranja da China; na revista especializada em cinema A Scena Muda, Renato de Alencar escreveu uma crítica onde se lia: “que cousa apavorante aquela das cantigas de Chico Alves entre a "favelagem", como se estivesse num tablado de pastorinhas lá pelo nordeste![18]

Década de 1940[editar | editar código-fonte]

Chico, de motocicleta, por causa do racionamento da Guerra, em 1942.

Em 1942, com o surgimento das primeiras radionovelas e a participação do Brasil na II Guerra Mundial, os cantores perderam momentaneamente a condição de protagonistas do rádio; o radialista Oswaldo Luiz, a respeito, escreveu que “só quem mora fora do Rio pode aquilatar do prestígio, da popularidade e da curiosidade que um “astro” do microfone pode causar”; a despeito disto, ele assinalou que, embora ainda recebendo grandes salários, astros como Carmen Miranda, Chico Alves, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas ou Orlando Silva já não atraíam mais tanto fãs como antes, com o surgimento das radionovelas, e os noticiários que falavam da guerra.[19] No ano seguinte, a revista A Cena Muda repetia: "Que é feito dos famosos ídolos? Chico Alves, Orlando Silva, Galhardo, Silvio Caldas... O fim do ano está batendo à porta e esses rapazes – vá lá... – não dão um ar de sua graça nem procuram variar o repertório. Por isso mesmo – falta de esforço – foi que os grandes cartazes de outros tempos foram se eclipsando até ninguém mais se lembrar deles..."[20]

Em 1943, numa associação com César Ladeira, Ari Barroso e Almirante, tentou comprar uma emissora de rádio no Rio; o negócio não foi adiante porque os donos, à última hora, resolveram elevar o preço a valores exorbitantes.[21]

No começo de 1944 foi lançado o filme Berlim na Batucada, da Cinédia, onde representou um "maioral do morro"; a comédia não foi bem recebida pela crítica que, entretanto, poupou-lhe a atuação, dizendo que "não foi bem aproveitado".[22] Neste ano gravou, em homenagem aos pracinhas que lutavam na Europa, a Canção do Expedicionário, revelando seu patriotismo.[8]

Em 1945, Sergio Peixoto registrou sobre a carreira de Alves: “...quando o rádio começou a ganhar vulto, com o aparecimento das primeiras emissoras mercantilizadas e a venda de receptores em alta escala, a prazo longo e até a dez cruzeiros por mês; quando o povinho conseguiu, graças aos “salomões”, adquirir seu aparelho receptor para tomar conhecimento da existência dessa grande realização de Marconi, já Francisco Alves era o “maioral” dentro do rádio carioca. Era o artista que dava as cartas, o mais popular, o mais ouvido e o mais caro de todos” — e emendava: “Francisco Alves, o “Chico Viola”, não passa, não cansa nem nada... Ele está aí, com o mesmíssimo cartaz: continua sendo o melhor, o primeiro, o popularíssimo e o ouvidíssimo”.[9] De fato, Alves emplacou os maiores sucessos daquele ano, dando demonstração de sua persistência como primeiro dentre os cantores da época: as marchinhas “Que rei sou eu?”, “Isaura” e “Malaguenha”.[9]

O cantor, ao lado de um de seus "puro-sangue".

Para demonstrar sua previdência, Sergio Peixoto registrou que ele conseguira “bancar a cigarra sabida” ao saber usar a “mina de ouro” que era sua voz, e não dispersou os ganhos com as fãs ou a boemia, registrando que dele não se sabia nada desabonador; acrescia que conservava, com mais de vinte anos de carreira, o mesmo “timbre de voz que fez as delícias das morenas bonitas de seu bairro, quando, seresteiro adolescente, nem sequer sonhava um dia ganhar tanto dinheiro que daria para possuir um “haras” com cavalos de corridas”.[9] Em 1948, ele declarou sobre seus cavalos puro-sangue que mantinha no Hipódromo da Gávea que o negócio era uma "barbada"; neste ano mantinha um bem sucedido programa de rádio.[23]

Em 1949, Chico era apresentado como um cantor que ainda se mantinha no topo e um “turfman”.[24] Neste ano, ele já não mais apresentava programa no rádio no horário nobre, o que motivou um editorial da revista A Cena Muda por Luiz Alípio de Barros a lamentar que os cantores estavam a perder seu espaço para programas de auditório de mau gosto ou para as novelas, com os seus horários modificados para os de menor audiência: “nos melhores tempos, o intérprete tinha o seu programa exclusivo, com um patrocinador e o absoluto apoio das organizações radiofônicos (...) Quem não se lembra dos velhos programas da magnífica Araci, de Chico Alves, Orlando Silva, Galhardo, Linda, Dircinha e de tantos outros nomes de grande expressão!"; ele continua o libelo afirmando que “abandonando os seus intérpretes, as emissoras brasileiras estão matando aos poucos a nossa música popular” e que “o rádio brasileiro precisa debater o mal que vem causando à nossa música”; [25]

O ano de 1950 começara promissor pra Alves, emplacando um sucesso no carnaval, como registrou A Cena Muda: "Francisco Alves é um cantor que sabe ser artista (...) Chico não se barateia ante o público, mesmo quando se apresenta diante de uma auditório que sente a presença marcante do “Rei da Voz”. E apesar dos seus anos todos, Chico Alves sabe entusiasmar o público cantando “Marcha dos Brotinhos”"[26] A mesma revista falava da “decadência” então vivida por Orlando Silva e ressalvava que “Silvio Caldas e Francisco Alves mantêm ainda a grande classe dos velhos tempos, o que equivale dizer que souberam conservar-se com a sua voz em forma e não se deixaram baratear ou vulgarizar”.[27]

O retorno de Ceci[editar | editar código-fonte]

Perpétua Guerra Tutoia, em 1952.

Chico cuidava bem dos negócios: tinha vários imóveis, uma loja em Miguel Pereira e os cavalos de corrida em parceria com o sócio Mário de Almeida (conhecido como “Mário Português”).[28]

Em 1950 sua primeira esposa — Perpétua Guerra Tutoia, ou "Ceci" — reapareceu em sua vida, de forma inusitada e inesperada: Chico Alves foi citado para responder a um processo que ela lhe movia, dizendo ser o pai de dois filhos adolescentes — Cristiano (de quinze anos) e Teresa (treze).[11]

O processo foi um choque para o cantor que, diante da repercussão que o mesmo ganhara na imprensa, e o fato de ter de recorrer para serem suas testemunhas aos mesmos amigos cujos conselhos recusara trinta anos antes, pensou mesmo em abandonar a carreira.[11]

A imprensa dava destaque e o processo se arrastava até que um juiz, à luz das provas e testemunhas, finalmente deu-lhe ganho de causa; Ceci, derrotada, voltaria novamente a aparecer após a morte do cantor, ocorrida dois anos depois de sua tentativa frustrada.[11]

Década de 1950, últimos dois anos[editar | editar código-fonte]

Em setembro de 1952 Alves, que sempre procurava desenvolver atividades filantrópicas, gravara a "Canção da Criança", com a participação do coral formado por meninas da "Casa de Lázaro", em benefício da qual a renda desta seria revertida; foi para divulgar este trabalho que viajou à capital paulista para apresentar-se num show, pela Rádio Nacional, no Largo da Concórdia; ali dirigiu-se ao final à multidão que o escutava, fazendo um pedido para que todos ajudassem a infância.[8]

A morte trágica[editar | editar código-fonte]

Dizem que a gente deve saber a hora em que é bom abandonar o palco, mas eu não sei, eu não posso e eu não quero. Bem que eu gostaria, meu caro amigo, de fazer coincidir o último alento de vida com o último agudo de minha garganta.”
Francisco Alves, citado por Nasser.[2]
O carro do cantor, em chamas.

Alves dirigia seu Buick voltando de São Paulo, para onde fora se apresentar na Rádio Nacional, pela rodovia Presidente Dutra, ao lado do amigo Haroldo Alves, quando na altura da localidade chamada Una, por volta das 18:30 h do dia 27 de setembro de 1952, vindo em sentido contrário, um caminhão dirigido por João Valter Sebastiani, do Rio Grande do Sul, chocou-se violentamente contra ele; com a pancada o amigo foi jogado para fora do veículo do cantor e sobreviveu em estado grave, mas o artista sofreu uma morte imediata e, logo em seguida, o carro se incendiou e seu corpo ficou totalmente carbonizado, praticamente irreconhecível.[6] Haroldo Alves foi socorrido por outro motorista que passou a seguir, e foi levado à Santa Casa de Taubaté em estado de coma.[6] A ocorrência foi atendida pelo delegado de Pindamonhangaba, município a que Una pertencia,[nota 5] levando o corpo para aquela cidade onde, após diligências, foi finalmente identificado como sendo do “Rei da Voz”.[6]

O cantor fizera uma apresentação na capital paulista, e teria no dia seguinte mais um programa pela Rádio Nacional do Rio, motivo da seu imediato retorno; a mesma emissora motivara esse deslocamento e o fato não passou despercebido da imprensa; seus colegas da emissora, tanto de São Paulo como do Rio, se deslocaram para Pindamonhangaba a fim de acompanhar os acontecimentos.[6]

Segundo se apurou no inquérito — com a oitiva das testemunhas Gil Inácio de Andrade e Avelino Teixeira e do motorista do caminhão — o acidente fora causado por um terceiro veículo, um Mercury dirigido por Felipe Jorge Abunahman, um dentista, que vindo de uma via secundária (estrada municipal Antônio Marçom - Una) avançara de forma imprudente na Via Dutra forçando o caminhão, que ia rumo a São Paulo, a desviar-se para a esquerda e o automóvel de Alves para a direita — de forma que ambos colidiram do lado do motorista.[8]

O local do acidente está assinalado por uma cruz à qual foi afixado um violão.[8]

Velório e sepultamento[editar | editar código-fonte]

Seguindo para o Rio, o corpo do artista foi velado na Câmara Municipal; uma multidão de fãs e curiosos acorreu ao lugar, para se despedir da celebridade desaparecida, além de artistas, autoridades e um representante do então presidente Getúlio Vargas; mesmo durante a madrugada do domingo para a segunda-feira as filas diante do legislativo municipal não deixavam de crescer.[6]

No dia 29 de setembro, segunda-feira pouco após as 11 h da manhã, o cortejo seguiu rumo ao Cemitério de São João Batista, seguido por multidão cujo número não pode ser aferido; no registro do cronista do jornal O Dia: “Era impossível ter-se uma ideia exata do número de pessoas que formavam aquela fabulosa onda humana, que provocou colapso no trânsito, acompanhando os funerais de Francisco Alves. Cem, duzentas mil pessoas? Quem sabe ao certo, se a vista do repórter se perdia ao longo de ruas e avenidas da zona sul? Foi um espetáculo comovente, o coroamento das manifestações de dor popular pela morte trágica do Rei da Voz. Durante as últimas 48 horas, a cidade se transformou de tal modo, ligando-se ao destino de um artista por vinculo do mais profundo sentimentalismo, que até parecia não ter morrido apenas um seresteiro de alta classe, mas um mistico de poderosa influência sobre multidão deslumbrada.[6]

O cortejo fúnebre seguiu com o caixão sendo levado numa viatura do corpo de bombeiros e, ao longo do percurso, as pessoas jogavam flores, a ponto de que logo estas cobriram totalmente o caixão;[8] Benjamin Costallat descreveu o momento: "A cidade, no seu luto, encheu-se, então, da voz de seu cantor, que nunca lhe pareceu tão bela, tão comovedora e tão triste, como se chorasse sobre si mesma o desaparecimento de seu dono, daquele bom e simples Chico Viola, filho dos morros, irmão do samba e amigo das serenatas e do luar".[6] Atrás do carro dos bombeiros e da multidão que o seguia, vinha uma grande quantidade de carros a levar flores e coroas; o trajeto seguiu da Câmara pela avenida Rio Branco, passando pelos bairros do Flamengo, Botafogo e outros, sempre com o mesmo acompanhamento; foram duas horas de percurso.[6]

Durante o trajeto o povo cantava a música do ídolo que fora sucesso, "Adeus, Cinco Letras que Choram"; estimativas atuais dão conta de que meio milhão de pessoas acompanharam o cortejo.[3]

Tamanha quantidade de pessoas não coube no cemitério; apesar das medidas adotadas pela força pública, houve grande confusão, todos querendo ali adentrar e acompanhar a inumação do ídolo; os oradores que programavam um último discurso não o conseguiram; as cenas de comoção extrema se repetiam em homens, mulheres, velhos e crianças que muitas vezes caíam, sendo pisoteados, e muitos ataques nervosos exigiam o socorro; mesmo a urna funerária teve dificuldade para chegar finalmente ao jazigo, sendo necessário para isto o esforço de doze homens da Polícia Especial.[6] Apesar disto, as meninas atendidas pela Casa de Lázaro, em coro, entoaram a Canção da Criança enquanto seu corpo era baixado ao túmulo.[8]

Eventos póstumos[editar | editar código-fonte]

Chora Estácio,
Salgueiro e Mangueira,
Todo o Brasil emudeceu,
Chora o mundo inteiro,
O Chico Viola morreu.

Antonio Nássara, Wilson Batista, "Chico Viola"

Tanto a Rádio Nacional como o patrocinador do programa que Chico Alves mantinha ao meio-dia dos domingos decidiram mantê-lo, apesar de sua morte; na sua primeira irradiação a cantora Linda Batista, carregada de emoção, entoou a canção "Chico Viola", fruto da parceria de Nássara com Wilson Batista.[29]

Produção artística[editar | editar código-fonte]

Segundo a pesquisadora Egly Colina Marín, "Francisco Alves deixou centenas de canções que, no presente, são objeto de atenção por estudiosos e investigadores culturais de todas as latitudes."[13][nota 6]

Sua longa carreira como artista foi de importância capital para a formação de muitos dos gêneros da música popular brasileira; sua trajetória coincide com o desenvolvimento no país de várias novas tecnologias até então inexistentes, e com momentos sociais importantes que se refletem na manifestação musical: surge o rádio como fenômeno de divulgação de massa e também a indústria fonográfica; no plano cultural o rápido crescimento das cidades do período faz com os ritmos musicais tipicamente urbanos venham a se formar, impulsionados ainda mais pelas festas populares (como o carnaval) e pelo sucesso do teatro de revista e do cinema — tudo isto a sobrelevar seu papel na história musical do Brasil.[3]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Livros sobre o cantor:

  • Chico Viola, David Nasser (Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1966)
  • Francisco Alves: as Mil Canções do Rei da Voz, Abel Cardoso Júnior (Revivendo, 1998)
  • Os reis da voz, Ronaldo Conde Aguiar (Casa da Palavra, 2013)

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Os discos então continham duas ou mais gravações apenas.
  2. A Fábrica da Mangueira ficava perto da estação Mangueira da Estrada de Ferro Central do Brasil
  3. Lina, ou Nair, "mexia" com o público de tal forma que a polícia em 1929, quando ela se apresentava no Teatro São José na revista Secos e Molhados, censurou-a; no relato de Mário Nunes: "As atrizes Lina Demoel e Nair Alves foram intimadas pela polícia a não mexer mais com o público. É evidente a má vontade da polícia com as duas estrelas. No São José, quem mais mexe com o público é Araci Cortes. E mexe, sem dizer uma palavra. Mexe, mexendo".[10]
  4. A revista A Scena Muda, entretanto, registrou em 1945 que o cantor não sabia do talento da então jovem empregada.[16]
  5. Hoje o lugar é um bairro da cidade
  6. Livre tradução para: "Francisco Alves dejó un centenar de canciones que, en el presente, son requeridas por estudiosos e investigadores culturales de todas las latitudes."

Referências

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  26. s/a.. (14/2/1950). "Carnaval pelo rádio". A Cena Muda (ed. 07/1950): pág. 9. (disponível na Biblioteca Nacional)
  27. Alberto Conrado. (11/4/1950). "Orlando Silva na canção popular". A Cena Muda (ed. 27/1950): pág. 27.
  28. Max Gold. (28/12/1950). "O que eles fazem fora do rádio". A Cena Muda (ed. 52/1950): pág. 7. (disponível na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional)
  29. Wagner Tadeu Pietropoli Morais; Luiz Eduardo Alves de Siqueira (Março de 2008). «O Poder das Ondas: As Rainhas do Rádio» (PDF). Revista Revela Fals, Ano I - Nº 02. Consultado em 2/12/2016.  (pdf em download)